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Fanfic Last Sacrifice – by Little

Esta é a página da Fanfic do Last Sacrifice. Aqui você encontra os posts de todos os capítulos, organizadinhos em uma tabela para facilitar a vida de vocês. Perdeu algum capítulo? Aqui você o encontrará rapidamente!

Para quem não conhece meu sistema, deixe-me  explicar. A fanfic continua exatamente de onde terminou o livro anterior da saga, o Spirit Bound. E essa história não tem nada a ver com as outras fanfics que rolaram pelo Sucker for Vampires. Trata-se de um enredo completamente novo, como se essa história fosse apenas a continuação da saga original de Vampire Academy, ok? Querem relembrar o que aconteceu na saga até agora e saber o que poderá acontecer na fanfic? Assistam ao video teaser feito exclusivamente para o lançamento dela, que ocorreu em setembro!

Que tal?! Deu pra dar uma aquecida nos motores e se preparar para o que vem por aí? =D

A idéia é postar um capítulo por semana, inicialmente aos domingos, e conforme as coisas vão se desenrolando podemos aumentar a frequencia dos posts, até porque o Last Sacrifice tem data pra chegar entre nós e eu pretendo terminar a fic até lá. Então fiquem ligados!

Bom, desde já eu queria agradecer a todos que de uma forma ou outra me incentivaram a escrever a essa fanfic. É com imenso prazer que estou de volta para torturá-los com grandes emoções e deixá-los na expectativa. Vocês realmente estão prontos? Espero que sim, porque eu estou  =D.

Cap. 1

Cap. 2

Cap. 3

Cap. 4

Cap. 5

Cap. 6

Extra: conto

Cap. 7

Cap. 8

Cap. 9

Cap. 10

Cap. 11

Cap. 12

Cap. 13

Cap. 14

Cap. 15

Cap. 16

Cap. 17

Cap. 18

Cap. 19

Cap. 20

Cap. 21

Cap. 22

Cap. 23

Cap. 24

Cap.25

Cap. 26

Cap. 27

Cap. 28

Cap. 29

Cap. 30

Cap. 31

Cap. 32

Cap. 33

Cap. 34

Cap. 35

Cap. 36

Cap. 37

 Cap. 38

Cap. 39

Cap. 40

Cap. 41

Cap. 42

Cap. 43

Cap. 44

Cap. 45

Cap. 46

Cap. 47

Cap. 48

Cap. 49

Cap. 50

 Cap. 51

Cap. 52

Dobradinha Final

 

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 1

Tic, tac, tic, tac. Esse é o som que parece ecoar dentro da minha cabeça. Seria uma bomba prestes a explodir ou apenas o som dos ponteiros do relógio se movendo rapidamente? Talvez sejam ao mesmo tempo as duas coisas juntas, os ponteiros do relógio correndo para que no final uma bomba se exploda. Uma bomba chamada Rosemary Hathaway. Pelo menos é o que, de acordo com o meu pai, acontece com os considerados traidores. Eles são explodidos. Executados talvez seja a palavra correta, mas que diferença isso faz se, no final das contas, você não sobrevive para contar a história, não é mesmo? Eu sei que esse pensamento pode parecer um pouco trágico, mas uma cela de prisão definitivamente não é um ambiente inspirador para pensamentos cor-de-rosa e infelizmente é nesse lugar que eu me encontro neste exato momento.

Tudo aconteceu muito rápido. Assim que foi decidido que eu seria levada a julgamento, os guardas reais já estavam em cima de mim, prontos para me carregarem de volta a prisão, sem nem me darem tempo para falar com alguém. Eu lembro apenas da expressão de espanto de Lissa ao me ver sendo levada daquela forma, como se eu fosse uma assassina criminosa. Christian estava ao seu lado, colocando a mão no ombro dela numa tentativa frustrada de confortá-la. Era possível sentir através da nossa ligação que Lissa estava simplesmente perplexa e chocada com o rumo que as coisas tomaram. Adrian também parecia chocado, apesar de demonstrar-se confiante. Era como se algo naquela expressão dissesse que ele sabia que isso aconteceria, assim como Abe. Talvez conviver com a realeza Moroi tenha ensinado a Adrian que condenar uma pessoa é mais fácil do que se imagina e que, às vezes, principalmente quando é conveniente para um grupo de Morois reais petulantes, a condenação pode existir antes mesmo de ser declarada. E isso é o que deve ter causado essa reação nele, saber que nada nem ninguém poderia evitar que eu fosse considerada culpada, pois na verdade eu já estava condenada a partir do momento em que eu passei a ser a suspeita perfeita da morte da rainha.

Um rosto, porém, não demonstrava choque, o de Dimitri. O rosto dele foi uma das últimas coisas que eu pude registrar antes de sair da sala, o que foi bastante perturbador. Nem tanto pelo fato dele estar presente na audiência, afinal ele poderia não querer mais nada comigo, mas também não seria sádico o suficiente para querer me ver presa e condenada por um assassinato. O que me deixou perturbada foi o que eu pude ver através dos olhos dele.

Essa era uma coisa que tínhamos em comum, essa facilidade de um ler o outro apenas através de um olhar. Inicialmente o que eu vi nos olhos de Dimitri assim que eu fui retirada do ambiente não foi choque, foi um sentimento intenso, como se algo dentro dele estivesse  crescendo exponencialmente, talvez raiva. Porém, após analisar melhor eu conclui que não se tratava de apenas uma raiva intensa, era ódio puro, ira. Eu sinceramente não espero que ele tenha tido essa reação por acreditar na hipótese de eu ter assassinado a rainha. Ela poderia ser realmente uma pedra do meu sapato ou até mesmo uma cadela hipócrita, mas eu não seria capaz de cometer tal ato. Tudo bem, ser capaz eu seria, até mesmo porque com a minha reputação é difícil imaginar algo que eu não seja capaz de fazer. O que eu quero dizer é que eu não seria burra o suficiente para cometer um crime desses sem pensar nas conseqüências e Dimitri sabe que até mesmo eu tenho limites para atitudes irresponsáveis! Logo, eu espero que o ódio nos olhos de Dimitri tenha sido desencadeado por outra coisa, talvez pelo fato de ver uma injustiça sendo feita diante dele, pois se tem uma coisa de que ele nunca gostou é injustiça, apesar de que algo dentro de mim dizia que a implicância de Dimitri era mais porque a injustiçada era eu do que toda a situação em si. Era como se o brinquedo preferido dele tivesse sido pego emprestado, sem autorização, por uma pessoa que é conhecida por destruir os brinquedos dos outros e isso realmente o tivesse tirado do sério.

É, pensando bem eu poderia dizer que era exatamente isso que aconteceu.O que eu li naquele olhar foi algo do tipo: “Vocês vão se arrepender de ter mexido com o que não deveriam”, o que ao mesmo tempo não quer dizer nada, afinal desde que ele voltou a ser um Dhampir parece que tudo que eu sabia sobre ele não se aplica a esse novo Dimitri 2.0, de volta do mundo dos mortos. Sempre que eu penso estar entendendo o que se passa pela cabeça dele, ele age de forma a provar que eu estava equivocada, o que me deixa bastante frustrada.

Talvez o que eu li no olhar dele tenha sido apenas o que eu gostaria que ele estivesse pensando, afinal não posso negar que ele está passando por um processo de aceitação da idéia de ser um Dhampir novamente e, considerando a forma repulsiva com que ele lembra dos atos que cometeu quando era um Strigoi,  é provável que ainda seja muito cedo para ele se permitir ter sentimentos tão hostis. Logo, mesmo que ele tenha sentido ódio naquele momento, a essa altura já deveria estar arrumando uma maneira de se livrar desse sentimento. O que eu poderia esperar também, não é mesmo? Acorda Rose, você acha que o seu Dimitri protagonizaria uma versão moderna de conto de fadas, montando em um cavalo branco com uma estaca na mão, para resgatar você como uma princesa que fora apriosionada?

Um barulho na porta de entrada da prisão me fez perder a linha de raciocínio, graças a Deus, afinal eu não sei até onde a minha imaginação poderia me levar se eu não fosse distraída. Com um suspiro, voltei minha atenção para o que estava acontecendo. Provavelmente estava na hora da troca de turno dos guardas, pois ninguém apareceu no corredor onde ficam as celas e após ouvir uma breve despedida, seguida de outro barulho na porta de entrada da prisão, as vozes que eu passei a ouvir eram diferentes das outras que eu volta e meia ouvia, quando os guardas conversavam entre si. O que me levou a crer que já deveria ter passado bastante tempo desde que eu voltei para minha cela, pelo menos umas seis horas. Minha cela? Será possível que eu já estaria me acostumando tanto com esse lugar pra conseguir chamar ele de meu? Negando-me a pensar nisso e, de repente, acabar em outro devaneio mental, me forcei a permanecer conectada a realidade, que não era nada boa, já que até agora ninguém havia aparecido para me visitar ou dar notícias sobre o que aconteceria comigo.

Angustiada pela falta de informações, resolvi visitar a mente de Lissa para acompanhar o que estava acontecendo. Deitei sobre o que esses guardas conseguem chamar de cama e tentei relaxar enquanto o ambiente ao meu redor aos poucos deixava de ter paredes úmidas e sem vida e começava a se tornar mais aconchegante, ou quase isso. O cheiro de cigarro no ar era tão forte que, antes mesmo de eu olhar ao redor e ver a disposição dos moveis e a cor das paredes eu apostaria, sem pensar duas vezes, que era o quarto de Adrian. E eu estava certa. Lissa sentava no chão, com as pernas cruzadas feito índio, em cima de uma almofada, entre as pernas de Christian, que sentava numa poltrona atrás dela. Parece que os dois realmente haviam feito as pazes. Porém, a forma como Christian brincava com uma mecha de cabelo de Lissa entre seus dedos mostrava que ele não queria apenas mostrar-se presente e carinhoso. Era uma forma dele não demonstrar o quanto ele também estava nervoso com toda a situação. Christian, nervoso? Isso não poderia ser nada bom.

“Eles não podem me impedir de visitar ela!”. Foi quando eu tive certeza da presença física de Adrian no quarto, apesar de que, pelo cheiro forte de cigarro que eu sentia, era impossível que ele não estivesse lá. Eu apenas não sabia a posição exata em que ele se encontrava. Entretanto, quando Lissa ergueu a cabeça para olhar quem havia quebrado o que parecia ter sido um silêncio eterno, eu pude ver Adrian em pé, encostado na parede próxima a janela, olhando para a rua enquanto tragava seu cigarro compulsivamente.

“Não leve para o lado pessoal Adrian”, Lissa disparou, “Não é como se você fosse o único impedido de ver a Rose. Ninguém está autorizado a vê-la pelas próximas 24 horas e depois disso a única pessoa que ela poderá ver é o advogado”. Então essa era a razão de eu ainda não ter recebido visitas, que ótimo. E pelo visto a única pessoa que poderá me visitar é meu advogado, quer dizer, meu pai, Abe Mazur, o que não é grande coisa, porque se ele não aparecer para me visitar, mesmo tendo autorização, depois de afirmar que já sabia que eu iria ser julgada, só vai significar uma coisa: eu sou um caso perdido, uma realidade que eu preferi não considerar no momento.

“Esse não é um procedimento padrão, Lissa, você sabe disso. Até mesmo Dimitri tinha autorização para receber visitas! Então por favor não tente me convencer de que minha indignação não tem fundamento”, Adrian respondeu sem sequer encarar os olhos de Lissa.

“Porque essa não é uma situação padrão, Adrian! Pelo amor de Deus, a rainha foi assassinada! Que tipo de procedimento você gostaria que eles utilizassem com a pessoa que é suspeita de cometer um crime desses? Não estou defendendo eles, mas se fosse outra pessoa presa no lugar da Rose, você não ficaria indignado de saber que eles estão permitindo visitas ao provável assassino da sua tia?”. Por mais que Lissa tivesse razão nos seus argumentos, o comentário dela não agradou nem a mim nem a Adrian.

“Não seja ingênua, Lissa. Eles estão armando alguma coisa muito grande pra cima da Rose e impedir que ela fale com qualquer pessoa de fora, só torna a situação pior. Eles não querem que pareça uma injustiça, então ainda permitem a visita do advogado, até porque eles sabem que não é com ele que a Rose mais deseja falar e que ela nem confia nele o suficiente para contar alguma coisa. Agora, impedindo ela de falar com pessoas em quem ela confia…”. Adrian não terminou a frase, tragou seu cigarro mais uma vez e ficou em silêncio, deixando Lissa bastante impaciente.

“Eu agradeceria se você pudesse completar sua frase Adrian. Eu não estou conseguindo acompanhar onde você quer chegar”. Quem respondeu não foi Lissa, mas Christian que, ao falar, começou novamente a mexer nos cabelos dela.

“Impedir que ela fale com pessoas em quem ela confia é uma covardia porque acaba com qualquer esperança dela de que isso vá terminar bem, além de fazer com que ela se sinta sozinha e abandonada por essas pessoas”.

Lissa parou para refletir por um momento. “Espera aí, mas eu não acredito que a Rose pensaria que nós não iríamos querer visitá-la se fosse possível. Como ela se sentiria tão abandonada assim? Além disso, se duvidar ela está até acompanhando essa conversa através da nossa ligação. Não faz sentido”.

“É por isso que precisamos agir o quanto antes. As pessoas não sabem ao certo como funciona essa ligação de vocês duas, principalmente essa coisa dela ver o mundo através dos seus sentidos. Eles devem estar esperando que a Rose comece a ficar deprimida por estar longe dos amigos dela, mesmo vocês tendo essa ligação, assim como nós esperamos que ela esteja bem e acompanhando nossa conversa. O fato é, Lissa, que nós não temos certeza de que ela está nos acompanhando, aliás nós não temos certeza de nada, porque não podemos falar com ela. Além disso, mesmo que a Rose nos vigie todo o tempo através da ligação de vocês duas, todo mundo sabe o que acontece ao se ficar presa injustamente por muito tempo e sem ter contato social”, desabafou Adrian.

“A pessoa começa a distorcer a realidade e acaba se conformando com a situação…”. Lissa concluiu com um tom de tristeza na sua voz, mas foi tomada por um susto súbito ao seguir sua lógica. “E, pelos olhos de quem for julgá-la, isso pode ser visto como um comportamento suspeito de quem cometeu um crime! Meu Deus, nós precisamos fazer alguma coisa! E rápido!” Lissa concluiu a frase chocada com a revelação.

“Isso é o que eu estou tentando dizer”, Adrian respondeu, agora também impaciente. Eu não conseguia ver, mas poderia jurar que ele estava revirando os olhos, como se o que Lissa tivesse dito fosse óbvio.

“Espera aí”, interrompeu Christian. “Você acha que eles estão querendo mexer com as nossas cabeças pra que a gente não faça nada que possa ameaçá-los, com medo de que algo possa acontecer com a Rose, enquanto eles arranjam tudo para que ela seja condenada?”.

“Parabéns! Você quer um prêmio?!”. A ironia de Adrian estava começando a irritar Christian, porém ele deixou  isso passar quando Adrian respirou fundo, virou-se para ele e Lissa e eles puderam ver através dos olhos de Adrian o quanto ele estava abalado com toda a situação.

“É apenas um palpite, considerando o pior. E pensando sobre o pior, eu também não ficaria surpreso se falar com Abe para saber notícias dela começar a se tornar praticamente impossível. Eles o tornarão mais inacessível do que ele já é”, Adrian pontuou de forma inteligente, mas o seu gesto de passar a mão pelos cabelos o entregou. Ele estava realmente transtornado por se sentir impotente desse jeito e, vê-lo assim, por minha causa, acabou comigo.

Eu só não fiquei mais triste pois minha melhor amiga fez o favor de me deixar mais nervosa com a idéia que, não somente lhe passou pela cabeça, mas que ela fez questão de compartilhar com os demais.

“Ok, rapazes, nós não temos outra escolha. Nós precisamos invadir aquele lugar e tirar Rose de lá”.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 2

Enquanto ela tinha dois pares de olhos incrédulos a encarando, Lissa ficou em silêncio esperando que algum dos dois dissesse alguma coisa. Era como se ela sentisse que qualquer palavra que saísse da sua boca pudesse interromper o processamento de informações de Adrian e Christian e os fariam rejeitar a idéia antes de considerá-la possível. Eles estavam tão compenetrados que não ouviram alguém bater na porta. Lissa espiou pelo olho mágico e assim que viu que se tratava apenas de Eddie e Mia, abriu a porta para os dois, que entraram no recinto e instantaneamente franziram suas testas, tentando entender o que estava acontecendo ali.

“Por um acaso nós interrompemos alguma coisa… importante?”, Eddie sussurou para Lissa, com medo de estar fazendo uma pergunta idiota.

“Na verdade vocês chegaram na hora certa! Eu acabei de dizer para eles que o que precisamos fazer é invadir aquela prisão e resgatar a Rose de lá. E é claro que ficaríamos gratos se vocês pudessem colaborar”.

“Ai, de novo não!” – Eddie e Mia resmungaram ao mesmo tempo.

“Bem, vocês tem um plano melhor em mente? Se nós conseguimos invadir Tarasov e sair de la com Victor, vocês acham que não podemos invadir a prisão da corte e sair com a Rose?” – Lissa provocou.

Nesse meio tempo Adrian e Christian voltaram a si e todos começaram a falar ao mesmo tempo, o que gerou um grande burburinho. Não entendendo nada do que era dito por uns 5 minutos e vendo que a confusão não terminaria tão cedo, achei melhor dar um tempo para eles esfriarem a cabeça e voltar para o não aconchego da minha cela, pois graças a Ambrose, eu tinha um ótimo exercício mental para passar o tempo.

Colocando a mão no bolso da minha calça, retirei um papel que ele havia me passado discretamente enquanto os guardas me arrastavam para fora da audiência. Tratava-se de uma pequena carta escrita à mão pela própria rainha, destinada a mim, contando sobre um possível golpe organizado por alguns Morois na intenção de forçar, usando compulsão, todos os Dhampirs a lutarem, mesmo contra a vontade deles. Além disso, ela fez a bombástica revelação sobre a existência de uma criança ilegítima, filha de Eric Dragomir, fazendo de Lissa não mais a última Dragomir viva, o que poderia virar muita coisa de cabeça para baixo e conseqüentemente incomodar muita gente.

Nessa carta, a rainha me pediu para compartilhar essas informações com o mínimo de pessoas possível, mas eu aposto que ela não esperava que eu fosse acabar presa como principal suspeita do assassinato dela. Irônico, não?! E como eu estou teoricamente proibida de receber visitas e em breve a única pessoa com quem eu terei contato será meu pai, eu terei que criar coragem e confiar nele para que essa informação chegue nos ouvidos de quem possa realmente fazer alguma coisa. Contudo, antes de contar a Abe sobre esse golpe ou até mesmo sobre esse possível irmão ou irmã de Lissa, eu preciso pelo menos amadurecer um pouco as duas questões.

Tatiana disse na carta que alguns Morois estavam armando um golpe, mas não citou nomes. Será que ela desconfiava de alguém? Se ela desconfiava, por que simplesmente não facilitou a minha vida apontando algumas cabeças? Bom, o fato é que se ela sabia, agora é tarde demais para perguntar. Eu vou ter que arrumar uma forma de descobrir quem são essas pessoas, mesmo estando presa e sem contato com o mundo exterior. Perfeito, uma verdadeira operação Macgyver. Se bem que é difícil imaginar que o conselho não esteja envolvido nisso. Ninguém estaria tão preocupado com a segurança dos morois do que membros das famílias reais, que naturalmente já tem um comportamento excessivamente neurótico quanto a segurança deles. Sinceramente, na minha opinião, todos eles teriam condições para liderar um golpe dessa magnitude, o que não me leva a lugar nenhum.

De fato eu precisarei pensar bem mais para formar uma opinião mais consistente sobre isso se eu quiser que alguém me leve a sério, principalmente Abe. Ele jamais passará essa informação adiante se não acreditar na importância disso tudo e, considerando a pose de malandro dele, eu não ficaria impressionada se ele me ignorar por pensar que se trata de uma grande besteira ou uma tempestade num copo d’água. Porém estamos falando de Abe Mazur, o mestre em surpreender as pessoas, o misterioso homem que, apesar de aparentemente conhecer todo mundo e ter contatos em diversos, se não em todos países, consegue esconder de quem ele quiser qualquer informação pessoal sobre si. Se Abe consegue se manter no anonimato dessa maneira talvez ele seja capaz de manter consigo mais um segredo, não é mesmo? E não se trata de um total estranho, ele é meu pai, pelo amor de Deus!! Além disso, se minha mãe um dia confiou em Abe o suficiente para ir pra cama com ele, talvez eu deva algum crédito ao temeroso Zmey, certo?

Eu preciso me convencer disso.

E sobre a história de Lissa eu não sei nem por onde começar a pensar. Eu precisaria falar com Adrian o quanto antes, afinal nós nunca sabemos o que pode passar pela cabeça de pessoas obstinadas pelo poder e ele, fazendo parte da elite real, poderia me dar mais detalhes sobre essas famílias, me informando sobre cada uma delas para que eu pudesse investigar melhor quem seria capaz de estar por trás dos atuais acontecimentos. Sem falar que Adrian estava junto comigo em Las Vegas quando um moroi, um antigo gerente do Witching Hour, comentou conosco sobre o pai de Lissa, dizendo que ele apreciava a companhia de mulheres Dhampirs. Será que Eric Dragomir teve um caso com alguma delas? Meu Deus, se isso for verdade Lissa pode ser irmã de um dhampir!

Mas não há como ter certeza, visto que esse moroi do Witching Hour disse não poder afirmar que Eric tenha se relacionado sexualmente ou emocionalmente com alguma daquelas mulheres do hotel. Céus, quantas lacunas em branco.

Eu queria tanto compartilhar todas essas informações com Lissa, queria tanto que ela soubesse sobre a existência desse outro Dragomir! Mas ainda não é seguro fazer isso, já que ela pode deixar o lado emocional interferir na missão de encontrar essa pessoa e colocar, inclusive, a vida dos dois em perigo. É, definitivamente isso teria que ser escondido de Lissa por mais algum tempo, até mesmo porque, para complicar ainda mais a situação, Sydney havia entrado em contato comigo para esclarecer o roubo de alguns arquivos de Eric Dragomir que continham informações pessoais sobre ele e algumas anotações feitas pelos alquimistas, anotações que Sydney fez questão de salientar que eu “não precisava” saber. Como largar uma bomba dessas em cima de Lissa sem sequer saber detalhes sobre o assunto? Droga, eu realmente precisava do Adrian por aqui.

Pensar sobre Adrian me fez suspirar e eu brevemente tive consciência disso. Acontece que eu estava sentindo falta daquele moroi, dono de lindos olhos verdes, me paparicando e me chamando de little dhampir. A última vez que eu estive com ele foi há dois dias atrás, antes de sair para tentar encontrar Lissa na lancheria. Nós havíamos passado a noite juntos, e ele havia inclusive mordido meu pescoço e bebido meu sangue, já que a falta de preservativos no local descartou o sexo como primeira opção. Ele foi tão gentil comigo e sempre tão carinhoso, que eu não tive coragem de acordá-lo no dia seguinte, deixando um bilhete para que ele soubesse onde eu estaria. Mas as coisas mudaram de rumo e eu fui parar numa lancheria diferente, onde os guardas reais me abordaram e acabaram me levando presa pela primeira vez. Depois disso eu não mais falei com Adrian, apenas o vi no dia da audiência e por mais que eu não tivesse culpa de ter sido presa, acusada injustamente, eu me sentia mal de ter deixado um bilhete pra ele. De repente pareceu uma atitude tão fria da minha parte! Eu deveria ter acordado ele com um beijo de bom dia, pois eu sei que ele não se importaria, e depois ido tomar café com ele para aproveitar o máximo de tempo possível,  apesar de que isso não impediria os guardas de me encontrarem e me levarem presa. É que pareceu tão errado! Depois de tanta mancada, eu realmente estava disposta a fazer a coisa certa no que diz respeito a Adrian e me dedicar para que nosso relacionamento desse certo. Só que pelo visto o destino estava pronto para acabar com todas as minhas boas intenções.

Meu lamento mental foi interrompido por outro barulho na porta de entrada da prisão, como se fosse um alerta para meus pensamentos não seguirem adiante. Dessa vez, o barulho não anunciava a troca de turno dos guardas. No corredor, eu vi um rosto familiar caminhando em minha direção. Mikhail carregava uma bandeja e eu não fiquei surpresa quando ele parou na frente da minha cela, me olhando com pesar, como se ele quisesse me libertar mesmo sabendo, ao mesmo tempo, que isso era impossível.

“Hora de alimentar a fera?”, eu brinquei tentando, sem sucesso, tornar a tarefa dele menos penosa.

“Infelizmente sim. Desculpa Rose, mas hoje eles não vão permitir que você saia nem para fazer suas refeições. Acho que você entende o caos que deve estar se instalando na corte desde que… bem, você sabe”.

Sim eu sei, desde que alguém plantou provas contra mim para me acusar de um assassinato que eu não cometi. No entanto eu disse: “Sim, eu sei e eu entendo Mikhail. Não se preocupe, eu sei que você não tem culpa de nada”. Ele me olhou mais uma vez com pesar e, sem falar uma palavra, abriu uma pequena janelinha criada exclusivamente para que alimentos ou pequenos objetos pudessem ser entregues aos prisioneiros sem oferecer riscos aos guardas e sem oferecer chances para os prisioneiros escaparem. Através daquele pequeno vão, Mikhail me alcançou a bandeja e pelas palavras dele eu devo ter parecido bastante surpresa ao ver o conteúdo da mesma.

“É, eu fiz questão de me informar e pelo menos trazer uma refeição que eu sei que seria apreciada por você”.

Na bandeja estava uma porção de batatas fritas, um hambúrguer duplo com muito queijo e uma garrafa pequena de coca-cola. Normal, é claro. Nada de coisas diet pra mim. Eu olhei para Mikhail sem saber o que dizer. Emocionada com a atenção dele eu balbuciei algumas palavras de agradecimento que foram o suficiente para deixá-lo envergonhado. Ele trancou a pequena janelinha novamente e seguiu de volta pelo corredor de onde ele veio, me desejando uma boa refeição, o que, graças a ele, eu certamente teria. Quando eu já estava com algumas batatas na boca, eu ouvi novamente passos na direção da minha cela. Mikhail estava voltando.

“Eu já ia esquecendo de deixar uns guardanapos pra você. Eu sei muito bem que é praticamente impossível comer um lanche desses e manter-se dignamente limpo”, ele disse, com humor na sua voz.

“Certamente. Comer um lanche sem se lambuzar não tem a mínima graça. Obrigada…”. Quando eu fui pegar os guardanapos da mão dele, eu vi que o primeiro deles estava com meu nome escrito à caneta e algo me disse que aquilo era mais do que um guardanapo personalizado. Eu olhei confusa para Mikhail, que apenas deu uma piscadela e foi embora.

Parece que a moda de mandar bilhetinhos está pegando e, bem ou mal, talvez seja a melhor forma de eu tentar me comunicar com o mundo lá fora e vice-versa. O problema é que desde que eu comecei a receber bilhetinhos, o conteúdo deles geralmente tem sido bastante tenso. Por isso, eu não sei quanto tempo fiquei paralizada onde eu estava, sem saber se comia primeiro e depois lia o bilhete, correndo o risco de ter uma indigestão ou se eu lia o bilhete antes de comer, correndo o risco de perder o apetite.

A solução veio quando eu novamente olhei para o meu nome no guardanapo e reconheci a letra de quem o havia escrito. Nem pensar que eu conseguiria comer antes de ler aquele bilhete, não depois de constatar que se tratava da letra de Dimitri. Sem confiar muito na firmeza das minhas pernas eu achei melhor sentar na cama para ler o que estava escrito naquele pedaço de papel, afinal depois de tantas “cartas de amor”, que ele me escreveu quando era um Strigoi, me ameaçando de morte, eu já não sabia o que mais poderia esperar de um recado de Dimitri, até mesmo porque a pessoa de quem eu menos esperava receber um bilhete aqui na prisão era dele, considerando que eu não estava autorizada a receber visitas nem nada que viesse de fora e Dimitri não faz o feitio de pessoa que burla regras.

Com o coração na boca e o estômago embrulhado eu desdobrei o papel discretamente para não fazer muito barulho e, após me certificar de que ninguém estava vindo pelo corredor, comecei a ler.

Eu não sei quem são as pessoas que estão por trás disso e não tenho a menor idéia do que elas podem estar querendo. Eu não imagino que seja algo que dinheiro possa resolver e mesmo se fosse, eu não poderia fazer muito em relação a isso. Mas o que eu tenho a meu favor é um conjunto de habilidades muito especiais que eu adquiri ao longo de uma grande carreira e com isso eu posso me tornar um pesadelo para essas pessoas. Se fosse o caso de eu saber quem está armando isso, eu tentaria resolver tudo de uma forma justa e amigável. Como não é esse o caso, eu apenas lamento por eles, pois não vou ficar assistindo você  ser condenada por algo que eu sei que você não fez.  Eu vou achar essas pessoas, Rose, não importa o que eu tenha que fazer. Eu lhe devo isso: é minha vez de salvar você.

Dimitri.

Oh céus, eu realmente preciso de um hambúrguer calórico e refrigerante. Tipo… agora!

Dez minutos depois, eu estava devidamente alimentada e ao mesmo tempo pronta para ter uma indigestão. Meu cérebro não estava mais em condições de funcionar corretamente e a única coisa que me passou pela cabeça foi desistir. Pelo menos por hoje eu deixaria esse esgotamento mental tomar conta de mim sem me preocupar com as conseqüências, até porque as pessoas lá fora estavam tomando providências para me libertar e provar minha inocência, não é mesmo? E certamente elas tinham mais recursos do que eu e meus pensamentos. Então que os providos de liberdade façam o que estiver ao alcance deles, pois Rosemary Hathaway, a partir de agora e por tempo indeterminado, está fora da área de cobertura ou desligada.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 3

Deitei na minha humilde cama e deixei que o cansaço e o stress me levassem para um lugar aconchegante, mais especificamente uma sala com uma enorme lareira acesa, onde só se podia ouvir o som de alguns tocos de madeira queimando, enquanto eram envolvidos por chamas alaranjadas que pareciam dançar. A sala estava sendo iluminada somente pela luz do fogo, o que era agradável aos meus olhos. Na frente da lareira estavam alguns pufes bastante confortáveis e meia dúzia de pequenas almofadas e eu não pensei duas vezes antes de me acomodar entre eles. Abraçando as pernas contra meu peito e com o olhar perdido entre as labaredas dançantes, eu perguntei em voz alta: “Você pretende ficar me observando durante todo esse sonho ou vai sentar aqui do meu lado pra me fazer companhia?”. Num canto escuro da sala uma sombra se moveu e aos poucos a imagem de Adrian foi se destacando do resto do cenário. Ele vestia a mesma roupa de quando eu observei a conversa dele com o resto dos meus amigos, através de Lissa, mais cedo. Pelo visto ele não se importou em arrumar-se para me impressionar, o que não quer dizer que ele estava mal vestido. Com as mãos nos bolsos de sua calça, Adrian se aproximou lentamente, não pronunciando uma palavra e eu, sem deixar de encarar o fogo, percebi os olhos de Adrian em mim. A intensidade daquele olhar fez meu coração acelerar. Adrian, pelo contrário, parecia calmo e confiante, como se nada pudesse abalá-lo. Então ele sentou do meu lado e passou um de seus braços por trás de mim, me trazendo pra perto dele. Com toda a gentileza do mundo ele me envolveu em seus braços, encostando minha cabeça no seu peito, beijando-a no topo.

“Porque você demorou tanto?”, eu perguntei a ele, depois de um grande suspiro.

“Porque você demorou a dormir, little dhampir. Eu estava só esperando você aparecer”.

Então Adrian juntou-se a mim na silenciosa e hipnótica atividade de observar a intensidade do fogo e seu poder de destruição. Engraçado, por mais que possa parecer doloroso ter seu corpo incendiado, aqueles tocos de madeira pareciam conformados com a situação. O som da madeira estalando não lembrava choro nem lamento, muito menos gritos de dor. Depois de alguns segundos eu entendi o motivo. Era o destino deles. Certas madeiras não são ideais para manter um fogo aceso, assim como não são todas as madeiras que servem para construir um móvel ou uma casa. As madeiras utilizadas para construção de objetos têm uma longa vida útil, mas não as selecionadas para o fogo. Essas estão condenadas a serem consumidas rapidamente desde o momento em que sua espécie é determinada, logo aqueles tocos de madeira que serviam como combustível para o fogo não tinham chance nenhuma. E ainda assim cumpriam com a sua função, não que eles tivessem escolha.

Hoje eu estava me sentindo como esses tocos de madeira e talvez até pior, pois estava sem escolhas, apenas esperando o fogo me consumir, porém certa de que não era essa a minha função. Pelo amor de Deus, Lissa tem um irmão ou irmã em algum lugar do mundo, Dimitri está dando uma de justiceiro, Victor está foragido – e por minha culpa – a rainha está morta, eu estou presa injustamente e meus amigos querem se arriscar para me tirar da prisão! O que eu poderia fazer em relação a todos esses problemas? Teoricamente, eu poderia tentar solucionar todos, já que de alguma forma eu faço parte da maioria deles, mas na prática? Absolutamente n-a-d-a! Eu estou com minhas mãos amarradas, impotente. Até os tocos de madeira conseguem estar sendo mais úteis no momento!

“No que você está pensando?”, perguntou Adrian. Pelo olhar curioso dele, eu deveria estar perdida em devaneios por um bom tempo.

“Nada em especial”, eu respondi. “Apenas pensando sobre como as coisas podem mudar rapidamente”. Eu senti uma certa tensão em Adrian, como se minha frase o tivesse deixado com a pulga atrás da orelha.

“Que tipo de coisas?”, ele perguntou, disfarçando seu nervosismo ao brincar com meu cabelo. Será que todos os homens brincam com os cabelos de suas namoradas quando estão nervosos? Eu já vi Christian fazer isso com os cabelos de Lissa.

“Planos, objetivos, destinos, vidas…”, eu finalmente resolvi responder, engolindo seco ao realizar que uma dessas mudanças era exatamente a minha relação com Adrian, que parece ter percebido minha constatação e a insegurança que isso gerou em mim.

“O que foi Rose? Fala pra mim.”, ele disse.

“E se a nossa relação não sobreviver a essas mudanças?”. Eu mordi meu lábio, preocupada.

“Rose…”.

“Eu sei, eu sei. Não é hora para falarmos de relacionamentos porque temos coisas mais importantes para fazer”. E realmente tínhamos.

“Rose…”

“E nós precisamos discutir sobre a idéia maluca de Lissa, porque sinceramente…”. Vendo que eu não pararia de falar para ouvir o que ele estava tentando dizer, Adrian colocou o dedo indicador sobre meus lábios para que eu me calasse e assim que eu terminei aquela verborréia, Adrian segurou meu queixo com uma de suas mãos e me obrigou a olhar para ele.

“Rose, eu amo você. Não importa o que aconteça, nada pode mudar isso”. Tudo que eu consegui desejar era que ele tivesse razão. Mas mantive o pensamento comigo. Não havia necessidade de chateá-lo com minhas inseguranças.

“Certamente você não nasceu para ser consumido pelo fogo”, foi o que eu disse, no entanto, meio sem pensar, o que primeiro fez com que Adrian franzisse a testa e depois caísse na gargalhada.

“Do que você está falando, little dhampir?”, ele disse ainda tentando controlar o riso. Então eu expliquei a ele minha pequena reflexão sobre o fogo, denunciando toda minha insanidade. Mas ficar com Adrian era assim, poder ser eu mesma e contar o que se passa no meu fantástico mundo imaginário sem temer que ele pense que eu sou louca porque, afinal, como ele mesmo já disse, ele já tinha certeza disso.

O resto da noite foi muito agradável. Ficamos falando sobre coisas banais e rindo delas, esquecendo completamente de que na verdade aquilo era um sonho. Nada de assuntos desagradáveis como planos de fuga, resgates, nada disso. Apenas um significativo período de qualidade entre Adrian e mim. Era o que eu precisava e o que Adrian sabia que eu precisava. Mas nada que é tão bom dura para sempre.

“Eu odeio ter que dizer isso, minha adorável dhampir, mas eu preciso ir agora”, Adrian disse, anunciando sua partida e me deixando surpresa. Eu não havia percebido que muitas horas já haviam passado, o que era lamentável. Eu fiz uma cara de cachorro que caiu da mudança para ver se, por compaixão, ele ficaria mais um pouco, mas Adrian reiterou que precisava ir. Então ele passou a mão mais uma vez nos meus cabelos, segurando em seguida a parte de trás do meu pescoço e me puxou em direção a ele, beijando-me com tanta paixão que cheguei a ficar arrepiada. Meu desejo era ficar eternamente presa nesse sonho para ver o que aconteceria se ele não precisasse sair.

Ao quebrar nosso enlace, sua boca deslizou até minha orelha onde ele sussurou, com sua respiração ofegante: “Vejo você em breve”. Como se fossem mágicas, aquelas palavras me despertaram do sono profundo e eu estava de volta à realidade. Nada de Adrian, nada de lareira ou almofadas confortáveis. Apenas minha cela e eu e a promessa de um “até breve” ecoando na minha cabeça.

O sol já deveria estar se pondo, logo, segundo o horário dos Morois, o dia estava apenas começando. Depois de me espreguiçar e constatar que eu ainda estava no mesmo lugar de ontem, eu suspirei fundo, afinal antes de Adrian aparecer e salvar minha noite eu havia tido um pesadelo tão realista que chegou a ser assustador. Eu poderia jurar que havia recebido um bilhete de Dimitri e… ah não. Ao colocar a mão embaixo do meu travesseiro eu percebi que havia um pedaço de papel e ao pegá-lo, sim, era o mesmo bilhete. Perfeito, então não havia sido apenas um pesadelo. Eu estava bem arrumada. Como se não bastasse eu ter uma amiga com desejos psicóticos de invadir a prisão onde eu me encontro e liderar uma missão de resgate, agora tenho um ex-namorado, ex-mentor e ex- strigoi declarando guerra às pessoas que estão querendo me incriminar, prometendo tornar a vida de todos os envolvidos um verdadeiro inferno. Juntando os dois eu acho que poderíamos considerar o começo da formação de um movimento revolucionário pró-Rose. Será possível que eu não tenho uma pessoa com um mínimo de juízo com quem eu possa contar? Era melhor eu não ter perguntado.

Eu mal havia me certificado de que estava acordada quando um guarda anunciou que meu advogado estava pronto para me receber no refeitório que eles haviam fechado para que nós dois tivéssemos um encontro a sós enquanto tomássemos café da manhã. Os deuses devem estar brincando comigo não é mesmo? Eu peço uma pessoa com juízo e eles mandam justo meu pai? O que ele pode ter de tão importante para conversar comigo numa hora dessas que não poderia esperar eu pelo menos tomar meu café da manhã sossegada? E sozinha, principalmente. Resmungos à parte, eu fiz minha higiene e e troquei de roupa, afinal certas coisas são inevitáveis e se eu iria sair da cela, o mínimo que eu poderia fazer é parecer apresentável. Nunca se sabe quem podemos encontrar no caminho e ninguém quer ser visto em trajes de presidiário, certo? Assim que estava pronta, um guarda veio até a minha cela e, após colocar as algemas em mim, me acompanhou até o refeitório onde Abe nos aguardava. E eu aprendi que existem vários caminhos por onde se pode andar dentro da corte sem que você seja visto pelos demais, o que me fez sentir uma idiota por desperdiçar meu tempo tentando melhorar a aparência.

Chegando lá, eu entendi porque eles permitiram que eu me encontrasse com Abe. As janelas desse refeitório, que por sinal não era nenhum dos que eu conhecia ou que costumávamos utilizar nas nossas visitas à corte, eram repletas de grades. Na verdade as janelas em si eram apenas vidros grossos vedados nas extremidades, permitindo a entrada e saída apenas da luz. As grades eram apenas avisos luminosos dizendo “nem tente, daqui você não pode sair”. Antes de entrarmos, dois guardas permaneceram na porta pelo lado de fora, enquanto outros dois entraram junto comigo. Abe estava sentado numa mesinha para quatro pessoas próxima a um buffet de guloseimas que não parecia nada com um café da manhã de alguém considerado um traidor como eu. Isso só poderia ser coisa de Abe, mas com medo de perder o direito a regalia, achei melhor não questionar e apenas aproveitar, já que todos parecem estar querendo compensar suas impotências me oferecendo comida.

Um dos guardas soltou minha algema e após sinalizar com a cabeça na direção de Abe, ele e seu parceiro retiraram-se do ambiente. Ao ouvirmos um barulho de chave na porta, ficamos em silêncio por um instante, os dois sem coragem para encarar os olhos um do outro. Quando a quietude se tornou insuportável, eu tentei ser casual.

“Então, essa mesa de café é obra sua?”. Sem olhar nos meus olhos, a resposta dele veio através de um pequeno sorriso, como se ele soubesse que eu faria esse comentário.

“Que tal comermos alguma coisa? O que temos para conversar pode não ser muito agradável. É melhor adoçar a vida antes”, Abe disse gesticulando em direção a mesa, sugerindo que eu fosse me servir. Como ele não fez menção de levantar e com vergonha de parecer uma morta de fome, preferi pegar um prato grande e colocar uma variedade de croissants, pães de queijo, bolos de chocolate, empadas e uns biscoitinhos bastante simpáticos. Com o prato entre nós dois, eu fiz questão de me explicar.

“Eu espero que você não tenha tomado café, pois eu não vou comer tudo isso sozinha”. E antes que ele pudesse responder alguma coisa eu voltei ao pequeno buffet e servi duas xícaras de chá. Depois de alcançar uma xícara para ele e sentar na cadeira com a minha em mãos, finalmente encarei Abe, percebendo que ele me admirava curiosamente.

“O que foi?”, eu perguntei desconfiada. Ele desviou o olhar e refletiu por alguns segundos, achando graça da minha reação.

“Você continua me surpreendendo, Rosemary Hathaway”, Abe disse antes de morder um pão de queijo. Enquanto tomamos nosso delicioso café da manhã, permanecemos em silêncio, mas algo na postura de Abe me dizia que a conversa que teríamos a seguir não seria nada serena.

E adivinha só? Eu estava certa. Quando eu terminei de lamber o último dedo coberto de açúcar, graças a um croissant doce maravilhoso que eu havia comido, Abe suspirou, inclinando-se para a frente para apoiar os braços sobre a mesa, como se não quisesse que as suas palavras fossem dispersas desnecessariamente pelo ar.

“Eu não tenho tempo a perder e muito menos você, Rose, portanto eu vou direto ao ponto, ok?”.

“Eu agradeceria por isso”.

“Como a sua estaca foi parar dentro daquele saco plástico como evidência da cena do crime?”. Nossa, eu estava tão preocupada com a carta de Dimitri e com os planos de Lissa que eu havia esquecido completamente desse detalhe.

“Sinceramente? Eu não tenho a menor idéia, Zmey”.

“Quando foi a última vez que você, de fato, viu ou usou a sua estaca?”.

“Eu não tenho certeza. Se não me engano eu a vi por ultimo no meu quarto”.

“Mas, quando?

“Eu já disse! Eu não tenho certeza”.

“Você por acaso saberia informar alguma coisa com certeza?”. Abe parecia estar perdendo a paciência.

“Bem…”. Antes que eu pudesse formular qualquer frase, Abe se remexeu na cadeira, parecendo ter sido mordido por um bicho carpinteiro. Então, disparou.

“Olha Rose, você vai precisar se esforçar mais pra responder minhas perguntas, se é que você está fazendo algum esforço para respondê-las. Caso contrário eu não vejo como eu posso defender você”.

Eu encarei os olhos dele por um momento tentando achar o homem que há pouco parecia terno e até mesmo atencioso comigo. O homem que me ofereceu um maravilhoso café da manhã e me fez inclusive querer ser gentil com ele, ao servi-lo. Será que eu estou alucinando agora ou estava alucinando antes?

“Quem diabos você pensa que é?”. Foi tudo o que eu consegui retrucar.

“Você sabe muito bem quem eu sou, Rose. E como seu advogado, sou eu quem faz as perguntas aqui”.

“Muito bem? É isso que você acha? Que eu sei muito bem quem é você? Deixa eu te dizer uma coisa, Zmey. Eu só acredito que você é meu pai porque minha mãe não mentiria pra mim sobre uma coisa dessas e eu apenas escolhi você como meu advogado porque… Bem, entre você e um Moroi envolvido com uma família real, adivinha só? Eu não tinha muito o que escolher!”.

“Quer você queira ou não, eu sou a melhor opção pra garantir que você saia viva no final desse julgamento, Rose. Mas você precisa me contar o que aconteceu, você vai ter que confiar em mim”.

“Eu não tenho razões para confiar em você”. A essa altura eu já estava aproveitando a discussão para colocar várias questões em pratos limpos, até porque eu não estava pronta para contar tudo que havia acontecido no dia do assassinato da rainha.

“É claro que você tem, eu sou seu pai!”.

“E convenientemente você resolveu lembrar disso apenas agora, não é mesmo?”.

Abe suspirou fundo, afastando-se da mesa e recostando-se no encosto da cadeira em que sentava, parecendo profundamente frustrado. E quando achei que nossa conversa não evoluiria para direção alguma, ele me surpreendeu.

“Eu sei o que você foi fazer na Rússia, Rose”.

“Onde você quer chegar? Todo mundo sabe o que eu fui fazer lá.”.

“Caçar Strigois? Não, não, isso é no que você fez eles acreditarem. Eu sei exatamente o que você foi fazer lá”, ele respondeu, enfatizando o “exatamente”. Por um momento, o tempo parou e a única coisa que eu senti foi o ar saindo dos meus pulmões como se eu tivesse recebido um golpe inesperado. Eu estava em choque porque, meu deus, isso só poderia significar uma coisa.

Zmey sabia sobre Dimitri.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 4

Tentando disfarçar minha surpresa e meu desespero, eu decidi confrontá-lo.

“Você está blefando!”, eu disparei. Mas pelo olhar de Abe eu tive a certeza de que ele percebeu que eu não estava acreditando nas minhas próprias palavras.

“Não é um blefe, Rose, e você sabe muito bem disso”. Eu podia não conhecer muito bem essa figura que eu ainda estava assimilando ser meu pai, mas certas coisas sobre ele podem ser bem fáceis de se descobrir e uma delas é quando ele tem certeza do que está falando. A expressão de satisfação naquele rosto é tão visível que chega a ser irritante.

Eu permaneci orgulhosamente em silêncio, o que de certa forma pode ter sido interpretado como um “ok, eu fui pega em flagrante” e, me negando a dar o gostinho de vitória a ele, tratei de engolir o ódio que eu estava sentindo. Vendo que eu não daria o braço a torcer, ele desfez sua cara de satisfação para assumir uma postura mais séria e continuou.

“Não se preocupe que eu não estou ameaçando revelar o seu segredinho, Rose, até mesmo porque eu não estou em condições de julgar seus atos e os motivos que a levaram a cometê-los. Aliás, há muito tempo eu tenho sido uma pessoa que não é digna de julgar ninguém. É por essa razão que eu nunca comentei, nem com a sua mãe, sobre essa sua aventura. Por que eu sei que certas coisas não dizem respeito a outras pessoas que não as envolvidas na história. Nesse caso, você e…”

“Dimitri”, eu disse, criando coragem e encarando os olhos de Abe. Eu sei que ao completar a frase dele justamente com o nome de Dimitri eu estaria entregando todo o jogo caso ele estivesse, de fato, atirando verde para colher maduro, mas tão certo quanto somar dois mais dois e obter quatro como resultado, eu sabia que ele estava dizendo a verdade. Abe estava apenas sendo ele mesmo, uma pessoa que preza por sua privacidade e pela privacidade dos outros, desde que isso não signifique que ele esteja sendo prejudicado de alguma forma. É como se, ao manter sepultados os segredos dos outros, ele estivesse conquistando o direito de ter seus próprios segredos longe dos holofotes e, o melhor, nas mãos de quem apenas ele desejar. Talvez esse fosse o grande truque para Abe ser tão conhecido e ao mesmo tempo tão desconhecido por tanta gente. Ele sabia o que sabia sobre as pessoas não para passar a informação adiante, mas para poder usar isso a seu favor. Curiosamente agora ele estava fazendo o contrário, se abrindo para que eu pudesse perceber que ele confiava em mim e que eu poderia me abrir e confiar nele também. Engraçado, pra uma pessoa que não participou da minha vida, até que ele me conhece particularmente bem. Ou talvez nós dois sejamos mais parecidos do que eu gostaria que fôssemos.

Abe ficou me olhando por vários segundos como se querendo acreditar que aquele momento estava acontecendo. Acho que ele não esperava que eu fosse confiar nele tão rapidamente. Na verdade, até mesmo eu achei que seria difícil ele me convencer de que suas intenções em relação a mim eram positivas e que ele queria me ajudar a sair dessa. Então ficamos ali, os dois surpresos, pelo que pareceu ser uma vida, até que ele suspirou alto e  se recompôs, corrigindo sua postura, cruzando os braços na altura do peito e também a perna direita sobre a esquerda; calcanhar de uma sobre o joelho da outra. Calmamente ele perguntou se agora eu poderia responder melhor a pergunta sobre minha estaca, o que me fez hesitar mais uma vez. Será possível que ele realmente estava me pedindo para lembrar de todas as vezes que eu usei ou carreguei aquela coisa? Céus, eu a levei comigo para Tarasov, conseqüentemente para Las Vegas. Quando Dimitri seqüestrou Lissa e nós fomos resgatá-la, eu levei a estaca comigo e inclusive lutei com ela. Aliás, desde que Dimitri a devolveu eu passei a carregá-la sempre que possível, pois eu não sabia quando nosso fatal encontro aconteceria e eu havia prometido a mim mesma que eu o mataria com aquela estaca. Mas como dizer isso tudo para Abe?

O problema agora não era falta de confiança e sim vergonha, pois para falar da minha estaca eu teria que falar da minha relação com Dimitri e pior, sobre minhas mais recentes aventuras, o que, diga-se de passagem, não são coisas das quais eu possa me orgulhar. Como eu poderia admitir que eu havia libertado Victor da prisão e que sou a responsável por ele estar solto mundo afora, podendo inclusive…

“Meu Deus, como eu não pensei nisso antes? Só pode ser Victor!”, eu gritei interrompendo meus próprios pensamentos e batendo com a mão na mesa devido a empolgação do insight. Abe pareceu confuso.

“O que Victor tem a ver com a sua estaca?”, ele questionou. Eu fiquei sem palavras. Sério, o que eu poderia dizer numa hora dessas?

“Você quer mesmo saber?”, eu finalmente indaguei. Zmey era um cara esperto, logo não demorou muito para que ele levasse uma de suas mãos até a testa, como se ele não acreditasse na conclusão que havia chegado. Eu ergui minha mão direita e encolhi os ombros.

“Culpada”, eu confessei. E diante disso eu não tinha mais nenhuma opção a não ser explicar o decorrer dos fatos. Contei que, ainda numa tentativa desesperada de transformar Dimitri de volta em um Dhampir, eu decidi colocar em prática o que o irmão de Victor supostamente havia feito anos atrás para salvar um Strigoi. Porém para conseguirmos a informação de como realizar esse procedimento, precisávamos que Victor abrisse o bico sobre o paradeiro de seu irmão e a única coisa que poderia fazê-lo falar seria convencê-lo de que seria libertado.

“Então foi o que fizemos: invadimos Tarasov, libertamos Victor, nos encontramos com o irmão dele em Las Vegas e conseguimos a informação de que precisávamos. Tudo estava indo perfeitamente bem até que fomos abordados por Dimitri e sua gangue de Strigois e no meio da confusão acabamos perdendo os dois Dashkovs de vista”. Esperando pelo que deveria ser o maior sermão de minha vida eu tranquei a respiração e desviei meu olhar, passando a  admirar o design completamente banal da mesa em que estávamos. Então Abe falou.

“Novamente, você não poderia simplesmente ter roubado uma pulseira cara de uma joalheria e a perdido antes de usá-la, algo que poderia acontecer com uma adolescente normal da sua idade?”.

Com um sorriso no rosto, e duzentos quilos mais leve, eu respondi: “Desculpa desapontar você, Zmey. É melhor você começar a se acostumar com o fato de que eu posso ser tudo, menos uma adolescente normal”. Isso fez ele rir, mas não esquecer o que eu havia falado sobre Victor. Assumindo a postura séria que ele deixou de lado alguns segundos atrás, ele não perdeu tempo e retomou o assunto.

“Então você acha que Victor pode estar por trás do assassinato da rainha?”, Abe perguntou, erguendo uma de suas sobrancelhas. Era o mais lógico de se pensar não é mesmo? Eu lembro como se fosse hoje. Victor estava preso em St. Vladimir por ter seqüestrado Lissa e eu fui até a cela dele pedir que ele desfizesse o encanto que havia feito com que Dimitri e eu quase terminássemos nus na mesma cama. Quer dizer, nós ficamos nus na mesma cama, apenas não fomos muito além disso. Bem, no entanto, Abe não precisava saber dessa parte da história, então me limitei a contar o que realmente importava.

“Quando Victor estava preso em St. Vladimir, eu fui até a cela dele para tirar satisfações sobre o seqüestro de Lissa e ele deixou bem claro que não concordava com a forma que a rainha estava governando, que tinha interesse em assumir o poder real, e que sabia que Tat.. hã… a rainha Tatiana jamais o consideraria como herdeiro do trono. Depois de permanecer preso durante todo esse tempo, eu não duvidaria que uma das primeiras coisas que ele tentasse fazer, ao estar livre, fosse mandar alguém assassiná-la”. E se isso for verdade eu tenho uma parcela de culpa sobre a morte da rainha, afinal, Victor estava livre graças a mim. Parabéns, Rose!

“Isso até faz sentido, mas nós estamos perdendo o foco”, Abe disse, interrompendo meu pensamento e não parecendo se importar muito com a possibilidade de Victor fazer parte desse quebra-cabeça. “Digamos que Victor esteja por trás do assassinato. Nós continuamos sem saber como a sua estaca foi parar na cena do crime”. Antes que eu pudesse argumentar, a porta do refeitório se abriu e os guardas avisaram que eu precisava retornar a minha cela porque nosso tempo estava esgotado.

“Bem, então por enquanto é isso”, disse Abe, conformado, ao se levantar e arrumar seu casaco, que parecia estar um pouco amarrotado, abotoando-o em seguida. Eu permaneci sentada, pois certamente não sairia do refeitório sem, no mínimo, estar com algemas ao redor dos pulsos .

E fui surpreendida quando Abe estendeu seu braço em direção a mim para que eu apertasse a sua mão. Bela forma de terminar uma reunião com o seu advogado, não? Clássico, eu diria. Despretensiosamente eu estendi meu braço e quando minha mão estava prestes a encostar na mão de Abe, ele a segurou gentilmente. Porque ele estava sendo tão cordial comigo, eu não fazia a menor idéia.

“Foi um imenso prazer conversar com você, senhorita Hathaway”, ele disse antes de se curvar para beijar minha mão. “E por favor, tente agir normalmente”, Abe cochichou para que somente eu ouvisse, com seus lábios a poucos centímetros da minha pele. Eu estava começando a fazer uma careta de quem não estava entendendo absolutamente nada quando eu senti um papel entre nossas mãos. Eu gelei. Ótimo, mais um bilhete. Agora eu entendi porque ele estava sendo tão “cordial”. Ele precisava disfarçar para que os guardas não percebessem o que estava acontecendo.

Abe deu uma piscadinha pra mim e retornou a sua postura original, soltando minha mão e indo em direção a porta, parecendo não se importar nem um pouco com o fato de que eu não sabia o que fazer com aquele papel. Afinal, qualquer movimento brusco que eu fizesse chamaria a atenção dos guardas e eu definitivamente não poderia ficar com o papel nas mãos, já que eles me algemariam.

Então eu ouvi a voz de Abe. Ele falava com o guarda que estava na porta, perguntando quando ele estaria autorizado a me ver novamente, fazendo com que o guarda precisasse checar algumas anotações. Essa era minha chance. Não sei se ele fez isso propositalmente, mas Abe o distraiu e eu pude discretamente colocar dentro das calças o papel que ele havia me passado. Eu achei melhor não usar os bolsos, pois se eu fosse revistada por alguma razão, eles certamente seriam checados e eu não podia correr riscos. Pelo menos minhas calças eu sei que eles não iriam tirar. Bem, eu espero que não.

Conseguindo a informação que ele queria, Abe me olhou mais uma vez e eu percebi que a intenção dele era apenas verificar se eu já havia dado um jeito de esconder aquele bilhete. Eu discretamente acenei com a cabeça, liberando-o para sair. “Até mais, Zmey. E da próxima vez que me oferecer um café da manhã substitua o chá por um chocolate quente. Eu não ligo para as calorias.” Por essa nem Abe esperava. A prova disso foi a gargalhada que ele soltou, atraindo olhares desconfiados dos guardas.

“Eu verei o que posso fazer”, ele disse, tendo dificuldades em parecer sério. “Até mais, Rose”. E antes que eu pudesse dar-me conta, era eu quem estava piscando para Abe. Malditos laços de sangue.

Assim que Zmey saiu pela porta, novamente dois guardas vieram até mim, me algemaram e, depois que encontramos os outros dois na porta de entrada, fomos caminhando como uma grande família feliz até minha cela.

No caminho de volta eu pensei melhor sobre a minha teoria de Victor ter mandado alguém assassinar a rainha e tentei relacioná-la com o desaparecimento da minha estaca porém, por mais que fosse conveniente, isso não fazia sentido. Ok, na audiência eu disse que a estaca estava no meu quarto, afinal eu tenho o costume de sempre colocá-la na gaveta do criado mudo, ao lado da cama, por uma questão de conveniência, caso eu precise utilizá-la numa situação emergencial. Porém, pra ser sincera, a última vez que eu tenho certeza de ter visto aquela estaca foi durante a luta contra os Strigois que faziam parte do exército de Dimitri, quando ele, ainda um Strigoi com o intuito de me matar, seqüestrou Lissa e a usou de isca para que eu fosse ao seu encontro. Um dia totalmente inesquecível. Eu não tinha escolha, eu precisava ir. Lissa é minha melhor amiga, além de ser a última Dragomir viva, pelo menos era o que todos nós pensávamos, motivos suficientes para não pensar duas vezes antes de tentar resgatá-la.  Foi o começo do caos, pois depois de lutar contra vários Strigois, eu estava diante de Dimitri novamente, conformada de que teria que matá-lo sem misericórdia.

Mas quando eu tomei coragem para isso, ele foi atacado surpreendentemente por Lissa, minha melhor amiga, aquela Moroi insana de origem real, que resolveu dar uma de salvadora da pátria ao cravar uma estaca enfeitiçada com espírito no coração de Dimitri, para trazê-lo de volta a vida. O único detalhe é que ela não tinha certeza de que aquilo iria dar certo.

Não sendo o bastante, passado o susto, eu precisei lidar com a emoção de assistir Dimitri transformar-se novamente em um Dhampir diante dos meus olhos. Sim, a magia de Lissa havia funcionado, ainda bem, caso contrário ela estaria morta agora, mas sob o preço de abalar a nossa conexão de uma forma que jamais acontecera, o que graças a Deus não era permanente, embora por um momento eu tenha acreditado que fosse.

Então Dimitri estava de volta, é claro, afinal, Lissa não se prestaria para consolar um Strigoi e eu acho que um Strigoi não gostaria disso também. Sim, Lissa consolando Dimitri. É estranho, mas os dois ficaram ligados de uma forma que parecia tão íntima que me fez sentir inveja de Lissa e fazer meu mundo virar de cabeça para baixo. Depois disso eu não consegui prestar atenção em mais nada do que acontecia ao meu redor, literalmente, porque não demorou muito para que os dois fossem retirados do ambiente e eu fosse impedida de vê-los ou falar com eles.

Ao retornarmos à corte real eu estava tão cansada devido à batalha e frustrada por não conseguir ter notícias de Lissa e Dimitri, que acabei indo para o meu quarto e dormindo sem nem perceber. Sinceramente, como alguém poderia esperar que, depois de tudo isso, eu tivesse cabeça para me preocupar com o paradeiro da minha estaca?

Apenas no dia seguinte eu estava processando melhor os acontecimentos e foi quando eu notei que havia dormido com a roupa ensangüentada da luta do dia anterior, o que me obrigou a tomar um banho e trocar de roupa antes de sair atrás de mais informações. Desculpa, mas eu estava preocupada demais pensando que Dimitri poderia ser meu mais uma vez. Mas em momento algum eu lembro de ter colocado a estaca na gaveta do criado mudo. Aliás nem lembro de tê-la visto depois que voltei e lembro muito menos ainda de sentir falta dela. Alguém a pegou, isso é fato, mas quem? E quando? E como Victor poderia estar envolvido nisso, se já não tínhamos notícias sobre o paradeiro dele há algum tempo?

Teria alguém invadido meu quarto enquanto eu estava completamente apagada devido ao cansaço? Afinal eu poderia ter voltado com a estaca e simplesmente não lembrar. Ou será que a pessoa nem precisou entrar no quarto? A primeira hipótese me deixava irritada por imaginar a possibilidade de ter tido minha privacidade invadida por alguém. A segunda, no entanto, me preocupava, pois a estaca nem precisaria estar no meu quarto para ser roubada, logo isso poderia ter acontecido em qualquer outro lugar.

Eram tantas perguntas sem respostas e a maioria delas fazia eu me sentir tão impotente, a ponto de quase perder as esperanças, que a única coisa que me passou pela cabeça foi que a idiota daquela rainha queria que Dhampirs de 16 anos lidassem com situações como essa, sendo que eu, com meros 18, já estava prestes a arrancar meus cabelos. Quer saber de uma coisa? Eu estava começando a ficar feliz por ela estar morta. Ela pode ter me feito um enorme favor ao avisar sobre a existência de mais um Dragomir no mundo, mas nada anula o fato de que ela aprovou essa rídicula lei de redução de idade para formação de Dhampirs. Ninguém mandou você não ter assistido a filmes o suficiente para aprender que o crime não compensa, Tatiana. Aproveite o calor do inferno agora, sua desgraçada!

Frustrada, eu sentei na cama de minha cela por uns dez minutos e então lembrei que havia um bilhete que precisava ser lido. Certa de que eu estava mais do que sozinha, eu ergui minha blusa e coloquei minha mão por dentro das calças até achá-lo, o que foi engraçado, pois se alguém aparecesse nesse momento e perguntasse o que eu estava fazendo, a única resposta que me vinha à cabeça era “tentando me masturbar, você não está vendo?”. Nada como descarregar sua raiva dando respostas provocantes e agressivas, não é mesmo? Mas imaginá-las não causava o mesmo efeito relaxante, então eu precisei engolir minha frustração e encarar o bilhete de Abe, que estava dobrado em seis partes. Antes de desdobrá-lo eu pensei duas vezes. Abe era meu pai e eu estava começando a me acostumar com a quase constante presença dele, mas ele era um homem misterioso e, se provocado, segundo as más línguas, poderia se tornar até mesmo perigoso, logo qualquer coisa poderia estar escrita naquele pedaço de papel. Imediatamente, como se eu me desse por conta de que Abe não faria mal a própria filha, ainda mais com um bilhete, eu sacudi a cabeça para me desfazer desses pensamentos.

“Ok, vamos ver o que você tem a dizer, Zmey” , eu murmurei a mim mesma.

Querida Rose,

Caso aconteça o pior, eu não terei chance de falar com você nem de me explicar, então é melhor que eu faça isso agora. Eu preciso dizer que eu lamento muito por tudo o que eu fiz você passar e pelo que você ainda passará. Mas, infelizmente, a vida é como uma peça de teatro. Na platéia há sempre uma parcela de pessoas assistindo todos os seus passos esperando que você cometa algum erro pra ter um motivo para sair mais cedo. Então, para convencer o público e não correr riscos, às vezes é necessário literalmente viver o personagem, não apenas interpretá-lo. É um preço alto, eu sei, mas a vantagem é que, ao garantir a atenção do público durante todo o espetáculo, você pode se dar o luxo de adicionar  um toque especial no último ato, pois todos adoram um final inesperado, não é mesmo? E se alguém não gostar, será tarde demais para qualquer coisa. Talvez você não entenda, mas você está vivendo o seu personagem, Rose, e está indo muito bem. Logo, tudo o que você precisa fazer é esperar o ato final. E deixe a surpresa por minha conta. Eu prometo não desapontar você. Tente lembrar disso.

Zmey.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 5

Mas que diabos Abe quis dizer com isso? Se ele queria que eu entendesse alguma coisa importante, ele não atingiu seu objetivo. Também, pudera, ele não foi nada feliz na escolha das palavras. Eu reli o bilhete duas vezes não confiando na minha capacidade interpretativa e parei quando ler nas entrelinhas parecia estar ficando cada vez pior. Deixando-o de lado, joguei minha cabeça para trás, recostando-a na parede e olhei para cima esperando um sinal divino, algo como o que acontecia com o Professor Nash no filme “Uma mente Brilhante”, onde ele via códigos secretos que pareciam saltar espontaneamente de equações matemáticas. Exceto pelo fato dele ser esquizofrênico, eu adoraria que meu cérebro tivesse o mesmo poder sobre a mensagem de Abe. Porém tudo o que eu consegui foi constatar que minha cela era uma pocilga. Eu ainda não havia parado para observar atentamente os detalhes desse lugar e eu estava desapontada por ter feito isso agora, pois só fez a minha situação parecer mais deplorável.

As paredes da prisão, tanto as internas como externas, eram altas e espessas, construídas com camadas duplas de pedras e, de acordo com alguns boatos que eu ouvi, existia até uma camada de aço  entre as de pedra para tornar a vida de possíveis fugitivos um pouco mais complicada. Para esconder o aspecto rústico das pedras no interior das celas, as paredes foram rebocadas e devidamente pintadas com um tom claro, meio acinzentado. Isso, porém, não impedia que a umidade do subsolo fosse um problema, mantendo a temperatura do ambiente sempre baixa, principalmente porque o piso era formado por pequenas lajotas quadriculadas pretas, o que aumentava a sensação de frio.

A cama onde eu estava sentada ficava encostada a uma dessas paredes e nada mais era do que um colchão em cima de uma base de concreto da altura de uma cama convencional, mas ainda assim era confortável. Além disso, eu tinha direito a usar os travesseiros e cobertas de minha preferência para combater o frio, porém por mais que eu adorasse dormir com meu travesseiro e meu edredom, optei por usar os que já estavam na cela, pois eram coisas que Dimitri usou quando esteve preso aqui antes e eu ainda conseguia sentir o cheiro dele lá.

À minha direita estavam as grades que davam acesso ao corredor e à minha esquerda havia um pequeno armário embutido na parede, com portas de correr, onde eu guardava algumas roupas e pertences pessoais que obviamente não eram perigosos, coisas que foram trazidas do meu quarto quando o invadiram atrás de provas que pudessem comprovar minha ligação com o assassinato da rainha. Diante de mim estava a última das três paredes que me cercavam. A que continha uma pia e a porta de acesso a um banheiro, se é que poderíamos chamar um cubículo, com um vaso sanitário e um chuveiro, de banheiro. A pia ficava do lado de fora, por alguma razão bizarra, o que mostrava o quanto a decoração desse lugar era de péssimo gosto.

Naquele minúsculo banheiro ficava a minha única comunicação com o exterior, uma pequena abertura, gradeada, é claro, certamente construída para a entrada de ar fresco e um pouco de claridade, afinal por mais perigoso e detestável que fosse o presidiário, obrigá-lo a fazer suas necessidades em um ambiente completamente fechado é, no mínimo, desumano. Mas essa abertura era tão próxima ao teto que eu não conseguia enxergar absolutamente nada. Tentar fugir por ali? Nem pensar. Pelo menos através dela eu conseguia ter noção de quando era dia ou noite.

Isso me fez lembrar que deveríamos estar na metade da manhã e Lissa já deveria estar mais do que acordada. De repente seria interessante tentar dar mais uma espiadinha para ver se ela já desistiu da idéia insana de tentar me resgatar da prisão. Doce ilusão. Ela estava novamente no quarto de Adrian e os dois estavam conversando exatamente sobre a viabilidade de um resgate. Enquanto Adrian alegava parecer difícil, Lissa tentava convencê-lo de que não teria como ser mais difícil do que foi o resgate de Victor.

“Seja racional Lissa! Quando vocês invadiram Tarasov, vocês estavam usando a mágica a favor de vocês e ela só funcionou porque ninguém lá sabia quem vocês eram. Aqui você não só é conhecida, como também é uma espécie de pop star.”. Adrian parecia nervoso, andando de um lado para o outro com o cigarro aceso em  uma das mãos. A outra ele passava na cabeça de tempo em tempo, amassando qualquer penteado que ele pudesse estar usando.

“É por isso que eu preciso de você, Adrian”, Lissa insistiu. “Nós teremos que usar compulsão para chegar até lá”.

“Lissa! Você consegue ouvir a si mesma? Isso não é seguro!”. Eu senti uma pitada de maldade nas palavras que Lissa disse a seguir.

“Qual é o seu problema Adrian? Falando assim até parece que você não quer que ela seja resgatada”.

O par de olhos verdes que encararam Lissa pareciam vociferar os piores xingamentos, embora o silêncio imperasse no ambiente. Observando através de Lissa eu me senti intimidada pela intensidade do olhar de Adrian, mas ela parecia satisfeita com a reação que arrancara dele. Em seguida, eu ouvi uma batida na porta, mas pela postura dos dois eu comecei a achar que estava alucinando, já que ninguém sequer se moveu. Alguns segundos depois a batida se repetiu  e, dessa vez, foi forte o suficiente para que Adrian saísse bufando em direção a porta. Ao abrí-la ele congelou por um instante e então se virou para Lissa, tentando disfarçar que ambos estavam discutindo.

“É para você”, Adrian anunciou. Lissa parecia surpresa, afinal não estava esperando ninguém, muito menos que fossem procurá-la justamente no quarto de Adrian.

“Na verdade…”. Por favor, não essa voz. “… eu gostaria de falar com vocês dois, se fosse possível”. Dimitri disse ao colocar sua cabeça pra dentro do quarto e visualizar Lissa. Ela e Adrian trocaram olhares, não mais ameaçadores e sim curiosos e, como se conversassem telepaticamente, responderam em uma só voz.

“Claro.”. Adrian abriu mais a porta, como se convidando Dimitri para entrar. Porém, ele hesitou.

“Eu preciso que vocês me acompanhem até a lancheria para que possamos conversar, pois lá os guardas podem ficar de olho em mim sem participarem da conversa”. Dimitri parecia tão conformado com a situação que até me irritava. Como ele poderia aceitar isso numa boa?

Meio sem jeito, Lissa e Adrian concordaram e saíram junto com Dimitri em direção a mesma lancheria de onde os guardas reais me arrastaram para a prisão assim que a rainha foi assassinada. Eu entendi porque Dimitri os levou até lá. O lugar era freqüentado, na maioria das vezes, por Dhampirs, não Morois. Os próprios lanches eram voltados para esse público, ou seja, ao invés de servirem pratos leves e sofisticados para a moderada fome dos Morois, uma vez que estes se alimentam mais de sangue do que de comida, eles serviam pratos calóricos e nada moderados para suprir a perda calórica de quem treina horas e horas a fio. Nenhum Moroi gostaria de ficar nesse ambiente por muito tempo, muito menos alguém da realeza. Simplesmente não tinha nenhum atrativo para eles. E tudo que Dimitri precisava agora era de uma certa distância dos Morois da corte real.

Sentando-se a uma mesa no fundo do refeitório, os três foram se acomodando nas cadeiras enquanto os guarda-costas de Dimitri permaneceram afastados, na parede oposta, apesar de manterem a vigilância. Dimitri não era burro, ele sabia que num ambiente repleto de Dhampirs, os guardas se sentiriam mais seguros para dar um pouco de privacidade a eles, ainda mais porque ele estava falando com Lissa. Desde que ela foi seqüestrada, ironicamente, por Dimitri, sempre que ele se aproxima dela o ar ao redor parece ficar pesado, como se todos temessem que, num piscar de olhos, ele se transformasse em um Strigoi novamente e a cena se repetisse.

Hoje, entretanto, o refeitório parecia mais vazio do que de costume, também pudera. Com a morte da rainha, os Morois reais estavam histéricos, o que significava trabalho pesado para os Dhampirs. Ainda assim algumas mesas estavam ocupadas, certamente por aqueles que ainda não tinham a quem proteger.

“Então Belikov, a que lhe devemos sua visita?”. A voz de Adrian, ao iniciar a conversa, chamou a atenção de Lissa, logo a minha também, fazendo com que ela olhasse para o Moroi de olhos verdes que tanto me encantavam. Mas considerando a quem ele dirigiu a pergunta, eu sabia o próximo rosto que eu veria. E assim que Lissa virou-se para Dimitri, também curiosa para saber que resposta ele daria, eu parei de respirar por um instante. Dimitri estava lindo como sempre, com aqueles cabelos castanhos soltos sobre o ombro, mas conhecendo-o como eu conhecia, eu sabia que ele estava incomodado. Era visível que ele estava se esforçando para manter uma aparência indiferente e talvez enganasse a muitos, mas não a mim. Era como se Dimitri estivesse lutando contra algo dentro dele, algo como um monstro feroz que quisesse criar vida e dominar todos seus instintos. Percebendo a tensão de Dimitri, Lissa estendeu o braço e descansou sua mão sobre a dele, apertando-a levemente, encorajando-o a falar.

“Devido aos recentes acontecimentos, todos os guardas estão sendo recrutados e alguns Morois estão achando um desperdício que eu ande com quatro deles atrás de mim, e da elite real, ainda por cima, já que até agora eu não ofereci risco a ninguém. Então a partir de amanhã eu serei uma pessoa livre para circular pela corte real sem acompanhantes indesejáveis.”, Dimitri desembuchou de uma só vez.

“Mas que ótimas notícias, Dimitri”, comemorou Lissa. O rosto dela parecia ter se iluminado e eu me senti aliviada. Eu só não sabia se o alívio era meu ou dela. Provavelmente de nós duas.

“Desculpe interromper a felicidade dos dois, mas eu não acredito que você tenha nos chamado apenas para compartilhar a alegria de ter conseguido sua carta de alforria, Belikov.  Até mesmo porque eu não teria nada a ver com isso. Então sejamos objetivos. O que você realmente quer?”, questionou Adrian, que ganhou um pequeno cutucão de Lissa por ter sido grosseiro.

“Eu tenho uma missão para vocês”, Dimitri respondeu, não dando bola para o comentário de Adrian. E num estalar dedos, como se alguém tivesse tirado o fio de um modem da tomada, eu estava desconectada.

“Mas que diabos?” – eu resmunguei em voz alta ao constatar que Lissa havia me bloqueado. Ai, como eu odeio quando ela faz isso. Eu não ficaria surpresa se os dois unissem forças para organizar um resgate maluco, porém  a coisa deveria ser maior do que eu estou imaginando, caso contrário Lissa não me bloquearia.

É como se ela simplesmente tivesse me dado um chega pra lá, como se eu não fosse autorizada a participar da conversa. E justo quando ela estava começando a ficar interessante! Que injustiça! Eu me senti assim quando fui empurrada por Lissa e Christian na noite do resgate dela. Aquela cena seria cômica se não tivesse sido trágica. Eu estava lá, com a estaca na mão, finalmente decidida a acabar com Dimitri… e de repente eu não estava mais, pois os dois me atingiram em cheio! Espera um segundo! Só pode ter sido nessa hora que eu perdi minha estaca.  Eu estava segurando ela na mão no momento do impacto e depois disso eu não lembro mais de tê-la visto. Ela deve ter caído no chão, mas eu estava preocupada com tanta coisa, com Lissa, principalmente, que eu nem percebi.

Eu comecei a ficar chocada ao perceber que, se eu realmente perdi a estaca lá, nenhum Moroi poderia ter pegado ela, já que os únicos presentes eram Lissa e Christian e ambos estavam muito ocupados tentando atacar Dimitri. Isso não me deixava outra opção. Quem roubou minha estaca não poderia ser mais ninguém além de um Dhampir! De repente eu me imaginei em um show de perguntas, com luzes coloridas piscando e confete caindo sobre minha cabeça indicando que eu havia acertado a resposta. Um Dhampir, como eu não pensei nisso antes! Certamente existem traidores entre nós, Dhampirs, que não só apóiam a idéia de obrigar todos de nossa raça a lutarem, mas que também seriam capazes de fazer qualquer coisa para que isso aconteça, inclusive matar a rainha! Sujar as mãos por um ideal não é problema para quem já não tem escrúpulos, principalmente se alguém mal intencionado como Victor estiver por trás disso.

Eu lembro muito bem de uma conversa que tivemos onde ele me disse que tinha uma legião de Morois que o apoiava e que bastaria ele estar do lado de fora das grades para fazer alguns contatos. Bem, agora Victor estava do lado de fora  e se ele tinha uma legião de Morois para entrar em contato, porque não falaria com Dhampirs também? Afinal, quando seqüestrou Lissa, ele tinha dois guarda-costas particulares, dois Dhampirs que eram bem mandados por ele. Não era nem o caso de eles não desconfiarem sobre Victor, pois é óbvio que qualquer pessoa que mandasse você seqüestrar a princesa Dragomir, não poderia ser uma pessoa com boas intenções! E eles não estavam sob efeito de compulsão, pois eu teria notado isso. Aqueles Dhampirs não tinham boa índole mesmo, essa era a verdade. E assim como eles, devem existir muitos outros, o que significa que podemos ter assassinos a sangue frio andando entre nós sem sequer percebermos. Se um Moroi mata alguém, ele se transforma em um Strigoi, algo inevitavelmente perceptível. Mas o que dizer quando o assassino é um Dhampir, que naturalmente cresce sendo treinado para atacar seu inimigo de forma a chamar o mínimo de atenção possível? Eu chamaria isso de uma grande catástrofe.

Assim, ao mesmo tempo em que eu achei um caminho para seguir, arrumei mais um problema para resolver. Muitos Dhampirs vieram de várias regiões para o resgate de Lissa. Como descobrir quem poderia estar do lado de Victor?

A ansiedade começou a tomar conta de mim. Eu precisava fazer alguma coisa para me acalmar ou falar com alguém, mas como no momento eu não tinha a mente de ninguém para invadir, uma vez que ainda estava bloqueada por Lissa, e como eu não tinha o direito de solicitar visitas de nenhuma espécie, eu fiquei contando os minutos para o almoço, onde provavelmente eu encontraria Abe mais uma vez. Eu nunca imaginei que ficaria tão ansiosa pra vê-lo, mas havia muitas coisas que eu queria falar com ele. Da última vez que conversamos, ficamos a maior parte do tempo colocando os pingos nos is e não falamos sobre nada prático. E eu precisava contar sobre a minha estaca e sobre o bilhete que Ambrose me entregou falando da existência de mais um Dragomir. Sim, eu estava decidida que Zmey faria parte das poucas pessoas que deveriam saber sobre esse assunto. Quanto mais eu esconder essa informação, mais tempo será perdido e eu não posso levar comigo para o túmulo uma notícia dessa magnitude. Cá entre nós, ninguém sabe o desfecho da minha história, mas se eu for condenada à execução, imagino que a melhor hora para revelar o meu segredinho não será ao me perguntarem quais são minhas últimas palavras. Até porque eu tenho o pressentimento de que eles sequer farão essa pergunta. Então é isso, Sr. Abe. Espero que você esteja preparado para o que está por vir.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 6

Três horas, trinta minutos e 47 segundos depois, eu ouvi passos no corredor da entrada da prisão e para minha surpresa não se tratava de nenhum guarda que eu conhecesse, principalmente porque não era guarda algum. Quem vinha na minha direção era Abe em pessoa, vestindo um sobretudo preto completamente abotoado que chamou minha atenção por ser digno de capas de revista de moda. Com as mãos nos bolsos do casaco, Abe parecia estar desfilando até mim, ou quase isso. Durante o percurso ele manteve-se cabisbaixo, mas ao chegar na frente da cela, ergueu a cabeça e me encarou por eternos segundos.

“Por que eu tenho a impressão de que você não veio me trazer boas notícias?”, eu perguntei, fazendo o favor de quebrar aquele silêncio quase constrangedor e percebendo pela primeira vez que não havia nenhum guarda escoltando ou vigiando ele de longe.

“Talvez porque você esteja parcialmente correta”, Abe respondeu. “Eu acabei de ficar sabendo que o seu julgamento acontecerá amanhã, assim que o sol se por”.

“Hã?!”, eu perguntei, atônita, como se tivesse sido atingida em cheio por uma bomba. “C-como assim, amanhã? Abe, eles não podem fazer isso!”.

Dando dois passos em direção a cela, Zmey segurou-se em uma das barras de metal que compunha a grade que nos separava e, parecendo desolado, encostou sua testa nela, olhando novamente para o chão, sem coragem de me encarar.

“Sim, Rose, infelizmente eles podem. Eles mandam na lei. E se eles fizeram isso é porque o desfecho da história não dependerá do que falarmos no tribunal, seja amanhã ou daqui a alguns dias. Em outras palavras, isso significa que eles não estão interessados em ouvir outra versão do que pode ter acontecido, porque para eles a verdade é o que já foi dito que aconteceu”.

Impaciente, eu comecei a andar de um lado para outro, sentindo os olhos de Abe erguerem-se em minha direção. Como eu pude ser tão ingênua ao pensar que eu teria alguma chance? Eu estava sendo acusada de traição real, mas certamente aquele bando de Morois metidos a besta aproveitariam para me punir por tudo que eu já fiz de errado nessa vida. Ok, talvez não, mas no tribunal da minha consciência eu estava sendo julgada por todas as infrações que eu cometi desde a época da escola, como responder para professores, causar brigas na sala de aula, beber e fazer farra às escondidas, levando quem eu conseguisse para o mau caminho. Isso antes mesmo de fugir de St. Vladimir por dois anos, levando Lissa comigo para vivermos entre humanos. Depois que fomos trazidas de volta, eu desobedeci mais a uma dúzia de ordens, dormi com o meu instrutor e sai numa jornada para caçá-lo e matá-lo quando ele foi transformado em um Strigoi, abandonando mais uma vez meus estudos. Ao voltar, tentei mostrar um comportamento exemplar, mas falhei ao declarar público meu namoro com Adrian, invadindo festas das quais eu não deveria sequer saber da existência, ofendendo publicamente a falecida rainha Tatiana e envolvendo Lissa nas perigosas missões de libertar Victor e trazer Dimitri de volta a vida. Eu devo ter esquecido de alguma coisa, mas sinceramente, mesmo que os Morois do conselho não saibam de todas as minhas aventuras e ainda que eu tenha agido com boas intenções em alguns momentos, havia motivos de sobra para eu ser considerada culpada.

“Olha pra cá, Rose”.

Eu acho que agora estou começando a entender porque Dimitri sempre optava por fazer o que era certo, acima de tudo. Você nunca sabe quando suas ações serão julgadas e usadas contra você, não é mesmo?

“Por favor, Rose, olha pra mim…”.

Dimitri…. Meu coração ainda doí ao pensar nele. Como eu queria poder voltar aos antigos treinos no ginásio onde eu era apenas uma garota aventureira apaixonada por meu instrutor.

“ROSE!!”. Eu dei um pulo, assustada, ao ouvir a voz de Abe ecoar pelo corredor quando ele gritou meu nome.

“O QUÊ?”, eu gritei de volta, irritada pelo susto que ele havia me dado, mas finalmente olhando para Abe e percebendo que meus olhos estavam mais molhados do que deveriam.

“Pelo amor de Deus, Rose! Por que você está chorando?”. A voz de Abe era suave agora, embora ele parecesse nervoso por estar do outro lado da grade sem poder fazer nada para me acalmar. Mas eu estava tão irritada que tudo que eu pude ver nele foi um alvo, um alvo para eu depositar todo o meu ódio, a minha frustração, a minha tristeza e todos os outros sentimentos que estavam esmagando meu peito naquele momento.

“Por que eu estou chorando? Você tem coragem de me perguntar por que eu estou chorando?”. O volume da minha voz parecia aumentar a cada palavra que saía da minha boca. “Por que isso não era pra acontecer, Zmey! Você disse que não permitiria que isso acontecesse e mesmo tendo todos os motivos do mundo pra não acreditar no que você diz, eu confiei em você! Como eu pude ser tão estúpida? EU CONFIEI EM VOCÊ!”, eu gritei enquanto lágrimas corriam pelo meu rosto, agora incessantemente.

“E eu mantenho minha palavra, Rose. Você pode confiar em mim!”. Há-há, muito engraçado.

“Quem você pensa que é? Uma espécie de ‘todo poderoso’, pra mandar e desmandar em quem você quiser? Você tem um grande problema, Zmey. Você é auto-confiante demais e orgulhoso o suficiente para não admitir que certas coisas estão fora do seu controle. Quer saber? Você é exatamente como eles”, eu o ataquei, comparando-o com os Morois do conselho.

“Você não sabe o que está falando”.

“E pelo visto você também não sabe”, eu rebati. “Agora, você poderia me dar licença? Eu não tenho mais nada para falar com você”.

“Rose…”.

“Cai fora daqui, Zmey”.

“Não até eu falar com você!”, Abe insistiu. Ok, Zmey, Você teve a sua chance, eu pensei, indo em direção a ele, o que deve ter lhe dado alguma esperança, porém eu apenas me segurei nas grades para ter uma visão melhor do corredor.

“Guardas!”, eu gritei algumas vezes até ouvir passos vindos da porta de entrada da prisão.

“Você quer parar de ser tão infantil? Nós precisamos conversar!”, Abe disse, incrédulo, ao ver que os guardas estavam se aproximando e não parecendo nada felizes. Eu o ignorei totalmente e assim que os guardas estavam perto o bastante eu comuniquei a eles que não tinha mais nada para falar com o meu advogado e gentilmente pedi que o acompanhassem até a saída. Um deles estava prestes a segurar o braço de Abe para arrastá-lo pelo corredor, quando Abe se esquivou do agarro.

“Eu sei muito bem o caminho até a porta”, ele disse num tom ameaçador. E olhando para mim uma última vez, fez-se bastante claro. “Eu sei que você está magoada, mas não venha bancar a injustiçada pra cima de mim porque eu sei que no fundo você sabia que isso poderia acontecer. E ao contrário do que você pensa, isso não terminou aqui, jovenzinha”. E antes que eu pudesse responder alguma coisa, ele arrumou seu casaco e caminhou até a saída.

Eu permaneci ali, petrificada, enquanto as fechaduras da prisão foram trancadas novamente, indicando a saída de todos que há pouco estavam diante da minha cela. O silêncio, misturado com o frio e o ar úmido me fizeram perceber que eu estava sozinha mais uma vez. E por mais que amanhã muitas pessoas estivessem presentes no meu julgamento, eu sei que metade delas estariam lá apenas para presenciar e apreciar minha condenação. Os que se importam comigo talvez estejam lá também, mas nada poderão fazer a não ser esperar por um milagre, porque certamente eles também devem ter sido pegos de surpresa com essa informação, não tendo tempo suficiente para organizar o tal resgate, uma idéia que eu já nem estava mais achando tão insana assim. Então é isso, acabou. Se realmente existe um Deus, eu acho que ele desistiu de me dar segundas chances.

Naquela mesma noite, Adrian apareceu no meu sonho, o que era de se esperar. Um cavalheiro como ele não deixaria de visitar a mulher amada um dia antes dela ser condenada a execução, por mais que isso fosse doloroso para ele. O palco deste último sonho era um lugar completamente desconhecido por mim, mas pela temperatura e pela paisagem composta por algumas montanhas cobertas de gelo, eu apostaria que Adrian havia me trazido à Rússia, o que não fazia sentido nenhum. Eu estava em uma enorme varanda de uma também enorme casa, em um morro não tão alto, mas o suficiente para se contemplar uma linda vista.

“Eu também fiquei a admirar esse cenário por um bom tempo quando estive aqui pela primeira vez”, Adrian disse ao sair de dentro da casa, através da porta que dava acesso a tal varanda.

“Você já esteve aqui antes?”, perguntei ao me virar para ele.

“Digamos que sim, há pouco tempo, mas essa é uma história muito longa. Além disso, eu estou muito bem instruído a não falar mais do que o necessário, eu sinto muito”. Bem instruído? Por que eu não estou gostando dessas palavras?

“Que lugar é esse, Adrian?”, eu usei meu tom de voz sério para obter uma resposta elucidativa.

“Já que você insiste… Bem, essa é a casa de Abe”.

“Ah, não”, eu lamentei, atirando a cabeça pra trás como uma oferenda a algum Deus que estivesse disposto a decapitá-la naquele momento. Nada aconteceu, infelizmente.

“Não seja tão dramática”. Adrian segurou minha mão e me puxou em direção a porta. “Eu preciso mostrar uma coisa a você”.

Deixando-me ser arrastada por Adrian, passamos pela porta e chegamos a uma espécie de escritório. Era um cômodo relativamente grande, o suficiente para acomodar dois sofás ao redor de uma lareira e uma mesinha de centro, que ficava em cima de um tapete entre a lareira e os sofás. Á esquerda havia uma escrivaninha repleta de papéis, porém todos organizados em pequenas pilhas. Uma cadeira de madeira, que pela cor só poderia ser mogno, fazia conjunto com o móvel. Ao erguer os olhos um pouco mais, me deparei com uma enorme parede de livros, muitos deles. Na verdade, as paredes eram grandes prateleiras de livros que praticamente faziam a volta em todo o escritório, do chão ao teto, com exceção da parede próxima a lareira. E era para lá que Adrian continuava a me arrastar.

Ao nos aproximarmos, meus olhos se arregalaram, surpresos com o que viram. Fotos, dezenas de fotos minhas, algumas tão antigas que eu nem lembrava da existência delas. Foi como ter entrado em uma máquina no tempo. Falando em tempo, foi dele que eu perdi a noção e quando me dei por conta, estava segurando um dos porta-retratos e passando a mão sobre uma foto onde Abe estava ao lado de minha mãe, que me segurava, ainda bebê, nos braços. O que me chamou a atenção foi que minha mãe olhava sorridente para a câmera, mas Abe olhava sorridente para mim.

Parecendo sentir a culpa que tomava conta de mim por sempre ter acusado meu pai de não se importar comigo ou de não ter participado da minha vida, Adrian se aproximou por trás e envolveu seus braços na minha cintura. Aceitando o gesto carinhoso, deixei que meus braços descansassem sobre os dele e recostei minha cabeça em seu ombro esquerdo, inclinando-a levemente para trás, não tirando os olhos da foto nem por um segundo.

“Viu? Desde pequena você tem esse poder sobre as pessoas”, Adrian falou baixinho ao pé do meu ouvido.

“Poder? Que poder?”.

“De fazer com que as pessoas não consigam tirar os olhos de você”, ele respondeu beijando minha cabeça. Eu apenas o cutuquei de leve, devido à brincadeira e voltei a me aninhar nos seus braços, assumindo uma postura mais séria e pensativa.

“Eu fui terrível com ele hoje, Adrian”, eu disse, presumindo que Adrian soubesse que eu estava me referindo a Abe.

“Não se preocupe, little Dhampir. Ele não levou para o lado pessoal”.

“Como você pode ter certeza disso? Você nem sabe o que eu falei!”

“Na verdade, eu sei sim, porque foi ele que me pediu para trazer você aqui hoje. Ele queria que você visse com seus próprios olhos essas fotos para talvez acreditar que pode confiar nele. Seu pai se preocupa com você, Rose. Sempre se preocupou. Dê um crédito ao velho Abe”.

Sem entender onde Adrian queria chegar com esse discurso, mas já suspeitando que algo estava estranho, me soltei dos braços dele e me virei para encará-lo. Aqueles olhos verdes tinham a intensidade de sempre, porém me olhavam com uma tranqüilidade fora do comum. Eu seria julgada no dia seguinte e provavelmente condenada à execução. Com a minha sorte eu sequer teria chance de vê-lo antes de ser executada. Não fazia sentido ele estar tão calmo e confiante. Mas uma coisa me deixou mais preocupada.

“Velho Abe? Que intimidades são essas com aquele homem, Adrian?”. Parecendo disfarçar algo que ele não gostaria que eu soubesse, Adrian respondeu.

“Digamos que depois que você foi presa eu e seu pai começamos a conversar melhor e eu descobri que ele até pode ser uma boa pessoa quando quer”.

“Adrian Ivashkov! Não me diga que você se deixou levar pelas propostas de Abe! Ele não é confiável, eu acabei de ter certeza disso!”. Eu disse a ele, ignorando o sentimentalismo de agora há pouco devido à também recente forma com que Abe havia me tratado. Não era possível que Adrian estava se deixando levar pela conversa de meu pai. Justo ele, que sempre fora astuto e capaz de identificar qualquer pessoa que tivesse intenção de passá-lo pra trás!

“Quem sabe esquecemos um pouco sobre Abe e nos focamos em algo mais interessante?”, Adrian disse ao se aproximar e beijar meus lábios. “Além disso, eu sou bem grandinho e acho que posso muito bem me cuidar”.

“Eu sei, Adrian, mas eu não quero que você…”

“Shh…”. O som emitido por ele não foi suficiente para que eu parasse de resmungar, então, com um dedo pressionado contra meus lábios, Adrian me silenciou. Na verdade o que me silenciou foi a forma como ele me olhou enquanto seu dedo tocava minha boca, pois sem pronunciar uma só palavra ele disse tudo o que estava sentindo. Porém, por mais que Adrian estivesse sendo sincero, eu sabia que ele estava usando o seu charme sobre mim para que eu não insistisse no assunto. A sorte dele era que eu estava farta de tanto mistério, e mais farta ainda de tentar desvendá-los, então eu decidi jogar o jogo dele e, considerando que essa provavelmente seria nossa última chance juntos, achei melhor deixar os problemas de lado e aproveitar este momento com Adrian em grande estilo.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Um dia de treino (conto)

Como se trata de uma leitura opcional, para não quebrar o ritmo de leitura de quem está lendo a fic na íntegra, vou colocar apenas o link para esta leitura. Quem quiser conferir o conto que escrevi entre Rose e Dimitri, clique aqui.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 7

Concentrando-me apenas nos sentimentos que pareciam aflorar de Adrian, dei um passo à frente, aproximando nossos corpos, o que foi suficiente para ouvir a respiração dele acelerar.

“Rose, eu não acho que esse é um bom momento…”. Percebendo onde eu queria chegar, Adrian tentou usar a razão para me impedir, sem sucesso.

“Shhh..”. Foi a minha vez de pedir silêncio a ele. “Amanhã o nosso futuro pode mudar para sempre, logo agora é, sim, um bom momento”. Selando a conversa com um beijo, eu tive certeza de que Adrian ansiava por aquilo tanto quanto eu, relaxando no momento em que nossos lábios se tocaram, como se naquele instante ele não estivesse dando a mínima para o que estava acontecendo além daquele sonho. Em seguida, suas mãos me apertaram forte contra ele, mas eu não me importei, pois havíamos ficado afastados por um tempo significativo e a última vez em que estivemos juntos de fato foi quando quase tivemos nossa primeira vez, que só não aconteceu por um pequeno detalhe. Mas agora nada poderia atrapalhar, afinal estávamos em um sonho onde éramos os únicos convidados e não seria a falta de uma camisinha que atrapalharia tudo, já que aqui não havia o risco de uma gravidez. Ironicamente dessa vez Adrian veio prevenido, eu descobri ao passar a mão sobre o bolso traseiro da calça que ele vestia. Uma bela oportunidade para continuarmos o que não conseguimos terminar antes.

Por onde as mãos de Adrian passavam, ficava um rastro quente sobre minha pele e toda vez que esse rastro desaparecia, um calafrio tomava conta de mim. À medida que meu corpo reagia ao toque de Adrian, eu o beijava com mais intensidade e logo os calafrios que eu sentia foram substituídos por uma combustão que parecia me incendiar por dentro. E quando suas mãos desceram até meu quadril, pressionando-o contra o dele, nosso beijo foi interrompido por um abafado gemido de prazer que eu não consegui conter.

Com seus instintos completamente aguçados pela minha reação, Adrian voltou a me beijar calorosamente enquanto me conduzia até o sofá, parecendo saber exatamente onde ele estava situado, já que sequer quebrou o ritmo em que nossas línguas se entrelaçavam. Aos poucos os beijos foram perdendo intensidade e de ardentes tornaram-se ternos, mantendo ainda a malícia que me enlouquecia. Adrian brincava com meus lábios, lhes dando pequenas e suaves mordidas ou passando sua língua sobre eles suavemente. Eu mantive os olhos fechados o tempo todo, pois tinha medo de que se os abrisse, o sonho acabasse.

Mesmo assim percebi quando o joelho de Adrian tocou o assento do sofá para que pudesse delicadamente me acomodar nele e em seguida posicionar-se sobre mim. A boca que beijava meus lábios agora descia até o meu pescoço, causando um frenesi que eu bem conhecia. Porém meus pensamentos foram interrompidos quando senti uma de suas mãos deslizar por entre minhas pernas. Foi quando eu percebi pela primeira vez que, apesar do tradicional frio da Rússia, eu estava usando um vestido preto super sexy sem absolutamente nada por baixo, o que era conveniente no momento. Mais uma vantagem de se estar em um sonho. Conforme a mão de Adrian  percorria minha coxa, o vestido revelava cada vez mais o meu corpo, até que não havia mais nada para esconder. Não demorou muito para eu sentir lá embaixo um gostoso toque de dedos que pareciam saber o que fazer. Eu gemia baixinho a cada movimento, o que parecia deixar Adrian cada vez mais excitado, pelo menos foi o que eu deduzi quando senti um certo volume crescer dentro de suas calças. Criando coragem, eu abri meus olhos e levei minha mão ao encontro da dele, sob o vestido. Ele pareceu surpreso quando segurei a mão dele, impedindo-o de continuar o que estava fazendo. Porém, olhando dentro dos meus olhos, mesmo sem eu dizer uma palavra, ele parece ter ouvido meu silencioso clamor, e ficou de joelhos em cima do sofá para desabotoar a calça que vestia, certamente para aliviar a pressão que ele devia estar sentindo. Mantendo-me sob ele, e eu o ajudei a baixá-la até a altura de suas coxas e o puxei sobre mim do jeito que estava. Adrian agora movimentava seu quadril para que seu membro acariciasse a região por onde, há pouco, brincava sua mão. Conforme o ritmo dos movimentos aumentava, eu percebi que Adrian estava cada vez mais sem fôlego, então eu o afastei um pouco do meu corpo, chamando sua atenção.

“Você não precisa ser um cavalheiro, Adrian. Eu quero isso tanto quanto você. E eu sei que você tem uma camisinha no bolso da sua calça, então se é isso que está impedindo você de ir adiante, apenas a use”, eu supliquei, sem fôlego.

O pouco do racional que ainda habitava a mente de Adrian se extinguiu quando nossos corpos se encaixaram. Eu respondia com perfeição aos movimentos inicialmente lentos e em seguida mais acelerados do corpo de Adrian sobre o meu, o que acabou despertando em mim um desejo maior que o sexual. Eu queria sentir mais uma vez as presas dele na minha pele.

Como se ouvisse minhas preces e o pulsar das minhas veias, Adrian expôs meu pescoço e, com todo cuidado, cravou suas presas em mim, bebendo do meu sangue como se fosse o alimento de uma besta faminta há dias perdida no deserto. O êxtase gerado pela mordida nos levou ao clímax e acabou com minhas energias. A última coisa que eu lembro de ter ouvido antes de despertar do sonho foi um breve sussurro dizendo: “Eu te amo e aconteça o que acontecer, continuarei te amando”.

Eu abri meus olhos e olhei ao redor da cela parecendo culpada, com um medo irracional de que alguém pudesse descobrir o que recém havia acontecido no meu sonho. Mas eu estava sozinha como sempre e o silêncio reinava ao meu redor. Olhando para o relógio fixado na parede do corredor, vi que ainda restavam duas horas para o sol se por. Duas horas para a sentença final. O tic tac que antes ecoava dentro da minha cabeça agora também acompanhava cada movimento dos ponteiros do relógio, o que era enlouquecedor. Eu precisava de um banho para relaxar!

Inquieta, me dirigi ao pseudo-banheiro anexado a cela, liguei o chuveiro e deixei que a água quente escorresse pelo meu corpo. Enquanto eu relembrava cada detalhe do sonho que tivera com Adrian há pouco, fechei os olhos e passei a me concentrar apenas no som da água batendo contra minha pele e em seguida, contra o chão. Ainda assim, eu continuava tensa. Durante o sonho foi fácil esquecer tudo o que estava acontecendo, mas agora que estava acordada, eu não podia continuar vivendo em negação. A morte nunca esteve tão perto e eu nunca tive tanto medo dela. Eu precisava de mais tempo. Eu tinha tantos planos para executar, tantos problemas para resolver e tantos erros para corrigir. Falando em erros, que diabos foi esse sonho com Adrian? Se eu bem lembro das aulas de matemática, eu ainda tenho 50% de chances de receber apenas uma punição severa ao invés de ser executada e se isso acontecer com que cara eu vou olhar para Adrian depois do que houve? E o pior, como vou conseguir encarar Dimitri? Sério, as coisas não poderiam ter ficado mais complicadas.

Por vinte minutos eu fiquei parada embaixo do chuveiro e, ao perceber que minhas mãos estavam ficando enrugadas pela excessiva exposição à água, desliguei-o, peguei a toalha e me enxuguei lentamente, pois meus braços pesavam e pareciam não querer me obedecer. Após as cansativas tarefas de me vestir e pentear o cabelo, eu sentei na cama e quando olhei na direção da cela, poderia jurar que vi um vulto passar por ali. Porém quando olhei novamente tudo parecia normal. Um pensamento súbito me ocorreu, mas eu optei por não dar muita importância a ele, até mesmo porque não fazia sentido. Fantasmas? Não, provavelmente eu estava enxergando coisas, mas definitivamente nenhum fantasma. Eu costumava vê-los quando estava fora de áreas protegidas pela magia dos Morois e aqui na corte real estávamos mais do que seguros. A única chance disso realmente estar acontecendo é se alguém estiver destruindo a barreira de proteção ao redor da corte, como ocorreu uma vez em St. Vladimir, mas as chances disso ocorrer duas vezes é quase nula e por duas razões. Primeiro porque  a corte é muito mais segura do que a escola, mais segura magicamente e por contar com uma tropa de guardas treinada rigorosamente para ser letal. A segunda razão é porque nós matamos quase todos os Strigois que estavam organizando aquele ataque massivo a St. Vladimir, quando fomos atrás deles para resgatarmos quem eles haviam seqüestrado.

Portanto, isso não pode estar acontecendo. Certamente eu estou enxergando coisas devido ao intenso estresse pelo qual estou passando, eu pensei, abraçando meus joelhos e baixando a cabeça até que minha testa apoiasse-se neles.

“Isso não pode estar acontecendo”, eu disse, cochichando para mim mesma, como se eu precisasse ouvir aquelas palavras saírem da minha boca. E conforme eu o fiz, eu senti a necessidade de ouvi-la mais e mais vezes.

“Isso não pode estar acontecendo, isso não pode estar acontecendo, isso não pode estar acontecendo,….”, eu fui repetindo com uma espécie de mantra.

“Rose?”. Eu pulei ao perceber que não estava mais sozinha, embora o susto tenha sido maior ainda pois eu não ouvi barulho algum vindo da porta da prisão. Abe havia retornado inesperadamente e parecia preocupado. “Está tudo bem com você?”

“Depois que você quase me matou do coração? Sim, eu estou bem.”

“Eu não posso nem pedir desculpas por isso, pois estou aqui há quase 5 minutos e você sequer notou minha presença, de tão concentrada que estava. Então eu precisei chamá-la. E a propósito, o que você quer dizer com ‘isso não pode estar acontecendo’?”

“Tudo, oras. Julgamentos, possíveis condenações e uma tonelada de coisas que eu não vou poder resolver por causa disso”, eu menti, apesar disso não ser uma mentira, apenas não a resposta daquela pergunta. “E o que traz você até aqui? Achei que só nos veríamos no tribunal”, eu completei.

“Eu pensei que havia lhe dito que nossa conversa não havia terminado. Em todo caso, é por isso que eu estou aqui, para terminá-la”, ele respondeu e acrescentou: “Você está mais calma dessa vez?”.

“Não sei se posso responder isso agora Abe, afinal o meu humor se altera geralmente depois que começamos a conversar, não antes”, eu disse, estampando um sorriso visivelmente falso.

“Bem, mesmo assim eu vou fazer uma tentativa. Eu tenho que falar com você sobre sua visita com Adrian em minha casa, na Rússia”. Eu senti meu rosto esquentar. Mas que bela porcaria, será que ele descobriu que eu e Adrian transamos no sofá do escritório dele? Acorda, Rose, eu disse mentalmente a mim mesma, aquilo foi um sonho, não tem como ele ter descoberto.

“Ah sim, que belo lugar você tem lá”, respondi tentando me fazer de desentendida.

“Pois é… ontem, antes de você surtar e chamar os guardas para me retirarem daqui, eu queria avisar você que Adrian iria levá-la para conhecer minha casa, mas como não foi possível, imagino que você tenha sido pega de surpresa”.

“Ah, sim, definitivamente eu fui pega de surpresa”, eu disse com um sorriso malicioso, embora estivesse me referindo a forma como Adrian e eu começamos nossos amassos. Eu não poderia perder a chance de curtir com a cara de Abe depois da decepção que ele me causou, mesmo que ele não soubesse que eu estava me divertindo às suas custas. Porém, de repente, eu me lembrei de algo que me fez esquecer o tom de brincadeira. Eu tinha algumas satisfações para tirar a limpo com Abe. “Aliás, eu fiquei mais surpresa ainda por saber que você anda falando com o meu namorado sem meu conhecimento e pedindo estranhos favores a ele. O que você quer de Adrian, Zmey?”. Abe balançou sua cabeça enquanto ria baixinho.

“Eu não quero nada dele, Rose. Eu apenas usei Adrian como uma ferramenta, pra dizer a verdade. Eu precisava que você visse aquelas fotos que eu tenho no meu escritório e ele tinha a forma perfeita de levar você até lá, mesmo estando presa. Então eu só pedi um pequeno favor a ele, nada que justifique um ataque histérico”. Como se eu fosse o tipo de pessoa que teria um ataque histérico por causa disso! Ok, talvez eu seja esse tipo de pessoa.

“E por que razão você queria que eu visse aquelas fotos?”, eu continuei, deixando a discussão sobre eu ser histérica para outra ocasião, se houvesse uma.

“Porque eu quero que você entenda o quanto você é importante para mim, Rose. Eu sei que as coisas andam meio confusas e que talvez muitas delas não façam sequer sentido pra você. E eu sei o quanto é complicado para confiar em mim quando eu peço, afinal meu comportamento não inspira confiança, muito menos minha reputação”.

“É, definitivamente seu comportamento não inspira confiança”, eu o fuzilei com a mais dura verdade possível. Se ele queria ter uma conversa séria e sincera, espero que ele tenha vindo preparado para isso.

“Então eu resolvi mostrar para você que, ao contrário do que você pensa, eu fiz parte da sua vida sim, mas para sua segurança, você nunca soube disso”.

“Segurança? Quer saber? Eu nunca entendi esse lance de segurança. O que tem de tão perigoso em uma filha saber quem é seu pai e que ele lhe quer bem?”.

“Desde que era um bebê, você sempre foi curiosa, Rose. Se você crescesse sabendo quem eu era, um dia você iria querer me procurar e isso poderia ser perigoso, por razões que eu ainda não posso explicar”.

“Então você e minha mãe tiveram a brilhante idéia de fazer com que eu acreditasse que meu pai nunca quis saber de mim. Perfeito!”, eu ironizei.

“Olha, eu sei que não será uma dúzia ou uma parede de fotos que fará você mudar sua idéia em relação a mim, mas por favor, leve isso em consideração”.

“Por que isso é tão importante pra você agora?”

“Porque o que está prestes a acontecer pode abalar definitivamente nossa relação e eu não quero perder o pouco que temos”. Meio desconfortável com as palavras de carinho vindas de Abe, coisa com a qual eu não estava acostumada, eu fiz caras e bocas e desviei meu olhar, fixando-o na parede enquanto mordia o lábio.

Abe continuou. “Eu não quero que você me chame de pai, nem nada do gênero, Rose. Eu só preciso que você confie um pouco em mim”.

Eu pensei um pouquinho, dei um grande suspiro e voltei a encará-lo.

“Ok, eu tenho algo para você, um pequeno segredo que eu preciso compartilhar com alguém antes que seja tarde.”

“Hmm, um segredo! Eu adoro segredos!”.

“Você pode voltar a ser sério, por favor? Isso é importante!”.

“Mil desculpas, general. O que lhe aflige?”.

Depois de revirar os olhos, eu contei sobre as pessoas que eu e Adrian encontramos em Las Vegas, que diziam conhecer um lado do pai de Lissa que poucos conheciam, envolvendo inclusive relacionamentos extraconjugais dele com mulheres Dhampirs.

“Eles podem estar mentindo, Rose”, Abe me interrompeu. “Além disso o cara está morto. Qual a necessidade de desenterrar essas histórias do passado se ele nem está vivo para se defender?”, ele disse parecendo não estar interessado em apenas fofocas sem importância.

“Por causa disso”, eu respondi, entregando a ele o bilhete de Ambrose. Sem eu precisar pedir, Zmey o leu e à medida que seus olhos corriam pelas linhas, uma ruga de preocupação surgia na testa dele.

“Meu Deus”, ele disse assim que terminou de ler, apesar de ainda manter os olhos no papel. “Rose, você tem certeza de que essa informação é quente? Isso é sério”. Eu encarei o olhar preocupado que ele agora me dava e respondi.

“Eu sei que é sério! É o que lhe disse desde o começo! Quanto à veracidade da informação é o que eu preciso que você descubra para mim, caso aconteça o pior, já que eu não sei se posso confiar na fonte”, eu disse, me referindo a Tatiana. “Porque se houver de fato um Dragomir bastardo solto por aí, os destinos de Lissa e de todos os Morois e Dhampirs podem mudar completamente. Mas como eu disse, trata-se de um segredo. Se essa informação cair nos ouvidos errados, Abe, pode acontecer outra tragédia. Então, pelo amor de Deus, não considere nem a hipótese de usar isso como prova no tribunal, ok?”.

“Por que eu?”, ele quase me interrompeu, de tão súbita que foi a pergunta.

“Qual é Zmey! Não é óbvio para você? Eu mesma faria isso se eu não estivesse correndo o risco de ser executada dentro de algumas horas! E era muito arriscado tentar mandar um bilhete para alguém”.

“Não isso, Rose. Porque você me escolheu para contar esse segredo?”.

“Você tem recursos, conhece pessoas por todo o mundo e ainda assim ninguém sabe dizer exatamente quem você é e ainda o temem. Se existe alguém que pode administrar essa situação, esse alguém é você”. Eu não poderia dizer ao certo, mas Abe parecia frustrado com minha resposta. Infelizmente eu não podia fazer nada, pois ainda não estava pronta para dizer que eu queria confiar nele, que lhe mostrar o bilhete era a prova disso e que eu também gostaria que nossa relação fosse melhor do que essa de cão e gato que temos.

“Isso…”, Abe disse, já de volta aos negócios e mostrando para mim o bilhete que segurava, “… isso muda um pouco as coisas. Eu acho que preciso…”. Abe parou e pensou.

“Acha que precisa….”, eu tentei incentivá-lo a falar mais, o que não ocorreu.

“E- eu, eu sinto muitíssimo, Rose, mas eu acho que preciso ir agora”, ele respondeu parecendo levemente transtornado, já caminhando em direção a porta de entrada do presídio.

Eu tentei chamá-lo mas ele parecia ter ensurdecido ou entrado em transe após ler o bilhete que lhe entreguei.

“Droga!”, eu gritei, tão alto que o som da minha voz chegou a ecoar. A forma como Abe reagiu ao ler o bilhete me deixou preocupada. Tomara Deus que eu tenha feito a coisa certa.

Pelo menos eu não tive muito tempo para pensar sobre isso, pois quinze minutos depois que Abe saiu, os guardas chegaram para me levar ao tribunal. Mikhail estava entre eles, o que eu não entendi, já que a função dele dentro da corte era puramente burocrática. Quando ele me trouxe comida, eu nem questionei, afinal não era um trabalho muito digno de um Dhampir e sim de um serviçal, mas agora? Simplesmente não fazia sentido. De qualquer forma eu estava feliz de ver um rosto conhecido. E foi Mikhail que dirigiu a palavra a mim, assim que me levantei.

“Bom dia, Rose. Você está pronta para irmos? Chegou a hora”.

“Oi Mikhail. Se a hora chegou, não importa muito se eu estou pronta ou não, então vamos direto ao ponto, ok?”, eu o cumprimentei, impaciente. Assim, um dos guardas abriu a grade da cela e Mikhail entrou com uma algema em mãos, obviamente para prendê-las em mim. Quando ele estava perto o suficiente, eu cochichei discretamente para que os outros guardas não percebessem.

“Não me entenda mal, mas o que você está fazendo aqui?”.

“Não tenho a mínima idéia. Apenas seguindo ordens”, Mikhail respondeu ao fechar a algema e, após dar um tapinha no meu ombro, disse: “Tudo certo. Podemos ir”.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 8

Definitivamente chegamos em frente ao tribunal mais rápido do que eu gostaria. Com as mãos algemadas para trás, fechei os olhos e respirei fundo enquanto a porta diante de mim era aberta, mas quando ela não era mais um obstáculo, eu não consegui sair do lugar. De onde eu estava tudo o que eu via era a bancada do júri e a imensa platéia de curiosos e ansiosos expectadores que se levantaram e olharam em minha direção, como se eu fosse a noiva que acabara de chegar para o casamento. Se eu tinha problemas para dar o primeiro passo e definitivamente entrar no tribunal, um dos guardas logo deu um jeito de solucioná-lo, empurrando-me em direção ao longo corredor que levava até o local a mim designado. Mikhail ficou por último e fechou a porta assim que entrou, encostando-se nela, o que me levou a crer que a missão dele terminava por ali, já que apenas os outros guardas me acompanharam. Ok, tudo vai dar certo, eu pensava conforme ia caminhando e via as pessoas me encarando com diferentes expressões.

Eu já imaginava que o tribunal estaria cheio de gente, afinal era esperado que o assassinato de uma rainha gerasse comoção no povo, mas eu não imaginava que fosse encontrar Kirova e Alberta por lá, muito menos estudantes como Jill e alguns de seus colegas. Enquanto alguns pareciam frustrados, como se eu os tivesse desapontado, outros pareciam ter compaixão e lamentavam que eu estivesse passando por isso. Mas era difícil determinar quem me considerava culpada ou não.

Não demorou muito para que eu avistasse meus amigos, mais adiante. Lissa estava agarrada no braço de Christian como se precisasse de forças, Mia roía as unhas, visivelmente nervosa e Eddie a confortava, apertando de leve a mão dela que estava livre, trazendo-a para perto de si. Adrian era o único que parecia inabalável, embora eu imaginasse que ele seria o mais transtornado de todos, considerando o que havia acontecido entre nós dois no sonho da última noite. Eu ainda estava assimilando a idéia de que, de alguma forma, nós havíamos tido nossa primeira vez e agora, pensando melhor, eu não tinha mais tanta certeza de que aquela atitude fora inteligente.

Dimitri voltou a fazer parte da minha vida como um caminhão atingindo um muro em alta velocidade. Eu  estava abalada, confusa e meus sentimentos em relação a ele ainda oscilavam entre amor e repúdio num piscar de olhos, ou seja, era inevitável que meus sentimentos por Adrian também estivessem passando por um constante balanço. Nesse exato momento, por exemplo, ao invés de sentir borboletas no estômago, eu me sentia intimidada pela forma como Adrian me olhava. Porém, analisando melhor, percebi que ele não olhava para mim, e sim através de mim, o que geralmente acontece quando ele está instigado com alguma mudança na cor da minha aura. Estaria ele percebendo toda essa inconstância emocional?

Falhando em manter a calma, eu me dei por conta de que não estava preparada para isso. Na verdade, nenhum dos meus amigos estava, o que me deixou um pouco chateada, afinal eu não queria ser a responsável por eles estarem se sentindo da maneira que estavam. Por muito tempo eu achei que não passava de uma garota popular às custas de um corpo bonito ou pais influentes, mas em situações como essa, onde eu estava vendo pessoas tentando parecerem fortes, escondendo a preocupação delas para o meu próprio bem, eu tenho a certeza de que eu não conquistei fãs ou seguidores ao longo dessa jornada, eu conquistei verdadeiros amigos. Céus, como eu vou sentir falta de cada um deles, eu pensei, com um nó se formando na minha garganta, já imaginando o pior. Eu queria sair dali correndo, mas não podia.

Meus olhos começaram a encher de lágrimas e antes que eu pudesse pensar em contê-las, elas já estavam correndo pelo meu rosto. Como uma avalanche, tudo o que eu vivi dentro e fora de St. Vladimir veio à tona: amizades, inimizades, amores, lutas, batalhas, vitórias e derrotas. Eu queria mais, mais um pouco de cada uma dessas coisas. Assim, dizendo a mim mesma que lutaria até o fim e não me deixaria abater por essa injustiça, afinal Rosemary Hathaway não é uma desistente, ergui a cabeça e engoli o choro que insistia em tomar conta de mim, deixando que apenas mais algumas lágrimas escapassem. E segui caminhando em direção ao tribunal para enfrentar, talvez, a pior das minhas batalhas.

Logo adiante era possível ver os membros da elite real, todos sentados em seus devidos lugares, esperando que o espetáculo começasse. De repente, uma sombra cruzou meu caminho obrigando eu e, conseqüentemente, os guardas atrás de mim, a pararmos. Por um instante eu não acreditei no que os meus sentidos registravam mas, sim, era ele. Dimitri.

Olhando diretamente nos meus olhos com uma expressão dura, ele deu dois passos a frente, parou por um breve momento e levou uma de suas mãos até minha face esquerda. Algemada, fugir do toque de Dimitri era uma tarefa complicada, mas ainda assim eu tentei afastar meu rosto da mão dele, virando a cabeça conforme ele insistia em tocar meu rosto. Eu não estava tentando evitá-lo. É que era insuportável demais a dor que eu sentia por tê-lo tão perto de mim e agindo de forma tão afetuosa depois de tudo que havia acontecido entre nós.

Eu já não conseguia mais suportar aquilo e a cada tentativa dele de tocar meu rosto era uma lágrima que eu deixava escapar sobre seus dedos. Na terceira vez, ele segurou firmemente meu queixo com uma única mão, me obrigando a erguer os olhos na sua direção e, ao vê-lo me admirar, preocupado, com aqueles olhos castanhos, eu desisti de lutar e deixei que ele acariciasse meu rosto sob o pretexto de enxugar minhas lágrimas.

“Você é uma Dhampir e Dhampirs não choram. Apenas… apenas não chore, ok?”, Dimitri disse entre os dentes, parecendo irritado. Mas conhecendo-o bem, eu sabia que aquilo não passava de puro nervosismo por me ver desequilibrada daquele jeito. Eu apenas acenei com a cabeça, para não correr o risco de acabar chorando novamente e respirei fundo mais uma vez. Dimitri me largou e, antes de sair do meio do caminho colocou, atrás da minha orelha, uma mecha de cabelo que havia se soltado. Eu fechei os olhos brevemente, recordando que ele costumava fazer isso com freqüência para me lembrar de que eu precisava prender o cabelo durante os treinos, quando na verdade ele somente queria poder sentir a textura macia dos meus cabelos entre seus dedos. Bons tempos.

Eu abri novamente os olhos quando Dimitri deu dois tapinhas sobre meu ombro, me desejou boa sorte e se afastou, enquanto meus olhos o acompanhavam voltar para a platéia, que nos assistia de forma curiosa. Foi quando eu notei a presença da minha mãe na primeira fila, ao lado do Moroi que ela, há anos, protege. Será possível que ela o obrigara a vir ao julgamento para que pudesse protegê-lo ou ele estaria presente por livre e espontânea vontade, já que, como um cidadão Moroi, o assunto lhe dizia respeito? Não importa, minha mãe estava ali, séria como sempre, com braços e pernas cruzados e uma expressão de dar medo. Se não fossem seus dedos batendo compulsivamente contra o braço sobre o qual a mão dela estava apoiada, denunciando nervosismo, eu juraria que Janine Hathaway estava furiosa com a cena que acabara de presenciar entre eu e Dimitri. Porém, a essa altura, se alguém desconfiasse do que houve entre nós no passado, eu pouco me importava, pois já sou maior de idade, formada e estava fora dos limites da escola, ou seja, não devia satisfação da minha vida para ninguém. Além disso, Dimitri havia deixado claro que não queria mais nada comigo, então era bem provável que esse gesto tenha sido em nome do que, um dia, ele sentiu por mim. E eu estava grata por isso.

O som das algemas sendo abertas me trouxe de volta a realidade. À minha frente estava uma mesa com duas cadeiras e em uma delas Abe estava sentado confortavelmente, como se estivesse somente esperando que lhe servissem um cafezinho. O que aconteceu com o Abe transtornado que eu havia visto algum tempo atrás, eu não fazia a menor idéia. Nada contra o comportamento excêntrico geralmente manifestado pelo meu pai, mas será que ele não poderia pelo menos se mostrar um pouco preocupado com a minha situação, como todas as outras pessoas que se importam comigo? Ignorando-o completamente, convencendo-me de que não valia a pena a indignação, puxei a cadeira com minhas mãos, agora livres, me acomodei e olhei em volta.

Diante do conselho estava a promotora de justiça Íris Kane, a vaca que apresentou minha estaca como evidência determinante para eu estar aqui hoje. E quanto ao conselho, bem, os onze membros representantes das famílias reais estavam lá sentadinhos como manda o script, prontos para erguerem suas mãos e tornarem minha vida um verdadeiro inferno.

Sem perder tempo, Paula, a mesma juíza que conduziu minha audiência, surgiu do nada segundos após eu encostar a bunda na cadeira. Isso não poderia ser um bom sinal. Se ela concordou com a minha prisão preventiva até o dia do julgamento mesmo sem esclarecermos a origem daquela estaca apresentada como a arma do crime, as chances de eu me safar da condenação fatal nesse julgamento eram quase nulas.

“Olá a todos. Estamos aqui reunidos novamente para o julgamento de Rosemary Hathaway, acusada de traição real pelo assassinato da rainha Tatiana”, pronunciou-se Paula, a juíza que por razões que eu prefiro desconhecer, conhecia Abe talvez até demais. Ela continuou. “Porém antes de darmos início ao processo, eu gostaria de chamar os integrantes do conselho internacional de guardas reais para compor o júri”. Eu senti minha testa franzir a medida que o termo foi sendo pronunciado. Mas que Diabos? Conselho internacional de guardas reais? Será possível que além da existência dos alquimistas essa era mais uma lição secreta que eu perdi enquanto estava fora, na Rússia, caçando Dimitri?

De uma porta lateral saíram cinco guardas reais, três homens e duas mulheres, todos vestidos de preto, que se dirigiram até a bancada do júri. Ao mesmo tempo eu percebi uma movimentação atrás de mim e, ao virar para ver o que estava acontecendo, logo entendi o motivo de tanto alvoroço. Alberta estava saindo da platéia e indo ao encontro deles.

“Meu Deus”, eu disse, mal conseguindo fechar a boca. “Que diabos é isso?”.

Entendendo que a pergunta havia sido feita a ele, Abe respondeu baixinho, parecendo finalmente ter percebido que não estava mais sozinho ali.

“Quem você acha que controla e avalia as ações dos Dhampirs do mundo inteiro? O Papa?”, Abe respondeu ironicamente. “Esse conselho só é acionado quando realmente necessário, por isso poucas pessoas sabem da existência dele. O que você precisa entender é que hoje você não será julgada apenas por Morois, mas por Dhampirs também”.

“Eu estou tão ferrada”, eu balbuciei, incrédula, lembrando das aulas da academia, onde os professores faziam questão de repetir por vários anos, ao contrário de certas informações relevantes que eles parecem ter esperado eu fugir da escola para revelar, que toda ação considerada ilegal cometida por um Dhampir seria devidamente julgada e punida de acordo com a gravidade da mesma. Eles apenas não especificaram como, mas aqui estava eu para uma demonstração prática do processo. Eu até consigo ouvi-los dizer que o senso de justiça se faz presente no nosso mundo para o estabelecimento da paz e segurança e que toda punição aplicada tem como objetivo manter a ordem e a civilidade exigida pela sociedade. Bando de papagaios. Será que ninguém parou para pensar que o senso de justiça poder ser corrompido por valores de maior importância, como ganância e poder? São em crenças antigas, talvez até por isso ingênuas, como essa  freqüentemente verbalizada pelos meus professores, que se baseiam, até hoje, nossas leis. Talvez no tempo em que minha mãe ainda estava aprendendo como segurar uma estaca elas ainda funcionassem para impor respeito e ordem, mas os tempos agora são outros e a única coisa para qual servem essas leis é privilegiar os mais espertos e poderosos que estão dispostos a usar isso a seu favor. E era exatamente o que alguns Morois estavam fazendo: me usando para justificar um caos que eles estavam estabelecendo a fim de interesses próprios.

E para quem pensa que um conselho formado por Dhampirs pode ser a minha salvação precisa saber que Dhampirs são tão severos quanto Morois no julgamento de atos envolvendo falta de disciplina, moral e ética, como o assassinato de uma rainha. Talvez até mais, pois cometer um crime que vai contra tudo aquilo que é pregado na formação de um Dhampir, mancha a reputação de todos os guardiões como uma só unidade. Se punir um dos seus, mesmo que injustamente, for a solução para manter as coisas em ordem, eu não ficaria surpresa se esse conselho de guardiões apoiasse minha condenação e ainda se oferecesse para realizar a execução. Crueldade? Não, acho que isso tem outro nome. Selvageria.

Talvez a única pessoa que pudesse fazer diferença nesse cenário é Lissa, caso ela assumisse um lugar, que na verdade lhe é de direito, entre os membros do conselho real. Entretanto, sem termos investigado o paradeiro desse possível irmão ou irmã dela, é inviável exigirmos tal coisa. Eu espero que Abe, o único com quem eu dividi a informação que me foi passada por Ambrose, saiba o que fazer caso aconteça alguma coisa comigo que me impeça de buscar a verdade. Ele pode ter todos os defeitos do mundo, mas burro eu sei que ele não é. Abe sabe da importância de alguém como Lissa ter poder de voto entre as famílias reais do conselho e, tendo contatos por todo o mundo e alguém sempre lhe devendo um favor, eu imagino que não seja tão difícil para ele desvendar esse mistério. Só espero que seja rápido, pois os tempos realmente estão mudando, mas isso não significa que estejamos andando para frente.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 9

O julgamento começou mas eu ainda estava com a minha cabeça em outro lugar. Os burburinhos que eu ouvia não me incomodavam, mas foi impossível ignorar o irritante tom de voz que só poderia pertencer a uma pessoa.

“Sua excelência, eu gostaria de fazer mais algumas perguntas a ré”, Íris Kane dirigiu sua palavra a juíza.

“Pois não, prossiga”, Paula respondeu e Íris estufou o peito como quem estivesse muito segura do que iria me dizer.

“Eu gostaria de saber se a sua estaca foi encontrada, senhorita Hathaway, já que na audiência você não pôde afirmar com certeza se a estaca cravada no coração da rainha era a sua”, ela disse com o tom mais irônico possível, me tirando do sério nos primeiros minutos de julgamento. É melhor você cuidar o que fala, seu projeto de barbie, pois hoje eu não estou num bom humor, eu pensei. Apesar de querer arrancar fora a cabeça dessa promotora, eu contei até dez  e respondi.

“Bom, acho que você está bem ciente de que eu estava presa em uma cela desde a audiência até agora a pouco, logo eu não tive a oportunidade de procurá-la como eu gostaria. Mas não, até agora ninguém encontrou minha estaca”.

“Isso quer dizer que ainda é grande a chance da estaca que matou a rainha ser sua, não é mesmo?”.

“Na verdade eu diria que a chance de alguém ter roubado minha estaca ainda é muito grande”. Íris franziu a testa, curiosa com a nova informação.

“O que você está insinuando?”. Íris questionou. Colocando uma mão sobre meu braço para que eu não respondesse, Abe levantou-se e se pronunciou.

“O que Rose está querendo dizer é que ela não pode ter cometido esse crime porque sua estaca desapareceu do quarto dela dias antes do crime acontecer”.

“Eu não lembro de ver nenhuma ocorrência registrando o fato”, pontuou a juíza.

“Isso é porque ela não sabia que a estaca não estava lá, meritíssima”.

“Quão conveniente é esse argumento, não é mesmo, senhor Ibrahim?”, Íris se intrometeu. Ignorando o comentário provocativo, Abe seguiu com a explicação dos fatos sem sequer alterar a voz. Ah, se eu tivesse uma parcela desse auto-controle!

“Nos dias que antecederam esse trágico crime envolvendo a rainha, minha cliente estava passando por situações bastante estressantes. Acredito que todos também lembrem do recente episódio onde a princesa Vasilisa Dragomir foi seqüestrada por um grupo de Strigois, sendo um deles Dimitri Belikov, ex-instrutor de Rose”.

“Sim, certamente lembramos desse incidente, senhor Ibrahim, mas não vejo como isso pode estar relacionado com a estaca de sua filha”. Ouvir a juíza se referir a mim como sendo filha de Abe soou estranho aos meus ouvidos, parecendo que estávamos na sala da diretora da escola discutindo sobre alguma arte que eu havia aprontado.

“É compreensível que uma jovem de 18 anos ainda se deixe levar pela emoção de ver a princesa Dragomir, sua melhor amiga e quem ela possivelmente protegeria no futuro, nas mãos de um Strigoi que um dia foi a pessoa que lhe ensinou a lutar, não é mesmo?”

“Nós apreciaríamos muito se você poupasse nosso tempo indo direto ao assunto, senhor Mazur”.

“O que eu quero dizer é que se não houve um registro de desaparecimento daquela estaca foi porque Rose estava emocionalmente envolvida com o fato de Vasilisa Dragomir ter trazido Dimitri Belikov de volta a vida e não percebeu que sua estaca havia sumido até a rainha Tatiana aparecer morta”.

“Bem, eu acho quem poderia comentar sobre isso são os membros do conselho internacional de guardas reais, não é mesmo?”. Um homem que eu não conhecia levantou-se e sem pensar duas vezes deixou bem claro sua posição.

“Certamente entendemos a situação em que Rose estava, mas como uma guardiã já formada, era responsabilidade dela cuidar da sua ferramenta de trabalho e reportar o desaparecimento da mesma, se fosse o caso. E pelo visto era. Se ela se descuidou por estar emocionalmente envolvida com a situação, não há nada que possamos fazer a não ser adverti-la por esse comportamento inadequado”.

“Que certamente não é o primeiro dela.”, interrompeu Íris. ”Rose podia ter excelentes notas nos treinos físicos, mas ela era bem conhecida por não conseguir controlar devidamente seu temperamento e suas emoções”.

Mas que cadela! Eu estava prestes a soltar um nome feio no meio do tribunal, provando a todos que Íris tinha razão, quando vi Alberta levantar-se de onde estava sentada, dando indícios de que se pronunciaria também a respeito do comentário de Abe. Eu ainda estava embasbacada. Quem diria que ela faria parte de um conselho tão secreto e importante como esse? Em outro momento eu acharia isso o máximo e ficaria orgulhosa por saber que alguém da minha escola e que participou ativamente da minha educação fazia parte de uma coisa dessas, mas levando em conta minha atual situação, eu apenas engoli seco e temi pelo que viria.

“Com licença”, Alberta disse educadamente, chamando para si a atenção de algumas pessoas que começavam um burburinho na platéia. “Estou aqui hoje não só em nome deste conselho, mas também em nome da escola St. Vladimir, onde Rose estudou desde muito pequena até o final da sua formação. É necessário que todos saibam que em nossa escola sempre pontuamos a importância de um guardião manter sua estaca junto consigo ou pelo menos em algum lugar de sua confiança. Certamente é inadmissível que um guardião perca sua estaca de vista e demore dias para sentir sua falta. Não se trata de erro, mas de algo mais grave chamado irresponsabilidade”.

Ai, ai, esse discurso não começou bem.

“Eu tive a oportunidade de acompanhar de perto o treinamento de Rose e eu posso dizer sem pensar duas vezes, que essa jovem é impulsiva, um pouco impaciente e teimosa como uma porta. Não posso negar que ela esteve, sim, envolvida em alguns incidentes onde lhe faltou um pouco de bom senso, porém eu posso afirmar, com toda a certeza, que ela é mais responsável do que muitos guardiões bem mais experientes do que ela. Rose pode ter cometido o erro de se descuidar e permitir que sua estaca desaparecesse e, se foi isso o que aconteceu, eu mesma faço questão de dar a devida advertência a ela. Mas, pelo amor de Deus, isso não faz dela uma assassina!”.

Virando-se em direção aos membros das famílias reais, Alberta continuou seu discurso. “E o que me deixa mais revoltada é que vocês sabem disso! Eu não entendo como vocês, que se preocupam tanto com a segurança da sua raça, têm coragem de sacrificar a vida e a carreira de uma das guardiãs mais competentes da nova geração. O que vocês estão fazendo é uma ofensa a todos os Dhampirs que um dia deram a vida para proteger vocês e é em respeito a eles que me nego a fazer parte dessa palhaçada. Acreditando que deixei clara a minha opinião sobre este caso, eu gostaria de anunciar que estou deixando meu cargo no Conselho Internacional de Guardas Reais, consciente e orgulhosa de, até hoje, ter ajudado a promover apenas justiça.”, Alberta finalizou seu discurso, retirando-se da bancada do júri e dirigindo-se novamente à platéia, sentando-se curiosamente ao lado de Dimitri, que a olhava com admiração e choque ao mesmo tempo. Ele não era o único, porém. O impacto das palavras de Alberta acabou gerando um alvoroço no tribunal.

“Ordem, por favor”, disse em voz alta, a juíza. “Eu não acho que você tem autorização para tomar uma decisão dessas, guardiã Alberta”.

“Com todo o respeito, meritíssima, eu não lembro de ter solicitado nenhuma autorização. Além disso, a senhora está equivocada. Eu não preciso de uma”, Alberta respondeu com um sorriso sarcástico que eu nunca vi em seu tosto antes e que, por sinal, lhe caiu muito bem. O caos tomou conta da multidão que assistia ao julgamento, obrigando a juíza a pedir um recesso até que todos acalmassem os ânimos.

Durante esse intervalo eu fiquei exatamente onde estava, já que não tinha permissão para sair de dentro do tribunal. Alguns segundos depois eu percebi que Abe se virar em minha direção.

“Rose, eu preciso que você preste bem atenção no que eu vou lhe dizer”. Finalmente ele resolveu agir como alguém que estava interessado em me defender. Abe prosseguiu.

“Isso não vai acabar bem”. Ok, talvez eu tenha me enganado.

“Oh, verdade?”, respondi com o máximo de ironia possível. Com um advogado como ele, o conselho conseguiria condenar até mesmo uma criança pelo assassinato da rainha, eu pensei, indignada. Abe não perdeu mais tempo do que o necessário para revirar os olhos devido a minha resposta e continuou.

“Você lembra de quando eu disse que o seu papel era…”

“Ah, por favor, não me venha com aquele papo filosófico de novo, Zmey!”. Eu tive que interrompê-lo porque eu simplesmente não tinha mais paciência para decifrar as indecifráveis mensagens subliminares das histórias dele. Contudo, eu não imaginava que isso fosse perturbá-lo tanto assim.

“Isso é maior do que você imagina, Rose”, Abe segurou minha mão com uma força que eu não acreditava vir daqueles esguios braços herdados da genética dos Morois. “E algo dessa magnitude simplesmente não acontece da noite para o dia. Lembre-se de que as maiores e mais poderosas revoluções geralmente começam silenciosamente, escondidas na escuridão. Eu só quero que você se prepare, porque a nossa…”, Abe disse ao olhar para a juíza, que estava de volta ao tribunal, “… está prestes a começar”.

E no momento que Abe terminou talvez o seu mais misterioso discurso, Paula deu continuidade ao julgamento, batendo com força o martelo de madeira contra a mesa, chamando a atenção de todos, provavelmente, menos a minha. Durante alguns segundos meus olhos ficaram vidrados nos de Abe e eu senti um frio percorrer minha espinha.  Algo sobre o que ele disse a respeito de revoluções começarem silenciosamente escondidas na escuridão me soava familiar, como se eu já tivesse ouvido aquilo em algum outro momento, mas quando? E que diabos isso poderia significar? Algumas marteladas a mais depois a juíza conseguiu minha atenção e o silêncio ensurdecedor de todo o tribunal. Satisfeita com o resultado, Paula finalmente falou.

“No intuito de agilizar o julgamento, eu gostaria de saber da promotoria e do advogado de defesa se algum dos dois tem mais alguma informação ou prova de suma importância para o caso”. Abe e Íris trocaram silenciosos olhares, o que deve ter sido interpretado como um “não”, já que diante disso Paula anunciou que o júri aproveitara o momento de recesso para analisar tudo que havia sido dito e apresentado até o presente momento e que se não houvesse mais nada a ser declarado contra ou a meu favor, eles estariam prontos para anunciar o veredicto.

Assustada com a repentina mudança de planos, olhei para Abe, que já me encarava tranqüilamente como se soubesse que eu buscaria alguma espécie de conforto nele, apesar de tudo. Ao baixar levemente sua cabeça, como se tivesse me cumprimentando à distância, um gesto que eu interpretei como “tudo vai dar certo”, eu vi um breve e singelo sorriso surgir no canto da boca de Abe. Curiosamente aquilo me confortou. Seria a certeza de que realmente tudo daria certo ou a aceitação de que o fim havia chegado de fato?

Um representante do conselho Moroi levantou-se ao comando da juíza e limpou a garganta antes de falar.

“Após analisar cuidadosamente tudo o que foi evidenciado neste tribunal, chegamos a conclusão de que os argumentos utilizados pela defesa foram superficiais demais e nada conclusivos ou elucidativos. Além disso, nenhum álibi a favor da acusada foi confirmado. Por sua vez, existem registros que denunciam o comportamento nada exemplar da senhorita Hathaway em diversos contextos envolvendo a rainha Tatiana, incluindo uma recente ameaça pública a mesma. Existem, também, provas concretas e praticamente irrefutáveis apresentadas pela promotora Íris Kane, como fotos da cena do crime, onde a arma utilizada foi encontrada com as digitais da ré. Por isso, e considerando tudo o que foi citado, declaramos Rosemary Hathaway culpada pelo assassinato da rainha Tatiana, crime caracterizado por traição real. Sendo assim, determinamos que a pena aplicada a ela deve ser a mesma prescrita pela lei regente em casos como esse”.

Por um momento eu não conseguia respirar.

“Execução”, ele finalizou.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 10

No instante que a sentença foi anunciada, outro alvoroço tomou conta da multidão e desta vez a juíza teve dificuldades em impor ordem, pois as pessoas saíam de seus lugares e falavam alto entre si, comemorando ou protestando sua decisão.

No meio desse povo todo, vi minha mãe levantar-se sem dizer uma palavra e caminhar rapidamente em direção a porta do tribunal, como se soubesse exatamente onde estava indo, deixando a ver navios o Moroi com quem ela costuma passar mais tempo do que passou comigo a minha vida inteira, ou seja, a coisa era realmente séria. Estaria ela indo atrás de algum último recurso ao qual ela só recorreria em um caso extremo como esse? Era isso ou ela havia lembrado de outro compromisso ao qual ela não poderia faltar. Ainda que a segunda opção parecesse a mais coerente com o comportamento dela nos últimos anos, foi na primeira que eu depositei todas as minhas esperanças. Qual é, a única filha dela acabara de ser condenada a execução! Nem mesmo Janine Hathaway pode ter um coração tão frio assim! Pelo menos eu acho que não.

Sentindo alguém tocar meu ombro esquerdo, eu dei um pulo devido ao nervosismo e ao me virar quase acertei, acidentalmente, um tapa no rosto de Abe, que ergueu as mãos como se estivesse sendo rendido. Vê-lo nessa posição acabou me irritando, pois ele havia me garantido que não permitiria que eu acabasse presa ou executada e adivinha só? Eu passaria pelas duas coisas! E por culpa dele, que subestimou o poder judiciário da nossa raça e certamente superestimou a própria capacidade de exercer poder sobre as pessoas.

“Calma aí, garota. Eu não sou o vilão aqui”, Abe disparou, usando o seu gracioso tom de brincadeira.

“Mas certamente você mente e age como se fosse um”, eu respondi, inclinando levemente minha cabeça para o lado e dando um passo em direção a ele, fazendo o possível para meu olhar parecer como o de uma psicopata. Se Abe estava se sentindo ameaçado, ele não demonstrou, pois se manteve imóvel diante de mim com seus braços cruzados, indiferente.

“Por que você está dizendo isso?”, ele perguntou. Eu não respondi. Em silêncio, lentamente dei mais um passo na direção dele, com meus braços caídos ao longo do corpo; punhos cerrados com tanta força que eu sentia o cravar de minhas próprias unhas nas palmas das mãos.

“O que deu em você, Rose?”. As palavras que saíram da boca dele fizeram meu sangue ferver, me obrigando a dar um terceiro e último passo. Abe finalmente reagiu a minha aproximação, tranqüilamente descruzando os braços, colocando as mãos no bolso e recuando um pouco. Apesar disso ele não desviou os olhos dos meus, ainda aguardando minha resposta. A essa altura eu não estava mais me importando com o que poderia acontecer comigo e quando vi que os dois guardas que deveriam estar me observando estavam ocupados controlando a agitação da platéia, eu aproveitei para descarregar em Abe tudo aquilo que eu até agora estava segurando, uma mistura de frustração com desespero.

“O que deu em mim… Você está perguntando o que deu em mim?”, eu vociferei em direção a Abe, levando minhas mãos até o seu casaco e agarrando-me com toda força na gola dele. “Eu estou sendo condenada a morte por um crime que eu não cometi e eu tenho um pai imprestável como você! Ira, Zmey, isso é o que deu em mim”, eu gritei enquanto sacudia Abe, que se deixou ser atacado por mim  sem sequer tirar as mãos dos bolsos.

Eu queria cravar minhas unhas no pescoço dele a medida que o sacudia, eu queria gritar em voz alta que ele foi o responsável por eu estar sendo condenada e que eu gostaria imensamente que a dor da culpa o corroesse por dentro durante cada dia que ele acordar respirando. Mas, como era de se esperar, antes que eu pudesse dizer um terço do que eu gostaria, senti um par de mãos me segurando com força, me afastando facilmente de Abe. Eu tentei resistir, mas estava descontrolada e sendo vencida pela emoção, portanto eu não tinha a menor condição de lutar contra alguém. A raiva trouxe lágrimas aos meus olhos e elas embaçaram tanto minha visão que eu não percebi inicialmente que quem estava me segurando não era nenhum dos guardas da corte real, mas Dimitri. Provavelmente ele havia pulado a divisória entre a platéia e o júri quando me viu olhar para Abe de forma ameaçadora.

“Ok, Rose, chega!”, ele disse, segurando firmemente meus braços para trás. Ouvir a voz dele falar meu nome foi mais eficiente do que qualquer técnica de imobilização. “Você quer mostrar a eles o quanto é desequilibrada? Pois você está fazendo um ótimo trabalho”, ele completou sarcasticamente.

“Como se eu tivesse alguma coisa a perder”, eu respondi a ele.”Me solta!”.

“Sinto muito, Roza, não até você se acalmar”. Eu me arrepiei toda ao ouvir ele me chamar por aquele nome. Ter ele tão próximo e me chamando assim depois de tanto tempo? Sem chances de ficar calma! Eu estava a beira de um ataque de nervos, isso sim. Bem ou mal era a primeira vez que Dimitri realmente me tocara com alguma intenção, mesmo que a de impedir que eu esganasse meu próprio pai, desde que voltou a ser um Dhampir. Um lado meu queria ficar ali, nos braços dele, para sempre, mas o outro lado, o racional, me lembrou das duras palavras de Dimitri dizendo que não sentia mais nada por mim. E se ele estava me segurando era apenas para impedir que eu agredisse Abe fisicamente, nada mais. Então eu fechei os olhos e expeli pela boca o resto de ar contido nos meus pulmões em um sopro único e forte. Sentindo meu corpo relaxar, Dimitri me soltou imediatamente.

Quando senti que estava livre, eu abri os olhos e não sabia mais o que fazer, pois se eu olhasse para frente teria que encarar Abe e se eu virasse para trás certamente daria de cara com Dimitri, que fez o favor de dar um fim na situação.

“Está tudo bem com você?” , ele perguntou, ainda atrás de mim.

“Você só pode estar brincando comigo!”, eu disse, ao criar coragem para me virar e reclamar, indignada, da falta de noção das perguntas dos dois.

“Eu estou falando com o seu pai”, Dimitri respondeu, fazendo com que eu me sentisse a pior das criaturas por pensar que a palavra estava sendo dirigida a mim. Ele estava apenas fazendo o que sempre fizera, afinal. Proteger Morois daqueles que podem significar uma ameaça a eles, seja um Strigoi ou uma filha desequilibrada emocionalmente.

“Estou bem sim, Belikov. Eu não acredito que ela teria coragem de ir até o fim com aquela brincadeirinha de mau gosto, mas ainda assim eu agradeço por você intervir. E você foi muito rápido, uma qualidade e tanto para um guardião. Não é a toa que minha filha se interessou por você.”

Eu olhei para Abe com a boca escancaradamente aberta enquanto eu sentia um calor anormal tomar conta das minhas bochechas, que provavelmente estavam adquirindo uma coloração rosada naquele momento. Assim que eu recobrei os sentidos, tudo que eu consegui expressar foi um “qual é o seu problema?”.

Com malícia no olhar, Abe respondeu: “Agora sim, estamos quites”. Minha boca caiu aberta novamente.

“Seu vingativo desgraçado!”, eu deixei escapar. Para minha surpresa, quando eu olhei novamente para Dimitri, para ver se ele já estava arrependido de ter impedido que eu esganasse Zmey, eu vi que ele achava graça de toda a situação. Porém, quando percebeu que eu o observava, sua expressão foi mudando gradativamente até se fechar por completo. Parecendo incomodado, Dimitri levou sua mão à cabeça, fingiu coçá-la de leve e por fim desviou o olhar, deslizando os dedos por entre os fios de cabelo, da raiz até as pontas. Chegando a base do pescoço, apertou-o de leve, como se massageasse a si próprio por um instante e deixou que seu braço literalmente caísse junto ao seu corpo. É, definitivamente incomodado.

O som das constantes marteladas que a juíza dava contra a mesa me trouxe de volta a realidade: eu ainda estava no tribunal esperando que a ordem fosse restabelecida, o que estava começando a acontecer. Depois de um tempo considerável finalmente a juíza se fez ouvir, exigindo que todos os que haviam saído de seus lugares retornassem a eles, incluindo Dimitri, anunciando em seguida que, como de costume, a execução se daria em um centro reformatório para Dhampirs, localizado em uma cidade do estado de Nevada, assim que eu chegasse lá. Para todos os fins, estávamos partindo imediatamente.

Acho que estou começando a entender porque minha mãe deixou o tribunal daquele jeito. Esse não era o primeiro julgamento ao qual ela assistira, logo ela sabia para onde eu seria levada no momento em que fui oficialmente declarada culpada pelo assassinato da rainha. Ela deve ter saído para providenciar seu deslocamento até lá antes que a busca por transporte se tornasse um caos, pois é incrível como a curiosidade de algumas pessoas faz com que elas viajem quilômetros só para prestigiarem a tragédia alheia.

Com o julgamento oficialmente encerrado, eu fui levada novamente para a prisão, até que o avião que me transportaria até Nevada fosse preparado. Sim, a viagem seria feita de avião para evitar que eu escapasse e também para evitar que algum Strigoi aparecesse no meio do caminho e me matasse acidentalmente. Não que eles se preocupassem comigo, eles apenas queriam se certificar de que eu morreria pela forma como a lei ordenara.

Abe me acompanhou em silêncio até a cela, juntamente com dois brutamontes da guarda real. Chegando lá, ele pediu um momento de privacidade a eles pois, como meu pai, queria ter uma última conversa comigo. Agora ele decidiu ser meu pai? Sinceramente, eu não sabia que Morois podiam ser bipolares. Se bem que nesse caso eu acho que o diagnóstico de Abe seria o de transtorno de personalidades múltiplas ou como já dizia uma certa musica, uma verdadeira metamorfose ambulante. Não é a toa que minha mãe disse que meu pai não fez parte da minha vida por questões de segurança. O homem é completamente fora da casinha! Ainda assim ele atraia a atenção de quem ele quisesse, com um simples estalar de dedos. Foi assim que ele conseguiu que os guardas nos deixassem a sós.

“Eu tenho uma coisa para você”, ele começou a conversa.

“Mesmo?”, eu perguntei ironicamente, revirando os olhos para  deixar bem claro que eu não fazia questão de saber o que ele queria de mim. Com seu talento nato para ignorar minhas provocações, Abe colocou a mão por dentro de seu casaco e retirou de lá uma pequena corrente com um pingente prateado.

“Sua amiga Vasilisa pediu para eu lhe entregar isso caso acontecesse o pior”, Abe disse, estendendo sua mão em minha direção. Eu franzi a testa em resposta.

“Não adianta fazer cara feia, Rose. Eu estou apenas cumprindo ordens. Ela disse que o pingente está enfeitiçado e ao usá-lo você não sentirá dor”. Ah, agora  a conversa começou a fazer sentido. Lissa e seu novo hobbie de enfeitiçar objetos de prata. Durante um tempo eu duvidei da eficácia desses amuletos que ela criava, mas depois do que eu vi ela fazer com aquela estaca que trouxe Dimitri de volta a vida, eu tinha certeza de que o colar que Abe segurava me ajudaria de alguma forma. Sem pensar duas vezes, estiquei meu braço, peguei o colar e o pendurei no pescoço. Observando de perto o pingente que Lissa havia enfeitiçado, constatei que ironicamente se tratava de uma serpente com duas cabeças, cujos olhos eram representados por pequenas pedrinhas vermelhas. Zmey, a serpente, eu pensei, colocando a corrente por dentro da blusa para que ela não chamasse a atenção de ninguém. Satisfeito, meu pai olhou-me mais uma vez e deu um breve sorriso.

“Bem, então eu acho que vejo você mais tarde”, Abe despediu-se como se fôssemos nos encontrar em breve para tomarmos o chá das cinco juntos. Dando lentos passos largos que ecoavam pelo corredor, ele foi se dirigindo à saída da prisão.

“Abe, espera!” – eu gritei sem saber exatamente o que me levou a fazer aquilo, percebendo, ao mesmo tempo, que eu estava com a mão sobre o pingente da corrente que ele havia me dado. Parecendo estar feliz por me ouvir chamá-lo, Abe deu meia volta e parou, estático, diante de mim.

“Por acaso, eu acabei de ouvir meu nome?”, ele perguntou, com seu típico sorriso malicioso na boca.

“Sim, você ouviu. Eu quero saber uma coisa.”

“Que é…?”

“C- como… C-como eles vão….você sabe.”

“Executar você?”, Abe completou minha pergunta sem sequer hesitar. Um frio percorreu minha espinha.

“Sim”, eu respondi.

“Já que você insiste em saber… Será exatamente como a execução de um inimigo, pois é como todo acusado de traição real é visto perante a justiça”. Eu senti meus olhos saltarem do rosto.

“Você está me dizendo que eles vão me matar como se eu fosse um Strigoi? Com uma estaca no coração?”, eu questionei, exaltada com o choque da informação.

“Eu sei, é meio irônico, não? Matar um Dhampir justamente com uma estaca no peito. É até mesmo simbólico, você não acha?”. Eu estava começando a acreditar que Abe não dizia o que dizia com a intenção de me irritar. Ele devia ser apenas uma pessoa completamente insensível mesmo! Não é possível que alguém possa ser tão sem noção assim!

“E além disso…”, ele continuou.

“O que? Ainda tem mais?”, eu interrompi Abe antes que ele completasse sua frase.

“Já que você tocou no assunto, sim, tem mais uma coisa que você deve saber sobre a execução”. Pela expressão de Abe eu senti que não era nada bom.

“Tudo bem, Abe. Eu quero saber se tudo que vai acontecer”. Eu o incentivei a continuar, pois ele parecia inseguro quanto ao que dizer, o que me deixou preocupada. Mas depois do que ele já me disse, o que poderia ser pior?

“É que faz parte do ritual de execução que o condenado seja morto pelo Dhampir responsável pela suposta falha na sua educação. A filosofia basicamente é esta: você morre pelas mãos de quem teoricamente lhe ensinou tudo o que você sabe. É como se você estivesse aprendendo uma última lição, entende? Como eu disse, é tudo muito simbólico”.

“Mas Zmey…”, eu questionei, “… quem praticamente me ensinou tudo o que eu sei foi…”. Eu precisei parar e colocar meus pensamentos em ordem para continuar. “Dimitri”, nós dois falamos ao mesmo tempo.

“Ele já sabe disso?”, eu perguntei, surpresa com a calma que eu demonstrava.

“Sim, mas devido aos recentes acontecimentos nos quais ele esteve envolvido, ainda não se sabe se ele terá autorização para realizar a execução. Ainda estamos aguardando orientações superiores”.

“E o que acontece se ele não for autorizado?”, eu questionei com medo da resposta e, pela expressão de Abe eu realmente deveria temê-la.

“Bom, se a pessoa responsável pelo seu treinamento não estiver disponível por algum motivo, a execução deverá ser realizada pelo Dhampir que lhe deu a vida, nesse caso, sua mãe”. Eu levei as mãos à cabeça, desesperada. Aquela calma inicial evaporara.

“Pelo amor de Deus, me diga que essa é uma grande brincadeira ou um pesadelo do qual eu não estou conseguindo acordar. Isso não pode estar acontecendo!”.

“Eu realmente gostaria de poder lhe dizer isso, Rose, mas esse pesadelo infelizmente é real”.

“É claro que é”, eu disse em voz baixa para mim mesma, baixando minha cabeça e deixando que o pensamento voasse para longe. Ficamos em silêncio por alguns instantes, afinal, não havia palavras que servissem de consolo no momento. Contudo, ao sentir o olhar ansioso de Abe sobre mim, eu pedi que ele me deixasse sozinha até a hora da viagem pois eu precisava pensar em muitas coisas e assimilar outras tantas. Além disso, vê-lo daquele jeito na minha frente, refletindo toda a angústia que eu certamente estava expressando, não era nada legal. Abe não questionou minha decisão e deixou a prisão imediatamente. Dessa vez eu o deixei ir, decidindo que a partir de agora eu não queria saber de mais nada a respeito dessa execução, se é que ainda havia algo mais que eu pudesse não saber.

Sentada na cama, eu não conseguia parar de imaginar a cena que mais cedo ou mais tarde aconteceria: eu, provavelmente amarrada ou imobilizada, sendo atacada por um dos dois melhores guardiões que eu conheço. De alguma maneira, isso lembrou minha caçada a Dimitri quando ele era um Strigoi. Eu havia prometido que o mataria, mas sempre que me deparava  com ele, um lado meu implorava para que não o matasse. Inclusive, eu errei o golpe que deveria ter sido certeiro quando ele caiu daquela ponte no dia que consegui fugir de onde ele me mantinha presa. Depois disso eu tive várias outras oportunidades para acabar com a vida dele e eu simplesmente não consegui, era difícil demais. Eu poderia machucá-lo, sem sombra de dúvidas, mas matá-lo? Acho que nunca. Eu era fraca demais para isso, coisa que não poderia dizer de Dimitri Belikov e Janine Hathaway, que eram reconhecidos por serem profissionalmente impessoais. Eu costumava admirar isso neles, mas agora que eu sou a pessoa que provavelmente um deles terá que matar, eu já estou começando a mudar de opinião. Por outro lado, pelo menos eu sei que a agonia não durará muito, pois nenhum deles terá problemas em acertar meu coração, já que tanto Dimitri quanto minha mãe são rápidos e bons de mira.

Parecendo querer fugir do meu peito a fim de não ser atacado, meu coração começou a bater aceleradamente. Eu fechei os olhos.

“Ouça sua respiração Rose, somente o som da sua respiração…”, eu disse a mim mesma, na tentativa de me acalmar.

A próxima coisa que ouvi foram passos vindo na direção do corredor. Eu dei um pulo, novamente assustada. Entretanto, olhando no relógio, vi que meia hora já havia se passado. Meu cérebro deve ter entrado em colapso, pois não vi o tempo passar. Como se meu corpo estivesse no piloto automático, me levantei e fui para perto da cela, onde meus guarda-costas pessoais já aguardavam para me escoltar até o avião. No percurso, eu olhava ao redor para registrar pela última vez as instalações da corte real, o lugar com o qual um dia eu me deslumbrei por acreditar que ali dentro tudo seria possível.

E realmente era, eu apenas não sabia o quanto.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 11

No mesmo avião que eu, estavam Abe e mais quatro guardas reais, além do piloto e do co-piloto, é claro. A juíza Paula, a promotora Íris, os representantes do conselho dos Morois reais e os do conselho internacional de guardas reais estavam no outro avião. E em um terceiro estava, bem, um monte de gente. Adrian havia exigido que o jatinho de sua família ficasse a disposição dele para me seguir onde quer que eu fosse. E como Adrian dificilmente age sozinho, não era nenhuma surpresa que o avião dele estivesse com a lotação máxima. Através dos olhos de Lissa eu vi que nem todos os presentes eram meus conhecidos ou se importavam com a minha situação, mas algo me dizia que o excesso desnecessário de pessoas era apenas uma maneira que Adrian encontrara para não atrair atenção para si, já que ele não havia conseguido evitar que seus pais viajassem junto com ele. Pelo menos com um bando de jovens sedentos pela emoção do meu julgamento, seus pais ficariam ocupados evitando que algum deles destruísse o avião. Por outro lado, graças a insistência de Adrian e Lissa, Mikhail, minha mãe e Dimitri também estavam presentes.

Enquanto a maioria parecia curtir uma festa a mais de dez mil pés de altura, Adrian e Lissa me preocupavam com seus comportamentos, como de costume. Adrian recostava-se em um dos últimos bancos do avião. Um de seus braços cobria a região dos olhos, como se os tivesse protegendo de uma luz muito forte. A outra mão estava caída junto ao seu corpo, provavelmente devido ao peso que fazia a garrafa ainda cheia de Vodka que segurava.

Lissa estava alguns bancos à frente, curiosamente ao lado de Dimitri e, por mais que ela não estivesse fazendo nada suspeito, eu sentia através da nossa ligação que ela estava com medo de alguma coisa que eu não conseguia entender o que era.

Adrian bebendo e Lissa fazendo um esforço para eu não saber o que ela estava sentindo? Se eu não conhecesse os dois eu diria que Adrian estava passando por um processo de preparação para o luto da minha perda e que Lissa estava me bloqueando para que eu não ficasse preocupada com ela. O fato é que eu conhecia os dois bem até demais, logo eu tinha certeza que o comportamento deles só poderia significar que alguma coisa grande devia estar acontecendo e eles não queriam que eu soubesse.

“Alguma novidade sobre quem realizará a execução?”, perguntou Lissa a Dimitri.

“Nada até agora. Estou começando a achar que esse suspense será mantido até o último minuto”, ele respondeu, parecendo ansioso.

“Você realmente quer fazer isso, Dimitri?”.

“Depois de tudo que ela fez por mim, Lissa, é o mínimo que eu poderia fazer”.

Ah sim, claro. Depois que eu tentei matá-lo o mínimo que ele poderia fazer por mim é me matar também? Muito romântico da parte dele.

“E se você hesitar?”, Lissa questionou talvez uma das lições que ele mais enfatizou durante os meus treinos: nunca hesitar diante do inimigo. Tudo bem, eu não era uma inimiga, mas a regra era válida para essa situação, até mesmo porque se ele não tivesse coragem de fazer isso, alguém certamente faria.

“Se eu hesitar, eu estarei sendo um hipócrita”, Dimitri respondeu mais para si do que para Lissa, que não entendeu nada e acabou deixando o assunto de lado. Entretanto eu sabia exatamente o que ele queria dizer. Enquanto ainda era um Strigoi, Dimitri sempre esfregou na minha cara que eu hesitei quando pude matá-lo, criando as oportunidades que ele teve para fugir. Seria irônico demais se ele fosse incumbido de realizar minha execução e na hora H também hesitasse. A preocupação no rosto de Dimitri era nítida.

“Ei, sem caraminholas nessa cabeça, ok? Eu tenho certeza que vai dar tudo certo Dimitri”. Lissa parece também ter notado a expressão de Dimitri e tratou de consolá-lo colocando sua mão sobre a dele, apertando-a levemente.

“Espero que você esteja certa”, ele disse apoiando sua cabeça no encosto do banco e fechando os olhos. Com um suspiro, Lissa soltou a mão de Dimitri e com os olhos procurou Christian, não gostando de ver que ele já estava conversando animadamente com Jill. Pelo amor de Deus, será que ela não superou esse ciúme doentio? Me surpreendendo, Lissa respirou fundo, fechando também seus olhos.

“Sem caraminholas nessa cabeça, Lissa. Tudo vai dar certo”, ela disse a si mesma em voz alta, repetindo o que acabara de dizer a Dimitri.

Foi quando eu me dei por conta. Como assim tudo vai dar certo? Se tudo der certo, de acordo com a conversa deles, eu vou acabar com uma estaca no peito, cravada pelas mãos de Dimitri ou da minha própria mãe! Como isso pode ser “certo”?

“Mas isso não está certo!”, eu ouvi a voz de Abe, que parecia responder meu pensamento. Abe? Droga, eu estava fora da cabeça de Lissa. Saindo do meu estado semi-hipnótico, eu olhei na direção do som que ouvira. Abe discutia com um dos brutamontes da guarda real. Era como assistir um pequeno vira-lata enfrentar bravamente, e sem a mínima noção do seu tamanho, um pastor alemão três vezes maior que ele. O que há de errado com esses Morois?

Bom, eu considerei as opções que eu tinha para ajudar Abe caso ele conseguisse irritar os guardas definitivamente e cheguei à conclusão de que eu não tinha nenhuma. Eu estava algemada com as mãos para trás, logo impedida de atacar ou me defender, ou seja, ele teria que se virar sozinho. A conversa prosseguiu.

“Não existe certo e errado senhor Mazur. Existem ordens para serem cumpridas e é o que nós estamos fazendo”.

“Ei!”, eu decidi fazer parte da conversa. “Posso saber qual o motivo da discussão?”. Os dois olharam para mim imediatamente como se não tivessem gostado de serem interrompidos. Eu continuei encarando.

“Apenas uma mudança no nosso plano de vôo”, Abe disse ao olhar uma última vez para o guarda com quem estava discutindo, cochichando algo muito baixo para ele antes de vir em minha direção e sentar-se ao meu lado. Eu não sei o que Abe falou, mas pela expressão de terror do guarda, Abe havia deixado bem claro que apesar de não ser forte nem habilidoso com uma estaca, ele não era o tipo de pessoa com quem se devia mexer. Zmey, eu pensei, traiçoeiro e venenoso, exatamente como a serpente cujo nome lhe serve de apelido.

Depois do incidente, seguimos em silêncio até nosso destino, Nevada. Pelo menos eu fiquei em silêncio, pois não tinha o menor interesse em conversar com ninguém dentro daquele avião. Prestes a morrer, a única coisa que me passou pela cabeça foi aproveitar o tempo para relembrar tudo que vivi.  Porém, quando eu menos esperava, o impacto do trem de pouso do avião contra o solo interrompeu meus pensamentos e deixou tudo mais claro. A mudança de planos a que Abe se referia não era uma viagem mais longa e sim o contrário. Não era a toa que ele ficou possesso ao saber da informação. Antes do que esperávamos, nosso avião tocou o solo da pista de pouso do aeroporto particular do centro reformatório para Dhampirs. É isso aí! Nevada, aqui vamos nós.

Ao sairmos do avião, fui levada diretamente para dentro do reformatório, que na verdade era um prédio antigo reformado e adaptado para funcionar como uma espécie de prisão de segurança máxima de última geração, porém ao mesmo tempo parecia que aquele lugar havia sido abandonado há décadas. Não se via pessoas circulando e a ausência de barulhos de qualquer espécie era perturbadora. Algo não estava certo, eu senti isso no ar assim que coloquei os pés fora do avião. Meus instintos gritavam dentro de mim, mas por mais que eu olhasse ao redor, todos agiam como se nada estivesse acontecendo.

Abe ainda estava agitado com o desvio de rota que fizemos e com o que poderia estar por trás disso, já que os outros dois aviões não haviam sido avisados sobre a mudança e chegariam por volta de meia hora depois. Por via das dúvidas, ele não deixou meu lado durante um segundo, sempre com aquela expressão de quem seria capaz de fuzilar qualquer um que tentasse fazer alguma coisa que não fizesse parte do protocolo padrão. Sentindo-me uma estranha no ninho e com um alarme interno ordenando que eu ficasse alerta, à medida que avançávamos em direção a algum lugar que eu não sabia qual era, eu registrava tudo que estava ao meu redor.

Quando fiquei sabendo que viria para um reformatório eu imaginei que seria um local macabro, sinistro. Um lugar para o qual você não desejaria voltar nunca mais ou do qual você teria certeza de que não sairia vivo. No entanto, eu caminhava sobre um piso xadrez em tons caramelos que combinavam harmonicamente com as paredes cor de creme dos corredores. Ornamentos dourados espalhavam-se por todos os cantos. Tudo assustadoramente aconchegante.

Ao entrarmos em um escritório eu entendi que não estávamos na área destinada aos presidiários, o que era um alívio, na verdade. A não ser que eles tivessem planejado me executar por aqui mesmo.

“Rosemary Hathaway”, disse uma voz feminina vinda de trás de uma escrivaninha. Eu não havia percebido que tinha alguém na sala até então. “Nunca é bom receber alguém habilidoso como você por aqui, mas eu preciso dizer que é um imenso prazer conhecê-la pessoalmente! Você é uma lenda, garota Dhampir”. Ao seguir com os olhos na direção daquela voz, me deparei com uma mulher de aproximadamente 35 anos, estatura média, aparência humana e relativamente forte. Eu diria que ela era uma Dhampir como eu, se não fosse pela marca dourada no seu rosto, que denunciava sua espécie. Ela não só parecia humana como era de fato, humana. Ela era uma alquimista.

“Por favor, deixe eu me apresentar. Meu nome é Andie Walsh, coordenadora do centro reformatório de Nevada”, ela disse com um sorriso no rosto que parecia iluminar o ambiente, estendendo sua mão para me cumprimentar.

“Vamos pular as apresentações Andie. Que diabos está acontecendo aqui?”, Abe interrompeu com um tom de voz nada agradável, me fazendo perceber que eu estava tão impressionada que sequer ergui o braço para apertar a mão de Andie. Eu estava tentando unir alguns pontos para dar sentido a isso, pois eu jamais imaginei me deparar com alquimistas por aqui, principalmente porque eu entendi que eles só apareciam em cena quando a identidade dos Morois estivesse comprometida. Ao mesmo tempo, fazia todo sentido que eles coordenassem um centro reformatório para Dhampirs, pois o compromisso deles com os Morois era exatamente evitar que a raça fosse exposta, visando exatamente a segurança deles, então não é um espanto que alquimistas fossem os responsáveis por ensinarem uma boa lição aos Dhampirs errantes que eram encaminhados para lá exatamente por agirem contra esses princípios. Surpresas e mais surpresas. Como sempre, tudo que envolve os alquimistas contém uma boa dose de mistério e sigilo. Não é a toa que não se ouvia falar desse centro reformatório na escola.

“Sempre um prazer revê-lo, Abe”. A voz de Andie chamou minha atenção. Mas que diabos? Até ela conhece Abe? “Eu presumo que você esteja curioso para saber o motivo da alteração dos planos de vôo, não é mesmo? Pois lhe digo que não há com que se preocupar, querido, pois a sua garotinha será bem tratada. Vocês apenas chegaram aqui antes dos demais para que eu pudesse ter uma conversa com vocês. Como eu disse, sua filha é uma lenda e eu precisava conhecê-la pessoalmente ainda em vida. E como Morois reais não gostam de esperar eu providenciei que vocês chegassem aqui antes deles”, Andie explicou.

“Você nunca dá ponto sem nó, Andie. O que você quer?”, Abe questionou, desconfiado.

“Bem, já que você insiste em saber, eu gostaria de esclarecer algumas coisas. Você sabe que os alquimistas têm um compromisso para com os Morois, mas nós não gostamos de sermos passados pra trás”.

“Do que você está falando?”, Abe parecia não saber onde Andie queria chegar.

“Existem coisas estranhas acontecendo e eu não creio que sejam apenas coincidências. Você sabe que recentemente alguns arquivos contendo informações pessoais sobre o pai de Vasilisa Dragomir desapareceram de nosso acervo. Pode ser que eu esteja sendo um pouco neurótica, mas eu estou achando que o desaparecimento desses arquivos tem relação com o assassinato da rainha Tatiana”.

“O que faz você pensar isso?”, Abe rebateu.

“Porque curiosamente o alquimista que relatou o desaparecimento de tais arquivos apareceu misteriosamente morto alguns dias depois. O mesmo aconteceu com quem estava encarregado de investigar o caso desse assassinato. O recado foi dado em alto e bom tom, Abe. Quem decidir ir atrás desses arquivos para descobrir o que está acontecendo, sofrerá conseqüências”.

“E você me diz isso apenas agora?”, Abe exaltou-se consideravelmente, para minha surpresa.

“O que você queria que eu fizesse? Que colocasse mais vidas em perigo? Não era seguro enviar alguém até você. Eu precisava falar com você pessoalmente e eu sei que com tudo o que está acontecendo, você não largaria sua filha sozinha para vir até aqui”.

Minha cabeça acompanhava os discursos dos dois, virando de um lado para outro conforme as falas se alternavam, como se estivesse assistindo a um jogo de tênis. Claramente eu estava perdendo alguma coisa aqui, mas não era a hora de tentar entender o que se passava. Abe andava de um lado para o outro com uma das mãos tipicamente no bolso do casaco e com a outra na parte de trás de seu pescoço, como se aquilo o fizesse pensar melhor. Pela expressão de Andie, por mais que ela estivesse preocupada com o silêncio de Abe, ela não ousaria interrompê-lo com medo de sua reação. Mas eu não tinha nada a perder.

“Abe, o que está acontecendo?”, eu tentei perguntar. Nada. Ele continuava andando de um lado a outro do escritório como se eu nem estivesse ali. “Abe, eu estou falando com você. Dá pra você parar de caminhar um instante e dizer o que está acontecendo?”. Nada novamente.

Ok, deixa eu tentar de outra maneira.

“Pai, por favor…!”. Assim que pronunciei a palavra “pai”, eu senti que Abe parara de respirar. Eu ganhei a atenção dele por alguns segundos, antes do telefone da mesa de Andie começar a tocar, pois assim que ela o atendeu, a atenção de Abe não era mais minha. Zmey parecia estudar cada reação de Andie e quando ela desligou, uma palavra bastou para confirmar o que ele deveria estar suspeitando.

“Vão!”, Andie ordenou, apontando sua cabeça na direção de onde havíamos chegado.

“Alguém pode me dizer o que está acontecendo?”, eu gritei, já irritada por estar sendo ignorada há tanto tempo.

“Eles estão aqui. Nós precisamos ir”, Abe respondeu já me arrastando, literalmente, porta afora.

“Pra que tanta pressa?”. Abe parou assim que saímos do escritório.

“Eu preciso que você guarde seu interrogatório para outro momento e agora apenas me siga. Você acha que é capaz de fazer isso ou vai me obrigar a obrigar você a fazer isso?”

“Meu Deus! Você está me ameaçando!?”. Abe apenas apertou os olhos, desaprovando o tom interrogativo da minha exclamação.

“Ok! Desculpa! Se você quer correr, vamos correr.”

Revirando os olhos, Abe seguiu pelos corredores do reformatório, confiando que eu o estivesse seguindo, pois em nenhum momento ele olhou para trás, exceto quando nos deparamos com uma larga porta de metal. Acima da porta estava a identificação do local: setor penitenciário. Agora eu entendi porque ele havia parado. Ele sabia que eu não entraria ali por nada nesse mundo.

“Você só pode estar brincando comigo, Zmey!”. Ignorando-me como só ele consegue fazer, Abe colocou sua digital no identificador que controla a entrada de pessoas e me puxou junto com ele assim que a porta abriu, colocando-me na primeira cela disponível.

“Eu não vou nem perguntar como você tem acesso liberado aqui dentro!”, eu resmunguei quase cochichando, mas certa de que ele havia me escutado. Com um sorriso no canto da boca, Abe virou-se para mim  após se certificar de que tinha tempo suficiente e finalmente resolveu me dar alguma explicação.

“Eu trabalho aqui, Rose. Na verdade, aqui é parte do meu trabalho. Eu sou o mediador entre nossa comunidade e a dos alquimistas, logo tudo que acontece envolvendo as duas partes me diz respeito. Mas nem todos sabem que eu trabalho aqui e daí a importância de alguns Morois verem você presa ao chegarem. Seria no mínimo estranho que uma condenada a morte fosse vista passeando no setor administrativo desse reformatório, não acha? Sinto muito, mas eu tenho uma reputação a zelar”.

E que reputação, eu pensei. Desde que conheci meu pai, eu imaginei que ele fosse algum tipo de Moroi importante, considerando a forma como as pessoas se comportavam perto dele, com medo. Era como se, instintivamente, elas sentissem que ele era uma pessoa perigosa. Admito que eu mesma já havia pensado que Abe era uma espécie de cafetão ou traficante de drogas e mercadorias ilegais. Mas eu nunca pensei que ele pudesse estar envolvido de alguma forma com a secreta sociedade dos alquimistas.

“É por isso que você e minha mãe dizem que era mais seguro se eu não soubesse quem você era?”.

“Basicamente, sim. Nós lidamos com todos os tipos de criminosos aqui, Rose. O que eu e sua mãe menos precisávamos era que algum deles resolvesse tentar algo contra você para nos atingir indiretamente. Então concordamos que eu me afastaria e que você estudaria em St. Vladimir, pois além de estar segura  você seria ensinada a se defender por pessoas de nossa confiança. Eles são os únicos, pelo menos até agora eram os únicos, que sabem que sou seu pai”.

“E como você tem coragem de me dizer isso agora?”

“Eu pensei que você quisesse saber a verdade.”

“Não, eu não quis dizer isso. Como você tem coragem de me falar isso agora que estamos aqui exatamente no setor penitenciário, entre essas pessoas perigosas de quem você sempre quis esconder a verdade para me proteger?”.

“Você acha que eu sou uma criança ingênua, por acaso?”, Abe me perguntou com um sorriso malicioso. “Eles estão no programa de reabilitação nesse momento. Estamos completamente sozinhos aqui”. De alguma forma eu sentia que não estávamos sozinhos, mas quem era eu para questionar alguma coisa.

“Ok, então o que acontece agora?”.

“Agora nós esperamos. Ou melhor, você espera. Eu tenho umas coisas a resolver.”

“Você vai me deixar aqui sozinha?”. Nem eu acreditava nas minhas próprias palavras, mas de repente pareceu seguro ter a companhia de Abe.

“Me dê aqui suas mãos”. Abe estendeu um dos braços por entre as barras da grade da cela e eu coloquei minhas duas mãos algemadas sobre a dele.

“Não se preocupe, aqui você não corre perigo. Somente pessoas autorizadas podem entrar aqui e todas elas estão cientes de que eu estou lidando pessoalmente com o seu caso, portanto se alguém quiser tirá-la a força de trás dessas grades, além de mim, é claro, sinta-se livre para por em prática tudo que você aprendeu na sua formação e nocauteie quem quer que seja. Fui claro?”, Abe perguntou enquanto soltava minhas algemas.

“Você está falando sério?”

“Considere como uma ordem”. E tendo dito isso, Abe saiu antes que eu pudesse tomar mais do seu tempo.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 12

A hora havia chegado. Algum tempo depois de ser retirada da cela por Abe, quando ele retornou, eu fui levada até o local oficial da execução. Diante de mim tudo que eu via era uma cortina preta, mas era possível ouvir o burburinho produzido pela multidão que havia atrás dela.

Mais adiante estava uma espécie de mesa de madeira sobre a qual os funcionários do reformatório pediram que eu me deitasse para que pudessem prender minhas mãos com as amarras metálicas anexadas a ela. O mesmo foi feito com cada um dos meus pés. Tudo para garantir que eu não pudesse me mover o suficiente para estragar o espetáculo de quem veio assistir a uma morte rápida.

Assim que estava devidamente imobilizada, todos se afastaram e após ouvir um pequeno barulho eu senti a mesa se mover. Eu estava sendo colocada na posição vertical. A plataforma a qual eu estava presa não ficava totalmente de frente para a platéia, mas para o que deveria ser uma das portas de acesso aos bastidores, compreensível. Nesse ângulo o corpo do executor não esconde completamente o de sua vítima no momento do golpe final, proporcionando uma visão do que está acontecendo aos expectadores.

De repente as cortinas se abriram e luzes fortes se acenderam sobre mim. Como se alguém precisasse que uma luz indicasse para onde deveriam olhar. Devido a claridade eu não conseguia enxergar direito a platéia que me assistia, mas com algum esforço eu pude perceber que muitos dos que estavam presentes na minha audiência estavam aqui também e a cada momento era mais um Dhampir ou Moroi que chegava, gente que eu sequer conhecia e que estava aqui apenas para ver a justiça ser feita. Pelo visto o trafego aéreo não era tão disputado como eu imaginava.

Mais luzes se acenderam acima de mim, mas não sobre mim, chamando minha atenção para a existência de um camarote superior, onde os Morois do conselho real e os Dhampirs do conselho internacional de guardas reais se acomodavam calmamente. Protegidos por uma densa camada de vidro, aqueles Morois pareciam uma coleção de Barbies e Kens em uma vitrine de tamanho real.

Então eu me dei por conta de uma coisa. Eu estava alguns metros acima do nível da platéia e outros tantos abaixo do nível do camarote, o que significa que eu estava numa espécie de palco. Olhando ao redor eu observei novamente as cortinas, os camarotes, os holofotes, a estrutura e disposição das cadeiras e percebi que tudo indicava que esse local deveria ter sido um antigo teatro. Qualquer semelhança com o bilhete de Abe deve ser mera coincidência, mas foi o suficiente para me dar calafrios.

Procurando por conforto, corri novamente meus olhos pela platéia atrás de rostos conhecidos. Para minha felicidade logo encontrei os daqueles que em momento algum me abandonaram desde que tudo isso começou, meus amigos. O teatro era relativamente grande, mas ainda assim eu os avistei nas últimas fileiras. Tasha Ozera estava com eles, o que ao mesmo tempo era uma surpresa e não era. Ela deve ter comparecido para dar uma força a Christian e Lissa e eu fico grata por isso, mas eu realmente não esperava vê-la aqui hoje. Bem, eu também não esperava ver metade dos rostos que estavam diante de mim  e aqui estavam eles.

Adrian estava visivelmente entorpecido ao lado de Lissa, mas seus pais estavam nas primeiras fileiras e nada entorpecidos, apenas um pouco agitados, é claro, eu não esperaria outra reação de quem perdeu alguém da família, como eles perderam. Afinal, por mais detestável que o indivíduo seja, família é família, uma lição que eu mesma estava aprendendo.

Uma sombra se fez presente na porta diante de mim. Abe. De onde estava ele acenou com a cabeça em minha direção, como se me garantindo que tudo estava indo bem, apesar de eu não me convencer disso. Pra dizer a verdade, estava começando a ficar um pouco nervosa, pois até agora eu não havia visto Dimitri ou minha mãe na platéia, o que não poderia ser nada bom. E se os conselheiros reais já estavam assumindo suas posições no camarote era porque a decisão de quem me executaria já estava tomada e provavelmente o mistério seria guardado até o último segundo para que parte da diversão seja ver a minha reação à escolha deles. Quem poderia imaginar que Morois poderiam ser tão sádicos assim, não é mesmo?

Falando neles, um Moroi do conselho real subiu ao palco com quatro guardiões ao seu redor, sendo que dois deles foram para perto de mim, e solicitou a todos que ficassem em silêncio para o início do ritual de execução, avisando que antes disso haveria um breve pronunciamento sobre a morte da rainha, coisa que até então não havia sido feita.

“Estamos aqui talvez porque nossa querida rainha tenha agido tarde demais ao aprovar a lei que determina que Dhampirs se formem a partir dos 16 anos. Talvez se houvessem mais Dhampirs disponíveis, ela poderia estar mais segura e não ter sido brutalmente assassinada. O sistema não está funcionando corretamente e o que precisamos é de mudanças efetivas e imediatas e de alguém que consiga administrá-las nesse momento de crise. Por isso gostaríamos de chamar aqui uma pessoa de extrema confiança da rainha, que após um período difícil de sua vida, finalmente está de volta e disposta a assumir o cargo de coordenador do sistema educacional de nossas escolas para dar continuidade ao trabalho que nossa rainha infelizmente não teve tempo para realizar. Senhoras e senhores, é com prazer que anuncio o retorno de Eugene Lazar”.

Enquanto alguns Morois aplaudiam a aparição de Lazar no palco, outros expressavam a mesma reação que eu: abismamento total. Eugene é pai de
Avery e Reed Lazar, talvez os Morois mais instáveis que eu já conheci em minha vida. Os dois devem estar institucionalizados nesse momento, assim como Simon, guardião de Avery, uma usuária do elemento espírito que tentou criar uma ligação com Lissa para aumentar seu poder. A forma que ela encontrou de fazer isso? Matar Lissa para trazê-la de volta a vida. O problema era que Avery já tinha uma ligação nada saudável com Reed e Simon e esse excesso de ligações literalmente saiu pela culatra quando nós interferimos nos planos dela, ao atacarmos os três exatamente com o poder do espírito. Eles parecem ter sofrido uma sobrecarga de energia e surtado e depois desses acontecimentos, Eugene se afastou do cargo de diretor que ele sequer teve tempo para assumir.

Aliás uma coisa que nunca foi esclarecida  é a razão que levou a rainha a decidir a saída de Kirova da direção de St. Vladimir. Na época, a própria Kirova disse ser uma boa idéia e que Lazar era um ótimo administrador, mas ela nunca me pareceu convincente, mas eu estava tão cega e odiando tanto a rainha que poderia muito bem estar interpretando as coisas erroneamente.

Aqui, Eugene mostrou-se um ser de poucas palavras e limitou-se a dizer que fará tudo que estiver ao seu alcance para garantir que os ideais da rainha estejam presentes no novo sistema educacional. Agora eu me pergunto: será que Eugene Lazar é uma pessoa que realmente pode fazer alguma coisa pela causa dos Morois e Dhampirs, apesar dos filhos dele serem completamente perturbados? Pois no bilhete da rainha, ela falava sobre evitar um golpe da realeza Moroi e se Eugene era tão próximo assim da rainha, talvez ele seja um bom aliado, uma certeza que eu nunca terei. Quem viver, verá.

Após mais alguns aplausos, os dois retiraram-se do palco com seus devidos guardiões e quem assumiu o comando foi Andie Walsh, coordenadora do centro reformatório, que se apresentou formalmente e foi direto ao ponto.

“Gostaríamos então de dar continuidade ao processo de execução de Rosemarie Hathaway, condenada por traição real e assassinato da rainha Tatiana. Após uma reunião com os membros do conselho internacional de guardas reais e do conselho real de Morois, chegamos a um veredicto sobre seu executor”. A alquimista fez uma breve pausa, para gerar suspense, e nesse momento eu pude ver minha mãe se juntar a Abe na porta de acesso aos camarins. Então Andie continuou: “Será o antigo treinador da acusada, Dimitri Belikov”.

Eu congelei.

Lentamente, Dimitri foi subindo os poucos degraus que levavam até o palco onde eu me encontrava e em momento algum ele desviou os olhos de mim. Eu sei porque em momento algum eu desviei meus olhos dele também. Quando ele se aproximou o suficiente, um dos guardas que estavam ao meu lado deu dois passos a frente e posicionou-se diante de Dimitri, impedindo que eu conseguisse enxergá-lo e vice-versa. Do cinto ao redor da sua cintura, o guarda então retirou uma estaca, oferecendo-a a Dimitri e retornou para seu lugar assim que a entrega foi realizada. O artefato não tinha nada de especial, era apenas uma estaca prateada de propriedade do centro reformatório, mas Dimitri parecia estar desconfortável com ela, manuseando-a  com cuidado, simulando movimentos no ar para sentir e assimilar seu peso e ver como ela reagia a força imposta por ele, testando não só a estaca, mas a si mesmo também. De repente eu vi algo iluminar o rosto de Dimitri, um sorriso. Um sorriso tímido, mas de puro e intenso prazer.

Poder, era isso que aquele objeto em suas mãos lhe dava, um poder que lhe havia sido tirado há algum tempo e que agora ele estava tendo a oportunidade de experimentar novamente.  A felicidade dele era tanta que era impossível vê-lo sentir tudo isso e não ficar feliz por ele também.

“Você está pronto, Senhor  Belikov?”, perguntou Andie.

“Sim, eu estou”, ele respondeu sem olhar para ela e sem parar o que estava fazendo.

“Então prossiga, por favor”.

Com um grande suspiro, Dimitri ergueu os olhos até que encontrasse os meus mais uma vez e, sem hesitar, veio caminhando em minha direção com a estaca em punhos e parou tão próximo a mim que eu conseguia ouvi-lo respirar.

Segurando-se com uma de suas mãos na lateral da plataforma de madeira, para lhe dar mais estabilidade, Dimitri ergueu com cuidado o braço que segurava a estaca, para avaliar a altura em que precisava cravá-la em meu peito. Como isso não se tratava de uma luta com um Strigoi, não havia necessidade de um golpe bruto, apenas um que fosse eficiente e, por mais que Dimitri fosse experiente em cravar estacas em corações alheios, essa era uma situação completamente diferente do tradicional, optando por ser cauteloso.

Uma movimentação na platéia me fez desviar rapidamente o olhar, o que conseqüentemente fez com que Dimitri virasse a cabeça para ver o que estava acontecendo, deixando sua concentração ir por água abaixo. Tratava-se de Lissa empurrando Christian e Tasha, que estavam bem ao lado dela, no começo da última fileira de cadeiras. Ela parecia estar com pressa para passar e assim que conseguiu, saiu porta afora. Como se buscasse algum tipo de conselho, Christian olhou para Tasha, que o mandou seguir Lissa imediatamente e, Tasha, sem saber exatamente o que fazer, voltou ao seu lugar como se nada tivesse acontecido.

Ao ouvir a porta bater, assim que Christian saiu, eu estremeci e instintivamente apertei os olhos, como se aquilo fosse me fazer sentir menos o impacto da batida. E ao abri-los eu não estava mais no teatro. Lissa estava com as emoções tão a flor da pele que eu fui puxada automaticamente para dentro da mente dela.

Christian felizmente havia conseguido alcançá-la, mas precisou prensá-la contra a parede para que ela parasse de andar.

“Qual o seu problema, Lissa?”, Christian disse, segurando-a pelos braços e lhe dando leves sacudidas. “Onde você pensa que está indo?”.

“Eu não sei, Christian, eu não sei!”, Lissa respondeu com a voz embargada e deixando-se ser sacudida pelo namorado, como se precisasse daquilo.

“Você precisa se acalmar, Lissa. A Rose precisa de você”.

“Eu sei, mas…. Eu não vou conseguir assistir aquilo, Christian, eu não vou conseguir. E se por acaso…”. Antes de terminar sua frase, Lissa começou a chorar compulsivamente, fazendo com que Christian a acolhesse em seus braços.

“Não se preocupe, Lissa. Tudo vai dar certo, ok?”, Christian disse com a voz mais doce do mundo, enquanto passava a mão na cabeça dela, que se limitou a apenas sacudir a cabeça, concordando com ele. E assim que Lissa recuperou um mínimo de autocontrole, eu fui bloqueada. Ás vezes é como se ela soubesse quando eu a sondo, mesmo quando eu não tenho intenção disso.

“Tudo bem?”, Dimitri perguntou discretamente, assim que eu voltei a mim.

“Sim, Lissa está bem”, eu respondi. Dimitri já havia visto isso acontecer várias vezes e sabia identificar quando eu era transportada para a mente de Lissa sem avisos.

“Você, Rose. Tudo bem com você?”. Foi quando eu percebi a expressão com que Dimitri me olhava, ainda apoiado com uma das mãos na plataforma de madeira à qual eu estava presa, e ainda muito próximo de mim. Sim, ele havia percebido o que acabara de acontecer, mas ele não estava preocupado com o que eu havia visto, ele estava preocupado comigo.

Eu não o respondi por duas razões. Primeiro, eu não estava bem e não queria dizer isso a ele, apesar de que ele deve ter notado que algo estava errado quando meus olhos encheram-se de lágrimas assim que ele me fez a pergunta. Segundo, antes que eu pudesse dizer algo, caso eu fosse dizer alguma coisa, Andie interrompeu qualquer momento mágico que pudesse estar acontecendo.

“Senhor Belikov, nós estamos esperando”. Olhando para Andie, Dimitri apenas gesticulou com a cabeça, virou-se novamente para mim, respirou fundo e deu mais um passo em minha direção, aproximando-se ainda mais. Quando nossas cabeças estavam lado a lado, eu fechei meus olhos.

“Me perdoe por isso…”. Dimitri sussurrou no meu ouvido. E o que aconteceu depois, foi muito rápido. Ele ergueu seu braço, girou a estaca e antes que eu pudesse perceber, ela estava cravada no meu peito. A dor foi tão intensa que me levou a inconsciência, ou pelo menos era o que parecia, já que meus sentidos negavam-se a me obedecer. Tudo estava escuro e tranqüilo até o momento em que eles apareceram. Muitos deles… Fantasmas.

Meio zonza, como se meu cérebro quisesse se desligar, mas meu corpo resistisse, a minha vontade era de dormir, mas esses malditos fantasmas não me deixavam em paz! Alguns eu conhecia de longa data, como Mason, os pais e o irmão de Lissa e alguns guardas que perdemos durante batalhas contra Strigois. Os demais eram completos estranhos. E nem mesmos os conhecidos mostravam-se felizes, aliás, principalmente eles. Como se não bastasse, a cada minuto que passava parecia que a quantidade de fantasmas aumentava, formando uma espécie de barreira ao meu redor, me observando em silêncio como se não aprovassem minha presença aqui. Irônico, pois eles só poderiam estar aqui por uma única razão: me levar definitivamente para o mundo dos mortos e mudar meu status de “beijada pelas sombras” para “completamente engolida por elas”.

Será que estou morta? Porque sinceramente eu não me sinto totalmente morta. Na verdade eu me sinto até bem, quer dizer, a dor que eu senti no momento do golpe foi muito forte, mas agora ela estava beirando a insignificância. Por outro lado, esses fantasmas parecem ficar mais nítidos e mais próximos de mim, o que não poderia ser bom. Uma coisa é certa: se minha hora ainda não havia chegado, era apenas uma questão de tempo.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 13

Não demorou muito para que eu começasse a sentir meu corpo mais leve e, logo mais, deixar de senti-lo por completo. Era como se ele não me pertencesse mais. Eu queria sair mas ele simplesmente não se movia.  E se eu largá-lo e simplesmente seguir meu caminho? Não, isso não é inteligente, seria o mesmo que desistir. Meu Deus, como eu cheguei a considerar essa hipótese? É claro que eu não podia me entregar assim. Se meu destino é morrer então que seja por falta de alternativas e não porque eu desisti de lutar. Se esses fantasmas vieram me buscar, então que façam todo o trabalho, pois eu não vou facilitar as coisas só porque eles estão em maior número.

Eu vou ficar aqui até que… ai meu Deus, eles estão chegando cada vez mais perto! E por que está ficando tão frio? Quer saber? Mais uma vez eu me iludi ao acreditar que a morte era um processo tranqüilo, indolor e pessoal. Cá estou eu, presa a um corpo que não me obedece, sendo assistida e julgada por olhares estranhos e de dar medo de quem eu sequer conheço, enquanto tudo parece ficar mais frio e escuro ao meu redor. Alguém pode fazer o favor de avisar as pessoas para não gravarem mais a inscrição “descanse em paz” nos túmulos? Não existe paz aqui!

Ok, chega, Rose. Você precisa se acalmar. De repente se você se concentrar os fantasmas desaparecem. Você já fez isso várias vezes e deu certo. Imagine-se envolvida por uma luz quente, aconchegante e cheia de vida. Imagine-se rodeada por pessoas que você ama e que são amadas por você. Vamos, Rose, foque-se na luz e não na escuridão… Uau, está funcionando! Eu acho que estou realmente vendo essa luz! E os fantasmas parecem estar sumindo, também! Talvez, se eu seguir essa luz, eu consiga finalmente descansar em paz. Eu sei que sempre dizem para não seguirmos a luz, mas aqui, diante dela, parece tão inevitável. É como se eu pertencesse a ela de alguma forma. Ao redor dela eu me sentia forte e cada vez mais forte. E ela parece, inclusive, chamar meu nome! Sim, definitivamente eu devo segui-la, eu pensei.

A luz foi ficando cada vez mais forte até que tudo diante de mim ficou branco e eu não conseguia mais pensar.

“Respire”, eu ouvi uma voz dizer. “Vamos, Rose, respire”, a voz repetiu.

Droga, os espíritos voltaram e agora estavam falando comigo. Talvez eu tenha completado minha passagem e eles tenham finalmente me aceitado como uma deles agora.. Graças a Deus. Mas porque raios eles querem que eu respire? Ta certo que eu morri apenas uma vez, o que não me torna uma perita no assunto, mas, que eu saiba, mortos não respiram! Meus pensamentos foram interrompidos por um forte barulho e mais vozes. Nossa, não sabia que fantasmas eram seres tão temperamentais. Ok,  se é tão importante assim que eu respire, eu respiro. Não surtem por causa disso!

Quando eu ordenei, meu corpo respondeu imediatamente ao meu comando e o ar que entrou em meus pulmões parecia queimar. A sensação de dor foi tão intensa que eu dei um pulo. A luz se tornou mais intensa ainda e dessa vez não era nada agradável. Eu só me dei por conta do que estava acontecendo quando meus olhos foram se adaptando e eu pude enxergar Lissa diante de mim.

“Ah não, não me diga que eles mataram você também!”, foi tudo o que eu consegui dizer antes que ela me abraçasse entre risos e lágrimas.

“Não sua boba, eu estou tão viva quanto você!”, ela respondeu comigo ainda em seus braços.

“Você… Lissa, você…”. Minha língua parecia ser a única coisa que eu ainda não conseguia controlar. “Você me trouxe de volta? De novo?”, eu finalmente consegui perguntar. Lissa não estava em condições emocionais de dar maiores explicações, então ela apenas concordou, movimentando sua cabeça. Aquilo deveria ter me deixado feliz mas acabou me incomodando bastante, fazendo com que eu me desfizesse do abraço de Lissa e sentasse na maca sobre a qual eu estava.

“Eu não quero parecer mal agradecida Lissa, mas você não deveria ter feito isso. Não é seguro você usar seu poder de forma tão intensa, principalmente para trazer alguém morto de volta a vida”, eu disse sentindo nojo das minhas próprias palavras. Eu parecia uma vovó ranzinza.

“Bem, tecnicamente você não estava totalmente morta”, Lissa rebateu meu comentário de forma bem humorada, enxugando as lágrimas de alegria de seu rosto.

“Me desculpa de novo Lissa, mas como você pode dizer com tanta certeza? Você sequer estava lá!”, eu disparei, percebendo que eu estava magoada por ela não ter assistido a execução até o fim. Através da nossa ligação, que aparentemente estava intacta, eu vi que havia ferido os sentimentos de Lissa,  afinal ela mesma não se perdoava por não ter suportado ficar até o final. Mas não era necessário ter uma ligação como a nossa para perceber isso, tanto que Christian logo se fez presente em cena, passando o braço por trás de Lissa, trazendo-a para perto de si.

“Porque a estaca não atingiu o seu coração, Rose”, Christian respondeu por Lissa, que agora encarava o chão, ainda visivelmente chateada. Mas o que eu poderia fazer? Esse discurso deles simplesmente não fazia o menor sentido!

“Vocês não entendem que quem cravou aquela estaca em mim foi Dimitri? Por mais que ele tenha ficado um tempo sem manusear uma estaca, ele jamais erraria um golpe daqueles naquela distância. E com um alvo fixo, ainda por cima!”, eu me indignei. “Ele não erraria, ok? Só se ele quisesse e….”. O olhar de Christian disse tudo.

“Meu Deus….”. Minha voz falhou, fazendo com que minhas palavras não passassem de um sussurro.

Olhando ao redor, eu avistei Dimitri, em pé, no extremo oposto da sala, de costas para mim e de frente para uma mesa, sobre a qual segurava-se com ambas as mãos, como se precisasse de forças. Sua cabeça pendia para baixo.

Eu não conseguia ouvir a respiração dele, mas pelo intenso movimento de seus ombros, ela estava acelerada.

“O que ele tem?”, eu perguntei, sem tirar os olhos de Dimitri. Quem respondeu foi Lissa, já recuperada do baque dos meus ataques verbais.

“Ele está apenas aliviado.” Eu não estava olhando para Lissa mas eu poderia jurar que ela esboçava um tímido sorriso. “Você demorou um pouquinho para voltar e ele pensou que havia errado o golpe e acertado seu coração”. Bom, de alguma forma ele acertou meu coração, pois vê-lo naquele estado me deixou em frangalhos.

“Nós temos algum tempo?”, eu perguntei, presumindo que não seria nada legal se alguém me visse viva por aqui. Christian olhou no relógio e respondeu.

“Se você chamar dois minutos de tempo… É o que podemos dar a vocês por enquanto”. Ele parece ter entendido que eu queria ficar a sós com Dimitri e imediatamente saiu da sala de mãos dadas com Lissa. Eu fui direto ao ponto.

“Você pode olhar pra mim, por favor?”. Dimitri se virou sem pronunciar uma palavra e eu me assustei com o que vi, pois ele estava completamente perturbado, com o olhar assustado, como se tivesse visto um monstro; sua respiração ainda ofegante.

“Dimitri, você está bem?”, eu perguntei a ele, mesmo tendo sido eu a voltar à vida poucos minutos atrás. A resposta era óbvia, tanto que ele apenas apertou os lábios e sacudiu a cabeça para dizer que não, agarrando-se novamente à mesa, ainda de frente para mim.

Sem pensar, eu joguei minhas pernas para o lado e com um pequeno impulso sai de cima da maca. Eu estava forte o suficiente, mas talvez eu fizesse o mesmo ainda que não tivesse forças. Eu simplesmente não podia vê-lo daquele jeito. Então eu caminhei até ele o mais rápido possível, o que pareceu uma eternidade e, diante de Dimitri, a primeira coisa que fiz foi tirar alguns fios de cabelo que caíam de forma bagunçada sobre seu rosto, colocando-os atrás de sua orelha, como ele sempre fazia comigo. Depois deixei que minhas mãos caíssem sobre seus ombros, apertando-os levemente.

“Você fez o que precisava ser feito, Dimitri. Não se preocupe, eu estou bem, ok? Eu estou bem!”, eu disse, olhando-o nos olhos. Ainda assim eu percebi que suas mãos pareciam agarrar-se com mais força ainda contra a mesa. Delicadamente, eu levei minhas mãos até as dele, fazendo-o largar a superfície à qual parecia colado, e as trouxe para tocar meu rosto. Eu não queria forçá-lo a nada, mas em momento algum ele pareceu resistir e manteve suas mãos onde eu as havia colocado, mesmo depois que eu retirei as minhas. Aos poucos ele foi acariciando meu rosto, certificando-se de que eu era de carne e osso.

“Viu? Eu estou aqui. Estou bem e viva”, eu disse.

Na mesma hora, Dimitri me puxou contra seu corpo e antes que eu percebesse, ele estava me abraçando tão forte que, se eu não tivesse certeza de que ele era um Dhampir novamente, pensaria que estava tentando me matar. Uma boa forma de morrer, eu pensei, envolvendo meus braços na cintura de Dimitri. Nós estávamos tão próximos que eu sentia meu coração pulsar contra o peito dele e algo me diz que o ritmo daquele pulsar acabou acalmando Dimitri de alguma forma, pois quando sua respiração estava de volta ao normal e seu corpo parecia relaxado, Dimitri beijou o topo da minha cabeça algumas vezes, sem sequer perceber. Ficamos ali, abraçados em silêncio, até que ouvimos uma breve batida na porta. Imediatamente, Dimitri me largou e me fez olhar nos olhos dele.

“Volte para aquela maca e o que quer que aconteça, mantenha os olhos fechados e o rosto coberto com o lençol, ok?”, ele disse cochichando.

“Mas…”

“Sem perguntas, Rose. Pra maca, agora!”.

Eu me deitei novamente, cobrindo completamente a cabeça, mas de jeito nenhum fechei os olhos. Dimitri abriu a porta, com uma estaca já em punhos.

“Pode descansar, soldado”, Abe disse ao entrar, dando um tapinha no ombro de Dimitri e fechando e chaveando a porta assim que passou. Não foi uma surpresa que ele tenha vindo bem na minha direção e descoberto meu rosto.

“Olá Abe, há quanto tempo, heim?”, eu disse forçando um sorriso. Abe naturalmente me ignorou e partiu para assuntos de maior importância para ele.

“Nós precisamos tirar você daqui. Você está se sentindo bem?”.

“Espera aí! Nós, quem? Vocês dois?”, eu indaguei, apontando para ele e Dimitri, sem entender completamente nada.

“Não, Rose”. Então Abe abriu novamente a porta e fez um sinal com a mão, chamando alguém de fora.

“Mãe?!”, eu gritei ao vê-la entrar pela porta e sentando imediatamente na maca, o que deve ter mostrado a Abe o quanto eu estava me sentindo bem. Por sua vez, minha mãe correu até mim e antes que eu pudesse levantar, ela me abraçou com força. Foi quando eu vi que Lissa, Christian, Adrian e Mikhail a seguiam.

“Como eu dizia, Rose, nós precisamos tirar você daqui. E quando eu digo nós, eu me refiro a todos aqui presentes”, Abe esclareceu em seguida que minha mãe me soltou.

“Eu posso apenas…”. Abe Revirou os olhos enquanto eu falava e antes que eu terminasse a minha pergunta, ele a completou para mim, já a respondendo.

“Ok, Rose. Apenas uma pergunta, certo? Não mais do que uma pergunta. O que você quer tanto saber?”.

“Como eles pensaram que eu estava morta depois do golpe, se, de acordo com vocês, eu ainda estava viva, pois meu coração fora poupado do pior?”

Quem respondeu, para minha surpresa foi Lissa.

“O colar que você está usando, bem, o encanto dele vai muito além do que simplesmente acalmar você e impedir que você sinta dor, Rose. Na verdade o encanto não era para isso, então desculpa se a dor que você sentiu foi muito forte”, ela disse ao encolher os ombros, parecendo envergonhada por não ter pensado numa coisa tão óbvia. Ela continuou. “O feitiço desse colar é mais poderoso porque age diretamente sobre o espírito, mascarando-o. Porém seu feitiço é ativado apenas quando o sangue de alguém entra em contato com o objeto enfeitiçado, no caso, o colar e, uma vez que isso acontece, o feitiço só funciona sobre aquela pessoa cujo sangue o ativou. Em outras palavras, quando Dimitri cravou a estaca em seu peito e o colar foi batizado com o seu sangue, todos os presentes, que não sabiam o que estava acontecendo, viram você perder a vida naquele exato momento”. Ainda em choque com a revelação, eu olhei para meu peito para admirar mais uma vez a pequena serpente de olhos vermelhos que adornava meu pescoço, ainda tingida com o vermelho escarlate do meu sangue. Um arrepio correu pela minha espinha.

Lissa me deu mais algumas instruções sobre como funcionava o colar, dizendo que eu deveria permanecer com os olhos fechados para que a magia funcionasse, pois nenhum cérebro seria capaz de considerar que uma pessoa falando e de olhos abertos esteja morta, logo eu deveria me comportar como um cadáver, ficando imóvel, em silêncio, de olhos fechados e respirando o mínimo possível, em caso de alguém querer saber o que há por baixo do lençol. Por questões de segurança, Lissa também fez um pequeno e falso curativo onde eu havia sido atingida pela estaca, para esconder a ferida que não estava mais lá. O resto era por conta do colar.

“Ok, Rose, pergunta respondida. Agora se você nos dá licença, temos planos para revisar, certo Lissa?”, Abe disse ao, simpaticamente, colocar a mão sobre o ombro dela.

Assim que eles se afastaram eu olhei ao redor e tive uma visão geral do que estava acontecendo. Minha mãe, Dimitri e Mikhail conversavam entre si sobre estratégias de ataque e como procederiam caso alguma coisa desse errado. Era estranho ver Mikhail entre dois guerreiros como minha mãe e Dimitri, já que atualmente sua principal função era lidar com burocracias e papéis, muitos papéis, o verdadeiro pesadelo de um Dhampir. Ainda assim era bom saber que podíamos contar com ele.

Mais adiante, Abe, Lissa, Adrian e Christian revisavam suas respectivas funções, parecendo bastante entrosados, como se fossem os melhores amigos. Por um instante eu tive exatamente aquela sensação de quando seus amigos parecem gostar mais dos seus pais do que de você, uma coisa completamente irracional, mas involuntária. Apenas aquela boa e velha insegurança de quem está aprendendo a admitir para si mesmo que seus pais, de fato, podem se tornar pessoas legais.

Sem participar de nenhum dos grupinhos,  eu me limitei a ficar onde estava, apenas observando o que parecia ser um bom plano. Abe e Dimitri me levariam até o necrotério do centro reformatório, ainda seguindo protocolos padrões para não chamar a atenção. Lá meu corpo seria preparado para uma cerimônia privada de despedida, onde somente minha família e seus convidados poderiam participar. Adrian nos acompanharia pois era o único cuja ausência não seria notada de forma estranha, afinal Adrian nunca teve paradeiro certo e sempre fez o que bem entendeu, já que seus pais jamais tiveram controle sobre ele. Além disso, como meu namorado oficial, fazia sentido que ele quisesse aproveitar o momento para me dar um último adeus.

Os demais, porém, precisavam continuar a atuação por mais um tempo. Christian, que supostamente havia saído para ir atrás de Lissa e confortá-la, pouco antes da execução, precisava retornar ao local e fazer-se presente perto de Tasha, agora que tudo havia terminado e, assim que eles fossem formalmente convidados para a cerimônia de despedida, dirigiriam-se até a capela onde tudo aconteceria.

Enquanto isso, minha mãe e Lissa iriam até o camarote dos membros do conselho real de Morois. Elas não tinham a menor idéia do que eles poderiam querer com as duas, mas Mikhail, que agora parecia checar seu relógio a cada dois minutos, fora solicitado para encontrá-las e levá-las até lá. O momento não era o mais apropriado para um encontro com os membros da corte, porém não havia o que fazer quanto a isso. Pelo menos serviria para avisá-los que Lissa estaria na cerimônia de despedida. Não que eles dessem a mínima para isso, mas como eles fingiam se importar, era necessário que elas fingissem acreditar que sim.

Na quarta vez que Mikhail olhou para seu relógio, ele interrompeu a conversa da qual estava participando apenas como ouvinte, desculpando-se pela intromissão, e cochichou algo para minha mãe.

“Lissa, nosso tempo acabou. Precisamos ir agora”, ela disse, já verificando se suas armas estavam nos devidos lugares, enquanto Lissa dava um selinho em Christian, como um simbólico “até logo”. Ao passar por mim eu a agarrei pelo braço e a puxei  para perto da maca.

“Ei! Eu teria parado se você me chamasse. Não precisava quase arrancar meu braço fora!”. Lissa pareceu um pouco incomodada com a minha abordagem, o que era bom, pois assim ela prestaria mais atenção no recadinho que eu tinha pra ela.

“Nem pense em me deixar de fora dessa conversinha, ok?”, eu a ameacei, jurando para mim mesma que se ela me bloqueasse eu iria obrigar Adrian a compeli-la para me contar tudo, nem que eu precisasse jogar meu charme pra cima dele para convencê-lo disso.

“Sem problemas, Rose”, Lissa disse, puxando seu braço para soltar-se, ainda perturbada.”Considere-se minha convidada”.

“Por favor, senhoritas, agora não é hora e aqui não é o lugar certo para isso”. Abe intrometeu-se, afastando Lissa de mim. “O show não pode parar”.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 14

Assim que os três foram ao encontro dos conselheiros, Abe conversou rapidamente com Christian, que logo em seguida também deixou a sala em que estávamos. E assim que Christian saiu, Abe virou-se para mim.

“Que diabos foi aquilo?”, ele me perguntou, nunca parecendo tanto um pai como agora.

“Qual é, Abe! Vocês armaram tudo isso e não me deixaram saber de nada! Vocês fizeram com que eu acreditasse que ia ser executada de verdade! E toda vez que eu tentava entender o que estava acontecendo eu era bloqueada. Você sabe o quanto isso é frustrante?”.

“Isso não justifica a forma como você tratou Lissa há pouco. Qual é o seu problema?”.

“Por que você sempre me pergunta isso? O que o leva a pensar que eu sempre tenho algum problema?”, eu perguntei a Abe, me levantando da maca para enfrentá-lo. Céus, basta eu começar a pensar que Abe é uma boa pessoa para ele me provar o contrário, chega a ser irritante! Eu estou cansada disso! Eu merecia uma boa explicação, por isso eu fiquei em pé diante dele e cruzei meus braços esperando pela resposta.

“E o que foi agora? Você vai querer me enfrentar, Rose? Nos faça um favor e volte para a maca, ok?”, foi o que ele respondeu. Ah, Abe, você vai se arrepender por falar assim comigo, eu pensei! Então eu descruzei os braços e estava quase apontando o dedo na cara de Zmey para dizer mais uma dúzia de verdades, quando ele olhou bem dentro dos meus olhos e repetiu.

“Eu disse para você voltar para a maca, agora!”. Abe não precisou gritar, nem se exaltar para fazer valer sua vontade, pois algo muito estranho aconteceu quando ele olhou para mim. Era como se eu acordasse de uma hipnose e percebesse o quanto eu estava sendo estúpida ao bancar a corajosa pra cima dele. E assim, como num minuto eu estava pronta para desafiá-lo, no outro eu já estava sentada na maca e pra lá de assustada com a reação que ele causou em mim. Jamais ameaçar Abe, uma lição para toda a vida.

Em sincronia, Adrian se colocou diante de Abe enquanto Dimitri veio até mim para certificar-se de que eu estava bem, embora eu não tivesse dado muita importância a isso, pois meus olhos e ouvidos estavam do outro lado da sala. Adrian estava de costas para mim, parcialmente bloqueando o corpo de Abe, com uma de suas mãos fixadas firmemente no peito dele, como se o  impedindo de sair do lugar.

“Eu não acredito que você acabou de…”, Adrian não completou sua frase, sacudiu a cabeça para os lados para clarear a mente e recomeçou. “Com todo respeito, senhor Mazur, talvez seja melhor você se controlar, pois não há necessidade disso”. Abe, porém, parecia não se importar com a intervenção de Adrian, da mesma forma como eu estava ignorando a presença de Dimitri, que se pronunciou depois de observar a forma como eu e Abe nos encarávamos.

“Eu acho que sei o que está acontecendo aqui”, Dimitri disse, desviando a atenção de Abe sobre mim, o que eu poderia dizer que foi um alívio. “É o efeito rebote”.

“Eu não estou lhe acompanhando, Belikov”, Abe soou um pouco confuso.

“O poder de Lissa se alimenta do espírito dela própria, o que acaba gerando uma série de efeitos que podem, inclusive, levá-la a beira da insanidade. Entretanto, devido à ligação que ela e Rose têm, esses efeitos negativos que deveriam atingir Lissa são absorvidos automaticamente por Rose, que acaba funcionando como uma espécie de pára-raios. Quando isso acontece, o comportamento impulsivo e agressivo que ela já tem acaba se potencializando e, dependendo da intensidade desses efeitos, ela pode perder completamente o controle.”

“E você acha que isso aconteceu agora?”, Abe perguntou.

“Provavelmente, afinal Lissa vem usando com freqüência e de forma intensa seus poderes. Por outro lado, se isso é verdade, o mais condizente seria que Rose tivesse avançado em você agora ao invés de voltar para a maca, quando você a ordenou, o que é curioso”, Dimitri disse, cruzando os braços ao encostar-se na parede e observando Abe de forma cautelosa, certamente processando milhares de informações em silêncio.

“Permita-me discordar, Belikov”, Adrian intrometeu-se. “Desde que eu e Lissa começamos a estudar como funciona o elemento espírito, viemos desenvolvendo maneiras de utilizá-lo de forma equilibrada e eficiente, no intuito de diminuir os efeitos causados por ele. Prova disso são os aperfeiçoamentos que Lissa vem mostrando ao enfeitiçar objetos, como a estaca que lhe trouxe de volta a vida, por exemplo. E por mais que Lissa tenha usado seu poder eu não notei nenhuma alteração de humor em Rose e, acredite, eu estava acompanhando ela bem de perto”. Adrian alfinetou. Se Adrian queria a minha atenção, havia conseguido, pois meus olhos  desviaram de Abe para ele em questão de segundos. O que Adrian estava pensando? Por mais que o que ele disse fizesse sentido, ele não tinha o direito de me expor assim. Não é nem pelo fato de não querer que Abe e Dimitri soubessem que nós dois temos passado bastante tempo juntos, e sim porque parecia que ainda havia motivos para Adrian precisar fazer um comentário desses. Sinceramente, se nossa relação estivesse bem resolvida ele não precisaria reafirmá-la numa situação como essa, podendo inclusive fazer Dimitri pensar que eu ainda tenho sentimentos em relação a ele, o que me tornaria uma jovem de coração partido com dificuldade em administrar meus sentimentos. Ok, talvez eu estivesse tendo um pouco de dificuldade em aceitar que Dimitri não me quer mais, mas eu juro que estou trabalhando arduamente para superar o problema e Adrian sabe disso!

Tentar mostrar que ele me conhece mais do que Dimitri só faz parecer que ele é um namorado inseguro e ciumento. Que tipo de jogo mesquinho é esse? Por acaso estamos de volta ao ensino fundamental? Ah, se eu pudesse sumir daqui agora…

“Então basicamente você está me dizendo que Lissa está aprendendo a usar seus poderes de forma moderada e por isso Rose sofreu apenas uma leve alteração de humor? Eu não sabia que isso era possível”, Dimitri disse ao olhar para mim nitidamente esperando por uma resposta.

“Bom… impossível não é…”, eu disse, a fim de não criar maiores transtornos, porém sabendo que Dimitri estava certo a respeito de suas desconfianças. Primeiro, meu humor estava sofrendo oscilações desde que Lissa me trouxe de volta, o que pode ser explicado pelo fato de eu estar absorvendo os efeitos negativos que deveriam atingi-la quando ela faz uso do seu poder. Contudo, isso nos leva para a segunda questão, pois Lissa, de fato, estava usando seus poderes de forma intensa e freqüente, logo era de se admirar que o “rebote” não tenha passado de uma pequena e controlável reação.

Obviamente o que Adrian disse também faz sentido, mas eu os observava sempre que podia e até então ele ajudava Lissa em algumas coisas para que ela não se desgastasse tanto e eu não acabasse me tornando um furacão de categoria 5 ambulante. Havia algo de muito errado nessa história e minha intuição dizia que tanto Adrian quanto Abe sabiam o que era, mas primeiro eu precisava investigar melhor o caso para depois confrontá-los.

“Vocês querem saber? Eu não estou a fim de continuar essa conversa no momento, então se vocês não se importarem eu vou me deitar aqui nessa maca e invadir a mente da minha melhor amiga para saber o que aqueles Morois querem com ela e minha mãe ok? Enquanto isso, apenas não se matem, que tudo ficará bem. Eu estou confiando em vocês, rapazes”, eu disse antes de me juntar mentalmente a minha mãe e Lissa, sem dar tempo para ouvir protestos. O que quer que aconteça na sala onde meu corpo estava, eu não quero saber. Os três são bem crescidinhos, espertos e sabem se cuidar, então eles que resolvam o clima que eles mesmos criaram, porque agora eu tinha coisas mais importantes com que me preocupar.

Lissa e minha mãe estavam sentadas diante de todos os membros do conselho real e do conselho internacional de guardas reais. O que eles estavam fazendo lá? Pela conversa, minha mãe havia questionado exatamente a mesma coisa.

“A razão de eles estarem aqui, guardiã Hathaway, é porque precisamos discutir a respeito de quem será responsável pela segurança da princesa Vasilisa Dragomir agora que Rose não está mais…disponível”, respondeu Eugene Lazar, já assumindo a função a que fora outorgado: ser um pé no saco. Minha mãe desviou o olhar e baixou a cabeça, mostrando-se agredida com a forma com que Eugene havia falado sobre minha suposta morte. Fala sério, disponível? Eu estava morta, não indisponível, seu imbecil! Lissa levou sua mão até o braço de minha mãe numa forma de confortá-la e dando um show de interpretação. Eu estava tão orgulhosa das duas!

“Eu sei que a perda de vocês é recente e que certamente prefeririam estar com ela agora ao invés de discutir conosco sobre esse assunto, mas eu acho que Rose, se você me permite chamá-la assim, gostaria que isso fosse definido o quanto antes. Todos sabem o quanto ela se preocupava com a sua segurança, princesa Dragomir. E assim como ela, nós também nos preocupamos. Mas não façam isso por nós, façam por ela.”, Lazar concluiu sua também bela performance. Tenho que admitir, ele era bom. Se eu não soubesse que os conselheiros reais não estavam nem um pouco preocupados com a  segurança de Lissa, eu acho que até acreditaria no discurso de Eugene. A questão é: ele sabe disso também? Era difícil e muito cedo para descobrir, pois ele surpreendeu a muitos com a sua aparição. Depois que seus filhos foram institucionalizados, ninguém imaginou que ele conseguiria exercer a função de diretor da escola para a qual havia sido escalado e isso foi reforçado pelo seu afastamento do cargo assim que tudo aconteceu. Agora ele estava de volta e não parecia nem um pouco abalado. Ou ele é uma pessoa que tem facilidade para lidar com as adversidades da vida e superou a história de Avery e Reed ou ele é um completo insensível que apenas precisou de tempo para reorganizar seus objetivos. Seja qual for a verdade, eu não pretendo esperar Eugene agir para conhecê-la. E pelo visto eu não era a única com esse pensamento. Com um suspiro, minha mãe fingiu se recompor e fazer o esforço de participar da discussão.

“Isso eu até entendo, senhor Lazar. O que eu não entendo é a necessidade da minha presença aqui. Lissa é maior de idade e estou certa de que ela tem condições de escolher o que é melhor para si”.

“Sua filha, guardiã Hathaway, provavelmente seria escolhida como guardiã de Lissa se a história não tivesse tomado esse rumo. Ela pode ter cometido o crime que cometeu, mas não podemos descartar suas qualidades. Como eu já disse, todos sabem como ela prezava pela vida de Vasilisa, uma dedicação que deveria ser exemplo para muitos Dhampirs e que merece nosso respeito. A forma que encontramos de demonstrar isso foi trazê-la para participar dessa escolha, senhora Janine.”

“Guardiã Hathaway, senhor Lazar. Mostrar respeito pela minha filha não lhe dá o direito de me chamar pelo primeiro nome”, minha mãe disse sem pestanejar, destilando um pouco do seu veneno para ninguém esquecer com quem estavam lidando.

“Absolutamente, guardiã Hathaway. Me desculpe”, Eugene disse ao ficar ruborizado, sem saber exatamente o que fazer diante da resposta inesperada que recebeu.

“Sem problemas”, minha mãe disse. “Eu apenas prefiro manter formalidades. Faz parte de mim e do meu trabalho. Eu acho que o senhor entende”.

“Perfeitamente, guardiã Hathaway”.

“Bem, eu gostaria de dizer que é gratificante poder participar dessa escolha importante na vida de Lissa e absolutamente gostaria de retribuir essa consideração de vocês pela minha filha e por mim também, se vocês não se importarem”.

“De forma alguma, senhora Hathaway, mas que fique claro que não há necessidade de uma retribuição. Não estamos fazendo isso esperando algo em troca”.

“Eu nunca disse isso, senhor Lazar. Considere como uma forma de agradecimento.”

“E do que exatamente estamos falando?”, Lazar perguntou. Minha mãe respirou fundo, segurou Lissa pela mão e surpreendeu a todos com a sua resposta.

“Eu gostaria de dar continuidade ao trabalho de minha filha e me oferecer como a guardiã oficial de Vasilisa Dragomir”. No mesmo instante, Lissa virou-se para minha mãe com os olhos arregalados e ela, ao contrário de Lissa, parecia serena, como se soubesse que o que estava fazendo era o que precisava ser feito. Eugene ficou sem saber o que dizer durante alguns segundos e eu não o culpo por isso. Talvez ele até soubesse o que dizer, mas a surpresa era tanta que ao abrir a boca, ele não emitiu um som sequer e voltou a fechá-la. Eu mesma não estava acreditando. Minha mãe, abrindo mão de tudo para embarcar nessa aventura? Não, eu não penso que ela não tem competência para proteger Lissa, muito pelo contrário. É apenas difícil assimilar que ela largaria sua vida profissional para lutar por uma causa que a princípio era minha.

“Bem, senhora guardiã Hathaway”, Eugene disse, confundindo as formas de tratamento ainda em virtude do impacto das palavras de minha mãe. “Eu não sei como dizer, mas é que na verdade nós …”

“Eu aceito”, Lissa interrompeu Lazar antes que ele pudesse continuar. Ela sabia que eles já deveriam ter até mesmo escolhido alguém para protegê-la e que a presença de minha mãe era uma mera formalidade, mas enquanto isso não fosse oficialmente revelado, seria muito mais fácil para Lissa fazer valer a sua vontade. E foi exatamente o que ela fez.

“Você…. o quê?”. Lazar parecia não acreditar no que estava acontecendo. Aliás nenhum dos Morois do conselho parecia acreditar ou gostar do rumo que as coisas estavam tomando. Lissa repetiu.

“Eu aceito a guardiã Janine Hathaway como minha guardiã oficial”. As duas se olharam sorrindo e, apesar de estar assistindo a cena através de Lissa, eu senti como se estivesse sorrindo também.

“E quanto ao Moroi que você protege há anos, senhora Hathaway? Você vai simplesmente abandoná-lo?”, Eugene jogou sujo, tentando deixar minha mãe com peso na consciência. O que ele não sabia era que Janine Hathaway é uma mulher decidida que, quando toma uma decisão, não volta atrás.

“Eu já falei sobre isso com ele. Depois do que aconteceu com a minha filha eu não tinha condições emocionais de protegê-lo e já o passei para alguém de minha confiança. Porém, protegendo Lissa eu estarei de alguma forma conectada a Rose, o que me garante a força de que eu preciso para seguir adiante com a minha vida e minha profissão. Por favor, não tirem isso de mim”, minha mãe finalizou seu discurso emocionante quase levando Lissa às lágrimas. Todos ficaram em silêncio  por não saberem o que dizer, mesmo que só houvesse uma resposta a ser dada. Afinal, nada impedia que minha mãe protegesse Lissa e se eles se mostrassem contra, alguém poderia achar suspeito, o que eles certamente não queriam. E depois dessa dramatização de minha mãe, quem poderia dizer não?

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 15

Quando eu retornei a minha própria mente, estava escuro e não num bom sentido. Eu abri os olhos e pisquei várias vezes para ver se conseguia enxergar alguma coisa mas por mais que me esforçasse, tudo continuava preto. Eu sentia meu corpo levemente comprimido e, mesmo imóvel, era como se eu estivesse me movendo, ou melhor, era como se eu estivesse sendo movida. Ao tatear o espaço ao meu redor, eu vi que espaço mesmo era algo que sequer existia. Era só o que me faltava, eu pensei. Será que além de precisar me fazer de morta eles ainda me trancaram dentro desse lugar fechado e escuro que mais parecia um caixão sob medida? Eu juro que se isso for uma espécie de brincadeirinha de mau gosto de Abe, Adrian e Dimitri, eles vão se ver comigo assim que eu sair.

Porém, me ocorreu, de repente, que eu não sabia se realmente sairia dali, até mesmo porque não tinha a menor idéia de como havia parado lá e me desesperei ao considerar a hipótese de algo ter dado errado. Como conseqüência da ansiedade, minha respiração acelerou tanto que logo me senti sufocada, como se a escuridão tivesse me roubado o oxigênio. Tudo o que me passou pela cabeça era que eu precisava sair dali, então automaticamente cerrei minhas mãos e comecei a bater contra a superfície que havia sobre mim. Quanto mais eu batia, mais e mais forte eu sentia a necessidade de bater e logo não eram apenas minhas mãos se debatendo contra as paredes ao meu redor, mas meu corpo inteiro. Os instintos falaram mais alto e eu esqueci completamente de que eu deveria “parecer morta”.

“Me tirem daqui!”, eu gritei sem parar de me debater. “Eu não consigo respirar. Eu preciso sair daqui!”. Então algo aconteceu e para onde quer que eu estivesse sendo levada, eu não estava mais, pois eu senti que o transporte havia parado, graças a Deus. Eu relaxei assim que ouvi o barulho da tampa acima de mim ser aberta. No entanto, quando ela foi removida eu dei de cara com um dos guardas que estava ao meu lado durante a execução e eu vi a grande besteira que havia feito. Por pouquíssimos segundos ele me olhou embasbacado, provavelmente porque havia me visto mortinha da silva algumas horas atrás, logo eu não deveria estar me debatendo, de olhos abertos e muito menos falando.

“Oi…”, eu disse meio sem graça e com um sorriso nada espontâneo. Droga, agora sim eu estou morta, eu pensei. Porém antes que ele pudesse reagir, eu vi um par de mãos agarrá-lo e tirá-lo do meu campo de visão.

“Eu disse que isso não daria certo”, disse casualmente uma voz parecida com a de Abe. Espera um segundo, Abe? Não era possível.

“Ela estava fora do ar. O que você queria? Dopá-la?”, a voz inconfundível de Adrian o respondeu. O som de um impacto veio a seguir e eu achei melhor ver o que estava acontecendo, afinal, se dois Morois como Abe e Adrian estavam por ali, era seguro para mim também. Ao me levantar, a primeira coisa que eu percebi foi que, meu Deus, eu estava mesmo dentro de um caixão. Então eu vi Dimitri pressionando o guarda contra a parede, o ameaçando com uma estaca a poucos centímetros do seu peito.

“Mas que diabos…”, o guarda tentou perguntar algo mas Dimitri foi mais rápido e o calou com sua mão.

“Ei, Adrian, é melhor você fazer a mágica aqui ou eu serei obrigado a usar a minha”. Dimitri disse entre os dentes, tamanho era o esforço que fazia para manter o guarda calado e imobilizado, segurando a estaca de forma que sua ponta estava a um golpe de ser cravada no coração do pobre homem. Eu sei que eu não deveria ter pena dele, mas é que dessa vez eu sabia que Dimitri não erraria o golpe como fez comigo, portanto se ele resolvesse usar sua “mágica” agora, aquele guarda não teria chances. Seria um legítimo “game over”.

Então Adrian se aproximou dos dois e, diante do tal guarda, segurou-lhe a cabeça com uma só mão enquanto Dimitri mantinha o resto do corpo dele ainda imobilizado.

“Olhe nos meus olhos”, Adrian disse ao guarda. O homem, porém estava agitado demais e não conseguia se concentrar no que Adrian estava tentando dizer.

“Ei, amigo, está tudo bem. Você pode relaxar agora”. Adrian tentou tranqüilizá-lo e, para minha surpresa, conseguiu. Imediatamente o guarda parou de lutar contra Dimitri, que pode agarrá-lo com mais força ainda e quando Adrian pediu que ele olhasse mais uma vez para seus olhos, foi atendido.

“Bom garoto”, Adrian disse, dando alguns tapinhas de leve no rosto do guarda, como se ele fosse um cachorro que tivesse atendido prontamente o pedido do dono. “Agora preste atenção, pois essa parte é muito importante”, Adrian continuou. “Rose está morta. O que você viu não passa de uma peça que seu cérebro está lhe pregando porque você sente-se culpado de não ter impedido que Rose fosse executada, afinal você não acredita que ela tenha cometido o assassinato da rainha, acredita?”.

“Não, eu não acredito”, o guarda respondeu.

“E ainda assim você ficou ao lado dela e a viu morrer sem fazer absolutamente nada!”, Adrian disse com crueldade.

“Eu sei, eu sei!” desesperou-se o guarda, fechando os olhos parecendo lembrar vividamente da cena. “Eu deveria ter feito alguma coisa”.

“Mas você não fez. Você falhou, soldado. E agora você está condenado a conviver com esse fantasma, eu lamento”.

“Mas ela falou comigo. Ela parecia tão real!”.

“Se alucinações parecessem reais, ninguém acreditaria nelas, meu caro. O problema é que somente você viu isso, ninguém mais. Então que tal esquecer sobre o que aconteceu aqui? Não há porque colocar sua carreira em risco, certo?”.

“É, é melhor esquecer sobre isso”, o guarda repetiu, numa espécie de transe.

“Você é um cara esperto! E já que você concluiu com sucesso a tarefa de nos escoltar até o necrotério, está dispensado. Nós assumimos a partir daqui”. Adrian finalizou, dispensando o guarda. Essa era a minha deixa para voltar a deitar no caixão, afinal ninguém precisava que aquele guarda me visse sentada e começasse todo o drama mais uma vez. Além disso, ninguém viu que eu havia sentado e estava assistindo àquela cena, pois todos estavam de costas para mim, provavelmente bloqueando a visão do guarda para que ele não me enxergasse mais.

Quando o guarda se afastou não demorou muito para Abe enfiar sua cabeça na abertura do caixão.

“Precisava fazer tanto escândalo?”, ele perguntou, indignado.

“O que você esperava? Ninguém mencionou antes que haveria um caixão. Eu pensei que ia acabar sendo enterrada viva!”. Eu respondi, sentindo minhas bochechas corarem,  afinal soava ridículo uma guardiã corajosa como eu ter medo de uma coisa dessas. Não é a toa que Abe caiu na gargalhada e se afastou. Eu ouvi um barulho de chaves e em seguida o ranger de uma porta abrindo.

“Vocês vão primeiro”, Abe ordenou Adrian e Dimitri. Imediatamente eu senti o caixão ser levantado e carregado mais uma vez. A julgar pelas luzes, pela temperatura e principalmente pelo cheiro da sala na qual entramos, eu sabia que estávamos no necrotério.

“Você pode sair daí agora , se quiser”, disse o comandante Zmey, a quem eu obedeci sem que ele precisasse repetir. Assim que sentei pude ver Adrian, com as mãos apoiadas na extremidade do caixão para onde apontavam meus pés, apenas esperando que meus olhos encontrassem com os dele. Quando isso aconteceu, ele me estendeu sua mão para me ajudar a sair de dentro do caixão e eu fui presenteada com um sorriso tão carregado de sentimentos que me fez sorrir também. Mas quando percebi que Dimitri estava ao fundo, encostado na porta do necrotério e observando tudo que acontecia, meu sorriso automaticamente foi desmoronando e eu senti um aperto no peito. Eu tentei disfarçar dizendo que eu estava dolorida nas costas pela falta de conforto do caixão, mas acho que não consegui enganar ninguém. A situação só não ficou mais constrangedora porque Abe começou novamente a me passar um sermão, dizendo que se eu continuasse a fazer escândalos  quando deveria estar a sete palmos abaixo da terra, seria difícil passar pelo que viria a seguir e, antes que eu perguntasse o que era, ele já foi avisando que envolvia eu ser cremada e transportada de formas nada confortáveis até um lugar seguro.

“Cremada? Vocês evitaram que eu fosse morta por uma estaca para terem o prazer de me queimar viva?”, eu  perguntei sarcasticamente. Abe revirou os olhos, mas com toda a paciência que aquele Moroi poderia ter, explicou que Christian usaria seu poder para atear fogo ao redor de mim, criando a ilusão de que eu estaria sendo cremada.

“Mas qual o propósito disso? Você mesmo disse que a cerimônia é fechada para familiares e convidados”, eu questionei tentando não demonstrar que, apesar de confiar no controle que Christian tem sobre o seu elemento, não me agradava muito ficar tão próxima assim do fogo.

Abe  alegou que por mais que a cerimônia fosse fechada, ninguém poderia impedir a entrada de qualquer pessoa que trabalhasse dentro do reformatório, então para todos os fins eu deveria ser velada rapidamente e depois cremada, respeitando-se o tempo que esses rituais durariam caso fossem reais. O que eu poderia dizer? Pelo visto já estava tudo planejado mesmo.

“E depois?”, eu continuei o interrogatório. “Se você não quer que eu fique sendo surpreendida com esse plano de fuga de vocês é melhor começar a me dizer tudo que irá acontecer”.

“Depois embalamos você para viagem e damos o fora daqui”, ele respondeu. Era incrível como Abe estava mais sociável e irritantemente bem humorado. Porém ao seguir com a explicação eu vi que não era bem uma piadinha. De fato eu seria embalada para viagem, já que me colocariam dentro de uma das malas de Abe, pois como ele trabalha no reformatório as bagagens dele não são revistadas. “Nem pensar que eu vou ficar fechada dentro de uma mala por algumas horas!”, eu me exaltei ao ouvir a teoria de que essa era a melhor forma de me tirar de dentro do reformatório.

“Você tem uma idéia melhor?”, Abe me perguntou. Eu fiquei em silêncio e desviei o olhar. “Foi o que eu imaginei”, ele adicionou. Frustrada, eu voltei a sentar no caixão, abraçando meus joelhos. Adrian me seguiu e abaixou-se diante de mim.

“Você está meio intolerante, não acha? O que está acontecendo, Rose?”

“Eu não quero discutir isso aqui, Adrian”.

“Olha, eu sei que isso pode parecer estranho vindo de mim, mas nós estamos trabalhando duro para tudo dar certo, nós estamos mesmo. Seria bom se você pudesse reclamar menos e colaborar mais”.

“Eu estou colaborando! Aliás, eu não tenho outra opção a não ser colaborar. É que é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Eu não queria parecer mal agradecida, de jeito nenhum. Esse plano que você e Lissa organizaram não poderia ter funcionado melhor, mas…”

“Do que você está falando Rose?” Adrian me interrompeu parecendo confuso. Então eu lhe expliquei que enquanto estava na prisão eu invadia a mente de Lissa sempre que ela permitia e eu acabei ouvindo conversas a respeito de uma tentativa de resgate.

“Sim, de fato ela tinha intenções de organizar um resgate maluco do qual eu não estava muito de acordo, mas quem organizou tudo isso aqui foi seu pai, Rose. Aliás, ele vem organizando esse plano desde que você foi presa, recrutando todas as pessoas em que você confia para ajudar. Eu e Lissa fomos os últimos a saber por causa da possibilidade de você conseguir invadir a mente dela e descobrir tudo, o que colocaria o plano em risco, já que seria melhor você pensar que as coisas não estavam indo bem mesmo.”.

“Não, mas há algo errado. A última vez que eu lembro de ter sido bloqueada foi quando Dimitri estava falando com vocês sobre uma missão”.

“Exatamente, essa missão! Ou você acha que Abe seria burro de ir pessoalmente falar com Lissa, correndo o risco de você ver que ele estava por trás de tudo? Ele mandou Dimitri. O que você ouviu foram conversas que aconteceram antes de sabermos dos planos de Abe. Por essa razão você não conseguia mais invadir a mente de Lissa depois que Dimitri nos procurou. Ela praticamente passou a bloquear você constantemente.”

“Porque você está me contando isso agora, Adrian?”.

“Porque eu acho que você está sendo injusta com aquele cara ali”, Adrian disse, apontando para Abe, que estava agora conversando com Dimitri, provavelmente revisando os próximos passos do plano. “E principalmente porque você está se enganando, Rose. Essa sua irritação não tem nada a ver com a reação que Lissa transfere para você, ela é somente sua. Eu sei que não tem sido fácil pra você, mas se servir de consolo não tem sido fácil para nenhum de nós e nem por isso estamos nos atacando aqui. Pense a respeito disso, ok?”.

Tendo dito isso, Adrian se afastou para juntar-se a Abe e Dimitri. Eu não sei como ele afirmava com tanta certeza de que essa irritação era somente minha, mas ele estava certo quanto as minhas freqüentes reclamações e sobre eu estar sendo injusta com Abe. Droga.

“Tudo bem”, eu disse, chamando a atenção dos três, que me olharam sem entender nada. “Mas eu tenho uma condição. Se for para ficar dentro de uma mala trancada e me sentir segura, eu preciso de uma estaca”.

Imediatamente Dimitri me jogou a estaca da qual ele tinha posse e eu a peguei no ar como se aquilo fosse uma jogada ensaiada, olhando para ele em seguida. Tudo que ele fez foi acenar com a cabeça. Eu o retribuí da mesma forma.

“Deixe-me ver se eu entendi. Rose vai ficar dentro de uma mala com uma estaca enquanto você ficará desarmado para nos proteger? Até eu consigo ver o erro desse plano, Belikov”, Adrian pontuou sarcasticamente.

“Um bom Guardião sempre carrega duas estacas consigo, Adrian”, Dimitri disse, abrindo levemente seu casaco. “É por isso que eu carrego três, no mínimo”, Dimitri sorriu ao mostrar duas lindas estacas prateadas presas ao seu cinto. Adrian calou-se, sem palavras. Também, o que ele esperava? Dimitri não era nenhum amador, muito menos um marinheiro de primeira viagem quando o assunto era proteger Morois.

Eu não dei bola para a pequena picuinha dos dois, porque eu estava muito ocupada sentindo novamente o poder de ter uma estaca em mãos. Nossa, fazia tanto tempo desde a última vez que eu segurei uma dessas belezinhas que eu tinha esquecido do poder que há nelas. Eu fiquei tão hipnotizada que não percebi a movimentação dos meus acompanhantes para seguirmos em direção à capela onde eu seria supostamente velada e muito menos me importei em ser fechada novamente dentro do caixão.

Quando a tampa abriu-se novamente, eu me sentei no caixão, esperando que ainda fosse surpreender alguém, mas não. Era como se nada estivesse acontecendo e a minha presença ali fosse mais do que normal. Na porta de entrada, duas máquinas prontas para atacar: Dimitri e minha mãe. Minha mãe? Ai meu Deus, elas haviam voltado! Eu comecei a procurar Lissa com os olhos mas ela me achou antes que eu a encontrasse. Porém eu fui a primeira a falar, evitando rodeios e cumprimentos desnecessários.

“Que diabos foi aquele encontro? E Eugene? O que aquele homem estava fazendo la?“

“Nem me fale! Eu pensei que eles apenas queriam acertar alguns detalhes com relação à cerimônia de despedida. Jamais me passou pela cabeça que eles estariam tão ‘preocupados’ em me arrumar um novo guadião”, Lissa disse.

“Isso era até previsível, Lissa, apesar de não tão depressa. Eu estando morta e Dimitri ainda impossibilitado de exercer sua profissão novamente, era de se esperar que eles estivessem procurando um substituto”.

“Mas obviamente não a sua mãe. Você viu a cara de espanto deles quando ela disse que fazia questão de seguir com o seu trabalho?”, Lissa questionou mostrando-se ainda em choque com o rumo que as coisas estavam tomando.

“Sim, eu vi e não gostei nada daquilo, embora eu também tenha ficado surpresa com a atitude da minha mãe. Eles estão tramando alguma coisa, Lissa, e não vão desistir fácil. Nós ganhamos algum tempo, mas só teremos alguma chance se descobrirmos sobre esse… essa coisa antes deles”. Eu mordi a língua ao quase dizer que precisávamos descobrir sobre esse outro Dragomir vivo. Cuidado com a boca Rose.

“Desculpe interromper o papo das garotas, mas está na hora de dar uma esquentada nas coisas por aqui”, Christian disse ao parar do lado de Lissa. “E você minha princesa”, ele continuou beijando-a no rosto, “está sendo solicitada para comparecer a uma breve reunião com Abe”. Sorrindo, Lissa deu um selinho em Christian e partiu, deixando-me na companhia de seu namorado.

“Bom ver que você ainda está viva, Rose”, Christian disse após se aproximar um pouco mais.

“Sabe como é, Christian, dizem que vaso ruim não quebra fácil”.

“É, mas vamos ver com esse vaso ruim resiste ao fogo”, ele disse com um sorriso debochado.

“Eu juro por Deus, Christian…”

“Relaxa, Rose. Você não acha mesmo que eu seria capaz de incinerar você, acha?”.

“Bem, não propositalmente, é claro….”

“Não tenha tanta certeza…”, Christian disse ainda com seu tom de brincadeira, virando de costas e afastando-se do caixão. “Mas Rose”, ele continuou ao parar e olhar para trás, “É realmente bom saber que você ainda está viva”. Christian poderia até estar com um sorriso estampado no rosto, o que não era o caso, mas dessa vez eu sabia que ele estava falando sério.

“Obrigada, Christian”. Eu sorri para ele e ele apenas deu uma piscadinha.

“Você está pronta?”, ele me perguntou.

“Quando você quiser”.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 16

Eu estava esperando o início do ritual de cremação dentro de uma espécie de forno, deitada num caixão na mesma posição de um cadáver. Entre minhas mãos estava a estaca que Dimitri havia me dado. A pequena demora para o início do processo logo me gerou uma dúvida e eu sentei rapidamente no caixão para questioná-la, exatamente no momento em que uma muralha de fogo surgiu ao meu redor.

“Meu Deus”, eu gritei ao me jogar para trás imediatamente, sem sequer pensar nas conseqüências de bater com as costas e a cabeça contra o fundo de madeira do caixão. O fogo cessou assim que eu gritei, mas era tarde demais. O dolorido impacto contra a madeira foi inevitável.

“Christian, o que você fez?”, perguntou Lissa, preocupada.

“Sua… LOUCA”, Christian gritou, ignorando Lissa, visivelmente nervoso por quase ter me queimado de verdade!

“E isso lá é motivo para tocar fogo em mim?”, eu disparei. Os demais permaneceram em silêncio, provavelmente por estarem voltando a respirar depois do susto, assim como eu.

“Basta!” Abe disse em alto e bom tom, interrompendo o que facilmente poderia se tornar em uma longa discussão. Eu ouvi alguns passos  e quando ouvi a voz dele novamente, Abe parecia estar diante da boca do forno. “O que foi agora, Rose?”.

“Quanto tempo isso durará?”, eu perguntei sem coragem de me levantar do caixão mais uma vez, mesmo que não houvesse fogo.

“Duas horas, por que?”. Isso só poderia ser uma brincadeira! Inconformada, eu acabei me sentando.

“E o que eu devo fazer enquanto isso?”, eu questionei. Eu estava mais do que surpresa, eu estava chocada. Christian e Abe reviraram os olhos.

“Pense na vida, reze, tire um cochilo, mas pelo amor de Deus, apenas tente…”.

“Já sei, já sei, tente ficar imóvel e parecer morta”, eu completei a frase de Abe, voltando a me deitar com cuidado no caixão, sem me dar o luxo de reclamar. “Não se preocupem, eu estou quase ficando especialista no assunto”.

“Ah, sim! Nós percebemos isso”, Christian resmungou num impulso. E após uma contagem de três até um, eu tive uma pequena visão do que o inferno deveria ser. A impressão que eu tinha era de que a qualquer momento aquele fogo consumiria a madeira do caixão e faria de mim a próxima vítima, mas isso não ocorreu. Talvez Christian tenha sido piedoso quanto à intensidade do fogo, pois o calor era algo presente e constante mas não da forma como eu imaginei que deveria ser. Eu fiquei tensa por aproximadamente 10 minutos, mas relaxei ao lembrar que havia algo que eu poderia fazer enquanto estivesse ali. Visitar a mente de Lissa. E eu o fiz bem a tempo de pegar a conversa que Abe queria ter com ela.

“Então você queria falar comigo, senhor Mazur?”, Lissa perguntou a ele.

“Sim Lissa, eu preciso de algumas informações a respeito de Victor Dashkov, se não for pedir demais. Eu sei que você não gosta muito de lembrar a respeito dele, mas infelizmente isso é importante”. Lissa cruzou os braços, como se aquilo lhe desse mais segurança e disse que não teria problema.

“Você sabe desde quando ele conhecia seus pais?”., foi a primeira pergunta.

“Victor? Quando eu nasci eles já eram amigos. Eu inclusive cresci o considerando praticamente como se fosse da família, um tio ou algo assim”.

“E como era a relação de vocês? Antes do que aconteceu, claro”.

“Bem, ele sempre fora muito carinhoso, pra dizer a verdade. E quando meus pais e meu irmão faleceram, Victor foi uma das pessoas que mais me ajudou. Por isso foi tão chocante vê-lo armar um plano contra mim”.

“Será que a intenção dele era realmente agir contra você?”

“Com todo o respeito, senhor Mazur, mas você está delirando? Ele queria que eu usasse meus poderes para combater a doença dele e mantê-lo vivo, sendo que aquela doença não tem cura. Eu sei que o senhor não sabe dos efeitos do uso excessivo do elemento espírito ao seu usuário, mas eu lhe garanto que não é nada saudável. E no meu caso, eu não seria a maior vítima da história, seria Rose”.

“Esse é o ponto da questão, minha querida Vasilisa. Esse é o ponto da questão”. Abe disse pedindo licença ao se levantar. Lissa parecia carregar um enorme ponto de interrogação sobre sua cabeça ao acompanhá-lo com os olhos. Eu também não entendi onde Abe queria chegar com essa conversa, mas ele parecia saber o que estava fazendo, como sempre. Então Abe foi até a porta e chamou minha mãe para conversar em particular no outro canto da capela. Não foi possível ouvi-los na maior parte do tempo, mas vê-los interagindo de forma tão séria e até profissional era estranho, aliás acho que essa era a primeira vez que eu presenciava algo do gênero entre eles, o que me fez perceber que belo par os dois formavam. Durante toda a conversa Lissa manteve discretamente os olhos neles e quinze minutos depois Abe estava se afastando quando minha mãe o chamou novamente.

“Abe?”. Ele apenas virou para trás. “Não me faça ir atrás de você”, ela disse. Abe mostrou-se de acordo, acenando com a cabeça,  e continuou. Aquilo foi estranho, pois as palavras nada delicadas de minha mãe não condiziam com a forma como ela olhava para ele. Pra dizer a verdade ela parecia estar dizendo para Abe tomar cuidado. Minha mãe se importando com Abe? Desde quando? Talvez eu estivesse começando a delirar com o calor do fogo.

De qualquer maneira, Abe seguiu seu caminho até a porta da capela, cumprimentou Dimitri e saiu. Era engraçado ver e sentir a confusão de Lissa. Só não era mais engraçado porque eu compartilhava do mesmo sentimento, mas graças a Deus ela estava disposta a saber o que estava acontecendo, levantando-se e indo até onde estava minha mãe para buscar esclarecimentos.

“Com licença, senhora Hathaway, mas eu não pude deixar de perceber que o senhor Mazur acabou de sair daqui e ele parecia um pouco agitado. Não quero parecer curiosa, mas está tudo bem?”. Minha mãe pareceu surpresa com a aproximação de Lissa, mas passado o susto, voltou ao normal e respondeu que não era nada com o que se deveria preocupar.

“A senhora sabe dizer se ele vai retornar?”.

“Sim, sim. O senhor Mazur apenas precisou resolver alguns assuntos pendentes relacionados ao trabalho, mas nos encontrará ainda em tempo de sairmos todos daqui”, ela disse, satisfazendo a curiosidade de Lissa, mas não a minha. E assim, tentando entender mais um dos mistérios de Abe, o restante do tempo pareceu ter passado voando e logo o fogo começou a diminuir, indicando que o ritual de cremação havia chegado ao fim.

Minha mãe e Dimitri bloquearam temporariamente a entrada principal da capela para que ninguém entrasse, então Adrian e Mikhail se aproximaram em ritmo acelerado, me puxaram para fora do forno, colocando o caixão sobre uma maca e rebaixando-a até o chão. Adrian estendeu sua mão, ajudou-me a levantar e me acompanhou até a sala ao lado. Quando a porta que separava os dois ambientes estava sendo fechada, eu senti um cheiro de fumaça.

“Que cheiro é  esse?”, eu perguntei a Adrian.

“É seu caixão sendo queimado, mas de verdade dessa vez. Nós precisávamos destruí-lo de qualquer forma e pelo menos assim as cinzas serão úteis”, Adrian disse. “Você sabe… Evidências”.

“Evidências? E se alguém aparecesse no meio da cremação? Quais seriam as evidências?”.

“Bem, nesse caso Christian precisaria queimar superficialmente a madeira do caixão para haver no mínimo, o cheiro de algo queimando no ar”.

“Não ocorreu a vocês que isso geraria fumaça e que eu poderia vir a tossir e colocar o plano em risco?”. Adrian apenas ergueu as sobrancelhas.

“Ai meu deus, vocês não haviam pensado nisso!”

“Relaxa, Little Dhampir, nada aconteceu e se acontecesse nós daríamos um jeito na situação”.

“Com Abe no comando? Vocês dariam bem mais do que um jeito, eu tenho certeza disso”. Adrian deu uma risada e assim que um breve silêncio se formou ele sorriu genuinamente.

“Vem aqui”, ele disse estendendo o braço na minha direção. Ao segurar a mão de Adrian, ele me puxou delicadamente para perto de si e me abraçou forte, certamente aproveitando que os demais não estavam presentes.

“Eu senti sua falta”, ele disse. E sem nem perceber eu estava dizendo que sentia a falta dele também. Adrian ficou acariciando meus cabelos enquanto eu apoiava minha cabeça em seu ombro e por um momento o cheiro dele, a intensidade do nosso abraço e a intimidade que compartilhávamos faziam eu me sentir em casa, um ambiente aconchegante e seguro. Mas apenas por um breve, muito breve momento.

Eu estava virada para a porta quando ela se abriu. Tudo que eu fiz foi erguer os olhos na direção dela para ver quem estava entrando. E quase engasguei com minha própria saliva.

“Desculpa interromper, mas ainda há negócios para serem feitos”, Dimitri disse ao entrar, parecendo não se importar com o que viu.

Adrian deve ter sentido minha tensão, pois na mesma hora parou de mexer no meu cabelo e me soltou. Nossa, isso foi constrangedor. Não apenas porque se tratava de Dimitri, mas porque atrás dele estavam todas as outras pessoas que estavam na capela. Adrian e eu não estávamos fazendo nada demais, mas ainda assim eu não estava acostumada com demonstrações públicas de afeto, principalmente entre nós dois. Inquieta, eu caminhei ao redor da sala enquanto todos entravam rapidamente, pois esse era um momento crítico e qualquer segundo era precioso. Abe não havia retornado ainda, mas até agora ele não estava fazendo falta, pois minha mãe parecia saber exatamente o que fazer. De um  armário ela retirou uma mala enorme e eu não precisei perguntar se era onde eu seria colocada porque era muito óbvio. Minha mãe a estava abrindo quando um barulho vindo de uma porta secundária chamou a atenção de todos. Era Abe, finalmente, para nosso alívio.

“Perdoem-me pelo atraso”, ele disse todo cortês, lançando um olhar de mil palavras para minha mãe. Eu estava tão distraída tentando decifrar o que estava acontecendo entre os dois que não percebi a porta abrir-se novamente. Aliás ninguém viu.

“Abe, eu esqueci de comentar com você a respeito de…“. Andie havia entrado tão rapidamente na sala que não reparou nossa presença até estar a meia dúzia de passos da porta. Quando isso aconteceu, ela simplesmente perdeu a voz. E pela cara de Abe, por essa nem ele esperava.

“Andie? O que você…”.

“Por favor, me diga que você também está vendo a sua filha em pé aqui nessa sala”, ela o interrompeu.

“Sim, Andie, ela está ali, mas não é o que você está pensando”. Andie olhou ao redor, provavelmente sondando nossas intenções.

“Então por que você não tenta me explicar?”. Era o fim. Abe não tinha o que explicar, na verdade. O que ele poderia dizer? Que a filha dele estava viva, pois ele organizou um plano para que todos pensassem que ela havia morrido? Não seria inteligente.

“Eu não podia deixar que eles fizessem isso, Andie, eu não podia. Minha filha não assassinou a Rainha e eu tenho certeza disso. Eu não podia deixar que ela pagasse pela incompetência do nosso sistema judiciário”. Bem isso não foi inteligente também, mas ele precisava dizer alguma coisa.

“Você mentiu para mim?”. Andie parecia não ter gostado do que ouviu.

“Por favor, Andie”, Abe disse dando um passo em direção a ela. “Tente entender”.

“Não há o que entender, Abe. Você passou dos limites! E não me peça para fingir que nada aconteceu, pois eu não posso ignorar uma situação dessas. Quando você pediu ajuda eu não esperava que você estivesse planejando… isso! Você foi longe demais”.

Andie estava voltando para a porta com a determinação de quem colocaria nosso plano por água abaixo e mesmo que alguém ágil como Dimitri ou Mikhail tentasse impedi-la, não seria possível alcançá-la antes que ela tivesse passado pela porta, já que a distância entre eles era relativamente grande. Além disso, o choque causado pela aparição surpreendente de Andie havia paralizado a todos.

A única pessoa mais próxima dela e capaz de fazer algo era Abe, então, quando ele percebeu que conversar não estava mais adiantando, ele correu até ela e a segurou pelo braço a tempo de mantê-la dentro da sala.

“Solta o meu braço, Abe. Seja racional, por favor!”, Andie disse tentando se esquivar.

“Você tem razão, Andie. Eu não estou sendo racional”. O que aconteceu depois me deixou de boca aberta. Abe desculpou-se e fixou seus olhos nos dela.

“Você vai sair dessa sala, voltar para o lugar de onde você veio e esquecer que queria falar comigo. Você não vai lembrar de ter vindo até aqui nem de ter visto o que viu. E se alguém lhe perguntar onde você estava, seja enfática ao dizer que não interessa. Fui claro?”. A resposta afirmativa de Andie foi imediata, assim como a ordem que Abe a deu para sair. Com o bater da porta eu sai do estupor em que estava e senti minha respiração acelerar gradativamente. Percebendo minha ansiedade, minha mãe se aproximou com cuidado.

“Rose, você está bem?”

“Mãe, você… Você sabia disso? Quer dizer, ele acabou de, você sabe….E como ele poderia? Porque…”

“Rose, você não está falando coisa com coisa. É melhor você se acalmar e entrar aqui dentro o mais rápido possível antes que mais alguém apareça”. Minha mãe disse já com a mala aberta diante de mim. Adrian e Lissa vieram me ajudar, já que meu corpo parecia não querer obedecer.

“Vocês dois!” eu disse, num sobressalto. “Vocês têm que ter percebido!”. Adrian revirou os olhos e Lissa se obrigou a perguntar.

“Percebido o que, Rose?”. Eles só poderiam estar brincando comigo, pois não era possível que dois Morois especializados no elemento espírito não tenham percebido que Abe Mazur, meu pai, havia usado compulsão sobre Andie! Não que isso fosse surpreendente, já que todos os Morois são capazes disso, mas eu só havia visto algumas poucas pessoas fazerem uso desse dom com tamanha excelência, sendo que Lissa era uma delas. Mas Abe? Isso era novidade.

Infelizmente eu perdi muito tempo pensando e quando decidi dar uma resposta, a mala estava sendo fechada, comigo dentro dela.

“Compulsão”, eu gritei na esperança de ter sido ouvida por alguém. “Ele acabou de usar compulsão”, eu repeti, dessa vez sem gritar, deixando que aquelas palavras afundassem no abismo da minha consciência.

~~~~~~~~~~~~~~* * *~~~~~~~~~~~~~~

Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 17

Depois do baque causado pela cena que eu presenciei entre Abe e Andie, eu me calei. Não reclamei do apertado espaço da mala, da temperatura que estava ali dentro, muito menos da demora para me tirarem dali, o que só ocorreu um considerável tempo depois da nossa decolagem.

“Rose, tudo bem com você?”, minha mãe perguntou cautelosamente enquanto abria a mala e me ajudava a sair.

“Eu estou viva, não estou? Acho que é o suficiente”. Eu disse, sentindo que meu humor estava levemente alterado. Minha mãe me estudou em silêncio. Ela me conhecia. Por mais que tenha sido bastante ausente durante toda minha infância, ela sabia quando algo estava me incomodando e nesse caso ela nem precisava me perguntar o que era.

“Nós conversaremos sobre isso mais tarde”, ela disse com uma calma inabalável e se retirou. Eu olhei ao redor. O avião era de médio porte e provavelmente pertencia a Abe. De um lado havia três assentos por fileira, do outro lado, dois.

Minha mãe sentou-se um pouco em um deles, mais a frente de onde eu estava. Na fileira ao meu lado estavam Christian e Lissa, que acenaram ao me ver sobre duas pernas novamente. O resto dos passageiros estavam espalhados pelo avião, um em cada fileira. Eu podia afirmar isso pelo topo das cabeças que eu enxergava através dos bancos. Depois de tanto tempo trabalhando juntos eu imagino que todos estivessem cansados e precisando de um pouco de privacidade, assim como eu. Não querendo papo com ninguém tão cedo, eu sentei sozinha num dos bancos vagos e deixei que meu pensamento se perdesse entre as maciças nuvens pelas quais estávamos passando. Olhando pela janelinha parecia que o avião estava parado dentro de um enorme e negro algodão doce, o que me deixou ansiosa. Minha perna que o diga, pois eu não conseguia parar de sacudi-la por um segundo. Eu parei, no entanto, quando uma sombra apareceu próxima de mim.

“O que você quer, Abe?”, eu perguntei revirando os olhos e precisando respirar fundo quando ele não me respondeu e sentou ao meu lado.

“Eu ainda não falei com sua amiga a respeito daquele bilhete”, ele disse baixinho, sentado casualmente na poltrona ao meu lado, sem sequer me olhar nos olhos. Abe parecia querer chamar o mínimo de atenção possível, principalmente porque Lissa estava ali perto. Entrando no jogo dele, eu baixei a cabeça e fingi estar olhando minhas unhas.

“Por que não?”.

“Ela é sua amiga, não minha. Você saberá lidar melhor com a reação dela do que eu”. Ok, nisso ele tinha razão.

“Eu falarei com ela assim que chegarmos. E falando nisso, para onde estamos indo?”, eu perguntei, encarando Abe dessa vez. Ele continuou evitando fazer contato visual.

“Para minha casa, no Alaska.”

“Eu pensei que você morasse na Rússia”. Abe sorriu e inclinou seu corpo para frente. Eu pensei que ele se levantaria e me deixaria a ver navios, mas ele apenas puxou um apoio para os pés, sobre o qual ele cruzou os calcanhares. Em seguida cruzou os braços e finalmente explicou minha dúvida, dessa vez com a cabeça levemente virada para o lado, para que ele pudesse me ver melhor.

“Digamos que eu tenha duas casas. A que você conheceu na Rússia eu adquiri com o dinheiro do meu trabalho, assim que sua mãe engravidou de você. Por um tempo nós moramos juntos lá, imaginando que poderia dar certo, mas as coisas acabaram ficando complicadas, então algum tempo depois que você nasceu acabamos seguindo caminhos diferentes. Eu sempre gostei muito daquele lugar, então acabei mantendo a casa mesmo assim e sempre que eu posso, estou lá. Essa casa no Alaska pertencia a meus pais, seus avós”.

“Ok, eu estou confusa novamente. Eles não deveriam morar na Turquia, que é de onde você veio?”. Abe parecia gostar de me ver confusa e ao mesmo tempo sedenta por informações.

“Quando eu saí da Turquia para estudar, eles ficaram lá por um tempo. Mas a Turquia estava se tornando um lugar perigoso para Morois e assim que tive condições, eu os levei para essa casa no Alaska. Quando meus pais morreram, eu fiquei com pena de vendê-la, então a transformei numa espécie de refúgio. Não é a toa que é para onde estamos indo. Aquela casa tem tudo o que precisamos”.

“E depois de chegarmos no Alaska, qual é o próximo passo?”.

“Agora que você está segura, assim que nós chegarmos, descansaremos pelo resto do dia. Então amanhã assim que o sol se por, nos reuniremos para organizarmos a segunda parte dessa missão e eu esclarecerei todas as suas dúvidas, ok? Eu sei que você tem uma série delas, eu posso vê-las nos seus olhos”.

“Você pode apostar que sim”.

“Bem…” Abe se inclinou para frente mais uma vez, agora se levantando. “Eu só passei aqui para ver como você estava e lhe deixar a par do que está acontecendo. Antes que você me corra daqui eu voltarei ao meu lugar para descansar um pouco, afinal ainda temos mais três horas e meia de viagem. Você deveria fazer o mesmo, pois amanhã as coisas podem começar a ficar um pouco agitadas”.

“Não precisa dizer duas vezes”, eu disse, reclinando o encosto do banco para ficar mais confortável.

“E, Abe?”, eu o chamei novamente ao lembrar que ainda tinha uma coisa que eu precisava dizer.

“Pois não?”. Ele voltou-se para mim, pois já estava de costas para ir embora, aproveitando para abrir o maleiro superior e me alcançar uma coberta.

“Oh, Obrigada”. Abe deu uma piscadinha e eu continuei. “Adrian me contou que foi você que organizou todo esse plano maluco de resgate e… bem, eu estou aqui não estou? Então, o que eu posso dizer? Obrigada por tudo”. Ele apenas sorriu.

“Eu disse que não deixaria nada acontecer a você”.

“E eu ficou feliz que você tenha mantido sua palavra”.

Com isso, Abe me desejou  um bom descanso e finalmente voltou para seu lugar, enquanto eu, mais relaxada, me acomodei embaixo da coberta, fechei meus olhos e apaguei por pelo que deve ter sido duas horas.

Ao acordar as luzes do avião estavam apagadas consideravelmente e o silêncio pairava no ar. Ainda faltava uma hora e meia para chegarmos no nosso destino e eu havia perdido o sono. Ao contrário de mim, todos pareciam estar dormindo. Isso me deu tempo para pensar na conversa que tive com Abe a respeito de Lissa. Em breve eu teria que revelar a verdade para ela. Mas qual a melhor forma de falar que há outro Dragomir vivo? A princípio essa é uma boa notícia, mas sob o preço de acabar com a imagem que Lissa tem de seu pai. Céus, isso definitivamente não será agradável.

Suspirando alto eu me sentei no banco, colocando o encosto na posição vertical. Ao fazer isso vi uma luz auxiliar acesa alguns bancos adiante. Esperando que fosse Adrian, eu fui pé por pé até lá. Adrian mais ou menos sabia sobre a história de Eric Dragomir, então pensei que ele pudesse me ajudar a contar para Lissa toda a verdade.

Quando cheguei no banco iluminado, quase soltei um palavrão em voz alta ao ver Dimitri sentado. Sério quais eram as chances disso? Para minha sorte, ele estava dormindo, com um de seus livros de faroeste caído sobre ele. Provavelmente o cansaço o havia vencido enquanto ele lia, o que me fez sorrir ao imaginar a cena. Como a luz refletia diretamente no rosto de Dimitri, aproveitei para fazer uma boa ação e desligá-la antes de voltar a procurar Adrian.

“Pode deixar ligada, eu estou apenas descansando os olhos”, Dimitri disse no exato momento em que meu dedo tocou o botão do painel para apagar a luz. Com o susto eu dei um pulo.

“D-Desculpa, eu pensei que você estivesse dormindo”.

“Você precisa de alguma coisa?”, ele me perguntou ainda sem abrir os olhos. Sim, abra os olhos e me encare, seu covarde.

“Não, não. Eu estava apenas procurando por…”. Droga. Eu nem precisei completar a frase para que Dimitri soubesse a quem eu estava me referindo.

“Ele está lá nos fundos”.

“Ok, Obrigada”. Eu me virei, dei dois passos, parei e voltei. ”Pensando melhor, já que estou aqui, posso lhe fazer uma pergunta’?”. Dessa vez Dimitri abriu os olhos, me encarou seriamente e inclinou a cabeça na direção do banco livre ao seu lado para que eu sentasse. Eu aceitei o convite e sentei, puxando minhas pernas para cima do banco, abraçando-as contra o peito.

“Então?”, Dimitri acelerou o processo.

“Você ainda tem intenção de colocar aquele plano em prática e ir atrás de todas as pessoas que estão por trás desse golpe e fazer da vida delas um verdadeiro inferno?”

“Rose, sobre aquele bilhete…”.

“Eu quero ir com você”, eu interrompi.

“Mas não há plano nenhum, Rose…”.

“Nós estruturamos um”.

“Não, Rose. Nunca houve um plano. Eu lhe escrevi aquele bilhete porque seu pai veio até mim, nós conversamos e ele achou que seria importante para você receber um bilhete meu. Eu tentei explicar que seria complicado e que eu não queria que você entendesse errado, mas…”.

“Ele pode ser bem convincente quando quer.”, nós dois dissemos ao mesmo tempo. Nossa, esse seria um bom momento para um asteróide colidir com a Terra e acabar de vez com o momento constrangedor.

“Bem, é uma pena”, eu disse rapidamente no intuito de não parecer uma idiota por ter acreditado que ele tinha intenções de fazer justiça em meu nome. “Eu estava pronta para acabar com a raça de alguns errantes. Fica pra próxima, então”. E com isso eu me levantei alegando que precisava voltar para o meu lugar, esperando que ele tivesse comprado a idéia de que eu estava chateada apenas por não ter a oportunidade de participar de uma boa luta.

O buraco era mais embaixo, no entanto. Quando eu recebi aquele bilhete eu imaginei que Dimitri havia acordado de um estupor, percebendo que ainda tinha sentimentos por mim e que ele se vingaria daqueles que me fizeram passar por tudo isso. Mas não, ele escreveu o que de certa forma ele e Abe sabiam que eu gostaria de ler. Ah, se eu pudesse desaparecer agora!

Eu sentei de volta no meu banco, sem ânimo para procurar Adrian e esperei que o tempo passasse. Quando o avião tocou o solo o céu estava querendo começar a clarear, embora parecesse nublado lá fora, e, pelos sons das vozes, todos já deveriam estar acordados ou acordando.

“É isso aí pessoal, sejam bem vindos a Sitka”, Abe anunciou em voz alta, parecendo empolgado por estar de volta ao Alaska.

Ao desembarcarmos no aeroporto local, uma van nos esperava. Os Morois entraram primeiro, antes que a claridade se tornasse excessiva e perigosa para eles e, apesar de não ser pelos mesmos motivos, eu fiz o mesmo. Eu estava morta, acima de tudo, logo não seria legal ser vista andando por aí. Quanto menos tempo eu ficasse exposta aos olhos do público, melhor.

Os Dhampirs ajudaram a carregar algumas malas que haviam sido trazidas e depois de tudo feito, seguimos até a casa de Abe, uma pequena viagem que durou cerca de 20 minutos. Adrian sentou ao meu lado e durante o percurso perguntou o que havia de errado comigo para eu estar tão quieta. Eu não quis dizer a verdade, então apenas aleguei esgotamento físico e mental, dizendo que não conseguira dormir direito no avião, o que não era uma total mentira, afinal, depois da rápida conversa com Dimitri, nem que eu quisesse, conseguiria dormir. Adrian passou o braço por trás de mim e eu acabei me aninhando no corpo dele, apoiando minha cabeça, que parecia pesar uma tonelada, em seu ombro.

Os demais estavam em ritmo de celebração pelo sucesso do resgate e mostravam-se sorridentes e falantes. Ao contrário deles, eu estava pensativa, ainda assimilando o que Dimitri falou sobre o bilhete ter sido uma estratégia para me distrair, o que funcionou, deixando evidente o quanto Dimitri ainda tem efeito sobre mim. E eu nem consigo ficar braba com ele ou Abe. Que culpa os dois têm se eu exponho minhas fraquezas emocionais assim? Eles fizeram o que precisava ser feito: miraram no meu ponto fraco, atiraram e… bingo!

Isso me lembrou que eu ainda precisava falar com Adrian, então eu deixei meu drama amoroso um pouco de lado para resolver assuntos de maior importância. Porém quando eu estava prestes a iniciar meu discurso, a van parou diante de um enorme portão de metal, que me fez lembrar saudosamente de St. Vladimir. Todos ficaram quietos para observar onde estávamos chegando, logo minha conversa com Adrian precisou ser adiada para mais tarde. O portão se abriu assim que a digital de Abe foi identificada.

Ao descermos na frente na casa, eu não pude lutar contra um estranho entusiasmo que crescia dentro de mim. Estávamos no Alaska, mais precisamente no meio do nada. Apesar de Sitka ser uma das cidades mais povoadas da região, isso definitivamente estava longe de qualquer civilização. Ainda assim eu me sentia segura, feliz. Em seguida as palavras de Abe  ecoaram na minha cabeça e tudo fez sentido. Essa era a casa que um dia pertenceu aos meus avós e onde eles viveram por anos! De alguma forma era como se eu estivesse resgatando uma parte da minha vida que havia sido tirada de mim há muito tempo, então nada mais lógico do que me sentir assim. Olhando ao redor eu respirei fundo e deixei que aqueles novos ares enchessem meus pulmões.

Nosso centro de operações estava situado no meio de um bosque e trava-se de uma casa simpática de dois andares, construída com toras de árvores. A varanda da frente da casa era convidativa, com uma iluminação suave e aconchegante. Por dentro não era diferente. Com cinco quartos, três banheiros, um escritório, duas salas e uma cozinha super equipada, nosso mais novo refúgio não poderia ser melhor. Abe realmente havia feito um bom trabalho em manter a casa e era incrível com ela assustadoramente parecia um lar de verdade.

“O que é aquilo, Abe?”, eu perguntei apontando para fora da janela de seu escritório, de onde era possível ver uma outra construção, porém de alvenaria.

“Sempre curiosa, não é mesmo?”, Abe brincou. “Eu ia deixar o melhor por último, mas já que você tocou no assunto, bem, trata-se de um pequeno centro de treinamento físico”. Abe parecia orgulhoso.

“Centro de treinamento físico? Sinceramente aquilo parece mais um depósito, uma garagem gigante ou um galpão”. Sem entender porque Abe, um Moroi, teria um pequeno centro de treinamento físico em casa, eu achei melhor ficar quieta, pois quem pergunta o que quer pode ouvir o que não quer.

“Não se deixe levar pelas aparências, Rose. O seu exterior foi projetado para não chamar a atenção, mas eu lhe garanto que quando você conhecer o interior daquele espaço, você não vai querer sair de lá tão cedo. Aliás, todos vocês podem usá-lo enquanto estiverem aqui. Sigam-me que eu mostrarei como chegar lá”.

E assim fomos andando até a escada que dá acesso ao segundo piso da casa. Ao lado dela havia uma rampa, pela qual descemos até chegarmos a um túnel.

“Por questões de segurança essa é a única forma de acesso ao centro de treinamento. E uma vez lá dentro, essa é a única saída. Em caso de alguma emergência extrema há outra alternativa para sair de lá, porém. Uma das paredes possui uma série de explosivos embutidos no seu interior e se por alguma razão a saída do túnel não for uma opção, basta acionar o detonador que está escondido dentro do armário de primeiros socorros do ginásio. Então… BUM, vocês têm outra saída”.

“Explodir a parede? Por que ser tão radical?”. Lissa perguntou o que certamente estava passando pela cabeça de todos os presentes.

“Aquele centro de treinamento foi feito para ser um lugar seguro. Se por alguma razão quem estiver lá não puder usar esse túnel para sair é porque aquele lugar não é mais seguro, logo não há razão para mantê-lo intacto”.

“Bem pensado”, Lissa disse com um sorriso simpático, mas através da nossa ligação eu senti o verdadeiro impacto que as palavras de Abe causaram nela: medo.

Nós não fomos até as instalações do mini ginásio esportivo pois a prioridade agora era descansar. No dia seguinte provavelmente minha mãe, Lissa, Adrian e Christian teriam que voltar para a corte, pois haviam saído junto com Abe e Dimitri apenas sob o pretexto de assistir minhas cinzas serem jogadas em algum lugar especial que não foi divulgado a ninguém, por razões, óbvias: esse lugar não existia. Então nossa meta era organizar nossos planos antes deles partirem.

Abe foi o primeiro a se retirar para seu quarto. Minha mãe não demorou muito e seguiu para o dela. Dimitri foi o terceiro. Lissa e Christian estavam terminando de assistir  televisão abraçadinhos e eu aproveitei a distração dos dois para puxar Adrian pelo braço e arrastá-lo para a sala ao lado. Ele não questionou minha atitude, apenas deixou que eu o arrastasse, parecendo achar graça da situação.

“Eu fico feliz que você queira privacidade, Little Dhampir, mas se você me trouxe aqui para fazer o que eu estou pensando, eu acho que não é uma boa idéia. Nós já usamos indevidamente o escritório da outra casa do seu pai então, sinto muito, mas eu não fico confortável de fazer o mesmo nessa simpática sala”, Adrian disse com tanta dificuldade em permanecer sério que o esforço de manter o sorriso contido lhe gerou pequenas covinhas na bochecha. Quando eu rolei os olhos ele se aproximou e beijou minha boca.

“Era apenas uma brincadeira, General Hathaway. Claro que se você quiser me agarrar aqui eu não poderei impedi-la, mas a princípio eu estava apenas brincando”, Adrian sorriu e me olhou nos olhos. “O que eu posso fazer por você?”, ele perguntou ao encostar o dedo indicador na ponta do meu nariz. Eu fingi tentar mordê-lo, mas assim que mexi a cabeça, Adrian afastou sua mão. Será que ele pensou que eu realmente seria capaz de morder o dedo dele? Isso me fez rir por dentro e eu me senti mais aliviada para tratar do assunto “Lissa”.

Expelindo com força, pelo nariz, o ar que habitava meus pulmões, eu disse de uma só vez. “Adrian, você é bom com palavras, também é amigo dela e sabe da importância disso, então eu espero que você não me decepcione e pelo amor de Deus, me ajude a contar a verdade para Lissa”.

“Contar a verdade? Do que você está falando, Rose?”. Eu congelei ao me virar e avistar Lissa em pé, na porta da sala em que estávamos. Christian atrás dela. Ambos desconfiados. Lissa repetiu.

“Do que você está falando Rose?”. Eu abri minha boca, mas não consegui falar.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 18

Para minha surpresa, Adrian assumiu o controle da situação.

“Sente-se Lissa, nós precisamos ter uma conversa séria com você”. Desconfiada, ela seguiu em direção ao sofá próximo a nós.

“Você está convidado a participar da festa, Christian”, Adrian disse ao vê-lo parado onde estava. Quando os dois estavam devidamente sentados e nos encarando, Adrian veio para trás de mim, colocando as mãos sobre meus ombros.

“Relaxa Little Dhampir, Lissa não é mais aquela Moroi inocente e sensível. Ela é mais forte do que você imagina”, Adrian sussurrou no meu ouvido. “Por isso faça o que você tem que fazer. Estou aqui com você, ok?”. Tendo dito isso, Adrian apertou meus ombros levemente, beijou meu rosto e me soltou em seguida. Criando coragem, comecei a explicação.

“Lissa, eu não farei rodeios até porque não temos tempo para isso, ok? O fato é que recentemente descobrimos a possível existência de outro Dragomir vivo. Nós ainda estamos procurando evidências que comprovem a veracidade dessa informação, mas há uma grande chance disso ser verdade”. Lissa fixou os olhos em mim, como se eu estivesse falando sobre a previsão do tempo e quando quebrou o silêncio foi para contestar.

“Do que você está falando, Rose? Você estava naquele acidente que matou meus pais e meu irmão! Eles eram minha única família! Como você pode acreditar numa coisa dessas? Você viu todos eles mortos!”.

“Bem, você pode estar enganada quanto a eles serem sua única família.”

“Mas que diabos, Rose? Desembucha o que você sabe”.

“Ok, como você preferir. Existem quatro fatos que nos levam a essa conclusão. Primeiro: quando estávamos em Las Vegas, Adrian e eu fomos a um bar e lá encontramos um ex-gerente do hotel que dizia conhecer seu pai. Eu sei que pode ser difícil ouvir isso, mas de acordo com esse homem, seu pai gostava de freqüentar a várias festas, principalmente se estivesse acompanhado de alguma mulher. Segundo: recentemente foram roubados alguns arquivos pessoais do seu pai que estavam na posse dos alquimistas e de acordo com esses papéis, seu pai havia criado uma conta bancária no nome de uma “Fulana de Tal”, onde ele fazia depósitos freqüentes, até o dia do acidente. Terceiro: o senhor Ivashkov ouviu uma conversa de Adrian com a senhora Ivashkov a respeito de seu pai e ele não pensou duas vezes antes de sugerir que ele tinha uma amante e que essa conta onde ele depositava dinheiro era dela”. Eu fiz uma pequena pausa para que Lissa pudesse assimilar todas essas informações.

“Não ouse a parar agora!”, Lissa resmungou. Nossa, Adrian estava certo sobre ela ser mais forte do que eu imaginava.

“Ok, então. Quarto: no dia da minha audiência, quando eu estava sendo levada para a prisão para aguardar o julgamento, Ambrose me passou um bilhete escrito pela rainha, antes de morrer, onde ela revelou que haviam Morois interessados em organizar um golpe para obrigar todos os Dhampirs a lutarem, sob o efeito de compulsão e, por fim, alertou que você precisava assumir seu lugar no conselho revelando que isso era possível, porque… porque…”

“Rose…”. O tom de voz de Lissa era quase ameaçador. Se eu não continuasse a frase logo acho que ela seria capaz de me agarrar pelos braços e me sacudir até fazer-me falar. Mas isso não foi necessário.

“Ok! Eu falo! Não precisa me olhar desse jeito! Ela disse que isso era possível porque esse outro Dragomir vivo trata-se de um filho ilegítimo de seu pai, um filho que ele provavelmente teve fora do casamento e cuja existência é desconhecida por quase todos”.

“Você está sugerindo que eu tenho um irmão perdido por aí?”

“Eu não estou sugerindo nada, Lissa. Quem sugeriu isso foi a rainha. Eu estou apenas tentando dar sentido ao que está acontecendo, pois se o roubo dos arquivos do seu pai tiver relação com o bilhete da rainha, nós temos um grande problema para resolver”.

“Deixe-me perguntar de outra forma, Rose. Você acredita que eu possa ter um irmão perdido por aí?”. Agora eu entendi o que Lissa estava me perguntando. Ela queria saber se eu realmente acreditava que o pai dela seria capaz de trair a esposa que ele tanto dizia e mostrava que amava, colocando em risco a felicidade de toda uma família por conta de uma amante.

“Eu não sei, Lissa. Mas se isso significar que você pode ter um direito a voto no conselho, eu prefiro acreditar que sim, que você tem um irmão perdido por aí. E nós não podemos nem condenar seu pai por isso, pois o fruto dessa infidelidade pode ser nossa salvação”. Lissa me encarou por alguns segundos e então baixou a cabeça. A sala ficou em silêncio, todos esperando a reação dela. Angustiada, eu olhei para Adrian, que fez um sinal com a cabeça, indicando que eu havia feito a coisa certa. Mas eu ainda tinha minhas dúvidas.

“Então eu tenho um irmão…”. Lissa disse com uma voz embargada, parecendo precisar ouvir essa frase de si mesma para assimilá-la.

“Ou uma irmã”, eu completei. “Nós ainda estamos trabalhando em cima disso”.

Lissa ergueu a cabeça em minha direção. Droga. Aqueles olhos esverdeados dela estavam repletos de lágrimas e no momento que ela piscou, todas elas vieram abaixo. Os cantos da boca dela pareciam sofrer pequenos espasmos, mas para minha surpresa, em seguida eles se transformaram em um largo sorriso.

“Meu Deus, gente!”, ela exclamou com lágrimas de felicidade correndo pelo rosto. “Eu tenho um irmão!”. Lissa sorriu novamente e eu percebi que era mais importante para ela, nesse momento, saber que ela não estava mais sozinha do que o fato de seu pai ter sido infiel. Se Eric Dragomir havia traído a mãe de Lissa, isso não importava agora, pois mesmo assim eles haviam sido felizes e nada mudaria isso.

Superando todas as expectativas, Lissa não só reagiu bem com a notícia como também estava empolgada com a revelação e por mais que eu não tivesse previsto isso, agora era essa euforia que me deixava preocupada. Lissa agarrou-se com tanta esperança a idéia de poder ter um irmão que eu nem tive tempo de esclarecer o quanto tudo ainda era uma incógnita. Ninguém tinha garantias de que aquela informação contida no bilhete era verdadeira e mesmo se fosse, ninguém sabia do paradeiro dessa misteriosa Fulana de Tal, muito menos de algum filho que ela possa vir a ter tido com Eric Dragomir. O que eu quero dizer é que nós poderíamos nunca achá-los ou, pior ainda, poderíamos descobrir que eles não estão mais vivos ou sequer existiram. Eu acabei de dar uma família a Lissa, algo que ela sempre quis. Tomara Deus que eu não precise tirar isso dela agora porque sinceramente, ela não merece mais esse sofrimento.

Nós quatro ficamos conversando mais um pouco, colocando algumas informações em dia e fomos dormir. Os quartos já estavam arrumados para que eu dormisse com Lissa e Christian com Adrian. Não que nós preferíssemos assim, mas como essa era a casa de Abe, o mínimo que poderíamos mostrar era um pouco de respeito.

Quando acordei naquele mesmo dia o céu já estava escurecendo, não que isso significasse que o sol estava se pondo, pois Sitka era uma daquelas cidades onde o sol raramente aparecia, tornando-a um perfeito lugar para Morois morarem. Minhas energias estavam renovadas, graças a Deus. Depois de tanto sofrimento envolvendo aquela maldita execução, eu merecia um bom descanso.

A cama de Lissa estava vazia e devidamente arrumada, logo ela já deveria ter levantado. Eu escovei os dentes, lavei o rosto, vesti algo que achei sobre uma mala com o meu nome e repleta de roupas novas e fui atrás dela. Assim que coloquei os pés para fora do quarto, já pude ouvir o tilintar de talheres e pratos e um burburinho de vozes vindo da cozinha. Pelo visto não era somente Lissa que já havia acordado.

Enfiando a cabeça pela porta da cozinha eu não me contive e comecei a rir.

Estavam todos ao redor de uma mesa retangular, conversando e comendo como uma grande e estranha família. Até aí, tudo bem. Mas ver Abe com um avental diante do fogão fazendo panquecas para os demais me fez gargalhar.

“Bom dia, dorminhoca”, Abe me saudou. “Sente-se que sua panqueca já está saindo”. A imagem de Abe como um panquequeiro invadiu minha cabeça. Ai céus, eu não queria mais nada. Sacudindo minha cabeça por não acreditar que aquilo pudesse estar de fato acontecendo eu sentei entre Adrian e Lissa.

“O que é tão engraçado Little Dhampir?”, Adrian perguntou, curioso.

“Pelo amor de Deus, Adrian, você viu Abe fazendo panquecas? Do que mais eu poderia estar rindo?”. Eu mal consegui terminar a frase antes de começar a rir novamente. Adrian me olhava parecendo encantado.

“O que foi?”, eu perguntei após meu ataque de riso.

“É bom ver você sorrir novamente”, ele respondeu me puxando em sua direção para beijar minha testa. Foi então que eu percebi que ele estava certo. Eu não conseguia parar de rir pois a sensação era tão boa que eu não queria que ela fosse embora. Com tudo o que estava ocorrendo, eu não tinha motivos para rir ou achar graça de alguma coisa, mas agora eu me sentia outra pessoa. Era como se eu tivesse escapado da morte. Bem, eu escapei de fato da morte, mas havia um plano por trás disso. Imagina como não deve ser, para uma pessoa que quase morreu acidentalmente, sobreviver para contar a história? Ela deve acordar com a mesma sensação de leveza, alegria e esperança que eu estou agora. Pena que não durou muito.

O café da manha transcorreu tranqüilamente, mas assim que todos terminaram de comer, Abe ligou o seu modo “sério” e nos convidou até o seu escritório, para acertarmos os próximos passos do plano. Antes, no entanto, ele explicou novamente a todos sobre o bilhete de Ambrose, já que minha mãe e Dimitri ainda não tinham conhecimento sobre ele, e reforçou a importância de mantermos aquela informação apenas entre nós. Logo após, eu e Adrian mais ou menos repetimos a história que havíamos contado para Lissa a respeito do que do ex-gerente do Witching Hour comentou sobre Eric Dragomir, em Las Vegas. Nós apenas deixamos de fora o incidente envolvendo Victor, obviamente.

Dimitri pareceu incomodado com essa parte da história e eu podia imaginar o motivo. Ele provavelmente estava revivendo o momento em que ele e sua gangue de Strigois quase acabaram com a gente naquele mesmo dia, porém um pouco antes. A tragédia só não foi maior porque alguns policiais apareceram para distraí-los enquanto fugimos em direção ao hotel onde ouvimos essa informação sobre Eric. Era de Dimitri que nós fugíamos e, nesse momento, eu podia jurar que ele estava se culpando por isso. Um sentimento de compaixão tomou conta de mim e Dimitri parece ter percebido, pois na mesma hora fixou seus olhos em mim. Por alguns segundos eles mostraram um brilho diferente, mas em seguida ele desapareceu e Dimitri voltou a focar sua atenção em Abe. Eu fiz o mesmo.

Mais esclarecimentos foram feitos e, finalmente, delineamos nosso plano de ação. Para todos os efeitos eu estava morta, logo todo mundo precisava agir como se estivesse tocando a vida adiante. Qualquer atitude diferente poderia ser suspeita e nós não precisávamos de ninguém na nossa cola para arruinar nossos objetivos. Por essa razão, Christian, Lissa e sua nova guardiã, Janine Hathaway, minha mãe, voltariam para a corte até que as coisas se acalmassem por lá, o que provavelmente não aconteceria muito cedo. Assim será mais fácil coletar informações, afinal Mikhail se colocou a disposição para ajudar em tudo que fosse necessário. Adrian precisaria voltar junto com eles, pois por mais que ele não tivesse um paradeiro definido, nada justificaria ele estar na companhia de Abe. Tudo bem, ele poderia mentir sobre o seu paradeiro que ninguém se daria o trabalho de verificar, mas se fosse para fazer isso, então que Adrian ao menos estivesse onde pudesse fazer algo de útil, como tentar descobrir quem poderia estar por trás desse golpe contra os Dhampirs. Ele pertencia a uma família de renome, logo não deveria ser tão complicado assim. A respeito do irmão de Lissa, Abe foi enfático ao dizer que estava tratando pessoalmente do assunto e que ninguém precisava se preocupar com isso. Mas, sinceramente, quem se preocuparia? Depois que Abe organizou um plano como esse, nem mesmo eu ousaria a duvidar das capacidades dele.

“Nós manteremos contato via telefone, mas não utilizando celulares pessoais. Nós nos comunicaremos através desses aqui”. Abe disse, abrindo uma caixa que estava sobre sua mesa, deixando a mostra um estoque de aparelhos. “A linha deles é segura e todos possuem um chip de localização. Os números de cada um já estão salvos na agenda. Sintam-se livres para adicionar quem mais vocês quiserem”. E assim, um a um, Abe foi chamando para entregar os respectivos aparelhos.

“Alguma pergunta?”, Abe perguntou antes de declarar encerrada a reunião. Eu ergui meu braço, o que não lhe causou espanto, aliás, ele parecia ter achado graça, como se soubesse que eu perguntaria algo.

“Vocês todos estarão fazendo coisas importantes, como coletar informações, espionar pessoas, mas e eu? O que eu vou fazer a respeito disso?”.

“Eu preciso lembrá-la de que você está morta, senhorita? Você pode fazer tudo que estiver a seu alcance dentro do perímetro dessa casa. Você não vai a lugar nenhum a não ser que eu diga que você pode ou deve ir. Não me leve a mal, mas dessa vez você ficará quietinha no seu canto, somente assistindo a coisa acontecer”

“Você está louco? Eu não posso ficar de braços cruzados vendo vocês se arriscarem desse jeito!”.

“Não se preocupe, Rose. Você não ficará aqui sozinha. Eu e Dimitri lhe faremos companhia”. Dimitri? Eu ouvi direito? Minha expressão deve ter me entregado, pois Abe logo fez questão de explicar.

“Ah, eu creio que você não saiba da novidade, não é mesmo? Com tanta coisa acontecendo eu acho que esqueci de lhe contar”. Pela cara de Abe, a verdade é que ele não quis me contar isso antes, mas eu não me apeguei aos detalhes e esperei para ver onde ele ia chegar. “Bem, depois que você foi condenada, eu precisava de Dimitri por perto para executar meu plano, mas para isso eu tinha que ter um bom motivo. Como ele estava apenas zanzando pela corte, servindo de dor de cabeça para aqueles conselheiros reais, eu acabei sugerindo uma solução para as duas partes e, considerando a minha reputação, não foi difícil entrarmos num acordo”.

“Você pode ir direto ao ponto?”.

“Não se preocupe, Rose, eu chegarei lá”. Eu revirei os olhos. Céus, eu estava começando a ficar nervosa e impaciente. Abe continuou. “Dimitri é um excelente profissional, e não acredito que seu talento diminuiu por ele ter conhecido, vamos dizer, o lado negro da força. Então o que eu fiz?”. Graças a Deus, já estava na hora!

“Eu solicitei Dimitri como meu guardião pessoal”. Minha boca caiu aberta no mesmo instante. “Não que eu realmente precise de um. Veja bem, com a profissão que eu tenho eu nunca precisei de nenhum guardião pessoal antes, apenas para manter as aparências ou questões burocráticas, mas depois do assassinato da rainha nada mais lógico do que até os destemidos reconsiderarem suas decisões, não é mesmo? Então eu fui até o conselho e sugeri que Dimitri trabalhasse para mim. Quando eles me perguntaram o motivo eu apenas falei a verdade, que se era para ter alguém vigiando minhas costas, então que fosse o melhor. Eles nem perderam tempo questionando minha sanidade, considerando que eles já pensam que eu sou louco e como Dimitri realmente estava sendo um fardo, eles aceitaram numa boa”. Abe parou um instante e virou-se para Dimitri.

“Sem ofensas, soldado”, Abe desculpou-se. Agora fazia sentido Abe ter chamado Dimitri assim ainda no reformatório.

“Não foi ofensa nenhuma. É um prazer trabalhar para o senhor”, Dimitri disse baixando a cabeça num sinal de respeito, com um sorriso nos lábios. Eu, por outro lado, continuava de boca aberta e com os olhos fixados no meu pai.

“A única coisa que eu pedi foi que eles não reivindicassem Dimitri mais tarde. Uma vez servindo a mim, ele só estará disponível quando eu determinar que não quero mais os serviços dele. Mas isso não deve ser um problema, uma vez que eles pensam que Dimitri teria mais reconhecimento morrendo como um Strigoi do que voltando a ser um Dhampir e trabalhando para um Moroi excêntrico como eu”. Abe sorriu com malícia. “Eles não sabem o erro que cometeram”.

Eu estava em choque. Depois de minha mãe assumir a guarda de Lissa, Abe solicita que Dimitri seja responsável pela segurança dele? Que tipo de esquizofrenia coletiva é essa meu Deus? Eu sequer conseguia lembrar o motivo de termos entrado nesse assunto. Eu estava questionando sobre minha inutilidade e… Ah sim, agora eu lembrei. Abe estava me dizendo que eu não precisava me preocupar pois eu não ficaria sozinha em casa, já que ele e Dimitri e somente ele e Dimitri, me fariam companhia. Perfeito, tudo que eu precisava. Agora que eu havia me determinado a esquecer o que sentia por Dimitri eu serei obrigada a participar de uma espécie de Big Brother com ele? Muito Obrigada Abe, graças a você e suas gracinhas agora eu estou preocupada! E exatamente porque não ficarei sozinha em casa.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 19

O dia passou rápido e logo estava na hora de todos partirem, com exceção de Abe, Dimitri e eu. A van que os levaria ao aeroporto já estava esperando na porta.

“Você tem certeza que precisa mesmo ir, Adrian?”, eu perguntei agarrada na cintura dele e com a cabeça apoiada no seu peito. O braço dele passava por trás das minhas costas e sua mão segurava no passa-cinto de minha calça, ao lado do quadril. A idéia de ficar longe de Adrian não me agradava, mas não havia muito que eu pudesse fazer.

“Não torne isso mais difícil, minha Little Dhampir. Você acha que eu fico feliz de deixar você aqui? Se eu pudesse, colocaria você dentro de uma mala e a levava junto”.

“Mala, Adrian? Você só pode estar brincando comigo!”. E ele estava. A risada que ele deu foi tão gostosa de ouvir que eu até esqueci sobre o que eu estava resmungando.

“Bobo”, eu disse com dificuldade em ficar séria e dando um leve cutucão nele. Adrian então me abraçou forte e beijou o topo da minha cabeça.

“Você acha que eu sou um bobo? É porque eu ainda não lhe disse que sentirei sua falta, sua pequena revoltada”. Eu corei. “Quão bobo você acha que eu sou agora, heim?”, Adrian perguntou com um olhar apaixonado que me assustaria mais do que um Strigoi há algum tempo atrás, mas não agora. O que seria isso? Estaria eu me acostumando ao amor praticamente incondicional de Adrian?

“Você não está sendo bobo”, eu respondi. “Você está sendo esperto! Sentir minha falta é o mínimo que você deve fazer! Eu tenho meus olheiros, Adrian Ivashkov e através deles eu estarei de olho em você”. Então eu me virei de frente para ele e envolvi meus braços em seu pescoço, ficando a apenas alguns centímetros do seu rosto.

“Não, Little Dhampir, eu é que estarei de olho em você. Toda noite, quando você dormir”. E com isso Adrian acabou com a distância que eu estava mantendo e beijou-me gentilmente.

“Quer saber?”, eu falei depois que nos afastamos. “Eu acho que sentirei sua falta também”. Eu estava prestes a beijá-lo novamente quando Abe apontou na porta da casa.

“Pai da moça passando! Vamos parar com os agarramentos?”, Abe disse colocando a mão parcialmente sobre os olhos como se não quisesse ver o que estava acontecendo. Eu tive que rir.

“Eu fui obrigada a assistir você flertar com cada mulher que havia na festa da minha formatura e você não suporta ver eu beijar o meu namorado?”. Com isso Abe descobriu os olhos, eu mostrei a língua para ele e dei um selinho em Adrian apenas para provocar. Adrian pareceu não se importar em ser usado dessa forma, mas foi ele que me afastou e me soltou em seguida, provavelmente percebendo algo que eu só fui ver depois. Logo atrás de Abe estava Dimitri. Meu estômago parece ter se virado ao avesso e meu coração acelerou devido à ansiedade. Teria Adrian se afastado ao ver Dimitri por uma questão de respeito? Afinal, ninguém gostaria de ver uma ex-namorada beijando outro cara. De qualquer maneira eu evitei pensar nisso enquanto todos embarcaram na van e partiram.

Mas assim que entramos em casa novamente, e Dimitri desapareceu do mapa, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que Dimitri pode ter visto eu e Adrian juntos. Só de imaginar essa possibilidade eu senti um calor tomar conta do meu rosto e isso me deixou irritada. Como eu poderia ainda me importar com o que ele pensa de mim ou me vê fazendo? Como eu ainda me permito ficar nervosa perto dele e deixar meu coração acelerar sempre que ele me dirige um olhar ou uma palavra? A resposta estava na minha cara, mas eu estava tentando negá-la a todo instante. Eu ainda sentia algo muito forte por ele, eu ainda conseguia olhar para aqueles olhos castanhos e lembrar de quando eles me olhavam com a intensidade de uma tempestade. Ou lembrar ainda de quando eu consegui ganhar a parte mais difícil de se conquistar naquele Dhampir. O cérebro. Porque todo o resto do corpo dele parecia já saber o que sentia por mim, menos aquele pedaço teimoso de massa cinzenta. E quando eu o conquistei, foi como ter ganhado sozinha na loteria.

O meu prêmio, porém, foi tirado de mim em seguida e à força e eu mal tive tempo de aproveitá-lo. Mas tudo fora tão intenso! Como Dimitri queria que eu simplesmente deixasse tudo de lado quando eu ainda sentia falta de cada segundo que passamos juntos? E como pode ele não sentir falta daquilo também?

Céus, quando Adrian está por perto parece tão mais fácil enfrentar isso. Ele me faz mais forte, mais determinada e por uns instantes eu até consigno ignorar o que está ao meu redor. No início eu achei que nossa relação não daria em nada, mas aos poucos ela está crescendo, o que é surpreendente e ao mesmo tempo assustador. É como se ele fosse a garantia de que eu posso ser feliz sem Dimitri e isso é o que me incomoda. Até que ponto eu não estou confundindo as coisas e permitindo que Adrian faça parte da minha vida apenas para substituir o que eu tive ou gostaria de ter com Dimitri e não posso?

“Rose?”. Eu pulei e dei um grito ao sentir algo tocar meu braço no mesmo instante que ouvi meu nome. Era Abe.

“Você não consegue fazer um pouco mais de barulho quando se aproxima, não? Sério, Abe, um dia você ainda vai ser responsável por eu ter um ataque cardíaco”.

“Não seja dramática. E que humor é esse, afinal? Eu ouvi dizer que adolescentes podem ficar irritadiços na ausência de seus namorados, mas eu não imaginava que a reação fosse praticamente instantânea”.

“Se você não está feliz com o meu humor, por que simplesmente não usa seu poder de compulsão sobre mim e me transforma na filha dos seus sonhos, heim?”. Eu alfinetei Abe aproveitando para introduzir um assunto que estava me incomodando há algum tempo e que eu só não havia trazido a tona até agora por falta de uma boa oportunidade. Abe ficou me encarando em silêncio por alguns instantes.

“Você quer mesmo saber? Porque sua mãe me deixaria louco se soubesse que eu ando usando métodos não convencionais para ensinar minha filha a controlar seu temperamento. O que não quer dizer que a idéia não seja tentadora”. Meu Deus, que tipo de Moroi era meu pai?

“Você trabalha num centro reformatório e mais do que ninguém sabe que usar compulsão livremente é considerado crime! Você deveria ao menos seguir o protocolo. Céus, como você consegue dormir todas as noites?”, eu ironizei.

“Que bonito da sua parte preocupar-se com o meu sono, Rose. Mas respondendo sua pergunta, eu durmo muito bem, obrigado”. Isso mesmo Abe, jogue o meu jogo. Olha o que eu tenho pra você.

“Você definitivamente não tem escrúpulos, não é mesmo? Deve ser por isso que todo mundo pensa que você é um maluco perigoso”. A risada que Abe deu ao ouvir o que eu disse me deu arrepios, parecendo inclusive maléfica. Era como se eu tivesse dito o maior de todos os absurdos. Ok, nada de jogos então, eu ponderei. Ninguém quer ver Zmey perder o controle, certo? Sem dirigir a palavra a mim, Abe tirou o seu celular do bolso, um daqueles que ele distribui a todos nós e discou um número.

“Dimitri, eu preciso ter uma conversa com a minha filha no escritório e eu gostaria que você estivesse presente, pois eu não sei até que ponto eu consiguirei agüentar os desaforos dela. Então se você tem um mínimo de consideração pela senhorita Hathaway, esteja lá em cinco minutos, por favor. De qualquer forma é bom que você também escute o que eu tenho que falar. Vejo você lá”. Abe desligou o telefone e olhou para mim com o sorriso de um psicopata.

“Primeiro as Damas”. Ok, agora ele estava começando a me assustar. Talvez  as pessoas não estejam erradas. De repente meu pai realmente é um maluco perigoso. E eu estou aqui provocando ele. Que masoquismo de minha parte, não?

Eu admito que respirei aliviada quando Dimitri apareceu no escritório de Abe em seguida que nós  chegamos lá. Ficar sozinha com Abe em um ambiente fechado depois da nossa recente conversa não me agradava muito.

A julgar pela camiseta suada e a calça de abrigo que usava, Dimitri deveria estar treinando no mini ginásio de esportes quando recebeu o telefonema de Abe. Ah, isso me lembra os velhos tempos…Foco Rose! Foco!

Abe pediu que Dimitri fechasse a porta e sentasse, apesar de eu não entender porque isso era necessário, já que éramos os únicos em casa. Provavelmente algum velho hábito. Ou ele não queria que fosse fácil para eu sair correndo pela porta, mas é melhor não pensar muito sobre isso.

Assim que a porta fez um “click”, Abe começou a falar.

“Rose, eu estou aqui para esclarecer algumas coisas, ou melhor, mais algumas coisas, que certamente você não sabe a meu respeito. Nem você, Dimitri. Não se trata de nenhum segredo, mas o medo das pessoas acabou fazendo com que, de alguma forma, essa informação não fosse divulgada explicitamente”. Abe sentou-se com calma atrás de sua mesa, debruçando os cotovelos sobre ela com os dedos entrelaçados.

“Estou certo de que vocês lembram quando Lissa trouxe Rose de volta a vida, logo após a execução. O humor de Rose sofreu uma pequena alteração, o que era esperado, mas ninguém imaginou que ela pudesse tentar me atacar. Felizmente ela voltou a si quando eu lhe mandei recuar e por isso vocês dois perceberam que Rose não poderia ter sido controlada tão facilmente. Bem, existe um equívoco nessa história: Rose, você não foi facilmente controlada. Quer dizer, você foi, mas porque eu fui obrigado a usar compulsão sobre você”. Céus, ele estava usando seus poderes a mais tempo do que eu imaginava! De repente as peças de um quebra cabeça começaram a se encaixar e tudo começou  a fazer sentido.

”O que significa que o guarda do avião que nos levava para o reformatório também foi sua vítima, não é mesmo? Pois ele pareceu assustado e um pouco desorientado quando você sussurrou algo para ele ao saber que nosso plano de vôo havia sido alterado e eu me senti da mesma forma quando você me mandou recuar”.

“Sinto Muito, mas foi necessário”. Foi tudo o que ele disse.

“Necessário? Meu Deus, Abe. Ele estava apenas cumprindo ordens!”. Eu estava perplexa. Quando eu o condenei anteriormente por estar fazendo algo errado eu apenas queria ser um pé no saco, pois nunca me importei de Lissa e Adrian usarem compulsão descaradamente, mas ainda assim eles sempre avaliam a situação antes de sair confundindo a mente das pessoas, coisa que Abe não parecia se importar em fazer.

“Ainda assim, Sr. Mazur, a reação de Rose não deveria ter sido tão amena”. Dimitri pontuou, voltando ao assunto.

“Um outro equívoco, Belikov”, Abe interrompeu. “Lissa não estava usando seu poder com a freqüência que vocês imaginam. Ela teve, digamos, uma pequena ajuda”.

“Isso não faz sentido”, eu interrompi, percebendo que havia dito em voz alta o que passava pela minha cabeça, e continuei já que eu havia conseguido a atenção dos dois. “Eu costumo acompanhar as experiências de Adrian e Lissa. É ela quem tem mais facilidade para realizar novas façanhas, não ele. Eu não vejo como Adrian poderia tê-la ajudado, principalmente na questão de enfeitiçar objetos”. Abe me encarou com o seu sorriso maroto e um brilho nos olhos.

“E quem disse que foi Adrian que ajudou Lissa?”.

“Quem mais poderia tê-la ajudado?”

“Eu ajudei”. Ok, isso foi além do que eu poderia tolerar. Que diabos Abe estava dizendo? Será que ele havia encontrado algum Moroi especializado no elemento espírito? Com os contatos que ele tem, isso não seria impossível.

“Ok, Abe, eu vou perguntar. Como?”.

“Aqui a história começa a ficar divertida. Você está pronta para entender de onde veio o apelido do seu pai e porque eu não sou adorado por todos?”. Será possível que ele não consegue responder uma pergunta de forma direta, sem precisar contar uma história? Abe Mazur certamente era o Forrest Gump do mundo dos vampiros. Mas o que eu poderia fazer? O homem não me atenderia se eu pedisse para ir direto ao assunto. “Eu prometo tentar ser breve”, Abe finalizou como se tivesse lido meus pensamentos.

“Certo, vamos ver o que você tem pra mostrar”, eu o desafiei, sequer esperando o que estava por vir.

“Tudo começou quando eu ainda estava na escola”. Céus, isso vai levar muito tempo. “Eu era um Moroi normal. É difícil imaginar, eu sei, mas eu era do tipo quieto, tímido, que preferia passar despercebido a ser notado”. Certamente algo difícil de imaginar. “Meus colegas todos estavam começando a mostrar suas aptidões para seus respectivos elementos, mas eu não. Se na época de vocês isso já não era bem visto, vocês podem imaginar como não devia ser no meu tempo. Por causa disso eu estava começando a ser mais notado do que eu gostaria e toda noite eu ia dormir rezando para acordar manifestando meu talento especial. Talvez eu tenha rezado demais e com fé demais”, Abe sorriu ao dizer aquilo “pois a carga veio maior do que eu esperava”. Foi nesse momento que eu percebi que eu nunca havia me interessado em saber em que elemento Abe havia se especializado. Quem diria, eu estava começando a gostar do rumo dessa história. “Eu soube que eu era diferente no dia em que eu fui falar com uma das professoras, depois da aula e perguntei se poderia fazer algo para livrá-la da tristeza que estava sentindo. Aquela mulher olhou pra mim com olhos esbugalhados, pois ela estava triste, sim, mas ela sequer comentou com alguém sobre aquilo. Ela havia dado sua aula normalmente, sorrindo de forma simpática ao esclarecer nossas dúvidas como se nada estivesse acontecendo, mas eu sentia a tristeza fluir por cada poro do corpo dela durante todo o tempo. Minha professora achou isso estranho, mas pensou que eu era apenas muito observador. Porém, conforme o tempo foi passando esse tipo de coisa passou a acontecer com cada vez mais freqüência, pois eu não conseguia deixar de sentir e interpretar os sentimentos das pessoas, que começaram a me olhar como se eu fosse um louco, um estranho ou um doente”, Abe sacudiu a cabeça com um pequeno sorriso nos lábios. “Não demorou muito para eles começarem a ter medo. Eu ainda não havia me especializado em nada mas tinha aquele estranho dom, ou maldição, como eles preferiam chamar e, de acordo com algumas histórias, Morois que não se especializavam em nenhum elemento, acabavam sucumbindo à loucura e ao desespero, sendo condenados ao isolamento ou até mesmo à morte. Todos ao meu redor acreditavam que aquele seria o meu destino e por um tempo eu mesmo não conseguia imaginar um desfecho diferente para a minha história, mas a loucura nunca veio e a morte só não foi meu fim, pois dois meses depois eu finalmente manifestei aptidão para o elemento terra”. Terra, então esse era o elemento de Abe. Eu respirei aliviada. Por um instante era como se eu estivesse ouvindo a história de Lissa sendo contada, com todas essas dificuldades enfrentadas por acharem que ela não se especializaria em nada e que ela acabaria isolada, louca ou morta por conta disso. “Então eu passei a freqüentar as aulas especiais para aprender a usar os poderes do meu elemento e tentei levar uma vida normal, ignorando o impacto que os sentimentos das pessoas tinham sobre mim”.

“Espera aí”, eu interrompi. “Você está dizendo que mesmo depois de ter se especializado no seu elemento, você ainda tinha a habilidade de sentir as emoções alheias?”.

“Exatamente, e isso foi visto como uma monstruosidade maior do que a anterior, porque dessa vez não havia lendas, histórias ou registros de outros Morois que tivessem passado pela mesma situação que eu. Meus pais foram os que me deram força para erguer a cabeça e seguir adiante, afinal eles nunca tiveram preconceito em relação ao que eu sou. Eles apenas diziam que eu era especial, embora todas as outras pessoas me tratassem como uma aberração. Com o tempo eu fui aprendendo a controlar minha habilidade assim como aprendi a desenvolvê-la nas horas vagas, pois a necessidade de exercitá-la e aperfeiçoá-la parecia crescer dentro de mim. Logo eu não só lia as emoções das pessoas como também me tornei um perito em compulsão. E quanto mais eu aprendia sobre meus poderes, mais eu tinha certeza de que eu seria o diferente para sempre. Diferente, mas nunca especial”. Um nó havia se formado na minha garganta ao imaginar as coisas pelas quais Abe havia passado e quando precisei engolir a saliva o som pareceu ecoar pelo ambiente. Abe olhou para mim e sorriu, parecendo surpreso e emocionado com a minha reação. Eu não entendi o motivo até que ele continuou.

“Isso mudou quando eu conheci sua mãe”. Ótimo, ele não vai parar até me fazer chorar, eu imaginei. “Ela era nova na escola e chegou no dia de uma experiência de campo onde cada aluno Dhampir seria responsável por proteger um aluno Moroi, como se fosse um trabalho de verdade. Você deve imaginar quem ela pegou para proteger. Então ela passou a me acompanhar silenciosamente como uma sombra por onde eu andava e eu não tinha outra escolha a não ser aceitar. Mas sua mãe, Rose, com todo o respeito, era uma neurótica obsessiva. Eu mal podia me dar o luxo de ir ao banheiro sem que ela ficasse esperando pelo lado de fora da porta e aquela falta de privacidade começou a me incomodar, pois afinal de contas, eu estava acostumado a andar sozinho, sem ninguém por perto. No terceiro dia eu me irritei e decidi que tentaria fugir da vista de Janine. Ela era uma aluna nova, então eu tinha uma vantagem sobre a velocidade dela: eu sabia como me esconder naquela escola como ninguém. Então quando eu inventei de ir ao banheiro naquele dia, eu abri uma das janelas que davam acesso ao pátio interno e pulei. Um dos professores que atuava como Strigoi estava a uns 100 metros de distância quando me enxergou e veio quase voando na minha direção. Eu comecei a fugir, mas apenas porque sua mãe em segundos havia invadido o banheiro e pulado a janela para ir atrás de mim. O professor certamente não entendeu porque Janine estava correndo atrás do Moroi que deveria proteger, como se quisesse atacá-lo, ao invés de ir para cima dele, um suposto Strigoi, e deve ter ficado tão perplexo que não soube o que fazer. Enquanto ele pensava, eu e sua mãe corríamos. Não fomos muito longe, é claro, pois ela era rápida e praticamente pulou em cima de mim assim que me alcançou, me imobilizou no chão e disse algo que provavelmente mudou minha vida para sempre, embora eu só tenha percebido algum tempo depois”. Abe parou um instante e suspirou, me dando a certeza de que nesse momento ele estava vivendo aquela cena novamente.

“Foi assustador e ao mesmo tempo fascinante e talvez por isso eu lembre exatamente o que ela disse. Palavras dela”, Abe anunciou. “Eu sou boa no que faço e eu não  tenho planos de mudar o meu status. Por isso preste atenção. Eu sei que você é especial e diferente dos outros, mas eu não posso ser boazinha só por causa disso. Então se você não me quer na sua cola, Abe, não me faça ir atrás de você. Porque se fizer o contrário, eu irei”.

A primeira lágrima correu pelo meu rosto assim que Abe disse que as palavras de minha mãe mudaram a vida dele, mas quando eu reconheci o mesmo discurso naquelas palavras que minha mãe havia dito para Abe no ritual de cremação, quando ele saiu misteriosamente após conversar com ela, eu fui completamente envolvida pela emoção. Lágrimas corriam pelo meu rosto deliberadamente e meu nariz escorria sem parar, embora eu tentasse, em vão, controlar as secreções do meu corpo. Dimitri me alcançou um lenço, graças a Deus, e eu pude, então falar.

“O que havia de tão especial em você que fazia as pessoas serem tão más?”, eu funguei, me recompondo.

“O que havia de especial em mim é o mesmo que torna Vasilisa especial, Rose, o quinto elemento. Depois que ele foi descoberto, eu comecei a ser mais bem compreendido, embora muitos, ou quase todos, ainda me vejam como o portador de uma maldição. Mas o que eu sou é apenas um portador de dois talentos”.

“Você está me dizendo que você é especializado em dois elementos? Terra e espírito? Isso é impossível!”. Então eu mordi meu lábio ao perceber que era exatamente isso que diziam para mim quando falávamos na existência do elemento espírito.

“Exatamente. Terra e espírito”, Abe disse, orgulhoso, não parecendo mais aquele Moroi inseguro de quem ele contou a história, apesar de um dia Abe ter sido ele.

Nesse instante algo me ocorreu.

“Zmey! É por isso o apelido, não é mesmo? A serpente de duas cabeças é a analogia para o Moroi de dois talentos, um deles poderoso e desconhecido, perigoso e, por que não, fatal. Exatamente como um veneno de uma serpente!”. E falando sobre serpentes… “Meu Deus, o colar com o pingente!”.

“Ok, você me pegou”. Abe confessou. Eu sabia que aquele feitiço era muito elaborado, até mesmo para Lissa. No entanto, como ela sabia me explicar como ele funcionava?

“Lissa sabe sobre você?!”, eu perguntei surpresa.

“Não apenas ela, mas Adrian também. Não se trata de um segredo Rose. Você apenas foi a última a saber porque as circunstâncias eram extremas. Eu sabia que se lhe dissesse que o colar era obra minha, você ia querer mil explicações antes de pensar em usá-lo e não havia tempo para isso. Então Lissa e Adrian ajudaram a ocultar minhas ações assumindo alguns feitos, até quando foi possível”. Por isso quando ele me ordenou para voltar à maca, Adrian tentou colocar alguma razão na cabeça de Abe. Ele apenas não queria que Abe perdesse o controle e entregasse o ouro ali mesmo.

E seguindo por essa linha, muita coisa ficou clara. De acordo com Abe, Lissa somente usou mesmo seus poderes quando me curou do ferimento da estaca e foi quando eu tive aquela reação de tentar atacar Abe, que na verdade foi quem compeliu pessoas, enfeitiçou objetos e…

“Espera um segundo, Abe. Quando Lissa e Adrian usam seus poderes, eles sofrem conseqüências. É por isso que Lissa costumava se cortar e Adrian praticamente se mantém alcoolizado. Você não tem reações? Quer dizer… Você é meio excêntrico mas algo me diz que isso não tem nada a ver com o poder do espírito”.

“Não, eu não tenho. E isso era uma das coisas que me deixava intrigado no começo, pois eu pensei que deveria enlouquecer ou coisa assim, mas com o tempo eu percebi que a resposta para o mistério estava no outro elemento no qual me especializei”.

“Terra?”, perguntou Dimitri.

“Exato. Terra é o elemento chave dessa questão. Eu não sei como funciona exatamente, mas funciona. O que o espírito tira de mim, a terra me devolve. Um ciclo perfeito. Agora, quanto ao meu jeito excêntrico, você está parcialmente correta, Rose. A verdade é que eu aprendi a chamar atenção para o meu exterior para distrair as pessoas daquilo que eu sou por dentro”. Abe disse sacudindo levemente o pulso para que eu percebesse a pulseira dourada que adornava seu braço. Entendendo na mesma hora o que ele quis dizer, eu lhe dei um sorriso maroto. Objetos enfeitiçados, mas é claro! O que eu poderia esperar? Que ele não usasse seus poderes em benefício próprio?

Uma coisa, porém, me chamou a atenção. Abe somente usava coisas douradas. Como ele enfeitiçava objetos que não fossem de prata? Então me ocorreu que provavelmente a afinidade para o elemento terra tenha feito mais uma vez a diferença para Abe, possibilitando a ele usar a magia do espírito em objetos de qualquer natureza.

“Eu estou impressionado que você tenha feito tantas descobertas sendo seu próprio objeto de estudo, senhor Mazur”. Dimitri comentou em uma das poucas vezes que se manifestou, mas parecendo tão atraído pela história de Abe como eu. Mas para nossa surpresa não havia sido bem assim. Abe comentou que depois de alguns anos encontrou outro Moroi especializado em espírito e que os dois começaram a testar seus poderes entre si, algo como o que Adrian e Lissa fazem,  mas infelizmente aquilo não durou muito.

“Nós descobrimos da pior forma que usar poderes com grande intensidade e freqüência pode exigir demais de um usuário do elemento espírito”. Abe disse.

“Meu Deus, ele morreu?”, eu me intrometi na conversa dos dois.

“Não, mas eu posso lhe garantir que ele nunca mais foi o mesmo”. Uau, eu acho que eu poderia ficar o dia todo fazendo perguntas a Abe e ainda conseguiria ficar surpresa com cada resposta. Abe sabia disso e evitando que chegássemos a esse ponto, fez questão de encerrar o questionário. Afinal, o que precisava ser dito, havia sido dito.

“Bom, agora que vocês já sabem o que eu sou e o que eu faço, eu gostaria de pedir licença aos dois, pois preciso tratar de alguns assuntos particulares. Então, circulando, por favor, vão arrumar o que fazer”, Abe disse com humor na voz e gesticulando com a mão para sairmos do escritório. Porém quando eu estava quase fechando a porta, Abe nos chamou novamente.

“Eu estava quase esquecendo de avisar que estaremos recebendo um convidado entre hoje e amanhã que talvez possa nos dar algumas respostas em relação a Eric Dragomir e a mulher com quem ele possivelmente teve um caso. Por isso estejam preparados para eventuais mudanças de planos, ok?”. Abe disse já olhando para uma papelada que colocou sobre a mesa, nos dispensando novamente com sua mão. E dessa vez ele estava falando sério.

Um convidado? Eu me perguntei algum tempo depois. Isso será interessante. Pelo menos é mais uma pessoa aqui dentro para eu não precisar lidar diretamente com Dimitri.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 20

Ao sair do escritório de Abe eu estava emocionalmente fragilizada e inquieta porque, bem ou mal, ele fez muitas revelações que eu ainda precisava assimilar. A última delas, porém me deixou curiosa. Quem será que Abe encontrou para fornecer informações sobre a relação extraconjugal de Eric Dragomir? Eu demorei anos para, sem querer, esbarrar em alguém que soubesse disso e Abe encontra alguém em questão de, o quê? Dias? Eu espero que pelo menos seja alguma pista quente, pois esse mistério estava começando a me deixar tensa demais.

Eu olhei no relógio e, sem nada melhor para fazer no momento, decidi que seria uma boa idéia conhecer o centro de treinamento físico e espairecer um pouco.

“Ei, camarada”, eu gritei para Dimitri, que já estava no final do corredor e virou-se quando eu o chamei. “Você já terminou seu treino?”.

“Sim, por quê?”, ele respondeu parecendo não entender onde eu queria chegar.

“Eu queria saber se o ginásio estaria livre. Meu corpo está pedindo por algum exercício”. Dimitri franziu a testa.

“Rose aquele lugar é grande o suficiente para mais de duas pessoas o utilizarem, mas não se preocupe, ele é todo seu”. Então ele virou-se de costas e seguiu para seus aposentos.

Mesmo não conhecendo o interior do ginásio eu sabia que ele era grande, caso contrário não pertenceria a Abe, mas no momento eu queria ficar lá sozinha, sem correr o risco de me distrair com a presença de alguém, principalmente de Dimitri. Então eu desci a rampa e segui o caminho que Abe havia indicado para chegar até o complexo esportivo. No fim do túnel havia uma rampa igual a que dava acesso a casa de Abe, porém ao subi-la eu cheguei em uma espécie de mirante, e a vista que eu tinha dali era de tirar o fôlego. Abe estava certo quando disse que ao conhecer o ginásio por dentro eu teria problemas em sair de lá, pois ao me aproximar do que parecia ser um grande mezanino fechado com vidros ao redor, pude ver uma piscina de proporções olímpicas logo a seguir. Virando para a esquerda minha boca começou a cair aberta, ao ver uma quadra de esportes, com direito a uma pista de corrida na sua periferia.  E virando mais um pouco para a esquerda, no lado oposto ao da piscina, havia uma academia.  Metade do espaço era onde estavam os diversos equipamentos modernos para trabalhar cada mísero músculo do corpo e a outra metade tratava-se de uma arena para luta, com piso levemente almofadado para amortecer os impactos de quem caísse sobre ele. Os três ambientes eram divididos por maciças paredes e cobertos por uma espécie de bolha transparente, possibilitando que todos pudessem ser vistos de onde eu estava, o mezanino que ficava a um nível acima de todo o complexo. Eu estava tão chocada, no bom sentido, que demorei a perceber a escada que levava ao piso inferior e assim que a descobri, não pensei duas vezes antes de ir para a quadra de esportes. Nada contra os outros dois ambientes, que por sinal eu fiz questão de conhecer de perto, mas eu precisava correr. Correr dos meus problemas, das minhas dúvidas, dos meus medos e de mim mesma. Quanto mais eu corresse, melhor.

Uma hora e meia depois, quando retornei a casa de Abe, constatei que ele e Dimitri já deviam ter ido dormir, pois estava tudo silencioso e as luzes do escritório estavam apagadas. Então arrastei meu corpo até o quarto, fiz o que precisava ser feito e me atirei na cama, feliz por não precisar esperar o sono aparecer, pois ele estava praticamente me obrigando a fechar os olhos.

Tudo estava escuro, mas de repente a escuridão começou a se transformar em um lindo céu estrelado. Uma suave brisa soprava fazendo com que meus sentidos detectassem o fresco aroma da grama sobre a qual eu estava deitada. Um gramado tão macio que parecia acariciar minhas costas.

“Posso lhe fazer companhia?”. Eu fiquei tensa ao ouvir a voz de… Dimitri?

“O que você está fazendo aqui? Você não deveria estar aqui!”, eu disse inutilmente ao olhar para ele.

“Eu estou aqui porque eu não posso mais lutar contra o que eu sinto, Rose”. Dimitri agachou-se ao meu lado.

“Não ouse a brincar com os meus sentimentos por você, Dimitri. Você disse que seu amor por mim é coisa do passado e eu estou passando por uma barra daquelas para me convencer de que você estava falando a verdade. Então não venha com esse papo furado agora”.

“Não é papo furado”. Dimitri virou-se para mim, ainda abaixado. Então, apoiando um de seus joelhos no chão, ele levou uma das mãos até a parte de trás do meu pescoço e me puxou em direção a ele, pressionando seus lábios contra os meus. Ah, aqueles lábios.

“Eu amo você”, ele sussurrou assim que nos afastamos.

“Você, o quê?”, eu perguntei ao abrir os olhos, constatando que ele não estava mais lá. E no momento seguinte eu estava sentada na cama, depois de ter dado um pulo ao ouvir meu celular tocando.

“Alô!”, eu disse enfurecida ao atender a ligação sem sequer olhar no identificador.

“Que bom humor é esse, Little Dhampir?”, Adrian perguntou sarcasticamente do outro lado da linha. Foi então que eu percebi que tudo não havia passado de um sonho.

“Desculpa, Adrian. É que eu estava dormindo e me assustei com o toque desse celular. Eu ainda não consegui me acostumar com ele”. Pela risada de Adrian, ele parece ter acreditado, o que me fez sentir culpada por estar mentindo, pois na verdade minha irritação tinha a ver com o fato de Dimitri ter desaparecido do meu sonho logo depois de ter me beijado e dito que me amava graças a esse telefonema.

“Eu pensei que você estivesse acordada, sinto muito. Mas já que aconteceu, como estão as coisas por aí?”, ele me perguntou sem nem desconfiar do quanto eu também estava aliviada por ele não ter aparecido no meu sonho antes de telefonar, pois eu não tenho tanta certeza de que, cara a cara, eu conseguiria esconder meus sentimentos.

“Está tudo bem. As coisas estão um pouco paradas demais para o meu gosto, mas ainda assim está tudo bem. E por aí?”.

“Eu já não posso dizer a mesma coisa, quer dizer, está tudo bem, mas a movimentação ainda é grande por aqui. O conselho está tentando organizar uma assembléia para decidir quem assumirá o lugar de minha tia”.

“Mas já?”, eu me exaltei com a noticia. Que eles estivessem procurando um sucessor para o governo não era nenhuma novidade. Eu só não esperava que isso aconteceria tão rápido.

“Nada com que precisemos nos preocupar, minha cara. Com o caos que está isso aqui, essa assembléia não sairá tão cedo”.

“É melhor que não saia mesmo, pois precisamos encontrar o paradeiro desse outro Dragomir antes que isso aconteça. Falando nisso, parece que Abe encontrou alguém que pode nos dar informações sobre o caso do pai de Lissa com aquela Fulana de Tal”.

“Uau”, foi tudo o que Adrian conseguiu dizer.

“É, Abe realmente é bom em conseguir informações”, eu traduzi em palavras o que ele provavelmente pensou. “E como está Lissa?”, eu perguntei num desespero para manter o assunto da conversa longe de como eu estava me sentindo.

“Ela está bem. Ainda eufórica com a notícia que você deu a ela, apesar de não poder demonstrar seus sentimentos por aqui”. Eu concordei com um “ahã” e um silêncio que não deveria ser constrangedor se formou entre nós.

“Rose, o que há de errado com você?”, Adrian perguntou constatando o óbvio, acabando com o meu plano de não chamar a atenção para mim.

“Eu estou cansada Adrian. Hoje Abe fez o favor de me contar sobre praticamente vida inteira dele, inclusive sobre seus super poderes e depois eu ainda corri por uma hora e meia na pista daquele complexo esportivo. Eu realmente estou cansada”.

“É difícil pra você ter ele tão perto, não é?”, ele perguntou.

“Adrian, por favor…”. Eu deitei novamente com as costas voltadas para o colchão e apoiei um braço sobre minha testa, ainda com o telefone no ouvido.

“Você prometeu que falaria comigo para enfrentarmos isso juntos, Rose”.

“Não há o que falar, Adrian. Dimitri não sente mais o que sentia por mim”. Eu acho, eu adicionei mentalmente. “Não precisa se preocupar com isso”.

“Na verdade… Na verdade eu estava me referindo a Abe”. Droga, Rose, eu gritei internamente! “Mas já que você trouxe esse assunto à tona, permita-me dizer que eu não me interesso em saber o que Dimitri sente por você, apesar de ser impossível não saber o que você sente em relação a ele. Sabe, às vezes eu me pergunto por que você simplesmente não termina comigo de uma vez e segue o seu coração, Rose? Não deve ser tão difícil”.

“Por que raios você acha que não deve ser tão difícil?”, eu perguntei, incrédula.

“Talvez porque você ame Dimitri e não consiga tirar ele da cabeça?”, ele perguntou ironicamente ao me responder. Ui, essa doeu. Não era a resposta que eu esperava, mas nem por isso Adrian estava errado na afirmação que fez. Contudo, como ele ousava pensar que seria fácil terminar com ele? Adrian sempre esteve perto de mim quando eu precisei e me amou sem jamais exigir nada em troca além de uma chance para me conquistar e mostrar que poderíamos dar certo juntos. Ele sempre foi carinhoso, respeitoso e amável mesmo quando eu não conseguia retribuí-lo da mesma forma e ainda assim ele teve a paciência de esperar que isso acontecesse. E estava começando a acontecer, para minha surpresa. Certamente nossos corpos estavam começando a clamar por algo além de uns bons amassos e nós, nada inocentemente, quase dormimos juntos. Eu estava acostumada com a presença quase constante dele na minha vida e nos meus sonhos. Estaria ele arrependido de tudo? Ou cansado de não ser correspondido? Com os olhos marejados, eu apenas respirei fundo, pois num primeiro instante eu não confiei na minha voz para prosseguir e lágrimas silenciosas caíram pelo meu rosto quando piscar foi inevitável.

“Não, Adrian, você está errado”, eu falei com a voz meio arranhada. “Se um dia acontecer de terminarmos, acredite, não será nada fácil porque no início eu pensava que você era um Moroi mimado e incapaz de amar alguém além de você mesmo, mas agora… desculpa, mas agora você se tornou importante demais”. Com o rosto completamente molhado pelas lágrimas que ainda escorriam dos meus olhos, eu continuava respirando pela boca para não acabar fungando e entregando minha condição naquele momento.

”Mas é Dimitri quem você ama, Rose, não é?”.

“Droga, Adrian, por que sempre essa pergunta?”.

“Porque você nunca é sincera na resposta, Rose. Por isso”. Dane-se, eu pensei.

“Sim, Adrian!”, eu gritei, chorando alto no telefone, irritada pela ironia de Adrian. “Eu nunca escondi isso de você! Mas se você precisa tanto saber, então sim, eu amo Dimitri! Mas eu tenho esse estranho, intenso e estúpido sentimento por você que eu não entendo… ”. Que maravilha, agora eu estava chorando como uma criança, com o nariz escorrendo, inclusive. Pelo menos serviu para chamar a atenção de Adrian, que mudou o tom de voz ao falar comigo.

“Você não entende, mas eu entendo, Little Dhampir. Eu sei o quanto você ainda ama Dimitri, e o quanto gostaria que isso voltasse a ser recíproco porque eu também sei o quanto eu amo você e gostaria que você me amasse da mesma forma. Eu tenho a consciência de que talvez eu nunca consiga o que quero. E você tem medo de não ter de volta o que um dia teve. As coisas não são sempre como queremos não é mesmo? Então o que fazemos? Nós nos agarramos ao que temos no momento porque precisamos. É por isso que estamos juntos, Rose. O problema é que nós ficamos bons em precisar um do outro. Aliás, quer saber de um segredinho? Eu nunca imaginei que de fato você fosse me dar uma chance quando prometeu que faria isso. Mas você cumpriu sua palavra entregando-se a mim, um pouco a cada dia, para minha surpresa, mas nunca completamente. E isso não acontecerá enquanto você não decidir o que quer, ou quem você quer. Por isso lhe digo que você precisa tomar uma decisão logo, Rose, pois se não o fizer alguém acabará fazendo essa escolha no seu lugar e o resultado pode ser o que você não quer. Mas até lá, sinto muito, eu continuarei amando você”. Minha resposta foram alguns soluços que eu tentava controlar. Eu sabia que eu precisaria tomar uma decisão um dia, mas não agora. Agora eu simplesmente não podia. “E pelo amor de Deus, Rose, acalme-se”, Adrian continuou.”Eu já estou me sentindo mal aqui. Céus, você tem que chorar desse jeito justo quando eu não posso estar aí com você?”.

“Desculpa”, eu disse ainda entre soluços, mas conseguindo controlar minha respiração aos poucos. Adrian ficou em silêncio, mas eu podia sentir a angústia dele dentro do meu peito. Ou era minha própria angústia? Difícil dizer.

“Será que você podia…”. Minha voz embargou e eu precisei recomeçar. “Será que você podia ficar comigo no telefone até eu pegar no sono de novo?”, eu perguntei sentindo minhas bochechas ficarem ruborizadas. Que coisa mais ridícula de se pedir! Adrian suspirou do outro lado da linha.

“Rosemarie Hathaway, minha pequena e adorável caixinha de surpresas ambulante, como eu poderia lhe negar uma coisa dessas? Eu faria qualquer coisa por você, qualquer coisa”.

Quando acordei no dia seguinte, minha orelha estava dolorida, afinal eu havia colocado o celular entre minha cabeça e o travesseiro para continuar ouvindo a respiração de Adrian pelo telefone até conseguir pegar no sono. De tempo em tempo ele me chamava pelo nome, sussurrando e, toda vez que eu respondia alguma coisa ele dizia que me amava. Sinceramente eu não sei quanto tempo eu demorei para dormir, mas quando isso finalmente aconteceu, Adrian apareceu no meu sonho e continuou a me fazer companhia, apenas me mantendo nos braços dele, em silêncio. Talvez por isso eu senti um estranho vazio quando abri os olhos, olhei ao redor e constatei que estava sozinha novamente. A realidade, de fato, é uma droga.

Criando coragem para encará-la, eu coloquei o celular, que dava alertas constantes de bateria fraca, para carregar e fui tomar um banho, levando um susto ao olhar meu rosto inchado no espelho, marcado pelo caminho que as lágrimas de ontem haviam deixado.Deprimente.

Para minha sorte, o banho frio que tomei foi o suficiente para apagar as marcas  do resultado da discussão que tive com Adrian e fazer com que me sentisse mais confiante para sair do quarto e não precisar dar satisfações a ninguém. Chegando na cozinha, que bela porcaria, Dimitri estava lá, sozinho, sentado em uma cadeira próxima à mesa, mexendo um café que parecia mais frio do que a água do meu chuveiro. Fingindo não dar bola para aquele comportamento bizarro, eu peguei algo para comer e sentei no lado oposto da mesa, o mais longe possível de onde Dimitri estava.

“Bom dia”, ele disse sem descolar os olhos da colher com que continuava a mexer o café. Eu olhei para o relógio e vi que passava das dezessete horas.

”Boa tarde”, eu respondi tentando ser simpática, apesar de utilizar a mesma estratégia de Dimitri ao manter os olhos no meu bolo de chocolate enquanto o despedaçava com as mãos. Sem obter uma resposta dele, enfiei um pedaço de bolo na boca.

“Eu ouvi você chorando ontem a noite”. Eu quase me engasguei com o bolo, que desceu praticamente inteiro, quando eu o engoli acidentalmente. Ainda bem que eu havia servido um pouco de leite num copo e pude contornar a situação antes que ela se tornasse mais embaraçosa ainda. Meu coração parecia querer sair pela boca e trazer junto com ele o bolo que eu havia engolido. O que eu poderia fazer? Negar? Certamente não daria certo. O quarto dele era próximo ao meu e se Dimitri não estava dormindo, como eu pensei que ele estivesse, ele poderia ter ouvido tranqüilamente meu choro e tudo o que eu falei, inclusive a parte em que eu gritei que ainda o amava. Perfeito.

“Eu não vou ter essa conversa com você, Dimitri”. Às vezes o melhor ataque é a defesa,  uma das lições que aprendi na escola e que parecia funcionar muito bem em outros contextos.

“Só quero saber se você está bem”, ele respondeu imediatamente, me fazendo rir.

“Você não precisa fingir que se importa. Eu estou bem, ok?”. Dimitri revirou os olhos. “Quer saber? Eu mudei de idéia. Vou deixar para tomar meu café mais tarde”. Eu disse, empurrando com força a cadeira para trás. Na mesma hora Dimitri também se ergueu da cadeira, tentando me pegar pelo braço, mas eu fui mais rápida que ele, me levantando e indo na direção da rampa de acesso ao túnel subterrâneo.

“Espera aí, Rose. Nós precisamos conversar!”, ele praticamente gritou, o que eu ignorei completamente. Ele ficou na cozinha resmungando algumas coisas e não veio atrás de mim, felizmente, porque eu estava furiosa. Por isso eu fui direto ao centro de treinamento, dessa vez optando pela academia ao invés da quadra de esportes, pois o que eu precisava no momento era esmurrar alguma coisa.

Eu comecei a golpear um dos sacos de pancadas, preso ao teto por largas correntes, quando parei ao ouvir um barulho vindo de dentro do ginásio. Certamente não era Dimitri, pois se ele tivesse vindo atrás de mim eu o teria visto.

“Abe?”, eu gritei. “É você?”. Ninguém me respondeu, então eu esperei alguns segundos e o barulho se repetiu. Passos. Certamente havia alguém aqui.

“Abe?”, eu tentei novamente. Nenhuma resposta. Em seguida ouvi barulhos de porta e os passos pareciam estar se aproximando. Mas que droga! Que tipo de brincadeirinha de mau gosto é essa? O barulho parecia estar vindo da quadra de esportes e foi para lá que eu comecei a ir. Eu abri a porta do ginásio e congelei ao enxergar Victor a apenas alguns passos diante de mim.

“Olá, Rose! Há quanto tempo!”, ele me cumprimentou radiante e corajosamente. Compreensível, afinal ele tinha dois brutamontes do lado dele, prontos para atacar quem quer tentasse atacá-lo. Nada bom.

“O que você está fazendo aqui?”, eu questionei sem cerimônias, afinal Morois como Victor não precisavam isso.

“Finalizando alguns negócios mal resolvidos, você sabe como são as coisas. Da ultima vez que nos vimos mal tivemos tempo para conversar e devo dizer que você não foi muito educada. Talvez agora, na presença do seu pai, você pelo menos seja um pouco menos… você”. Como ele ousa a dizer isso? E como ele sabe sobre Abe ser meu pai?

“O que você fez com ele?”, eu perguntei com os dentes cerrados.

“Não se preocupe, Abe está bem”.

“Não leve para o lado pessoal, Victor, mas eu não acredito em você”. Ele gargalhou alto, o que deve ter exigido demais dele, pois em seguida começou a tossir, embora ainda parecesse estar se divertindo. Céus, a doença dele não brinca em serviço mesmo, pois Victor estava voltando a mostrar os antigos sinais de abatimento. Bem, pelo menos assim seria ainda mais fácil atacá-lo. Pegando uma estaca reserva que comecei a carregar comigo na cintura desde que fui resgatada, eu sinalizei para os guardiões de Victor, desafiando-os a virem até mim. Eles se olharam e apenas um deles avançou, é claro. Eles não deixariam Victor completamente desprotegido. Que venha um de cada vez então, melhor assim.

Eu fiz o primeiro ataque, tentando acertar um soco no meu adversário para avaliar seu tempo de reação. Ele se defendeu bem, mas eu fui mais rápida e em seguida lhe acertei um chute que o fez cambalear para trás. Aproveitando a falta de equilíbrio dele, eu pulei o mais alto que pude, esticando minha perna para acertar a cabeça do guardião de Victor, que chicoteou para trás com mais violência do que eu esperava. O cara caiu inconsciente no chão, mas ainda estava respirando. Automaticamente o outro guardião de Victor deixou seu lado e veio me enfrentar, mas eu não perdi tempo lutando com seu capanga, pois quem eu queria era Victor e ele havia começado a fugir. Então permiti que o segundo guardião acertasse um chute nas minhas costelas, para rasgar a coxa do infeliz  em quase toda sua extensão com a minha estaca, distraindo-o o suficiente para que eu voasse até Victor e segurasse seus braços para trás com uma mão e envolvesse meu outro braço ao redor do pescoço dele. O guardião que eu havia ferido parou assim que me viu com o Moroi que ele deveria estar protegendo completamente imobilizado. Quando ele tentou se aproximar eu apertei meu braço contra o pescoço de Victor.

“Não dê mais um passo adiante…”, eu alertei, “… pois eu já tenho motivos suficientes para acabar com a vida desse velho miserável. Então não tente bancar o herói aqui, pois você só fará com que eu tenha vontade de acabar com isso mais rápido”. O guardião parou com as mãos levemente erguidas, como se pedisse para eu ter calma. Eu o mandei sentar e ele obedeceu como um cachorrinho.

“Onde está Abe, Victor?”, eu disse quase no ouvido dele, sem me preocupar em falar baixo.

“Ele está em algum lugar por aqui, oras? Onde mais ele estaria?”.

“Resposta errada!”. Céus como eu não suporto esse sarcasmo de Victor. Ainda segurando as mãos dele para trás, eu o agarrei pelos cabelos e o prensei com força contra a parede. O impacto da cabeça dele contra o concreto lhe rendeu um corte por onde começou a escorrer sangue.

“Quer tentar novamente?”, eu sugeri a ele. Porém, antes que Victor pudesse dizer qualquer coisa, uma porta se abriu do outro lado do ginásio, de onde saiu Abe. Ao ver um dos guardiões de Victor no chão, inconsciente e outro com um corte na perna, Abe pareceu chocado. Mas ao ver Victor sangrando nas minhas mãos, ele veio na nossa direção como um touro enfurecido, o que não fazia sentido nenhum.

“Graças a Deus, você está vivo!”. Pela expressão de Abe eu o surpreendi ao ficar aliviada por vê-lo são e salvo.

“Sim, eu estou vivo, Rose. Agora, solte ele”, Abe ordenou, referindo-se a Victor.

“Você enlouqueceu de vez, Abe? Por que eu faria isso?”.

“Porque você, minha filha, com toda essa delicadeza que certamente herdou da sua mãe, acabou de abrir um corte na testa da nossa fonte de informações sobre Eric Dragomir”.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 21

Eu fiquei encarando Abe, esperando que ele me dissesse que se tratava de uma brincadeira, mas não. Pelo que parece, Victor realmente era a visita que estávamos esperando.

“Isso aqui está virando um show de horrores”, eu disse, incrédula, empurrando Victor para cima de Abe como um saco de batatas e seguindo em direção ao túnel e voltando para dentro de casa.

“Você sabia sobre Victor, não sabia, Dimitri?”, eu perguntei a ele assim que o localizei na varanda, na frente da casa. Ele sentava casualmente numa cadeira, apoiando os pés sobre um pequeno banco. Nas mãos tinha um de seus clássicos romances do velho oeste, de onde ele sequer desviou os olhos para me responder.

“Sim, eu sabia”, ele disse tranqüilamente.

“E por que diabos você não me disse nada?”, eu abri os braços, indignada.

“Acredite, eu tentei”. Dimitri virou a página de seu livro com uma calma que me tirou do sério.

“Ah, não tentou mesmo!”, eu disparei. “O que você fez foi vir com aquela conversinha barata, querendo saber se eu estava bem. Que fosse direto ao assunto!”. Eu comecei a andar de um lado para o outro na varanda. ”Agora um dos guardas de Victor está inconsciente no chão, o outro com um corte feio na perna e se Abe não tivesse aparecido eu acho que teria até matado Victor”.

Finalmente eu consegui a atenção de Dimitri, que me olhava com espanto.

“Então em resumo, você quase atacou nossa fonte de informações?”.

“Quase?”, eu explodi. “Eu bati com a cabeça dele na parede, Dimitri, achando que ele tinha feito algo contra Abe e não estava me contando. Agora ele está lá, com a testa aberta”. Céus, isso tudo parecia tão ridículo.

Dimitri caiu na gargalhada ao ouvir toda a confusão, o que confirmou minhas suspeitas. Foi mesmo ridículo. E quando vi, eu estava rindo também.

“Agora eles provavelmente estão lá embaixo na enfermaria. Ou tentando acordar o troglodita que eu apaguei”. Eu ri novamente, balançando minha cabeça e percebendo que dessa vez eu estava rindo sozinha.

“Por que você está me olhando assim?”, eu perguntei meio sem jeito ao perceber que Dimitri me observava, encantado.

“Eu estou apenas fascinado com a sua capacidade de fazer tanto estrago em tão pouco tempo”, ele disse sem hesitar. Então eu me encostei contra a muretinha da varanda com os braços cruzados, ignorando algo que eu imaginei ter visto naquele olhar.

“Eu tenho a impressão de que Abe está pensando a mesma coisa nesse momento”, eu refleti em voz alta. Isso fez Dimitri rir mais uma vez, levantando-se em seguida.

“Eu acho que vou lá ver se está tudo bem”, ele disse. Mas quando Dimitri estava passando pela porta, ele hesitou. “Rose?”. Eu olhei para ele assim que ouvi meu nome. Dimitri estava de frente para a porta, com uma perna do lado de dentro e outra do lado de fora da casa, apoiando sua mão no marco. Ele olhava para baixo, como se estivesse pensando nas palavras certas. “Hoje na cozinha… Não era conversa barata. Eu ouvi você chorando e…”. Dimitri apenas sacudiu a cabeça. “Eu só queria saber se você estava bem porque não queria preocupá-la com mais um problema, ok?”. E então ele seguiu seu caminho, me deixando a ver navios.

“Rose, você vai acabar ficando louca”, eu disse em voz alta ao levar as mãos até a cabeça e agarrar os cabelos com força.

Depois de passar um tempo sozinha na varanda respirando o ar gélido do Alaska e contemplando a paisagem cinzenta dos arredores, Abe apareceu para ter uma rápida conversinha comigo em particular.

“Em minha defesa, eu não sabia que a sua misteriosa visita era Victor Dashkov”, eu disse assim que percebi a presença de Abe.

“Eu sei, Dimitri me contou que não conseguiu falar com você a tempo. Mas eu não estou aqui para criticá-la pelo que houve lá dentro, até por que tudo não passou de um catastrófico mal entendido. Eu vim chamar você para conversarmos de forma civilizada no meu escritório e, apesar de saber que você e Victor têm seus problemas, eu acho que você precisa ouvir o que ele tem para falar”.

“Como você pode confiar numa pessoa como ele, Abe? Victor seqüestrou Lissa, a filha de quem você diz que ele tem informações. Você não vê a ironia disso?”.

“Todos cometem erros, Rose. E por trás de cada erro existe uma razão importante que leva alguém a cometê-lo. Você pode não concordar agora, mas você acabou de errar ao agredir Victor e os guardiões dele. Você teve suas razões para isso e para você elas devem fazer o maior sentido. Já outra pessoa poderia reagir completamente diferente no seu lugar. Tudo depende de onde você está analisando a situação”.

“Você está chamando o seqüestro, a tortura e a tentativa de abusar do poder de Lissa de apenas um erro? Acho que você está amolecendo, Abe. Tente uma palavra melhor para esse caso. Crime”.

“Abra sua mente e pense comigo, Rose. Victor sabia da ligação de vocês duas antes mesmo de vocês descobrirem isso e conhecia o funcionamento do elemento espírito graças a pesquisas e, é claro, por causa de Robert. Victor tinha plena consciência dos efeitos que poderiam afetar Lissa por usar seus poderes de forma intensa, mas ele também sabia que aquela força negra seria transferida para você através do laço que vocês compartilham”.

“Ei, ei, ei!”, eu interrompi. “Eu não concordo com isso. Eu lembro muito bem de Victor dizendo a Lissa que ele sabia o quanto ela sofreria, mas que era um mal necessário”.

“E se ainda assim já estava sendo difícil convencê-la a ajudá-lo, você acha que seria melhor Victor esclarecer que na verdade você seria afetada por esses efeitos e não ela? Eu não vejo como isso poderia fazer Lissa mudar de idéia.”

“Você está insinuando que Victor sabia que Lissa ficaria bem e que ele não tinha intenções de machucar ela? E quanto a mim?”.

“Ele não tinha intenção de machucar ninguém, Rose. Ele queria algo e você ser prejudicada era apenas uma conseqüência disso, não o objetivo principal. Como eu disse, por trás de um erro há sempre um motivo importante para quem o comete. O erro dele foi se permitir ficar cego e ser movido pelo seu egoísmo. O motivo dele? Desespero”. Um arrepio percorreu minha espinha assim que Abe terminou seu discurso, porque bem ou mal isso me fez lembrar de quando eu saí atrás de Dimitri na Rússia e larguei Lissa e toda a minha vida acadêmica para trás. Para muitos, um erro. Para mim, a melhor solução. Talvez eu tenha tido a sorte de conseguir um final feliz, mas eu não posso negar a possibilidade do desespero ter sido o que me motivou a fazer aquela jornada.

“Espera um segundo”, eu disparei ao relembrar as palavras de Abe. “Como você sabe do irmão de Victor?”. Então aquele sorriso de Abe que parece sempre antecipar um momento revelador, se fez presente.

“Você lembra quando eu contei que treinava minhas habilidades adicionais com outro Moroi que eu havia encontrado, também especializado em espírito?”. Abe não precisou dizer mais nada para eu saber que Robert era aquele Moroi. Céus e não é que o mundo realmente é pequeno? Eu estava chocada, mas não o suficiente para notar que Abe me observava atentamente.

“Você pode fazer o favor de parar de analisar minhas emoções? Ou você acha que eu não consigo perceber quando você está usando seus poderes?”, eu resmunguei, incomodada. Abe riu baixinho e se aproximou.

“Eu não estava analisando suas emoções, Rose. Eu não preciso. Sua expressão já disse tudo”, ele disse com sarcasmo, colocando sua mão nas minhas costas e assumindo uma postura mais séria. “Agora vamos lá pra dentro. Eles estão apenas nos esperando”. E então me conduziu até a porta, deixando que eu entrasse primeiro.

Ao chegar no escritório, eu empaquei feito uma mula, mas Abe fez o favor de me arrastar junto com ele. Eu ainda não entendia como aquele Moroi podia ser tão forte quando ele queria. Vai ver ele usava algum tipo de compulsão em mim sem eu nem perceber para eu simplesmente me deixar ser arrastada. É assustador, eu sei, mas eu aprendi que quando se tem um pai como Abe não se podem descartar possibilidades apenas por parecerem absurdas.

“Eu estava começando a achar que você não conseguiria trazer o seu pequeno demônio da tasmânia até aqui, Abe”, Victor disse com um sorriso irônico assim que apontamos na porta. Demônio da tasmânia? Sério? Você vai ver quem é o demônio da tasmânia aqui seu….

“Você não precisa tentar ser simpático, Victor”, Abe respondeu com ameaça na voz, interrompendo meus pensamentos e colocando ordem no recinto. “Aliás, aqui vai um pequeno aviso a vocês dois”, Abe disse olhando para mim e Victor.”Se vocês começarem com provocações, eu juro por Deus que antes de perceberem o que está acontecendo, vocês estarão andando de braços dados como se fossem os melhores amigos. Fui claro?”.

“Transparente como a água”, Victor respondeu, sorrindo, enquanto eu apenas revirei os olhos. A resposta dele, porém, falou por nós dois.

“De volta ao trabalho então”. Era incrível como Abe conseguia alternar seu humor de psicopata maquiavélico para o mais sereno dos todos com tanta naturalidade. Eu ergui meu braço, sendo completamente ignorada por Abe.

“Onde você o encontrou?”, eu perguntei mesmo assim.

“Onde não é a pergunta certa, Rose e sim como”,Victor respondeu. “Todo mundo tem um esconderijo, um porto seguro. Pode ser um lugar ou alguém. Você sabe exatamente do que eu estou falando, não é mesmo?”. Eu não respondi.

“Bem, eu sei que você sabe”, Victor continuou. “Robert sempre foi meu porto seguro e seu pai sempre soube disso, então quando você fez o favor de dizer a ele que desconfiava que eu pudesse estar tentando incriminá-la pelo assassinato da rainha, tudo que ele precisou fazer foi encontrar meu irmão. Para alguém com a influência de Abe, deve ter sido mais fácil do que tirar o doce de uma criança”.

“Obrigada pelo esclarecimento”, eu disse sarcasticamente. “E já que você tocou no assunto… Eu estava certa sobre a minha desconfiança?”. Eu senti o clima ficar tenso e, de repente, o escritório de Abe pareceu ficar pequeno. Victor calmamente cruzou as pernas e se acomodou na poltrona onde sentava.

“É uma teoria bastante criativa, eu lhe dou crédito por isso, mas não. Eu não tive nada a ver com o que fizeram com você. Ou com a rainha”, ele ponderou. “Aliás, porque você está tão preocupada em descobrir quem assassinou aquela megera?”.

“Ela foi apenas uma vítima, Victor. Apesar de eu precisar concordar com você. Ela de fato era uma megera”. Ele me deu um sorriso sinistro e respondeu.

“Você pensa que ela era uma vítima por causa daquele bilhete? Qual é, Rose? Assim eu até me sinto mal”.

“Do que você está falando? E como, diabos, você sabe a respeito daquele bilhete?”. Eu olhei diretamente para Abe, o condenando pela boca grande, mas ele ergueu os braços em sua defesa e, para minha própria surpresa, eu acreditei na inocência dele.

“Porque não foi Tatiana quem escreveu aquele bilhete, bobinha. Eu escrevi”. Eu fiquei olhando estaticamente para Victor.

“Ok, eu desisto. Explique-se”, eu solicitei, depois de alguns segundos tentando entender como aquilo seria possível. Victor não poderia ter se sentido mais feliz ao me ver confusa daquele jeito.

“Desde que eu me lembro ser possível, eu estive envolvido na política da nossa comunidade, Rose. Muito antes de você pensar em existir. Pessoas moviam mundos e fundos para fazer valer a vontade de uma maioria, lutavam pelos seus ideais. Também vi muitas coisas acontecerem por baixo dos panos, mas até aí, nada diferente de qualquer meio político. Porém com o passar dos anos a coisa foi ficando pior e a rivalidade entre os diferentes ideais gerou uma rixa dentro do próprio conselho e não demorou muito para que a maioria dos conselheiros parasse de se preocupar com o povo e desse prioridade a seus próprios interesses. Eu posso ter todos os defeitos do mundo, Rose, mas eu me importo com nossa raça. Por isso ver injustiças sendo feitas, em série, diante do meu nariz era como viver com alergia dentro de uma casa empoeirada, simplesmente insuportável. Eu queria fazer a diferença e por isso demonstrei interesse em ser o sucessor de Tatiana. Ela não era uma pessoa tão ruim, na verdade, mas era uma péssima governante. Não sabia se impor. Como uma boa e nata Ivashkov, ela fez jus a fama que a família tem de não saber administrar bem o poder e se submeter a situações difíceis apenas para ser aceita. Ela era a rainha, pelo amor de Deus! Ela tinha o poder nas próprias mãos! Mas o que ela fez com esse poder? Nada, além de confiá-lo aos membros do conselho real. Isso não teria sido um problema se o conselho não fosse corrupto. Justo o conselho, considerado a base do sucesso de qualquer governo”. Victor balançou a cabeça, inconformado.

“Se o conselho era o problema e se você sabia sobre esse irmão de Lissa, por que simplesmente não abriu o bico antes? Nós certamente já o teríamos encontrado e Lissa poderia estar fazendo parte do conselho nesse momento tentando mudar alguma coisa”. Isso sem falar que Lissa não precisaria ter sido seqüestrada e torturada, eu pensei. Victor riu, achando graça do meu comentário.

“Você sabe o que acontece com uma árvore quando sua raiz está podre?”, ele perguntou. ”Não importa o que você tente fazer. Mais cedo ou mais tarde, ela cai”. Victor não precisou explicar que a árvore era a rainha. E, que nesse caso, ela literalmente havia caído. “Lissa sempre foi muito ingênua e bondosa demais para se adaptar rapidamente àquele meio. Levaria muito tempo para ela entender quem eram seus verdadeiros inimigos e como lidar com eles. Além disso…”. Victor parou de repente, não sabendo se continuava ou não.

“Além disso, o quê?”.

“Eric e eu éramos como melhores amigos. Ele cometeu um erro e não queria ver ninguém sofrendo por causa disso, então quando ele descobriu que sua traição havia resultado em um fruto, ele me fez prometer, e eu lhe dei minha palavra, que não revelaria esse segredo de seu passado a não ser que fosse extremamente necessário. É claro que nós não imaginávamos, na época, que tantas tragédias pudessem acontecer”.

“O que fez você mudar de idéia?”.

“Rose, minha querida, quando você vai entender que eu não mudei de idéia? Eu nunca estive contra vocês!”. Ok, agora Victor parecia um pouco exaltado. “Quando eu seqüestrei Lissa, meu único objetivo era poder assumir novamente meu cargo de sucessor da rainha para tentar colocar as coisas em ordem. Eu pensei que seria suficiente para iniciar uma revolução, mas com essa doença aparecendo na minha vida, tudo virou de cabeça para baixo”. Ele respirou fundo uma vez, duas vezes e então continuou. “Você sabe o que é ver um sonho desmoronar diante dos seus olhos?”. Eu sabia. Eu me senti assim quando Dimitri havia se transformado em um  Strigoi, apesar de achar que a comparação aqui não era válida. “Quando eu descobri sobre os poderes de Vasilisa eu vi uma luz no fim do túnel e apostei tudo na idéia de que ela poderia ser a minha salvação, mesmo que houvesse conseqüências. Naquele momento, fazer um sacrifício em nome de toda uma população parecia razoável”. Pelo olhar que Victor me deu eu sabia que ele estava se referindo ao meu sacrifício, já que eu absorveria a escuridão que deveria atingir Lissa ao curá-lo. “Mas quando a rainha foi assassinada, eles me deixaram sem opções e eu tive que revelar o segredo de Eric e avisar sobre o golpe que está sendo armado”. Finalmente as coisas estavam começando a fazer sentido. Victor escreveu aquele bilhete e… ok, talvez ainda não estejam fazendo tanto sentido assim.

“Como aquele bilhete foi parar na mão de Ambrose?”, eu questionei. Victor então contou que essa talvez tenha sido a parte mais fácil do plano. Ele simplesmente enviou uma carta sem remetente a Ambrose, dizendo que se ele estava recebendo aquela carta era porque algo muito sério havia acontecido e que eu deveria receber aquele bilhete o quanto antes para que a situação não ficasse pior.

“Você é tão criativo, Victor!”, eu ironizei. “E se ele não acreditasse?”.

“Dificilmente ele não acreditaria, porque eu assinei como Tatiana e ainda deixei uma observação no rodapé daquela carta, dizendo que sempre o amaria e que lamentava ter deixado as coisas chegarem nesse ponto. Eu sou um romântico, o que posso fazer? O pobre Ambrose sequer desconfiava que os boatos que rolavam pelos corredores sobre os dois eram espalhados pela própria Tatiana, então ele provavelmente estava com o coração partido e precisava de uma despedida. Eu dei isso a ele”. Tudo que eu consegui fazer foi erguer as sobrancelhas, sem saber se considerava Victor um monstro ou um gênio.

“Então, você tem alguma idéia de quem pode estar por trás do assassinado da rainha?”, Dimitri finalmente achou sua voz, dando continuidade ao interrogatório.

“Mas é claro que não! No entanto é fato que alguém se aproveitou do caos gerado com o seqüestro de Lissa pelo qual você, Dimitri, foi responsável e aplicou um golpe para matar Tatiana”.

“Então agora ela foi vítima de um golpe?”, eu questionei a contradição das afirmações de Victor.

“Eu estou dizendo que ela foi vítima de um golpe, mas não que ela era inocente. Ela sabia o que estava acontecendo, e não fez nada a respeito. Ter culpa no cartório não quer dizer que você, de fato, fez algo errado. Você pode apenas ter deixado de fazer o que era certo”. Lições de moral, por Victor Dashkov, quem diria?

“Sendo assim, Rose ter sido acusada do assassinato da rainha foi um acidente ou um ato premeditado?”, Abe perguntou mais para si mesmo do que para qualquer um de nós. Ainda assim Victor deu sua opinião, é claro.

“Rose tinha inimizades com a rainha, a ameaçou em público, namorava o sobrinho preferido dela e, o pior de tudo, questionou o direito de Vasilisa Dragomir de fazer parte do conselho real”. Victor viu minha cara de espanto e piscou para mim. “As notícias voam, minha querida”. E então continuou. “Talvez sem querer, Rose tenha se tornado mais do que uma isca. Ela se tornou a isca perfeita, pois além de ter todos os motivos para querer Tatinana morta, ao questionar a forma com a lei funciona, com esse jeito teimoso, revolucionário e que vai atrás do que quer, Rose se tornou uma pedra no sapato deles. E para eles, toda ameaça deve ser eliminada, já que qualquer irregularidade que fosse constatada diante dos olhos do povo certamente abriria a porta que revelaria todo tipo de ação ilegal que acontece com o consentimento dos conselheiros”.

“Mas se eu era uma ameaça tão grande, por que eles simplesmente não mandaram alguém me matar? O que eu não entendo é qual era a necessidade de assassinar a rainha para que eu fosse condenada a morte se ela era tão conivente com as ações deles”. Quem respondeu foi Abe.

“Se você simplesmente aparecesse morta, Rose, seria muito suspeito. Eu certamente investigaria isso até o fim para achar os culpados e eu não tenho dúvidas de que os acharia. Eles precisavam ter certeza de que você não voltasse a incomodar sem chamar minha atenção. Agora pense. A maioria dos conselheiros votou a favor de sua execução. Quer forma melhor de eliminar dois problemas de uma vez só e usando os meios legais para isso? De quebra eles ainda se livraram da rainha para certamente colocar um deles no poder”. E isso explica o motivo de tanta pressa para organizar uma assembléia na corte para nomear um sucessor para o governo. Uau, o mundo realmente dá voltas!

“Agora, eu posso começar a falar sobre o que eu sei a respeito de Eric Dragomir? Ou você tem mais alguma dúvida?”, Victor indagou com um tom debochado, pois minha simples pergunta havia gerado uma discussão de mais de uma hora. Que horror, eu havia até esquecido da história do pai de Lissa!

Então um barulho estranho chamou a atenção de todos. Era meu estômago roncando para me lembrar que eu não havia comido nada desde acordei.

“Ei, Rose?”, Dimitri chamou, me atirando um pequeno pote de plástico assim que olhei para ele. Sem entender o que aquilo significava, eu abri o recipiente.

“Eu imaginei que você pudesse precisar disso”, ele disse enquanto eu me deparava com algumas fatias do mesmo bolo de chocolate que eu pretendia comer antes de sair como um foguete da cozinha. Eu não acreditava que ele havia se dado o trabalho de pegá-las para mim. Aquilo me fez sorrir.

“Vai em frente, Victor”, eu respondi. “Você conseguiu o que queria. Eu sou toda ouvidos”, eu disse ao morder um pedaço do bolo.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 22

Aparentemente, o ex-gerente do Witching Hour não estava tão errado ao dizer que o pai de Lissa gostava de curtir festas acompanhado de mulheres. Entretanto, de acordo com Victor, Eric Dragomir não costumava ir para a cama com suas acompanhantes, limitando-se apenas a observá-las dançando sensualmente e exclusivamente para ele. É, parece que homem gostava de ser provocado. Alguma vez ou outra ele se permitiu dar uns amassos, mas de acordo com Victor, nada que não passasse de alguns beijos “calientes” e mãos bobas explorando corpos. Como se isso já não fosse o suficiente para arruinar um relacionamento.

“Eric gostava de dançarinas em especial, sentia-se deslumbrado e enfeitiçado pelas curvas daqueles corpos que faziam com que cada movimento parecesse erótico”. Eu revirei os olhos nessa parte.

“Não seja tão crítica, Rose”, Victor pontuou ao constatar minha reação imediatamente. “Olhar não tira pedaço”. E, de repente, era como se eu estivesse ouvindo as palavras de Adrian retumbarem nos meus ouvidos novamente. Foi isso que ele me disse naquele hotel em Las Vegas quando eu o flagrei com os olhos colados nas dançarinas.

“Mas aparentemente Eric não ficou apenas olhando, não é mesmo? Caso contrário nós não estaríamos aqui tendo essa conversa”.

“Do que você está falando, Rose? Você acha que Eric dormiu com alguma daquelas mulheres Dhampirs?”.

“O que você quer que eu pense? Você só falou disso até agora! Eu pensei que você estivesse chegando em algum lugar com essa enrolação”.

“O Witching Hour, há alguns anos, era uma referência no nosso meio por trazer atrações culturais de diversos lugares do país. Nos dias em que Eric estava lá, se havia algum desses eventos no teatro do hotel, ele não pensava duas vezes antes de trocar suas dançarinas sensuais, por um pouco de… classe. Foi num desses eventos que Eric conheceu essa mulher.”

“Que tipos de eventos eram esses?”, Abe perguntou.

“Peças de teatro, ballet, musicais. Esse tipo de coisa. Eric Dragomir era um apreciador das artes e o que aquelas dançarinas faziam não tinha nada a ver com arte, acredite. Eric as apreciava por diversão e o meu ponto aqui é esclarecer isso exatamente para que vocês não tenham a idéia errada sobre ele, achando que ele  se relacionou com alguma daquelas dançarinas baratas.  Eu garanto a vocês que Eric não se envolveu com nenhuma Dhampir, meus caros. A mulher que vocês estão procurando é 100% Moroi”. Quer dizer que seja lá quem for o irmão de Lissa, não é por um Dhampir que devemos procurar? Já era alguma coisa.

“Por quanto tempo eles se relacionaram?”, perguntou Dimitri.

“Pergunta inteligente, Belikov”. Victor pontuou. “Bem, o caso deles não foi coisa de apenas uma noite. Tudo começou aproximadamente um ano depois que Vasilisa nasceu. O casamento entrou em crise e Eric viajava muito na época. Acabou acontecendo. No ano seguinte Eric me contou que sua amante estava grávida e que ela teria o bebê com ou sem ele. Eu pensei que Eric surtaria, mas para minha surpresa ele parecia bastante feliz com a notícia”. Por alguns segundos eu me desliguei da conversa e comecei a fazer contas. Se Victor estivesse certo, então esse filho bastardo de Eric deveria ser em torno de 3 anos mais novo do que Lissa.

“Como essa mulher até hoje não reivindicou os direitos daquela criança?”, Abe indagou, certamente vendo a coisa por um lado mais prático, o que era esperado de alguém que trabalha dentro do sistema judiciário. “Eric Dragomir era uma pessoa conhecida. Ela poderia ter feito um estrago”. A resposta que Victor deu, no entanto, não estava sendo esperada por ninguém.

“Sim, ela poderia, se ela soubesse que o pai do filho dela era Eric Dragomir”.

“O que você quer dizer?”, Abe questionou por todos nós.

“Eric era um homem casado, com uma família constituída e tinha um negócios importantes para administrar. Ela não era da região e não sabia quem ele era, então por uma questão de segurança, ele mentiu sobre seu nome”.

“Você está dizendo que essa mulher não tem a menor idéia de quem Eric Dragomir era?”, Minha boca caiu aberta ao mesmo tempo que pensei em como conseguiríamos convencer essa mulher de que estamos falando a verdade, quando, e se, a encontrássemos?

“Alguns anos se passaram desde que eles se viram pela última vez. As pessoas mudam com o tempo. De repente ela até viu alguma reportagem a respeito da morte de Eric com a foto dele, mas ela não deve ter associado uma pessoa a outra. Eu não sei dizer, na verdade”.

“De repente podemos ir atrás de registros de eventos que aconteceram no Witching Hour durante aquela época e tentar contatar alguém a partir disso”, Abe sugeriu não tendo muita certeza do que seria uma boa abordagem, mas sem dúvidas de que precisávamos de uma pista mais consistente.

“Por que tanto trabalho, Abe?”, Victor questionou com a astuta de quem estava guardando o melhor para o final do espetáculo. “Eu sei em que evento Eric a conheceu. Era um festival de dança nacional. Ele ficou cego assim que colocou os olhos naquela mulher. Eu não sei o verdadeiro nome dela, no entanto ele costumava chamá-la de Lilly. Já é um começo, não é mesmo?”.

“Começo? Isso nos salvou horas de pesquisa”, Abe pontuou.

“Falando sobre começo, eu acabei de lembrar que ainda precisamos descobrir quem roubou aqueles malditos arquivos sobre Eric. Eu tenho certeza que existem informações importantes lá”.

“Você quer dizer, esses arquivos?”, Victor disse ao abrir uma pasta e retirar um enorme fichário lá de dentro, que estampava um certo nome na capa: Eric Dragomir.

“Filho da mãe”, eu gritei ao ser pega completamente de surpresa. E, dessa vez, Abe e Dimitri pareciam concordar com a minha reação.

“Como você…”. Eu parei e pensei um pouco. “Quer saber? Não importa”. Os arquivos de Eric estavam em nossas mãos, não me interassa como. Mas para Abe, interessava.

“Victor, me diga que você não está por trás da morte dos dois alquimistas que foram investigar o roubo desses arquivos”. Victor pareceu ofendido com a acusação.

“Claro que não! Mas é fácil imaginar o que aconteceu, embora para vocês pareça sempre mais fácil me culpar por tudo de ruim que acontece. O seu pessoal apenas se equivocou ao pensar que alguém de dentro roubou os arquivos para fazer mau uso das informações contidas neles. Esse pensamento os levou diretamente para a cova dos leões, também conhecido como conselho real. Os conselheiros começaram a serem investigados e certamente não gostaram disso. Como eu disse, eles são leões, Abe, e você sabe como esses bichos reagem ao sentirem-se ameaçados. Não importa o motivo, eles atacam”. Eu estremeci.

“E nesse caso, ainda bem que os conselheiros não quiseram saber o motivo da investigação”. Victor finalizou seu raciocínio e eu precisei concordar com ele. Se aqueles Morois descobrissem sobre o desaparecimento dos arquivos de Eric Dragomir que continham informações sigilosas e prejudiciais aos planos deles, eles certamente iriam atrás dos responsáveis até encontrá-los. Sem falar que acelerariam o processo de escolha do novo governante. Seria um verdadeiro pandemônio.

“Victor?”, eu disse imediatamente.

“Sim..”

“Se eu não soubesse que me arrependeria até a morte, eu abraçaria você agora mesmo”. Abe não conseguiu controlar sua risada ao ouvir minhas palavras.

“Guarde isso para outra oportunidade, Rose. No momento eu ainda estou querendo manter uma distância segura de você”, Victor respondeu ao levar a mão até o curativo de sua testa, certamente relembrando os acontecimentos e a dor sentida pelo impacto contra a parede. Eu dei uma pequena risada.

“Pelo menos, me perdoe pela sua cabeça”.

“Isso eu posso fazer”. E então Victor piscou para mim.

“Desculpa interromper o momento feliz entre os dois, não me entendam mal, eu estou contente que vocês tenham superado suas dificuldades sem a minha intervenção, mas nós ainda temos negócios a fazer”. Abe disse, parecendo aliviado por saber que Victor não estava envolvido naquelas mortes, o que tornou mais fácil a proposta que veio a seguir.

“Victor, você está pronto para visitar Las Vegas novamente?”, Abe perguntou com um sorriso malicioso no rosto.

“Se ele não estiver, há quem esteja”, prontamente eu me ofereci.

“E quem disse que você está convidada?”, Abe rebateu instantaneamente.

“Qual é Abe? Você não pode me deixar fora de uma coisa dessas. É de Lissa que estamos falando, pelo amor de Deus! E eu não posso ficar presa aqui para sempre!”.

“Cuidado com o drama, Rose. Eu não lido muito bem com isso, então preste atenção, pois vou dizer apenas uma vez. Você só ficará aqui enquanto for necessário. E nesse momento é mais do que necessário. Se você preza tanto pela sua amiga como você diz, pare de reclamar e faça o que eu estou lhe dizendo e fique em casa! Dimitri ficará com você”.

“O que você quer dizer com ‘Dimitri ficará com você?’. Ele é seu guardião agora. Ele vai onde você vai”, eu exclamei com uma mistura de medo e surpresa. Ficar a sós com Dimitri? De jeito nenhum. Eu preferia ficar sozinha.

“Não por enquanto. Para todos os efeitos, ele está passando por um treinamento especial para readaptar-se a rotina de ser um guardião. Uma espécie de curso de reciclagem, que nós sabemos que ele não precisa. Então ele está de castigo tanto quanto você”, ele sorriu para mim. “Aproveitem a estadia, nós estamos partindo em duas horas”. Eu senti meu rosto empalidecer.

“E quanto a Victor?”. Era minha última chance. A essa altura, até ele seria bem vindo. “O que vão pensar ao ver você com um dos fugitivos mais procurados dos últimos tempos?”. Victor acabou falando pelos dois, pois claramente Abe estava começando a perder a paciência.

“Rose, querida. Você não está falando com amadores. Nós sabemos o que fazer e como fazer, então, por favor, nos poupe do seu desespero por ter que ficar sozinha com Belikov, ok? Eu não sei o que houve para vocês dois não estarem mais juntos, mas seja lá o que for, não será um problema até amanhã. Então vá tomar um banho frio ou algo do gênero e respire fundo. Você vai sobreviver!”. Minha primeira reação foi ficar corada. Depois eu senti meu estômago embrulhar conforme minha pele gelava e então eu fiquei sem palavras. Depois de tanto tempo na companhia de Abe eu já estava acostumada com a forma sutil com que ele lidava com determinados assuntos. Mas Victor, não. Ele simplesmente falava o que precisava ser dito. E dessa vez, por St. Vladimir, foi como levar um tapa na cara.

“Eu não consigo acreditar que você conseguiu calá-la”. Abe parecia satisfeito e, ao mesmo tempo, surpreso.

“A verdade faz maravilhas àqueles que a negam, Abe. Anote isso. Você pode precisar desse conselho mais adiante”, Victor disse, orgulhoso do seu feito. E assim que os dois saíram da sala, encontrando-se com os dois guardiões de Victor, que haviam ficado do lado de fora do escritório, seguiram em direção à sala principal para tratarem de detalhes da viagem.

Eu estava me sentindo estranha. Por mais que eu tentasse, não conseguia fixar meu olhar em nada. Era como se meus olhos tivessem vontade própria. Ainda assim eu sentia a presença de Dimitri na minha lateral, a alguns metros de distância e, graças a tal visão periférica, eu conseguia ver que ele também parecia um pouco transtornado. Quando levantei, eu tive uma leve idéia do motivo.

“É verdade?”, ele perguntou, me fazendo congelar a alguns passos da porta.

“Sobre o que?”

“Sobre o que Victor disse”. Eu segurei um sorriso carregado de frustração, respirei fundo e baixei minha cabeça.

“Digamos que ele não está completamente equivocado”. E, assim, completei meu caminho até a porta, lembrando de agradecer Dimitri pelo bolo e saindo dali o mais rápido possível, sem deixar margens para o início de uma conversa. Próxima parada: minha cama e, logo após, a mente de Lissa, pois nem pensar que eu ficarei ruminando as palavras de Victor e reavaliando meus sentimentos, de uma forma geral, numa hora dessas. Se eu tinha a opção de sair do ar, porque não aproveitá-la? Então, deitada na minha cama sobre as cobertas, eu facilmente me transportei para a corte real e, quem diria, bem na hora certa!

Certamente não era uma assembléia oficial, mas tratava-se de uma assembléia importante, pois vários Morois e Dhampirs estavam reunidos no maior auditório da corte. Nem meu julgamento havia sido realizado num espaço tão grande assim.

Diferente de como costumava acontecer, Lissa estava nas primeiras fileiras da platéia, as que eram destinadas às famílias reais. Contanto que não houvesse uma votação, ela tinha todos os privilégios de qualquer família real. Ela apenas não costumava fazer uso deles antes. O que parecia ter mudado agora.

Na verdade somente neste momento eu pude observar o quanto Lissa estava diferente. Ela parecia mais forte. Não fisicamente, é claro. Como toda Moroi, Lissa continuava com sua esguia silhueta. Mas mentalmente e emocionalmente ela havia amadurecido muito. Ela estava mais confiante, determinada e dotada de uma malícia que eu jamais imaginei que pudesse vir dela. Eu lembrei das palavras de Victor se referindo à ingenuidade e bondade de Lissa como coisas do passado, o que fazia todo o sentido. Ela continuava sendo dona de um coração enorme e capaz de mover montanhas por aqueles que ela preza. Mas eu acho que Lissa havia cansado de se enxergar e se comportar como uma vítima da vida. Ela sempre fora a princesa que perdeu a família num trágico acidente ou a Moroi dotada de um poder conhecido por poucos e que a condenava a um final trágico. Com o tempo ela foi aprendendo a dar valor ao poder de seu elemento e descobriu a força que existia por trás dele. Quando eu fui para a Rússia ela precisou aprender a se virar sozinha, se tornando menos dependente e mais ousada e corajosa. E eu acredito que Lissa começou a ver os desafios da vida como oportunidades para ela se tornar uma pessoa melhor e não como mais uma tentativa do destino de lhe aplicar um golpe. Quem diria que depois de tanto tempo Lissa seria a otimista de nós duas? Eu estava orgulhosa dela.

De repente uma sirene ensurdecedora ecoou pelo auditório, acabando com meu devaneio. Mas que diabos?

“Ordem, por favor”, um dos guardas reais vociferou assim que o som cessou. Funcionou, é óbvio. Qualquer pessoa que tivesse bom censo e amor por seus tímpanos não ousaria a continuar fazendo barulho para ver se a sirene ecoaria mais uma vez. Porque isso certamente aconteceria. Ordem, significava ordem, por bem ou por mal.

Quando o silencio tomou conta do ambiente, Eugene Lazar começou a falar.

“Eu sinto muito por não trazer boas notícias”. Por alguma razão eu não estava surpresa. Como alguém como ele seria portador de uma boa notícia?. “Há pouco tempo fomos informados de que Strigois atacaram uma pequena comunidade Moroi que vivia em uma região isolada próxima daqui”. Strigois? Pelo amor de Deus, essas pragas parecem escolher os piores momentos para aparecerem! “De acordo com relatos de sobreviventes, eles estavam atacando em grupos, como das últimas vezes, o que leva a crer que eles se reorganizaram e estão dispostos a fazer um grande estrago”. A sirene tocou novamente, pois os presentes começaram a surtar coletivamente. Após alguns instantes, quando a gritaria foi abafada e remediada pelo som estridente daquele maldito artefato eletrônico, Eugene continuou.

“Certamente eles ficaram sabendo da notícia da morte da nossa rainha e estão aproveitando esse momento de instabilidade para atacar, por isso precisamos agir de forma prática e rápida. Eu arrisco dizer que estamos a salvo aqui na corte. O perímetro está sendo vistoriado para termos certeza de que não há falhas no nosso sistema de proteção”. Ele parou, pensou nas palavras certas e continuou. “Como vocês bem sabem, o número de guardiões caiu drasticamente devido a nossas últimas batalhas”. Merda, merda, merda. Eu sei onde isso vai acabar. “Eu não quero parecer precipitado, mas eu só vejo uma solução para esse problema”. Diga, Eugene, diga o que eu preciso ouvir para marcar um alvo bem grande no seu traseiro. E ele disse. “Fazer valer a vontade da rainha Tatiana e recrutar todos os alunos Dhampir , com idade a partir de 16 anos, para um possível confronto”. Eugene Lazar você está ferrado, eu pensei. Então me desconectei da mente de Lissa e voei pelas escadas, quase caindo no meio do caminho e, se eu não tivesse me agarrado num dos pilares que havia na entrada na sala, eu teria feito um belo “strike” nos guardas de Victor, que permaneciam em pé, próximos dali.

“O que deu em você agora, Rose? Eu juro que às me preocupo com a sua sanidade”, Abe disse numa mistura de sarcasmo e, de fato, preocupação. Ignorando o comentário dele, eu fui direto ao ponto.

“Eu acho que acabei de descobrir um de nossos leões”.

Eles continuaram a me olhar como se eu tivesse realmente perdido a noção da realidade. Então eu contei o que ouvi através de Lissa sobre o ataque dos Strigois e o plano sugerido por Eugene.

“Mas a idéia não era forçar todos os Dhampirs a lutarem usando compulsão sobre eles?”, perguntou Abe.

“Sim, mas com um ataque inesperado como esse, qualquer Dhampir que não tenha recebido o treinamento apropriado não teria condições de lutar. Nesse caso usar os formandos é muito mais sensato aos olhos de quem precisa se sentir protegido”.

“E como obviamente isso terá um balanço negativo”, acrescentou Victor, “o conselho terá um bom argumento para conseguir a aprovação necessária para obrigar todos os Dhampirs a lutarem. Eu não duvido que eles estejam até felizes com essa tragédia”.

“Espera aí. Onde foi mesmo o ataque, Rose?” Dimitri perguntou.

“Em uma colônia Moroi próxima a corte”.

“Não faz sentido”, Abe interrompeu. “Aquela região possui monitoramento quase constante. Não teria porque eles correrem um risco tão grande de se expor ao atacar uma colônia tão próxima da corte real. O que eles poderiam querer lá?”.

“Talvez eles estejam atrás de alguém e esse ataque foi apenas um aviso para dizer que eles estão se aproximando”. Todos nós olhamos para Dimitri ao mesmo tempo.

“E atrás de quem eles estariam?”, Abe perguntou.

“Eu acho que você está olhando para ele agora”. Dimitri o respondeu.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 23

Eu não sei por quanto tempo eu fiquei congelada, com meus olhos fixados em Dimitri. Ele estava certo. Ele sabia demais sobre Strigois, seus esconderijos, suas estratégias de ataque, seus pontos fracos e fortes. Então desde que Lissa o trouxe de volta a vida, Dimitri passou a ser uma ameaça para esses monstros imortais. Eles devem ter descoberto que Dimitri havia sido levado para a corte depois do acontecido e por isso estavam se aproximando de lá.

Fazia sentido eles estarem dando um aviso. A corte é um dos lugares mais protegidos pela magia Moroi, tornando-se difícil de ser invadida por Strigois. Não que fosse impossível, pois se St. Vladimir, que a princípio era um lugar seguro, já havia sido atacada uma vez, eles poderiam muito bem repetir a dose. A Corte era muito mais segura do que nossa escola, mas com o caos gerado pela morte da rainha eu não me impressionaria em ver falhas na segurança.

Porém, seria muito mais fácil para nossos inimigos anunciarem que estavam se aproximando, pois seria a garantia de encontrar Dimitri, afinal ele não arriscaria a vida de vários Morois e Dhampirs tentando fugir, principalmente por um problema que era somente entre ele e os Strigois. Ele enfrentaria o problema de frente, eu o conheço bem o suficiente para ter certeza disso. Os Strigois também. Essa era a razão dos meus olhos não conseguirem desviar de Dimitri. Eu sabia que uma vez que ele saísse da zona protegida da Corte, não haveria misericórdia e se aqueles Strigois atacassem Dimitri, seria para matar. E não no sentido figurado. O que eles não sabiam era que havia um plano secreto, do qual Dimitri fazia parte, e que por causa disso ele estava no Alaska e não mais na corte real.

“Eu vou ligar para sua mãe”, Abe disse para mim, parecendo preocupado. “Ela e Lissa precisam sair de lá o mais rápido possível”.

“Não apenas elas, Abe. Eu tenho amigos lá!”.

“Eu farei o possível para que todos fiquem seguros, mas nós temos prioridades, Rose”. O que Abe quis dizer com isso? Que se alguns dos meus amigos tiverem que morrer para minha mãe e Lissa ficarem vivas, ele não pensaria duas vezes antes de atirá-los para um bando de Strigois? Na mesma hora as palavras de Victor ecoaram na minha cabeça: “fazer um sacrifício em nome de toda uma população parecia razoável”. Morois, quem poderá entendê-los?!

“Use sua autoridade e faça acontecer, papai”, eu disse ironicamente. “Minhas prioridades são minha família e meus amigos. Ponto final. Nem pense em me pedir para escolher”.

“Não se preocupe, Rose, você não precisará escolher, mas que fique claro que é porque você não tem essa opção. Eu não estou pedindo opiniões, apenas informando você de que sua mãe e Lissa serão as primeiras a saírem de lá o mais rápido possível”.  Droga, Zmey.

“Mas para onde elas irão?”, eu perguntei, percebendo que não valia a pena a discussão.

“Provavelmente para St. Vladimir. Nós temos alguns amigos por lá que podem nos ajudar e, se Eugene realmente é um dos traídores, eles precisam saber disso”.

“Então é para lá que eu vou também! Se você confia nesses amigos para contar sobre Eugene, então confidencie a eles sobre mim e me deixe escondida lá”. Abe parecia me ouvir com descaso, mas eu não me deixei abalar. “Lissa precisa de mim, seu Moroi orgulhoso desgraçado! Minha mãe pode matar qualquer coisa imortal que se aproximar de Lissa, mas por que criar esse risco se eu posso perceber a presença de um Strigoi a uma distância suficiente para evitar tal confronto?”. Eu respirei fundo, constatando que minha profanação chamou atenção de todos. “Por favor, Abe, não seja estúpido. Aquela escola já foi invadida por Strigois uma vez e, se por um acaso, houver uma segunda, eu quero estar lá”.

“Eu pensarei a respeito disso, ok?”. Na empolgação de não ter escutado um “não” de cara, eu esqueci que estava enfurecida com Abe e o abracei com força, surpreendendo a nós dois, e o larguei em seguida.

“Desculpa”, eu disse sem jeito.

“Que fique claro que eu não concordei com você ainda. Eu vou falar com a sua mãe e nós veremos o que fazer. Nesse primeiro momento, manteremos nossos planos. Você e Dimitri ficam por aqui enquanto eu e Victor vamos a Las Vegas. Isso não pode mais esperar. Além disso, aqueles Strigois ficarão um tempo sem fazer barulho até mesmo porque falta pouco para o fim da noite e eles precisam se afastar até um lugar seguro para se protegerem do sol. Amanhã nós retornamos e então decidimos tudo, ok?”.

“E adianta eu dizer não?”. Abe apenas sorriu.

As horas seguintes parecem ter passado voando enquanto eu assistia à conversa de Abe e Victor para ficar por dentro do que aconteceria na visita ao Witching Hour. Dimitri também participou, ou melhor, tentou participar, pois era visível que sua cabeça estava em outro lugar. Quando tudo estava acertado, Abe fez seus contatos e em seguida a condução que levaria todos até o aeroporto, inclusive os dois guardas de Victor, buzinou na frente da casa. Eu os acompanhei até a porta e por um momento me senti como uma criança se despedindo dos pais, acenando para eles até que o carro desaparecesse da paisagem.

Ao voltar para dentro, eu passei novamente pela sala e vi que Dimitri estava sentado no mesmo lugar, com a mão levemente apoiando o queixo e cobrindo parcialmente a boca. No seu rosto, uma expressão séria e pensativa.

“Você pensa demais, sabia?”. Os olhos deles ergueram-se na minha direção. “É sério, relaxa Dimitri. Por enquanto não há nada que você possa fazer”. Assim que terminei de falar ele baixou o olhar novamente e voltou a sua viagem mental. Eu já estava um pouco afastada da sala quando o ouvi murmurar baixinho.

“Por enquanto”, ele parece ter dito. Por enquanto eu estou tensa e sem saber o que fazer do meu tempo livre, isso sim, eu pensei, indo direto para o meu quarto.

Em cima da cama estava o meu celular, que eu deixei para trás quando saí correndo escada abaixo. Ao pegá-lo, vi que havia uma chamada perdida de Lissa e, preocupada, retornei a ligação.

“E aí, Rose? Tudo bem?”.

“Christian? Esse é o celular de Lissa, não é? Eu preciso falar com ela”.

“Sinto muito, Rose, mas ela está meio … hã…” Christian deu um suspiro profundo e continuou “… ocupada nesse momento”.

“O que ela está fazendo de tão importante?”. Do outro lado da linha eu poderia jurar que ouvi Christian gemer. “É sério, Christian, eu preciso falar com ela”, eu insisti, ignorando os barulhos estranhos.

“Ela está com a boca cheia, Rose. Ela não pode falar”. Então eu ouvi no fundo a voz abafada de Lissa, apesar de não compreender o que ela dizia.

“Jesus Cristo! Vocês não estão compartilhando comigo nenhum momento de intimidade, não é mesmo? Por favor, não me diga que vocês chegaram a esse ponto…”

“Me dá isso aqui!”, eu ouvi Lissa protestar ao pegar o telefone. Christian explodiu em gargalhadas. “Rose?”.

“Lissa!”, eu respondi aliviada. “Eu por acaso interrompi… alguma coisa?”

“Não seja boba. Eu estava saindo do banho quando o celular tocou, então eu pedi a Christian que ele atendesse e enrolasse você até que eu terminasse de me enxugar e saísse do banheiro. Obviamente não foi uma boa idéia”. Eu tive que rir.

“Eu lido com ele depois”, eu avisei, brincando. “Eu estou retornando sua ligação. Você queria falar comigo?”.

“Claro, você viu a assembléia?”.

“Por sorte, sim. Inclusive eu já falei com Abe e ele está providenciando a ida de vocês para St. Vladimir até que as coisas se acalmem por aí”.

“Bem, então você não ouviu até o fim, ouviu?”.

“Não, eu precisei me desconectar da sua mente para avisar Abe antes que ele saísse daqui. Por quê?”

“Um bilhete foi encontrado pelos alquimistas que foram apagar os rastros do crime, no local do ataque. Adivinha quem o assinou? Você não vai acreditar!”.

“Me poupe, Lissa. Eu não tenho tempo para isso”. Se Dimitri ainda fosse um Strigoi, ele seria o primeiro nome da minha lista, mas agora? Não tenho a menor idéia.

“Sonya Karp”, ela disse lentamente. O celular quase caiu da minha mão.

“O quê…?”.

“Espera aí, deixe-me lê-lo pra você.”

“Você roubou o bilhete?”, eu perguntei, alarmada. A essa altura, eu não duvidava de mais nada, principalmente vindo de Lissa.

“Se liga, Rose, é claro que não! Eu anotei as palavras num pedaço de papel quando ele foi lido na assembléia. Presta atenção”. Então, ela começou a ler.

“Existirão três ataques, esse sendo o primeiro, para vocês ficarem em alerta. O próximo, vocês não saberão onde nem quando acontecerá. Será para provar que não estamos brincando. O último, porém, terá data e hora marcada. Mas não fiquem preocupados. Eu lhes enviarei o convite na certeza que os interessados vão comparecer: o alvo que eu preciso eliminar e um troféu que eu quero recolher. Poético não? Com amor, Sonya Karp”.

“Três ataques?”, eu gritei no telefone. “Malditas sejam essas criaturas sem alma”.

“Isso foi o que mais lhe chamou a atenção?”, questionou Lissa. “Eu ainda estou tentando decifrar o que ela quis dizer com um alvo a eliminar e um troféu para recolher. Você tem alguma idéia do que isso possa significar?”.

“Não, Lissa, eu não faço a menor idéia”, eu menti. “Mas tenho certeza de que ela não está atrás de você”.

“Como você pode ter tanta certeza? Não quero que você pense que eu me orgulho disso, mas eu tenho sido o alvo preferido de quase todos nossos inimigos”. E de certa forma ela estava certa, mas não dessa vez.

“Eu apenas sei, ok? Eu vou falar com Dimitri para ver se ele pode nos informar de alguma coisa, já que um dia ele fez parte daquele submundo e se eu conseguir alguma informação nova eu ligo de volta para você ok?”. Graças a Deus ela aceitou minha sugestão. “Você tem mais algo a dizer? Porque eu preciso desligar e fazer uma lição de casa que Abe deixou para mim. Ele foi a Las Vegas com,,,”, eu mordi minha língua quando eu quase falei o nome de Victor  “consultar alguns registros antigos do Witchin Hour para tentar descobrir alguma pista sobre a identidade ou o paradeiro daquela Fulana de Tal”, eu consertei a tempo, torcendo para que Lissa não tivesse desconfiado de nada. Lissa demonstrou-se entusiasmada com o fato das investigações já terem começado e a fim de não atrapalhar nada que pudesse atrasar esse processo, desligou em seguida, para meu alívio. Acho que ela não aceitaria bem a idéia de Victor estar nos ajudando e eu não estava com o melhor humor para explicar tudo a ela agora.

Por alguns segundos eu me senti mal ao ter mentido para Lissa, mas eu precisava de uma desculpa consistente para desligar, pois minha cabeça parecia que ia explodir depois que ela leu as palavras contidas no bilhete deixado pela Sra. Karp. E só Deus sabe por quanto tempo eu conseguiria suportar esconder que, por alvo, a senhora Karp estava se referindo a Dimitri e que o troféu que ela pretendia recolher chamava-se Mikhail Tanner.

Pobre Mikhail, mais uma vítima do amor condicional de um Strigoi. Basicamente, se um Strigoi ama você e você ama um Strigoi, mas obviamente não é um, eis a primeira e única premissa para a relação dar certo: você deve se tornar um deles. Se você não concordar com os termos, eles se certificarão de que você não ficará vivo para amar mais ninguém. Romântico não? Praticamente um filme de terror. Alguém poderia me dar uma boa notícia por favor?, eu perguntei mentalmente ao espiar uma última vez o celular para ver se não teria meu pedido atendido. Mas não, ninguém ligou nem mandou mensagem e por isso eu larguei o telefone sobre o criado-mudo e me virei de lado, abraçando as pernas em posição fetal. Eu ainda estava digerindo a idéia de Dimitri ser o motivo dos Strigois terem feito um ataque tão próximo a Corte. Antes era apenas uma suposição mas, com esse bilhete, a ameaça se tornou real, muito real.

Por favor, não ele, eu pensei. Ele, de novo, não.

Eu só fui perceber quanto tempo havia passado quando eu ouvi passos no corredor e, em seguida, senti a presença de Dimitri parado na frente da porta do meu quarto, que eu sequer havia me dado o trabalho de fechar.

“Tudo bem com você?”, ele perguntou parecendo preocupado. “Você está aqui há mais de duas horas”. Eu apenas acenei com a cabeça, mantendo o meu olhar perdido em algum lugar.

“Vamos fazer o seguinte. Eu sei que há algo errado e que isso está incomodando você, mas eu vou fingir que acredito que está tudo bem,ok?”. A reação de Dimitri me surpreendeu e eu precisei olhar para ele. Encostado na porta com braços e pernas cruzados, Dimitri parecia estar apenas esperando por esse momento para fazer sua jogada.

“Vamos”, ele apontou com a cabeça na direção do corredor. “O Jantar está servido”. E assim ele saiu, sem me dar chances de dizer qualquer coisa, o que parece ter funcionado, pois eu me levantei da cama e corri para alcançá-lo.  “Jantar?”, eu repeti ao descer as escadas ainda atrás dele. Dimitri não respondeu e simplesmente seguiu até a cozinha e eu, logo atrás.

Ao me deparar com a mesa arrumada não consegui esconder meu choque.

“Meu Deus, você de fato fez o jantar?”. Diante de mim estava um magnífico prato de Estrogonofe, uma tigela rasa de arroz branco, saladas diversas e para o meu delírio, um recipiente de vidro repleto de batata palha.

“É o que acontece quando se cresce numa casa cheia de mulheres. Você aprende a cozinhar”, ele disse parecendo por um momento saudoso. Eu sei o que ele sentia porque já havia ficado um tempo no aconchego daquela casa e precisei sair de lá depois. Grandes mulheres, aquelas. Elas sabiam cativar alguém.

“Não me entenda mal”, eu disse já sentada e com a tigela de arroz na mão, pronta para me servir. “A comida parece deliciosa, mas qual a razão disso tudo?”. Dimitri foi enfático na resposta.

“Eu não sei quanto a você mas o meu estômago estava sentindo falta de uma comida de verdade”.

“Amém”, eu respondi, concordando com ele e continuando a me servir. O que mais eu poderia dizer? Que isso era uma desculpa esfarrapada que ele arrumou para poder jantar comigo? Eu estou falando de estrogonofe com batata palhas! Eu concordaria com qualquer coisa que ele dissesse.

Eu comi em silêncio, não permitindo que a minha boca ficasse vazia o suficiente para iniciar uma conversa. Mas não por estar evitando conversar com Dimitri. É que simplesmente estava tudo bom demais para eu me permitir parar de comer. Mentalmente eu sorri, imaginando que talvez  a boa notícia que eu havia pedido tenha apenas se atrasado um pouco e sido anunciada sob a forma de um jantar.

Vinte minutos depois, ao terminar, eu simplesmente me atirei na cadeira.

“Eu acho que não consigo me mexer”, eu disse com preguiça. Dimitri achou graça do meu comentário e levantou-se para recolher e lavar os pratos. Quando ele estava de costas para mim, em pé, diante da pia, eu tentei indagar novamente.

“Desculpa, Dimitri, mas eu vou ter que perguntar de novo. Qual o motivo disso tudo?”.

“O que você quer dizer?”, ele perguntou casualmente como se não tivesse a mínima idéia do que eu estivesse falando. Faça isso, Dimitri, se esconda atrás da pia.

“Nada, eu estava apenas pensando que você de repente… Não importa, deixa pra lá”. Eu soltei um forte suspiro e empurrei minha cadeira para trás, lembrando que antes de confrontar Dimitri sobre qualquer assunto relacionado a nós dois, ele precisava saber que agora havia oficialmente um alvo nas suas costas, ou melhor, no seu peito.

“Eu estarei na sala assistindo um pouco de televisão. Você pode me encontrar lá depois? Eu preciso falar com você”, eu disse e, em seguida, deixei a cozinha.

Quando Dimitri apareceu na sala eu estava quase dormindo no sofá e com o controle remoto na mão. Sem meus sapatos, eu estava com as pernas encolhidas sobre o sofá e completamente atirada sobre seu apoio lateral, usando meu braço como suporte para a cabeça.

“Então sobre o que você queria falar?”, ele perguntou ainda na entrada da sala. Eu o encarei com olhos sonolentos, piscando várias vezes, pois a luz do corredor parecia muito forte para mim. Então eu sentei, endireitando minha postura e cruzando minhas pernas feito índia.

“Eles querem você, Dimitri”, eu disse com a voz meio arrastada ao esfregar os olhos, certa de que ele sabia que eu estava me referindo aos Strigois. “Mas eles não querem você de volta e muito menos vivo”. Dimitri aos poucos foi entrando na sala e lentamente sentou-se no sofá ao lado do meu, com seu corpo levemente projetado para frente. Ele estava encarando o chão quando eu continuei. “Eu falei com Lissa antes e ela disse que os alquimistas encontraram um bilhete no local do crime dizendo que os Strigois fariam um novo ataque surpresa para somente depois marcarem uma espécie de encontro especial, onde esperam que você e Mikhail estejam presentes”. Dimitri ergueu a cabeça ao ouvir o nome de Mikhail e eu o poupei do trabalho de perguntar.

“A Sra. Karp está liderando o grupo. Ela disse no bilhete que precisa eliminar um alvo e recolher um troféu”. Para um bom entendedor, meia palavra basta e Dimitri fez sua lição.

“E eu, pelo visto, sou o alvo”.

“Você só será um alvo se você aparecer por lá”.

“Eu sou a razão desses Strigois estarem ameaçando inocentes. Eu não só vou aparecer lá como também me certificarei de cravar uma estaca no coração de cada um daqueles monstros”.

“Não é hora para bancar o bravo, Dimitri!”. Com uma mistura de surpresa e indignação, Dimitri me olhou e explicou que estava apenas cumprindo a promessa  que fez no dia que recebeu sua marca.

“Eles sempre vêm primeiro, Rose”. Dimitri disse, por fim. Aquilo me enfureceu, por razões que eu só entendi depois, e imediatamente a cena de nossa primeira vez veio a tona na minha memória. Eu e Dimitri dentro de uma cabana de madeira, nos deixando levar por desejos reprimidos por tempo até demais. Eu me senti como jamais havia me sentido em toda vida, certa de que minha primeira vez não teria sido especial se não tivesse sido com ele. E depois, quando nossos corpos ainda estavam nus sobre a cama e marcados pelo suor de nossa aventura, eu o ouvi dizer que sempre estaria aqui para mim e que não deixaria nada acontecer comigo.

Eu lembro como se fosse hoje a reação que aquilo causou em mim, pois aquelas palavras eram ao mesmo tempo maravilhosas e perigosas, significando que se ele estivesse sempre aqui para mim, ele não poderia colocar Morois em primeiro lugar. Mas agora quando Dimitri disse “eles vêm primeiro”, isso só significaria uma coisa. Que ele não estava mais disposto a estar aqui para mim. Um buraco se abriu no meu peito e a dor que eu sentia por dentro foi externalizada através das minhas palavras.

“Você perdeu completamente o juízo, Dimitri. Você mal foi trazido de volta e já está correndo em direção àqueles Strigois novamente. O que é isso? Por acaso você queria continuar sendo um Strigoi e agora está punindo quem ajudou a trazer você de volta? Ou é apenas uma missão suicida, mesmo? Me diga, Dimitri, eu estou um pouco confusa”.

“Quem é você para me falar sobre juízo, Rose? Você largou quem você mais deveria proteger para também se jogar na frente de Strigois”.

“Sim, você está certo, eu fiz isso. Mas porque o Strigoi era você, Dimitri”. Eu pausei por um instante e então conclui, com a voz levemente arranhada. “E porque você vinha primeiro”. Não suportando ficar no mesmo ambiente que ele depois de ter me exposto dessa forma, eu descruzei as pernas e me fui em direção ao corredor.

“Rose…”.

Eu parei onde estava e levemente virei a cabeça para o lado.

“Obrigada pelo jantar”. Então eu segui direto para meu quarto.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 24

Eu acordei no dia seguinte com uma dor de cabeça infernal, não era para menos. Ontem, depois da discussão com Dimitri, eu voltei para o meu quarto e lutei contra todas as lágrimas que pudessem estar querendo cair. Eu consegui segurá-las, mas considerando que agora minha cabeça parecia que ia explodir, eu conclui que aquela havia sido uma péssima escolha. Eu estava tensa demais e precisava relaxar, então optei talvez pela mais esperta de todas as minhas opções: nadar na piscina térmica do centro de treinamento físico! Imaginando que a temperatura agradável daquela água seria um santo remédio, sem perder tempo, coloquei um maiô de natação que eu nem sabia que estava na minha mala e vesti uma camiseta por cima, para não desfilar pela casa em trajes de banho. Apesar de eu estar usando um maiô ao invés de um biquíni, que é algo que eu normalmente escolheria para usar, ainda assim eu me sentia exposta, principalmente porque o tecido do maiô colava na minha pele, salientando cada curva do meu corpo. Ele não era feio, para ser bem sincera. As alças eram de amarrar no pescoço, formando um decote em V que ia até a linha dos seios, onde havia mais duas alcinhas para serem amarradas nas costas, a fim de  dar sustentação a eles. Isso quer dizer que minhas costas estavam completamente expostas, pois o decote atrás era enorme, indo até um pouco abaixo da minha cintura, onde um pedaço de tecido cobria minha bunda e mantinha minha honra.

Nas mãos eu carregava o celular, uma toalha e meus chinelos de dedo, afinal era melhor descer as escadas com os pés descalços para não fazer barulho e não chamar a atenção de Dimitri, que provavelmente já deveria estar acordado e com a mesa do café da manhã arrumada. De qualquer maneira eu não iria comer porque estava sem fome, então eu não fiquei com peso na consciência de que estava fazendo alguma desfeita.

Com todo o cuidado eu abri a porta do quarto e olhei para os lados. Nem sinal de Dimitri, perfeito. Então fui até o pé da escada, desci alguns degraus e parei para ver se ouvia alguma coisa. Logo o som da televisão chamou minha atenção e eu respirei aliviada, dando graças a Deus que Dimitri estava na sala, pois de lá ele não teria como ver eu descer e seguir pela rampa que leva ao túnel subterrâneo. Mesmo assim eu desci silenciosamente, evitando me deixar levar pela pressa e ainda acabar caindo, colocando minha discrição em cheque, mas tudo ocorreu bem. Assim que eu estava no túnel eu me permiti colocar os chinelos nos pés para continuar o caminho até a piscina do centro de treinamento e, uma vez lá, não desperdicei mais tempo do que o necessário para tirar a camiseta que vestia e largá-la em um canto junto com a toalha, o chinelo e o celular antes de me atirar de ponta. Porém, quando eu o fiz, eu vi uma sombra se movendo no fundo da piscina no lado oposto ao que eu estava. Eu queria voltar, mas era tarde demais. Eu já havia pulado.

O que deveria ter sido uma entrada perfeita na água acabou sendo o mais desastrado de todos os acidentes, pois quando percebi que a sombra no fundo da piscina era Dimitri, o susto foi tão grande que eu acabei inspirando pela boca, usando minha reserva de oxigênio, segundos antes de atingir a água. Resultado: quando eu estava submersa meu corpo ligou o piloto automático e me mandou respirar e, ao fazer isso, acabei inalando água. Eu voltei à superfície buscando oxigênio desesperadamente, sentindo uma ardência por dentro do nariz e da garganta enquanto tossia para expelir a água que havia entrado no meu corpo sem pedir permissão.

O meu nada discreto quase afogamento chamou a atenção de Dimitri, obviamente, pois como se não bastasse eu ter caído quase de barriga na água, eu ainda fiquei me debatendo como um pato para conseguir voltar a ficar em pé.

Não demorou muito para que ele viesse nadando até onde eu estava e tentasse dizer alguma coisa, mas a sua boca apenas abriu e fechou novamente. A expressão incrédula dele, no entanto, dizia tudo.

“Não precisa me olhar como se eu fosse a incompetência em pessoa! Foi um acidente, ok?! Eu pensei que você estivesse na sala, então eu me assustei ao ver uma sombra no fundo da piscina quando eu pulei e…”. Dimitri deixou escapar uma risada, se recompondo em seguida.

“Você está bem?”, ele perguntou ainda com um resquício de um sorriso no rosto.

“Eu ainda estou respirando, não estou?”, eu respondi bruscamente, sem conseguir me controlar. Eu estava irritada comigo mesma por ter protagonizado uma cena dessas. Poxa, eu tive todo o cuidado para descer as escadas sem cair, daí eu chego na piscina e pago o mico do ano? Inacreditável.

“Sim mas, falando sério, você está bem?”. Dimitri tentou novamente. Dessa vez eu senti a sinceridade na voz dele e a preocupação implícita na pergunta.

“Eu estou bem”. Eu revirei os olhos, pois era óbvio que eu estava bem. Ainda assim eu senti a necessidade de responder. “Na verdade estou tão bem que pra mim chega de piscina por hoje”, eu completei, alegando estar traumatizada com o susto levado, quando minha intenção era apenas sumir dali o quanto antes para evitar que a conversa chegasse na discussão que eu estava evitando desde que acordei. Claro que era tarde demais.

“Rose, espera!”, Dimitri disse quando eu já estava de costas para ele, me fazendo fechar os olhos quando o ouvi me chamar. Ok, lá vamos nós, eu pensei, respirando fundo e voltando a encará-lo.

“Eu quero esclarecer algumas coisas porque acho que ontem você acabou fazendo confusão com o que eu disse. Quer dizer,  eu não entendi por que você ficou tão alterada quando eu manifestei minha intenção de encarar a briga com esses Strigois em nome da segurança de vários Morois e Dhampirs, afinal, esse é nosso trabalho!”.

“Você quer realmente saber, Dimitri?”, eu o desafiei. “Porque se eu responder, nós vamos entrar num terreno que você não vai gostar muito. E eu já lhe aviso que uma vez dentro desse terreno, eu não saio até ter minhas perguntas também esclarecidas. Você escolhe, porque isso já foi longe demais”. Ainda dentro d’água, Dimitri se impulsionou até a borda. Eu pensei que ele iria sair mas, não, ele apenas encostou-se na parede da piscina.

“Fechado”, Dimitri disse ao cruzar os braços sob a água. Eu estava a uns dois metros de distância dele e ali permaneci. “Agora, explique-se”, ele ordenou. Eu respirei fundo, decidindo que precisava dar um basta nessa história senão daqui a pouco nós dois iríamos perder o mínimo de respeito que ainda tínhamos um pelo outro.

“A razão de eu ter me alterado tanto é simples”. Fale a verdade, Rose. Tudo que ele precisa é da verdade. “Eu perdi você pela primeira vez exatamente num conflito contra Strigois, algum tempo depois de ouvir da sua boca que você sempre estaria aqui para mim. Eu não o culpo por isso, mas eu recém ganhei você de volta, Dimitri. Eu não estou pronta para perdê-lo mais uma vez”. A expressão de Dimitri era dura, como se o que ele fosse dizer não seria fácil de ouvir.

“Eu sinto muito, Rose, mas algo mudou depois dessa transformação. Eu não quero…, quer dizer, eu não posso…”.

“O que é que você não quer? E o que é que você não pode?”. Eu o pressionei no intuito de lhe arrancar a verdade. Eu estava disposta a tudo. “Complete ao menos uma das frases Dimitri. Nós fizemos um acordo”.

“O que eu não quero é iludir você, Rose. E o que eu não posso é dizer o que você quer ouvir. Seria uma mentira”. A confiança dele ao responder foi como um soco na boca do meu estômago. Céus, isso doeu mais do que aquela conversa na igreja, quando ele me disse que o amor dele por mim havia acabado. De alguma forma, agora ele parecia mais confiante.

“Mas isso não faz sentido!”, eu resmunguei, com lágrimas surgindo nos olhos, ao bater com a mão fechada na água como se ela fosse uma superfície sólida. A água que espirrou bateu no meu rosto como um tapa. “A maneira como você reagiu quando pensou que havia cravado aquela estaca no meu coração no dia da execução, não é a reação de alguém que não se importa. Quando eu fui acusada de traição real, você lutou com aqueles guardas para impedir que me levassem presa e eu sei que não foi apenas por uma questão de justiça. Você disse que escreveu aquele bilhete para mim na prisão porque Abe achava importante que eu recebesse um bilhete seu, mas se você não concordasse com ele, você não o teria escrito. E às vezes…”. Eu precisei parar por alguns segundos para me recompor. Expor meus sentimentos para Dimitri nesse momento estava mexendo com feridas que nunca haviam sido curadas antes e eu estava começando a perder o controle, pois no fim dessa discussão haveria uma sentença e as coisas não estavam indo bem. Dimitri não me interrompeu. Era como se ele soubesse disso, pois ficou apenas me observando e esperando que eu tivesse condições de continuar. “Às vezes, quando eu olho nos seus olhos eu vejo uma mistura de dor e sofrimento, como se você estivesse se privando de algo que na verdade você quer. Eu sei disso porque eu também vejo seus olhos brilharem com aquela intensidade de antes quando você falha ao tentar esconder o que sente. Você se importa, Dimitri, não ouse a dizer que não!”, eu disse enfaticamente, mas ainda com os olhos marejados.

“Eu me importo, Roza”. Eu poderia jurar que a voz dele estava um pouco diferente, como se ele estivesse emocionado. “Mas não do jeito que você pensa, sinto muito”. Ou talvez eu tenha apenas me equivocado. Droga, por um momento eu achei que ele se renderia.

Eu fiquei olhando para Dimitri lembrando que quando meu coração o encontrou, ele nem sabia que procurava um dono, mas a convivência o ensinou a amar Dimitri incondicionalmente, por isso quando Dimitri se tornou um Strigoi, meu coração ficou dilacerado de uma forma que eu achei que não haveria remédio. Mas mesmo machucado, ele continuou amando aquele Dhampir de olhos castanhos e sotaque russo até que a esperança de poder trazê-lo de volta a vida acendeu uma luz no fim do túnel. Quando registrei diante dos meus olhos, Dimitri voltar a ser um Dhampir, seu fiel amigo, meu coração, ficou ansiosamente esperando por um afago daquele amor que o conquistou anos atrás, exatamente como um cão fiel que espera na porta o retorno do seu dono. Mas o esperado retorno não veio, machucando e magoando outra vez meu coração, que ainda assim insiste em bater mais forte quando Dimitri está por perto, porque de alguma forma ele acha que deve isso àquele que um dia lhe tratou tão bem. O chute que levei hoje, porém, foi tão forte que fez com que meu coração olhasse para Dimitri com mágoa e pesar e, nesse momento, eu precisei me apoiar na escadinha da piscina, pois a dor que apertava meu peito era a dor de quem estava começando a aceitar que não haveria volta. Meu coração passou o recado. Ele estava cansado e desistindo de apanhar em nome daquele amor.

Um soluço antecipou o choro que eu não consegui mais segurar. Eu continuei olhando para Dimitri sem me preocupar em estar assumindo meu sofrimento. Na verdade parte de mim queria que ele visse o quanto eu estava abalada. Mas pelo visto tudo que Dimitri sentia era pena, pois ele tentou se aproximar para me confortar. Eu me esquivei.

“Por favor, Roza, não faz assim…”

“Por que não?”, eu gritei, ainda chorando. E assim que eu elevei a minha voz eu não conseguia mais parar de gritar. Era como se eu precisasse colocar pra fora todo aquela angústia. “Desde que você voltou, você se culpa por todas as coisas que fez comigo quando era um Strigoi, mas eu lhe digo uma coisa.  Pelo menos você não tinha problemas em demonstrar seus sentimentos por mim! Agora, por conta dessa culpa, você vestiu a fantasia de covarde, se olhou no espelho e gostou. Sabe por quê? Porque ela é confortável! Então do dia pra noite você decidiu que não me ama e que não se importa mais! Você desistiu de nós, Dimitri! Você desistiu!”, eu disse entre soluços, precisando de forças para o que diria a seguir. “Então se eu não posso ter o seu amor de volta, eu desprezo sua compaixão, sua piedade ou qualquer outro sentimento vindo de você. Porque isso dói, Dimitri”. Eu fechei os olhos, respirei fundo e os abri novamente, encarando ele. “Isso dói demais e eu não agüento mais essa dor”.

Eu me virei e comecei a subir os degraus da escadinha auxiliar, onde estava apoiada, para sair da piscina.

“Rose, vem aqui”, Dimitri gritou, indo atrás de mim. Eu já estava com a toalha enrolada no corpo e pegava o resto dos meus pertences quando ele me alcançou.

“Por que você está fazendo isso?”, ele perguntou. Eu o ignorei e continuei pegando as minhas coisas, pois estava farta dessa conversa. Dimitri havia deixado seu ponto bem claro para mim. Ele não me amava mais e certamente me via apenas como mais uma pessoa que ele quer bem e, para mim, isso não era suficiente.

“Pra mim deu, Dimitri. Você conseguiu, ok? Eu desisto!”. Minha voz saiu tão confiante que até me surpreendi e a expressão de Dimitri dizia que ele sabia que eu estava falando sério. Eu sempre pensei que poderia esperar Dimitri para sempre, mas dessa vez, eu havia chegado no meu limite. “Assim que eu sair por aquela porta, você estará livre de mim. Não por agora, mas para sempre”. Dimitri estava do meu lado com os braços cruzados.

“Então isso é o fim?”, ele perguntou. Eu apenas me virei e comecei a caminhar em direção a porta. Aquelas palavras eram fortes demais para mim.

“Rose?”, Dimitri disse me segurando pelo braço e me fazendo dar alguns passos para trás.

“Fique longe de mim”.

“Diga, eu quero ouvir você dizer isso”.

“Dizer o que?”, eu perguntei.

“Que é o fim”. Então eu escolhi bem minhas palavras e as disse da forma mais tranqüila possível.

“Eu não queria que fosse, mas eu não posso continuar amando alguém que não sente o mesmo por mim, Dimitri. Então, sim, é o fim”, eu falei, deixando uma lágrima cair. Enquanto os olhos de Dimitri olhavam dentro dos meus, ele ainda me mantinha agarrada pelo braço e enquanto ele me mantinha desse jeito eu tinha uma ponta de esperança. Porém alguns segundos depois ele baixou a cabeça e me soltou. Ao invés de ir embora eu fiquei ali parada em silêncio, apenas olhando na direção da porta, mas incapaz de me mover. Dimitri também parecia ter congelado, mantendo seu olhar no chão e dando a impressão de que não conseguia respirar. Apenas depois de uns cinco minutos eu criei coragem e dei o primeiro passo para sair da vida de Dimitri para sempre.

“Adeus”, eu disse com a voz meio sufocada e determinada a seguir adiante sem parar. Quando eu me afastei cerca de dois metros, porém, eu ouvi o ar que Dimitri segurava nos pulmões ser expelido.

“Eu amo você, droga”, Dimitri desabafou de uma só vez, como se aquilo precisasse ser dito imediatamente ou ele morreria sufocado. Assim que ouvi aquelas palavras um arrepio percorreu meu corpo instantaneamente e eu parei onde estava com os braços caídos ao longo do corpo; camiseta em uma das mãos e celular na outra.

“O que você acabou de dizer?”, eu perguntei depois de alguns segundos. Dimitri deu alguns passos, parou diante de mim e segurou minha cabeça entre suas mãos. Automaticamente meus olhos fixaram-se nele.

“Eu disse que eu amo você”. Suas palavras foram seladas com um beijo que eu não esperava, mas que parece ter acabado com o estupor em que eu me encontrava. Quando nossos lábios se tocaram, nossos corpos entraram em combustão instantânea. Dimitri soltou meu rosto e, sem parar de me beijar, me segurou pela cintura, empurrando-me uns dois passos para trás até que minhas costas estivessem contra a parede. Na mesma hora eu soltei a camiseta e o celular no chão e envolvi meus braços no pescoço dele. As mãos de Dimitri deslizaram da minha cintura até a altura dos meus seios e desceram novamente até o meu quadril, me puxando em direção a ele.

Quando interrompemos aquele beijo, ambos estavam sem fôlego. Dimitri encostou sua testa na minha e fechou os olhos, tentando controlar sua respiração. Eu, no entanto não conseguia fechar os olhos, não acreditando no que estava acontecendo. Nós ficamos ali até que um barulho vindo do túnel chamou nossa atenção.

“Crianças? Nós estamos de volta”. A voz de Abe parecia distante, mas definitivamente era a voz dele. Que maldição! Eles tinham que ter chegado justo agora? Porém eu não era a única frustrada. Dimitri passou a mão nos cabelos, visivelmente desapontado, o que de alguma forma me deixou feliz.

Vendo que nosso momento estava arruinado, Dimitri aproveitou um último segundo para me beijar rapidamente.

“Nós terminamos essa conversa depois”, ele sussurrou no meu ouvido. Eu apenas acenei com a cabeça, sem condições de usar palavras para responder.

Quando Abe apareceu eu já estava vestindo minha camiseta sobre o maiô enquanto Dimitri permaneceu com seu calção de banho por não ter nada mais o que vestir.

“Eu não vou nem perguntar”, Abe disse ao constatar que estávamos na piscina há pouco tempo, devido a nossa aparência. Tanto eu quanto Dimitri estávamos pingando água.

“Não seja ridículo”, eu disse. “Tudo não passou de um pequeno mal entendido”, então eu expliquei que quase havia me afogado ao me assustar com a presença de Dimitri na piscina, por achar que ele estava na sala, o que era verdade, apenas não toda ela. Abe olhou para mim e depois para Dimitri.

“Que seja. Eu vim aqui apenas avisar que estamos de volta com algumas informações novas a respeito do paradeiro de ‘Lilly’ e sobre o caso dos Strigois, então vistam alguma coisa seca e nos encontrem no escritório em 10 minutos para uma reunião. Eu disse dez minutos! Um segundo a mais e eu estarei indo atrás de vocês dois”. A ameaça nas palavras de Abe era óbvia. Não a ameaça de uma serpente, mas a de um pai, o que em situações como essa é bem mais perigosa.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 25

Dez minutos depois, eu e Dimitri estávamos no escritório de Abe. Victor estava lá também com seus dois guarda-costas. Um zunido parecia tomar conta da minha cabeça devido ao esforço que eu fazia para prestar atenção no que estava sendo dito, pois qualquer distração me levava para o momento em que Dimitri olhou nos meus olhos e disse que me amava. Mas agora eu não poderia me dar o luxo de me perder em pensamentos, pois existia uma guerra quase começando e nós precisávamos impedi-la de acontecer.

“Rose e Dimitri, eu sei que vocês já sabem sobre o bilhete deixado pelos Strigois no local onde ocorreu o ataque”, Abe disse com convicção, dando início a tal reunião. “Eu conversei sobre isso com Janine e nós achamos melhor que ela e Lissa continuassem na corte até segunda ordem. As duas podem estar no meio de um ninho de cobras, mas pelo menos lá elas estarão mais protegidas do que se fossem para St. Vladimir, sinto muito. Já para você, Rose, eu tenho outros planos, considerando que você não poderá encontrá-las como gostaria”. Ótimo, de volta a ser a marionete de Abe. “O bilhete de Sonya foi bem específico, dizendo que haverá um segundo ataque que não saberemos onde nem quando acontecerá, o que significa que nós não temos muito o que fazer, pois não podemos organizar uma missão de ataque num momento como esse, mesmo se soubéssemos onde esses Strigois estão escondidos. E nós não sabemos. Então acho que precisamos aproveitar esse breve intervalo entre um ataque e outro para irmos atrás do nosso outro problema”, Abe disse referindo-se ao caso do irmão de Lissa. Suspirando, eu acabei por concordar. Não adiantaria discutir com Abe até mesmo porque ele estava certo. Minha mãe e Lissa certamente estariam mais protegidas na corte, ainda mais sem sabermos onde o segundo ataque aconteceria. Percebendo minha reação, Abe prosseguiu, com uma explicação de quase uma hora sobre o que ele e Victor haviam feito em Las Vegas, revelando, por fim que, com a ajuda de compulsão e de algumas pessoas de boa vontade, eles conseguiram um nome: Lillian Demir.

“Que tipo de sobrenome é esse? Pelo amor de Deus”, eu perguntei.

“É  turco”, Dimitri respondeu com sabedoria.

“Correto”, Abe confirmou. “Bem, nós entramos em contato com ela por telefone e conseguimos agendar um encontro“.

“Mas você não acha que é meio longinho para irmos, não?”, eu questionei.

“Seria, se ela estivesse na Turquia,  mas parece que ela está de passagem por Dakota do Norte”.

“Legal! Eu adoro conhecer lugares novos”, eu me exaltei. Mas foi só o tempo de eu esboçar um sorriso, para Abe me olhar com aquela expressão de quem dizia que eu não iria a lugar nenhum.

“E correr o risco de você ser vista por alguém? Nem pensar. Dakota do Norte é próximo de Montana, então eu pedi que ela nos encontrasse num lugar que vocês dois conhecem muito bem”, Abe disse com um sorriso vitorioso. “Preparem suas malas de viagem, meus caros, pois nós estamos partindo rumo a St. Vladimir ainda hoje”. Meus olhos esbugalharam.

“Quer dizer que eu vou com vocês dessa vez?”, eu perguntei tomada pela empolgação novamente.

“Com uma condição”, Abe ponderou. “Você terá que usar isso”. E então ele jogou para mim uma sacola com uma peruca, óculos e óbvio, uma série de pulseiras, colares, brincos e outros acessórios. Todos impregnados com a boa e velha magia de Abe.

“Eu serei a única a usar disfarces?” eu perguntei imediatamente. “E quanto a Victor? Pois algo me diz que ele não será muito bem-vindo na escola, considerando o que ele fez na última vez que passou por lá”.

“Victor não vai conosco. A viagem a Las Vegas foi bastante cansativa para ele e, como você bem disse, ele não será bem vindo em St. Vladimir, então não precisamos correr o risco dele ser reconhecido”.

“Desculpa, Abe, não estou questionando a lógica do seu plano, mas o risco de Victor ser reconhecido por lá é praticamente o mesmo em relação a mim. Por que ainda assim você vai me levar?”.

“Porque você é teimosa e eu não tenho tempo para discutir com você”, ele respondeu com um sorriso sarcástico no rosto. “E também porque…”, Abe olhou novamente para mim e Dimitri. “Eu gosto de manter você embaixo do meu nariz”. Eu revirei os olhos, Abe percebeu e mostrou que não estava para brincadeiras.

“O que foi? Não gostou?”, Abe alfinetou. “Se você não estiver de acordo com alguma coisa, não se preocupe, pois Victor vai adorar a sua companhia”. Eu olhei novamente para a sacola que ele havia me atirado.

“Para sair dessa prisão domiciliar? Eu me transformaria em uma drag queen se fosse necessário”, eu exclamei já colocando os acessórios. E duas horas depois estávamos deixando Sitka, rumo a onde tudo começou.

St. Vladimir.

No avião eu não me importei em ter Dimitri sentado ao meu ao lado, pois acho que seria pior se nos comportássemos como culpados de alguma coisa, sentando um em cada ponta da aeronave. Porém não trocamos uma só palavra durante todo o trajeto. Com nossos braços sobre o apoio, o contato que trocamos através do breve roçar de nossas peles, durante toda a viagem, foi mais do que o suficiente para me sentir bem. Nós não precisávamos mais do que aquilo no momento. E não podíamos também, afinal com Abe no avião, era melhor mantermos as coisas discretas, pois não estávamos lidando com um Moroi mentalmente limitado, muito pelo contrário.

Além disso, havia Adrian. Aliás, foi nele que eu pensei durante quase toda a viagem. Céus, como dizer a ele o que havia acontecido? Por mais que Adrian soubesse que meus sentimentos por Dimitri ainda eram intensos, eu não sei como ele reagiria ao saber que um beijo aconteceu entre nós. Eu fui pega completamente de surpresa e, até aí, eu me considero inocente. Mas a partir do momento em que eu correspondi o beijo e envolvi os braços ao redor de Dimitri, desejando que ele não ficasse um centímetro longe de mim, minha inocência simplesmente evaporou e a culpa por ter permitido que isso acontecesse tão naturalmente agora estava me corroendo por dentro, pois a última coisa que eu queria era magoar Adrian.

Parabéns, Rose. Você não consegue ficar sem ferrar com a vida de alguém por muito tempo, não é mesmo, eu pensei.

Graças aos contatos de Abe, nós conseguimos aterrissar diretamente na escola, evitando assim que corrêssemos mais riscos de alguém me reconhecer. Eu não havia entendido o motivo de usar tantos acessórios e por alguma razão não quis perguntar, mas eu realmente estava diferente. A peruca que Abe havia conseguido era muito perfeita, com fios de cabelo que pareciam reais. Quem me visse agora enxergaria lindos e largos cachos cor de mel e com mechas douradas pendurados na minha cabeça. A lente de contato seguia o mesmo padrão de cor dos cabelos. No meu pescoço uma correntinha dourada que pareceria inofensiva aos olhos de uma pessoa ingênua, tinha o poder de fazer com que as pessoas me vissem como uma víbora e não fosse merecedora de nenhum tipo de atenção. O mesmo valia para as pulseiras e os brincos. Uma forma criativa de manter as pessoas longe de mim, eu pensei, apesar de não gostar de ser vista como uma cadela rejeitada.

Assim que descemos do avião, fomos recebidos por Alberta. Ela foi cumprimentando um a um, para meu desespero. Primeiro foi Abe, depois Dimitri. E agora? Como eu deveria reagir diante dela? Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Alberta se aproximou e me deu um abraço.

“Seja novamente bem vinda ao lar, Rose”, ela cochichou no meu ouvido. E ao me soltar, piscou para mim. Eu apenas sorri, imaginando que Alberta deveria estar na lista de pessoas de confiança de Abe. E quando ela se afastou, lá estava ele, o imponente prédio de St. Vladimir, o lugar que sempre considerei a minha primeira casa e onde eu me sentia segura mesmo sabendo que ali havia sido o palco de muitas tragédias, pois era um lugar que eu conhecia muito bem, afinal, foi onde minha vida praticamente começou.

“Eu a busco”, eu ouvi uma voz distante, seguida de passos acelerados. “Rose, não faça seu pai ter um ataque, aqui, ok? Vamos andando”. Dimitri disse estendendo sua mão para mim e quebrando minha hipnose. Foi quando eu notei que ainda estava parada perto do avião, devaneando sobre minha antiga escola enquanto Abe e Alberta estavam quase na metade do caminho até lá.

Eu peguei a mão dele e dei uma leve apertada, agradecendo por ele ter voltado por mim e soltando-a imediatamente, pois se a intenção era evitar que Abe tivesse um ataque, andar de mãos dadas com Dimitri na escola não seria a melhor forma de fazer isso. Então fomos lado a lado caminhando em silêncio por onde muitas vezes andamos nos dias em que eu escapava do meu quarto para apreciar um pouco de sol e o encontrava no meio do caminho.

“Esse lugar me deixa nostálgica”, eu desabafei enquanto seguíamos nosso percurso.

“Eu sei”, Dimitri disse apreciando os arredores. “Eu sinto isso também”. E o silêncio se fez presente de novo, até alcançarmos Alberta na porta de acesso ao interior da escola, pois Abe, segundo ela, não nos esperara porque tinha coisas importantes para fazer. Grande novidade.

“Rose, acho que talvez você gostaria de saber… Adrian está aqui”, Alberta anunciou com um sorriso no rosto, dando um fim na minha nostalgia, transformando-a num pesadelo. Ela obviamente não fazia a menor idéia disso, mas eu congelei.

“Desculpa, mas o que você disse?”. Céus eu precisava ter certeza de que eu não estava equivocada.

“Ela disse que eu estou aqui, Little Dhampir”. A voz de Adrian ecoou pelo ambiente. Ele estava recostado no pilar do corrimão de uma escadaria logo mais adiante. Ao enxergá-lo a minha angústia foi deixada de lado, pois eu percebi, para minha surpresa, o quanto estava sentindo a falta dele.

“Adrian!”. Eu corri até ele e o abracei com força, quase derrubando nós dois.

“Se você fizer isso de novo, eu mando a minha namorada ir atrás de você, ouviu? Ela certamente vai acabar com a sua raça, loirinha”, Adrian disse brincando com a cor da peruca que eu estava usando. “Aliás ela pode não gostar de me ver abraçado com uma estranha então, para seu próprio bem, afaste-se”. O sorriso de Adrian não poderia ser mais perfeito.

“Bobo”, eu disse, dando um leve tapa em seu peito.

“Ei, Ivashkov”, Dimitri chamou de onde estava. “Mantenha ela fora de problemas, ok?”. A tranqüilidade de Dimitri me surpreendeu. Não que eu esperasse um ataque de ciúmes, mas havia algo no ar.

“Farei o possível”, Adrian ironizou, resmungando em seguida por sempre ficar com a parte mais difícil. Mas que diabos estava acontecendo aqui, eu me perguntei mentalmente? Enquanto eu buscava por respostas, Alberta e Dimitri começaram a se retirar, provavelmente indo ao encontro de Abe.

“Ei camarada, espera aí”, eu disse em voz alta, conseguindo a atenção de Dimitri. Assim que ele se virou eu perguntei.

“E quanto a mim?”. Dimitri fez uma careta.

“Sinto muito, Roza. Seu pai disse que você poderia vir junto, mas não disse que você participaria do encontro”.

“Filho da mãe!”, eu gritei.

“Eu direi a ele, não se preocupe”, Dimitri disse, sorrindo. “Apenas tome cuidado ao andar por aí, ok? Eu preciso ir agora. Encontramos vocês depois”. Agora eu entendi porque Adrian estava aqui. Abe deve ter solicitado a presença de Adrian para servir como distração! Então esse era o motivo de Abe não ter gostado muito quando deduziu que eu e Dimitri havíamos feito as pazes, ou algo do gênero. Era porque ele estava com medo de que seu plano tivesse sido arruinado! Como ele pôde?

“E nós vamos por aqui”, Adrian me puxou pela mão ao me conduzir até um dos corredores.

“Para onde você está me levando?”, eu perguntei meio ressabiada, porém mais calma.

“Tem algumas pessoas aqui querendo ver você desesperadamente”.

“Adrian, você está louco?”, eu surtei novamente. “Ninguém mais pode saber que eu estou viva! Não por enquanto”.

“Pelo amor de Deus, Rose, que bicho mordeu você? Acalme-se! Eu conversei com o seu pai antes e ele disse que não tinha problema, então relaxa. E seja bozinha, afinal, essas pessoas pensaram que você realmente tinha partido para sempre e sofreram um bocado por conta disso, ok?”. Tudo bem, Adrian tinha razão em dizer que eu estava uma pilha de nervos, mas ele não sabia porque eu estava assim e eu aposto que quando ele souber, não serei eu que precisarei ser acalmada. Ou talvez eu precise, eu considerei, ao sentir um calafrio só de imaginar a cena dele sabendo sobre Dimitri. Mas por enquanto vamos apenas fazer o que precisa ser feito, certo? Uma coisa de cada vez.

“Eu farei o possível”, eu finalmente respondi. “Mas é pedir demais para você me dizer onde você está me levando?”.

“Para o antigo quarto de Lissa. Você entenderá o motivo depois”. Adrian parecia animado com a surpresa que havia organizado, mas eu estava com medo. Não da surpresa em si, pois com o tempo eu aprendi a confiar em Adrian e no bom senso dele. Eu estava com medo da minha reação, pois eu gosto de surpresas, mas ultimamente eu tenho tido motivos para temê-las consideravelmente.

Quando paramos na frente do quarto eu respirei fundo.

“Me da isso aqui”, Adrian disse, tirando a  peruca da minha cabeça. “Você não vai precisar disso aqui dentro”. Com a peruca na mão, ele então abriu a porta e enfiou a cabeça por uma pequena fresta.

“Tentem manter o volume baixo, ok?”, Adrian instruiu para quem estava lá dentro. Assim que eu entrei e Adrian fechou a porta, eu vi que estava me preocupando a toa e me permiti sorrir, principalmente quando Jill veio voando para meus braços, daquele jeito espontâneo e empolgado que, com o tempo, todos nós aprendemos a gostar.

“Meu Deus, você está viva mesmo”, ela disse agarrada em mim. Eu a abracei de volta enquanto olhava para o resto dos meus amigos, que sorriam, emocionados. Assim que Jill se desgrudou, eu pude abraçar Eddie e Mia, que para própria segurança deles, não haviam sido informados do plano de Abe e por isso pensavam que eu estava morta.

“É bom ainda ter você aqui, Rose”, Eddie disse ao se afastar. “Eu não estava conseguindo aceitar que justo você não ficasse sabendo da novidade”.

“Que novidade?”, eu perguntei meio arisca. Minha expressão deve ter sido um pouco surpreendente para Eddie, pois Adrian se aproximou e me lembrou, cochichando no meu ouvido, que eu precisava relaxar.

“Diga, Eddie. Eu estou curiosa”, eu tentei novamente, dessa vez sorrindo. Funcionou, pois em seguida Eddie pegou a mão de Mia e, entrelaçando seus dedos com os dela, ergueu na minha direção. Minha boca caiu aberta.

“Vocês dois juntos? Não pode ser!”, eu quase gritei, imitando Jill ao me lançar nos dois ao mesmo tempo.

“É, e de alguma forma você foi responsável por isso, Rose, pois foi um buscando conforto no outro que isso acabou acontecendo. Pensar que você estava morta teve um ponto positivo, pelo menos”, disse Mia e, pelo tom de voz dela, eu senti que devia algumas explicações.

“Pessoal, sinto muito que vocês tenham pensado que eu havia morrido de verdade, sinto muito mesmo, mas eu mesma só fiquei sabendo que não havia morrido quando Lissa me trouxe de volta”. Os olhos dos três que não tinham conhecimento dessa história se arregalaram. Eu troquei olhares com Adrian e nós decidimos que era melhor contar tudo desde o do começo. Mia, Eddie e Jill sentaram-se na cama enquanto Adrian se acomodou no chão, encostando-se na parede e me colocando sentada entre suas pernas para que eu pudesse apoiar as costas nele. Então Adrian envolveu seus braços ao redor de mim, eu apoiei meus braços sobre os dele e, assim, ele começou a contar como tudo funcionou até o presente momento, até mesmo porque ele estava por dentro das combinações e sabia mais coisas do que eu.

Foram muitas explicações seguidas de uma série de perguntas, mas no fim Adrian conseguiu dar uma boa cobertura ao assunto e tanto tempo se passou que Mia e Eddie em seguida precisaram ir embora, pois como Eddie havia se formado e Mia estava morando na corte com seu pai, nenhum deles permaneceu na escola e apenas deram um pulo aqui sob o pretexto de estarem visitando o lugar e matando a saudade de alguns amigos, o que não era uma completa mentira. O que ninguém sabia era que uma dessas amigas deveria estar morta e não está.

Assim que nos despedimos e os dois saíram, Jill fechou a porta.

“É, agora somos apenas nos três”, ela disse.

“Você não terá problemas se for vista por aqui?”, eu questionei Jill, que abriu um enorme sorriso, mostrando suas presas.

“Surpresa!”, ela exclamou, fazendo um floreio com suas mãos. “Adivinha de quem é esse quarto agora?”. Jill parecia orgulhosa, embora tenha ficado ruborizada por ter roubado toda a atenção para si.

“Você ta falando sério?”. Pergunta idiota. Pela expressão de felicidade dela isso só poderia ser verdade.

“Pois é! Eu também tive dificuldade em acreditar, no começo”. Eu sorri.

“Apesar de ninguém ser dono de nenhum dormitório, eu fico feliz que você tenha ficado aqui e não outro Moroi, afinal você já é meio que do nosso grupo, então é merecido”. Jill não poderia ter ficado mais vermellha. “Mas eu preciso perguntar”, eu continuei, “Você não deveria estar em Detroit com a sua mãe? Eu pensei que vocês passariam as férias por lá e pelo que sei ainda falta um tempinho para as aulas começarem”. Ela apenas deu um grande suspiro.

“Mães, o que eu posso fazer? A minha, assim que ficou sabendo da ameaça daqueles Strigois me mandou de volta para cá por ser um local mais seguro. Eu até achei que gostaria de retornar a St. Vladimir o mais rápido possível, mas com Christian e os outros longe, esta escola perdeu todo o encanto. Eu não poderia estar mais entediada”, ela finalizou seu discurso, atirando-se com tudo em cima da cama e fazendo um drama tão grande que eu e Adrian caímos na gargalhada. Ah, se tédio fosse o menor dos nossos problemas.

“Então ela ainda está em Detroit?”, eu perguntei realmente curiosa e também para manter a conversa rolando. Com tanta coisa acontecendo até que estava sendo bom conversar como uma pessoa normal.

“Mais ou menos. Ela ficou lá pois tinha uma apresentação para fazer, mas ela deve estar chegando aqui a qualquer momento. Sabe como é, ela quer ter certeza de que eu estou bem instalada, essas coisas. Como se não  bastasse eu ter que ficar aqui praticamente sozinha, agora minha mãe virá me fazer companhia! Tudo que uma adolescente quer”.

“Espera aí!”, eu disse ao ignorar completamente o drama de Jill. “Sua mãe é uma bailarina, não é?”. Jill confirmou a informação sem entender nada. Adrian também parecia não ter entendido de onde saiu a pergunta.

“Eu vou adorar ter outra conversa com ela”, com um sorriso no rosto eu disse, percebendo que os olhos de minha pequena amiga pareciam brilhar com curiosidade.

“Você vai convencê-la de que ela precisa voltar a Detroit o mais rápido possível para que ela não fique aqui na minha cola?”. Jill perguntou.

“Não! É claro que não! Eu não me meto em assuntos de família”, eu respondi achando graça da ironia das minhas palavras, pois era justamente sobre o drama da família de Lissa que eu gostaria de falar com a mãe de Jill. “É que é possível que nós tenhamos um amigo em comum”, eu pisquei para Adrian, que parece ter entendido meu recado. “E por isso gostaria de perguntar algumas coisas a ela”, eu justifiquei casualmente. Eu não sei como não pensei nisso antes. Emily, a mãe de Jill, estava no ramo da dança há um bom tempo e de repente poderia saber alguma coisa sobre o caso de Eric. De acordo com informações, o homem gostava de dançarinas, mas até então estávamos associando essas dançarinas com mulheres Dhampirs, como as que vimos no Witching Hour. Porém, quando Victor revelou que a mulher com quem Eric teve um caso era Moroi, passamos a imaginar que de repente ele a tenha conhecido em um dos espetáculos que foi assistir, nunca passando pelas nossas cabeças a idéia de que nosso alvo poderia estar também em cima do palco e não apenas fora dele. Seja como for era aqui que entrava o papel de Emily, pois para saber o que rola por trás dos bastidores, ninguém melhor do que uma pessoa que vive neles. Se Abe quer me excluir de determinadas conversas, tudo bem. Eu decidi que vou fazer minha própria pesquisa, então.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 26

Não demorou muito para que meu celular vibrasse com a chegada de uma mensagem de Abe, onde ele pedia que nos encontrássemos com ele e Dimitri na sala da direção da escola, e eu voltasse a ficar uma pilha de nervos. Será que essa tal de Lillian era quem estávamos procurando? Se não era, será que ela tinha alguma informação útil? Ao mesmo tempo eu não conseguia parar de pensar em que momento eu conversaria com Adrian a respeito de Dimitri, pois o que eu menos precisava nessa hora era de um atrito entre os dois. Isso sem falar que Abe continuaria com esse comportamento de pai neurótico pra cima de mim.

Adrian percebeu meu desconforto e assim que saímos do quarto de Jill ele parou no meio do corredor, colocando-se na minha frente e impedindo que eu passasse.

“Você quer me dizer o que está acontecendo?”, ele perguntou. Eu apenas sacudi a cabeça , dizendo que não. Eu até queria, mas não podia e se pudesse nem sabia como começar. Então não, definitivamente não.

“Tudo bem, como você quiser. Apenas lembre que você não precisa passar por isso sozinha, Rose“.

“Ou talvez sim, Adrian”, eu disse acariciando o rosto dele e olhando nas profundezas daqueles olhos esverdeados. “Nós conversamos sobre isso depois, ok? Agora apenas não é um bom momento”. Ele me estudou por alguns segundos.

“Sem problemas”. Adrian voltou a ficar do meu lado, oferecendo o braço para que eu me enganchasse nele. “Podemos ir?”, ele perguntou todo galante. Eu não pude evitar um sorriso e, de braços dados, seguimos até nosso destino.

Diante da sala da direção permaneciam em pé Dimitri, Abe e uma senhora, todos provavelmente apenas esperando por nós.

“Yasmin, finalmente!”. Abe falou ao me enxergar. Por questões de segurança, em lugares públicos esse seria o meu nome até segunda ordem, afinal Rose estava morta e cremada. “Eu quero que você conheça a adorável Sra. Demir”, ele continuou quase me fuzilando com os olhos ao ver que eu não estava mais usando a peruca que ele havia me dado. Droga, nós saímos com tanta pressa que eu havia esquecido completamente desse detalhe. Que se dane, eu pensei, sorrindo  para a Sra. Demir ao estender-lhe a mão para cumprimentá-la, achando estranho ela ter a aparência de uma mulher de 70 anos. Matemática nunca foi meu forte, mas até mesmo eu poderia dizer que havia alguma coisa de errado acontecendo.

Ela olhou para minha mão com desdém e, sem sequer considerar apertá-la, voltou-se para Abe. Maldita magia, eu havia esquecido completamente dela. A peruca podia não estar na minha cabeça, mas ainda restavam anéis, colares e pulseiras enfeitiçados em mim. A Sra. Demir devia estar pensando que eu era a pessoa mais detestável que ela já conheceu.

“Você não poderia ter um coração maior, Abe. Eu não sei se conseguiria fazer o mesmo por uma pessoa como… ela”. Bingo! A mulher me odiava. Sorria, Rose, é apenas a mágica falando.

“Ah, eu faço o que eu posso, Sra Demir. Yasmin pode não parecer a melhor pessoa da face da Terra, mas ela pode ser uma garota fascinante quando quer. E além disso, ela é como da família”, Abe argumentou, fazendo a Sra. Demir me olhar da cabeça aos pés e novamente dos pés a cabeça.

“Se você diz”, foi tudo que ela respondeu antes de partir, agradecendo mais uma vez a Abe pelo tratamento hospitaleiro e dizendo que esperava ter ajudado. Assim que ela não estava mais no nosso campo de visão, Abe me segurou pelo braço e literalmente me arrastou para o interior do escritório. Deve haver algo dentro de mim que envia mensagens inconscientes ao meu cérebro dizendo que eu não posso agredir Abe fisicamente por ele ser meu pai, pois mesmo irritada eu simplesmente deixei que ele me arrastasse porta adentro. Porém eu não era a única alterada. Abe parecia possesso.

Nós dois começamos a discutir na mesma hora e nenhum de nós parou para ouvir o outro. Abe falava sobre a minha falta de cuidado enquanto eu o culpava por estar sendo odiada pelas pessoas que nem me conheciam. Em seguida ele me criticou por ser teimosa, mas eu não dei bola pois estava muito ocupada o culpando por me manter longe dos meus amigos e me transformando em uma marionete dele. No fim, ele disse algo sobre a conversa que teve com a Sra. Demir e eu me gabei por também ter contatos importantes. O bate boca culminou quando um mesmo nome veio a tona.

“Emily Mastrano”, nós dois dissemos ao mesmo tempo, quase gritando. A surpresa foi tanta que nós dois ficamos petrificados e em silêncio. Definitivamente havíamos chegado num impasse e se antes estávamos falando ao mesmo tempo, agora nenhum de nós abria a bico.

“O que você sabe sobre Emily Mastrano?”, Abe quebrou o silêncio, perguntando com cautela.

“Ela é mãe de uma amiga nossa, Jill, que estuda aqui em St. Vladimir. Eu vi Emily apenas uma vez, pouco antes das férias escolares. Ela é bailarina e atualmente mora em Detroit”. Eu não sabia exatamente o que ele queria saber, então optei por informações gerais e aleatórias.

“E por que você a mencionou agora há pouco?”.

“Porque eu acho que estamos analisando a situação por um ângulo errado. Quando ouvimos que Eric apreciava dançarinas nós consideramos que elas fossem Dhampirs. E quando Victor esclareceu que a mulher com quem Eric se envolveu era Moroi, nós descartamos a hipótese de ela ser dançarina e passamos a considerar que talvez ele a tenha conhecido na platéia de algum dos espetáculos que assistiu. Porém, meus caros…”, nossa isso soou tanto como Abe, “… nós estamos esquecendo que existem mulheres Morois que também são dançarinas. Bailarinas, por exemplo. Como Eric poderia resistir?”. Os três pares de olhos que me encaravam em silêncio foi a minha resposta. “Ok, isso foi cruel mas, qual é? Faz sentido! E nesse caso a mãe de Jill pode ser muito útil. Ela trabalha nesse meio há um bom tempo e deve ter ouvido algum boato sobre alguma bailarina que engravidou de um desconhecido da platéia. As pessoas comentam essas coisas”.

Abe finalmente resolveu se manifestar.

“Sabe, você realmente me surpreendeu com a sua teoria, Rose. Considerando que você não participou da conversa que tivemos com a Sra. Demir, até que você chegou bem perto da verdade. Porém, minhas fontes ainda foram melhores que as suas”.

“Isso era para ser uma competição?”, eu perguntei. “Eu teria me empenhado se eu soubesse disso”. Abe apenas sorriu.

“Não era para ser, mas se fosse, eu teria ganhado“, ele zombou.

“Ta bom, chega de rodeios, Abe. Desembucha o que você sabe e acaba com esse mistério”.

“Você acha que Emily pode saber quem é nossa Fulana de Tal, não é mesmo? Pois eu acho que nossa Fulana de Tal é Emily Mastrano”.

“O quê? M-Mas como? Quer dizer, isso não faz sentido”. Então Abe sentou-se numa das poltronas da sala e contou as informações que havia coletado. Ele disse que Lillian Demir deu entrada no Witching Hour dois dias antes de Eric aparecer por lá, de acordo com os registros do hotel. Na época ela tinha por volta dos cinqüenta e poucos anos, mas seu corpo parecia com o de alguém dez anos mais nova. Mas pelo que eu vi hoje, depois disso o tempo deve ter dito “basta”, pois ele não parece ter sido generoso com ela desde então.

Eric não deixou de notar a presença de Lillian no saguão de entrada assim que pôs os pés lá dentro e Lillian, uma bailarina aposentada que estava apenas aproveitando seu excesso de tempo livre para acompanhar a companhia de ballet  que sempre fora a sua paixão, deixou-se ser admirada, afinal que ego não gosta de um bom elogio?

Eles conversaram por um tempo e combinaram de se encontrar no bar do Hotel mais tarde para conhecerem-se melhor e foi então que descobriram a paixão em comum pelas artes, sendo o ballet uma delas. O encontro foi tão promissor que eles acabaram combinando de irem juntos ao espetáculo que aconteceria no dia seguinte. O que ela obviamente não esperava era que um homem tão cortês como Eric fosse capaz de olhar para outra mulher, do jeito que ele fez, mesmo estando acompanhado. De acordo com Abe, Lillian conhecia aquele olhar, pois ela mesma já havia sido admirada de tal forma e por isso ela sabia que aquilo era mais do que um simples flerte; aquele homem havia sido tocado de alguma forma pela bailarina que abriu o espetáculo com uma apresentação solo emocionante. A própria Lillian confessou ter se arrepiado dos pés a cabeça com a performance daquela jovem.

Assim, ela não se surpreendeu quando Eric lhe deu uma desculpa esfarrapada para sair de cena logo que o espetáculo terminou. Ele certamente ia visitar sua musa nos camarins e lhe dizer pessoalmente o quanto havia ficado emocionado.

Um dia depois a Sra. Demir deixou o hotel e nunca mais viu Eric, embora não possa dizer o mesmo sobre a tal bailarina, que ela encontrava freqüentemente nas apresentações de destaque daquela mesma companhia de ballet. Certamente um nome para não ser esquecido: Emily Mastrano.

“Fim”, foi o que Abe disse ao terminar sua história, parecendo mais do que satisfeito com a expressão que eu esboçava. “E então? Isso faz algum sentido para você agora?”. Eu revirei os olhos.

“Ela sabia o nome verdadeiro de Eric?”, eu perguntei, ignorando a provocação de Abe.

“Não, ela o identificou através de fotos que eu mostrei. Mas durante toda a conversa, Lillian se referiu a Eric como sendo Arthur”. Eu fiquei em silêncio tentando assimilar a história, mas não pude deixar de notar que Abe parecia um pouco decepcionado.

“Por que você está me olhando desse jeito, Abe? Ainda tem mais?”.

“Vamos lá, Rose. Você não vai me perguntar o óbvio?”. Os olhos dele brilharam novamente, provocantes, atiçando minha curiosidade e eu me surpreendi quando percebi que eu não queria decepcioná-lo. Pense, Rose, pense. Uma coisa então passou pela minha cabeça e apenas através de um olhar eu tive certeza de que sabia o que Abe queria que eu perguntasse. “Diga, Rose. Eu só consigo ler emoções, não mentes”. Eu sorri ao ver a curiosidade dele.

“Como você tem certeza de que Emily está ligada a nossa Fulana de Tal?”, eu disparei.

“Essa é a minha garota! Eu sabia que você chegaria no cerne da questão”, Abe exclamou, orgulhoso.

“Que é…?”, Adrian se intrometeu, visivelmente já entediado e um pouco nervoso com o nosso jogo de adivinhação.

“Porque, meus caros amadores, esse era o nome da apresentação solo de Emily Mastrano, no dia em que Eric a viu pela primeira vez. Fulana de Tal”.

Eu ainda estava em choque com essa informação quando meu cérebro parece ter começado a funcionar sem a minha autorização e, após algumas contas eu surtei.

“Meu Deus”, eu gritei. Todos olharam para mim. “S-Se Emily for mesmo a mulher com quem Eric teve um caso, então…maldição! Então Lissa não tem um irmão e sim uma irmã e… novamente, Meu Deus, eu acabei de sair do quarto dela!”. Eu não conseguia acreditar nas minhas próprias palavras e por mais que eu contasse e recontasse, a idade de Jill fechava perfeitamente com toda história, sem falar que Jill nunca mencionou nada sobre seu pai antes.

“Quando poderemos ter certeza? Lissa precisa saber disso o quanto antes”. Eu disse. A resposta de Abe foi automática.

“Não. Ninguém fala com Vasilisa até nós termos certeza do que estamos especulando. Não há porque criar falsas expectativas. Primeiro vamos falar com Emily e colocar tudo em pratos limpos, pois por alguma razão ela se manteve no anonimato todos esses anos. Quando tivermos alguma informação mais consistente, avisaremos Vasilisa. Fui claro?”. Todos nós concordamos, embora eu não me sentisse bem em esconder da minha melhor amiga uma informação como essa. No fundo, porém, eu sabia que Abe tinha razão.

“Bem, sendo assim é melhor já preparar o que vamos dizer a Emily, pois Jill acabou de me dizer que a mãe dela está para chegar aqui na escola a qualquer momento”. O prazer que eu senti ao ver a rara expressão de surpresa no rosto de Abe melhorou meu humor consideravelmente. Agora estávamos quites.

“Emily está vindo para cá? Por quê?”, Abe questionou. Então eu expliquei que com o ataque dos Strigois, Emily queria se certificar da segurança de Jill na escola.

“Sendo assim”, Abe disse após refletir um pouco, “cancelem seus compromissos, pois nós passaremos a noite aqui”. Como se nós tivéssemos algum compromisso, eu adicionei mentalmente.

Enquanto Abe foi conversar com Kirova para providenciar nossas acomodações, Adrian foi até o quarto de Jill pegar minha peruca, pois Abe, depois que descobriu que Adrian foi o responsável por tirá-la da minha cabeça, o obrigou a trazê-la de volta. Abe também pediu que Adrian tentasse usar compulsão em Jill para ela esquecer que havia me visto já que, considerando os novos fatos, a mãe dela não poderia saber que eu ainda estava viva. E por fim pediu que ele dissesse a Jill para a mãe dela passar na sala da direção quando tivesse um tempinho livre. Eu preferiria dizer para ela ir imediatamente até lá, mas Abe não queria que parecesse algo urgente a fim não levantar suspeitas. “Se você for atrás do peixe ele pode se assustar e fugir, então deixe que o peixe venha até você”, foram as sábias palavras dele. Abe e Victor formavam uma bela dupla. Quem sabe um dia, quando tudo isso tiver acabado eles não escrevem um livro chamado “Lições para toda a vida”.

Eu e Dimitri ficamos na sala da direção esperando Adrian e Abe retornarem. Era a primeira vez que ficávamos sozinhos depois do episódio da piscina, então eu me obriguei a fazer alguns esclarecimentos.

“É verdade o que você me disse na piscina da casa de Abe?”. Tanta coisa havia acontecido que eu já estava com medo de estar confundindo sonho com realidade.

“Eu disse muitas coisas, Rose, mas se você se refere a parte que antecedeu aquele beijo, então a resposta é sim”.

“Você pode dizer… mais uma vez?”, eu perguntei meio embaraçada, mas certa de que aquilo me faria sentir um pouco melhor. Dimitri se aproximou e pegou minha mão, fazendo com que eu levantasse.

“Mais uma vez”. Ele disse olhando dentro dos meus olhos.

“Você fazendo piadas?”. Eu perguntei, incrédula. “Ok, eu não preciso de mais provas. Isso só pode…”.  Dimitri me calou pressionando firmemente seus lábios contra os meus. “… ser um sonho”, eu completei a frase, suspirando e com meus lábios ainda tocando os de Dimitri. Eles perderam contato apenas por um breve segundo, que foi o tempo necessário para mais um beijo acontecer e, dessa vez os lábios de Dimitri vieram ao encontro dos meus com suavidade e ternura. Ao sentir a ponta de sua língua tocar minha boca eu parti os lábios e a suguei lentamente. A respiração de Dimitri acelerou, assim como o ritmo de nossos beijos, que de breves passaram a ser mais demorados e de ternos evoluíram para intensos e com uma pitada de malícia. Quando o bom senso bateu na cabeça de Dimitri, pois isso jamais viria de mim, ele interrompeu o beijo

“Isso não é um sonho, Roza”, ele disse respirando fundo. “Eu amo você”, Dimitri sussurrou finalmente o que eu havia pedido para ouvir. Eu estava prestes a dizer que o amava também quando passos no corredor denunciaram a chegada de alguém, fazendo com que Dimitri ligasse seu interruptor para o modo alerta. Como ele fazia isso, eu não tinha a menor idéia, pois eu ainda estava nas nuvens. Os passos pararam e então ouvimos alguém bater na porta.

“Aqui, rápido”. Ele disse ao me puxar em direção a um grande espelho que havia na parede ao lado. Com um leve toque atrás daquela estrutura eu ouvi um clique e quando o espelho se moveu, revelando uma pequena sala  de observação, igual aquelas usadas pela polícia para fazer interrogatórios, eu fiquei abismada.

Dimitri pediu que eu ficasse escondida ali para ele ver quem era, alertando-me apenas para não acender a luz , caso contrário eu seria vista do outro lado. Então ele colocou o espelho de volta ao seu lugar e atendeu a porta.

“Oi, minha filha pediu para eu vir aqui na sala da direção. Aconteceu alguma coisa?”. Era Emily. Graças a Deus eu estava escondida. Eu não sei como ela reagiria se me visse em pé e falando. Mas se Emily estava aqui era porque Adrian já havia falado com Jill. E onde estava ele agora?

“Sra. Mastrano?”. Eu respirei aliviada ao ouvir a voz de Abe se aproximar pelo corredor. Eles se cumprimentaram e Abe a convidou para entrar e sentar. Enquanto Emily se acomodava Abe olhou para Dimitri querendo saber onde eu estava e, uma vez que ele não poderia dizer “escondida atrás do espelho”, ele apenas foi até lá e fingiu limpar uma sujeirinha no vidro. Para Abe, foi o bastante e ele pareceu aliviado que eu não estava passeando pela escola assombrando quem pensava que eu havia morrido.

“Emily, nós gostaríamos de falar com você pois talvez você tenha informações importantes das quais precisamos”, Abe começou solenemente após também se acomodar em uma poltrona. “Eu não garanto que seja uma conversa agradável, mas sua ajuda é extremamente necessária, então me perdoe se eu não aceitar um não como resposta, ok?”. Uau, e lá se foi a solenidade dele voando pela janela.

“Como o senhor tem tanta certeza de que eu posso ajudá-los?”, ela perguntou, nada intimidada ao encostar-se na poltrona e cruzar as pernas com uma feminilidade desafiadora. Uma mulher forte, certamente.

“Você já perdeu alguém importante, Sra. Mastrano?”. Emily permaneceu em silêncio, mas algo no olhar dela parece ter mudado.

“Todos nós em algum momento perdemos pessoas importantes, Sr. Mazur. Onde você quer chegar com isso?”. Uma boa resposta, mas evasiva. Abe percebeu também, pelo rumo que a conversa tomou.

“Deixe-me explicar. Eu estou investigando o caso de uma jovem que perdeu toda sua família e por dois anos acreditou não ter ninguém nessa vida. Recentemente ela descobriu que pode ter um irmão perdido pelo mundo e desde então nós estamos batalhando para dar a ela a chance de conhecer essa pessoa”.

“Você não precisava ter apelado para a conversa sobre perdas importantes se o que você procura é ajuda para realizar essa boa ação, Sr. Mazur”.

“Esse caso é muito mais do que uma boa ação, Sra. Mastrano. É uma questão de justiça”, Abe disse com sabedoria e sem revelar a identidade de Lissa, conseguindo explicar a situação toda sem contar uma mentira. Ele omitiu várias coisas, é fato, mas não mentiu. Eu não faria melhor.

“Eu imagino que sim. A vida nem sempre é justa, não é mesmo?”, Emily respondeu simpaticamente. “Mas por que eu?”.

Parecendo apenas estar esperando por essa pergunta ou algo do gênero, Abe mostrou uma foto de Eric com uma menininha loira do lado que eu conhecia muito bem por atender pelo nome de Lissa. Era uma foto antiga, porém era uma foto do tempo em que ele e Emily se conheceram, de acordo com nossas contas.

“Porque esse é o pai da tal jovem”, Abe finalmente respondeu. Emily levou a mão a boca parecendo não acreditar.

“Arthur”, ela sussurrou.

“Nós sabemos que você teve um caso com ele”. Emily apenas concordou com a cabeça, ainda com os olhos na fotografia.

“E por um acaso você teve algum filho com ele?”. Ela parou de respirar um instante.

“Não”. Ela disse, desviando o olhar da foto. E lá estava Abe sem entender nada novamente, mas dessa vez eu também estava.

“Você tem certeza?”, Abe perguntou sem perceber o seu equívoco.

“Sr. Abe, eu acho que eu lembraria de ter gerado e parido uma criança”, Emily esclareceu óbvio. Para meu deleite, Abe ficou corado.

“Sim, perdoe-me. O que eu quis dizer é que a senhora tem uma filha e eu pensei que ela pudesse ser fruto do seu relacionamento com… Arthur”.

Emily então admitiu que teve um caso com ele, mas que não passou de um momento de fraqueza, pelo menos no começo. Ela havia terminado um relacionamento recente quando conheceu Eric e ele acabou preenchendo aquele vazio que ela sentia. Com o tempo ela declarou que realmente começou a gostar dele, mas seu ex-namorado reapareceu nesse meio tempo e ela acabou tendo uma recaída, arrependendo-se mortalmente em seguida. Mas era tarde demais, pois acabou engravidando dele. Ela disse que amava Eric demais para deixar que esse erro cometido arruinasse o futuro deles, mas ao mesmo tempo também se sentia mal por condenar aquela criança inocente que ela carregava, então ela teve uma idéia. Emily disse a Eric que a criança era dele, imaginando que ele fosse como a maioria dos homens e fugisse da responsabilidade de ser pai. Assim, se ele a obrigasse a fazer um aborto, ela estaria isenta de culpa, ou pelo menos poderia se iludir achando que parte da culpa era de Eric. Porém, ele a surpreeendeu ao ficar extremamente feliz com a notícia, assumindo toda a responsabilidade e incentivando que ela não interrompesse a gestação. Ele disse que assumiria as responsabilidades, mas que infelizmente não poderia casar-se com ela pelo mesmo motivo que pediu que ela não revelasse sobre a paternidade daquela criança: porque ele trabalhava com pessoas perigosas que poderiam ameaçar ela ou aquela criança para ter benefícios e ele não queria isso. Então ele criou uma conta num banco onde depositava dinheiro para as duas. Ele nunca deixou faltar nada para elas, até aquele fatídico dia. Emily apenas ficou sabendo da morte de Eric quando foi apresentar-se novamente no hotel onde os dois se conheceram e viu a manchete do jornal dizendo que a Comunidade Moroi havia sofrido uma perda irreparável em decorrência de um acidente fatal. A foto de Eric, ou quem ela pensava que era Arthur estampava a página e ela quase passou mal assim que o reconheceu, sequer dando-se o trabalho de ler a reportagem. Talvez se a tivesse lido veria que se tratava de Eric Dragomir, mas o que mudaria para ela, não é mesmo? O mundo de Emily havia desabado, então ela resolveu pegar sua filha e sair definitivamente das redondezas para recomeçar sua vida num lugar onde ninguém a conhecia e onde ela não conhecesse ninguém. Ela prometeu a si mesma que não olharia mais para trás pois a dor era insuportável, promessa que ela conseguiu cumprir, até hoje.

Eu não poderia estar mais frustrada, pois por um momento eu acreditei que o destino havia desistido de complicar as coisas na minha vida, mas não. Nós havíamos voltado à estaca zero. Abe não demonstrava emoção nenhuma, mas eu aprendi a ler aquele Moroi como ninguém e eu sabia que por dentro ele estava tão frustrado como eu. Ele estava apenas escondendo suas emoções porque Emily parecia estar sofrendo mais do que todos nós. Mas eu? Eu estava cansada de esconder minhas emoções. Emily estava triste, e daí? Eu estava frustrada, com medo do que o futuro reservaria para todos nós e me sentindo um fracasso por não estar conseguindo desvendar esse mistério. O bilhete de Victor havia sido claro. Ele disse que escreveu a mim por acreditar que eu seria a única pessoa capaz de lidar com isso e olha como as coisas estão agora! Se ao menos ainda tivéssemos tempo para investigar mais a fundo. Mas o caos na corte real não duraria para sempre e assim que fosse possível, o conselho faria uma nova eleição. E se quando isso acontecer nós não tivermos algo que possa mudar esse cenário, estará tudo acabado. Encare a real, Rose, eu pensei. Talvez essa história não tenha um final feliz.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 27

Eu estava inconsolável escondida atrás daquele espelho enquanto assistia Abe observar o sofrimento de Emily e lamentando por ter sido o responsável por reabrir todas aquelas feridas em vão. Eric havia sido vítima de uma mentira, todos nós fomos. Não havia outro Dragomir vivo e Lissa provavelmente teria que aceitar que estava sozinha nessa vida para sempre. Menos mal que não ligamos para ela antes, como eu gostaria, pois não sei como eu daria a noticia de que estávamos equivocados. Ela ficaria arrasada.

Assim que Emily deixou a sala, Dimitri acionou o dispositivo que abria a passagem secreta para o observatório onde eu me encontrava. Eu saí de lá dando passos lentos e cuidadosos, como se estivesse pisando em um campo minado, pois Abe estava pensativo, sentado atrás de uma mesa, mas com uma cara de quem explodiria a qualquer momento.

“Abe”, eu disse com uma voz suave, “Eu sinto muito, mas…”

“Isso não está certo”, ele resmungou para si mesmo, ignorando meu comentário. “Isso não está certo!”. Dessa vez, Abe vociferou as palavras dando um murro na superfície da mesa. O som do impacto me fez pular.

“O que não está certo, Abe?”. Ele precisou respirar fundo para me encarar e responder a pergunta sem perder o controle.

“As emoções dela. Durante a história que ela contou, em vários momentos ela sentiu medo de se contradizer, por isso algo me diz que ela não nos contou toda a verdade. Se eu ao menos pudesse usar compulsão sobre ela…”.

“Bem, mas você não pode e você sabe disso”, eu disparei. O olhar de Abe me calou instantaneamente. “Eu estava apenas lembrando, caso você tenha esquecido, mas não precisa me devorar com os olhos! Quer saber? Eu vou deixar você sozinho”. Eu disse, me dirigindo até a porta.

“Onde você pensa que vai?”.

“Eu não sei! Só sei que estou cansada de lhe dar satisfações sobre onde eu vou, o que vou fazer ou quem eu ando”, eu disse. “Desde que eu fui acusada desse maldito assassinato minha vida se transformou em um verdadeiro inferno e você não facilitou nada! Se tivesse me deixado morrer de verdade, pelo menos eu estaria livre. Porque eu posso estar viva, Abe, mas eu ainda me sinto como uma prisioneira e eu não estou acostumada a me sentir tão impotente assim. Eu preciso de um tempo, pois caso você não tenha notado, você não é o único frustrado por aqui, então não me venha com interrogatórios. Se você não quiser que eu passe por aquela porta agora é melhor você usar sua compulsão em mim, porque, preste atenção, eu estou saindo”.

Sem esperar por alguma resposta de Abe eu virei as costas e fui em direção a porta. Ele não me impediu e quando Dimitri fez menção de me seguir, eu ouvi Abe dizer a ele para me deixar ir.

Eu não consegui ir muito longe, pois quando cheguei ao final do corredor, trombei direto com Adrian, que estava voltando do quarto de Jill.

“Onde você estava indo com tanta pressa, Little Dhampir?”. Mas que droga, por que todo mundo insiste em me perguntar isso?

“Onde você estava?”, eu repeti a pergunta com uma certa agressividade na voz. Adrian devia ter retornado logo em seguida de ter falado com Jill e, no entanto, ele apareceu apenas agora, depois que havíamos inclusive falado com Emily.

“Resolvendo um pequeno probleminha”.

“Eu não deveria perguntar isso, porque eu sei que não vou gostar da resposta, mas que probleminha?”.

“Meus pais”.

“Eles estão aqui?”.

“É, mas eles estavam de passagem. O probleminha ao qual me refiro é o motivo pelo qual eles estão partindo. Lissa não ligou para você ainda?”. Ele perguntou inesperadamente, parecendo um pouco inquieto.

“Eu estou sem meu celular. Por quê? Adrian o que está…”. Adrian fez um gesto para eu parar de falar e tirou o celular do bolso ao ouvi-lo tocar. Quando ele viu que era Lissa ele passou direto para mim.

“Oi Lissa, sou eu, Rose. O que há de errado?”. Ela foi direto ao ponto.

“Eles marcaram uma data para eleger o sucessor de Tatiana”. Agora eu entendi para onde os pais de Adrian estavam indo. Eu fechei os olhos e respirei fundo.

“Quando?”

“Daqui a dois dias”, ela disse.

“Droga”, eu quase gritei no telefone. “Lissa eu preciso ir, nós ligamos para vocês mais tarde”. E assim que desliguei, arranquei a peruca que estava nas mãos de Adrian, coloquei na cabeça e o arrastei pelo braço.

“Rose, onde nós estamos indo?”.

“Parem de me perguntar isso!”, eu berrei como se Abe pudesse me ouvir também. Céus qual a implicância com os lugares para onde eu vou?! “Apenas me siga”, eu disse com mais calma. Adrian permaneceu em silêncio durante todo o percurso, provavelmente não querendo testar até onde ia minha paciência.

Eu parei diante de uma porta e depois de três batidas, me deparei com Jill, assistindo-a ficar escandalizada ao me ver. Droga, eu esqueci que Adrian havia acabado de apagar as memórias dela, então provavelmente ela pensava que eu estava morta novamente.

“Desfaça o que você fez com ela, Adrian. Eu não estou pedindo, eu estou mandando”.

“Eu estou vendo”, ele resmungou ao passar por mim e segurar Jill pelos ombros. “Ei, Jill. Olha pra mim”. Ela olhou. “Se não for muita confusão para sua cabeça, esqueça que lhe mandei esquecer a conversa que tivemos com a Rose, ok? Ela está viva, lembra? Não precisa ficar assustada”. Assim como Lissa, Adrian parece ter aperfeiçoado seus poderes, pois Jill imediatamente olhou para mim com um sorriso no rosto.

“Rose! Uau o que houve com o seu cabelo? Adrian! Que bom ver vocês novamente. Entrem”.

“Sua mãe está aqui?”, eu dei uma sondada, pois o que eu estava prestes a fazer não seria algo que Emily gostaria de presenciar.

“Não. Aliás eu acho que ela saiu dizendo que ia para a sala da direção. Você não conseguiu falar com ela?”, Jill perguntou já dentro do quarto.

“Sim e por isso eu estou aqui agora. Eu preciso fazer umas perguntas a você Jill e em nome da nossa amizade eu gostaria que você fosse sincera comigo”. Ou eu juro por Deus que eu faço Adrian arrancar a verdade de você, eu pensei sem piedade.

“Claro, em que posso ajudar?”. Para a própria sorte dela, Jill mostrou-se prestativa.

“Você conhece seu pai?”, eu fui direto ao ponto.

“Meu pai? Bem, na verdade não. Minha mãe me disse que o relacionamento deles não deu certo e que ela acabou engravidando por acidente justo na época dessa crise, então ele acabou indo embora prometendo que nos ajudaria financeiramente se nunca o procurássemos”. Isso é o que a mãe dela havia contado? Pobre garota.

“Jill, você conhece a história da família de Lissa?”. Quando Adrian ouviu minha pergunta ele sabia onde eu queria chegar e me interrompeu perguntando se eu havia enlouquecido de vez. Minha resposta foi “Eu pensei que você sempre soubesse que eu era louca”. Adrian não gostou muito de ter suas próprias palavras usadas contra ele, mas eu não estava preocupada com isso no momento. Eu não podia simplesmente aceitar que não havia uma luz no fim do túnel. Eu estava disposta a entrar dentro dele para descobrir se não existia um trem que pudesse estar vindo com o farol apagado no caminho. Era arriscado, mas eu não tinha muitas opções sobrando.

“Rose, por favor…”. Ele tentou de novo.

“Droga, Adrian, há muita coisa em jogo. Eu preciso fazer isso, você sabe”. Adrian ergueu os braços, em rendição.

“Eu ficarei aqui com você e irei onde você quiser que eu vá, mas eu lavo minhas mãos”.

“Pessoal, o que está acontecendo?”, Jill perguntou, confusa. Eu encarei Adrian mais um instante e então contei a Jill sobre o acidente que matou os pais e o irmão de Lissa, sobre o que significa Lissa ser a última Dragomir viva e como isso a impedia de ter um direito a voto entre os conselheiros reais. Então eu fui adiante, revelando segredos que deveriam ser guardados a sete chaves, como o bilhete que eu recebi no dia da audiência falando sobre um possível golpe e sobre a existência de mais um Dragomir no mundo, um filho que o pai de Lissa teria tido fora do casamento. Eu não entrei em detalhes sobre quem havia escrito aquele bilhete, pois isso não faria a menor diferença. Jill estava tão compenetrada na história que inclusive vibrou com a notícia de que Lissa poderia ter um irmão vivo, justificando que era uma injustiça alguém não poder votar apenas por ser o único da sua família. A conversa prosseguiu tranqüilamente enquanto revelei alguns dados da investigação e expliquei como isso nos levou até a Sra. Demir. A expressão de Jill começou a mudar quando ouviu o que essa senhora havia nos contado, o que já era esperado, afinal é quando Emily começa a fazer parte desse enorme quebra-cabeça.

Beliscando os dedos da mão compulsivamente com as unhas da outra, Jill não poderia estar mais tensa. Seus olhos, além de quase estarem saltando para fora do rosto, raramente piscavam e a respiração dela estava acelerada. Eu não parei nem diminui o ritmo em que revelava cada informação, finalizando meu discurso ao repetir cada palavra dita há pouco por Emily na sala da direção.

“V-Você está m-me dizendo que eu posso ser irmã de Lissa?”, Jill perguntou alguns segundos depois, com lágrimas nos olhos.

“Sim, essa chance existe e é grande”.

“Mas não de acordo com a história da minha mãe”, ela afirmou.

“Eu sei. Por isso eu vim falar com você. Nós achamos que ela não nos contou a verdade com medo do que poderia acontecer a você”.

“Você acha que ela mentiu?”, a voz de Jill se quebrou, mas sua expressão ficou séria.

“Eu sei que isso não deve estar sendo fácil, com todas essas informações jogadas em cima de você sem piedade, mas eu preciso que você entenda a gravidade da situação. Nós não estamos falando de Lissa ou de você ou de como vocês poderiam formar uma bela família. É muito mais do que isso, ok? O futuro de um povo está prestes a sofrer as conseqüências dos atos de uma minoria que está abusando do poder que tem”.

“Você não respondeu a minha pergunta. Você acha que a minha mãe mentiu?”, ela perguntou novamente.

“Sinceramente, Jill, eu espero que sim, pois essa é nossa única chance. O conselho se reunirá em dois dias para escolher um sucessor para a rainha Tatiana e depois que tivermos um governante, as regras mudarão num estalar de dedos. Se a verdade vier a tona, isso pode mudar”.

“E o que você quer que eu faça?”.

“Peça para ela lhe falar a verdade. Ela não negaria isso a você, negaria? Confronte ela, diga que você tem o direito de saber quem é seu pai. E não me diga que você não tem curiosidade em saber, porque eu sei como é não conhecer o próprio pai. Além disso, você ainda não tem 15 anos, e já é uma garota forte, decidida, que sabe se defender e discernir o que é certo e errado. Mas sua mãe não sabe a metade do poder que há em você e por isso acha que você precisa ser protegida. Mostre o quanto ela está errada, Jill”.

“Posso dizer uma coisa, Rose?”, ela me perguntou.

“Claro…”.

“Eu quero que você saia desse quarto agora!”. Ok, por essa eu não estava esperando. Jill continuou. “Quem você pensa que é pra chegar aqui e dizer que a minha mãe mentiu a respeito do meu pai e, ainda, que eu posso ser irmã de Lissa? Você pensou que estava sendo minha amiga? Você sequer se preocupou ao largar essas bombas em cima de mim, então não venha bancar a boazinha”.

“Jill você não entende…”.

“Ah, quer dizer que agora eu não entendo? Você acabou de dizer que eu sou a jovenzinha que sabe discernir o certo do errado! Talvez Adrian tenha razão, Rose. Você está enlouquecendo de vez”.

“Jill, você precisa confiar em mim. Por que eu estaria mentindo para você?”.

“Porque você já mentiu ao dizer que não gosta de se meter em assuntos de família. Então, por favor…”, ela disse com uma serenidade assustadora, “… apenas saia daqui”. Eu até pensei em explicar a ela que eu disse aquilo para não preocupá-la com problemas desnecessários, pois até então não sabíamos que essa reviravolta aconteceria, mas se eu fizesse isso ainda teria que ouvi-la dizer que eu também estava querendo protegê-la da verdade e ela estaria certa.

“Tudo bem, eu saio, mas antes eu só vou dizer uma coisa”. Eu aproveitei o que eu deduzi ser minha última chance para dizer algo que pudesse fazer diferença. “Eu não lhe culpo por não acreditar em mim, afinal ao contar a verdade era inevitável que eu me tornasse a bandida da história. Me odeie se você quiser, eu não me importo. Mas eu sei que Adrian e Christian são importantes para você e por alguma razão eles estão do meu lado. Então, por eles, tire a teima. Se você preza tanto pelas aulas que tem com Christian, fique sabendo que elas estão com os dias contados e se você achar isso ruim, pode ter certeza de que é apenas o começo do caos. Faça o que eu lhe disse e veja se eu estou tão louca como você diz, pois talvez você não tenha percebido, mas assim que um daqueles corvos assumir o poder, o conselho obrigará todos os Dhampirs a lutarem como guardiões, mesmo contra a vontade deles, o que tornará desnecessário que Morois usem seus poderes de forma ofensiva. Agora me diga, você não faria qualquer coisa para evitar que uma tragédia dessas acontecesse, se você soubesse como? É o que eu estou fazendo agora, então que se dane a minha palavra, Jill! Você pode ser a chave disso tudo, você não entende? Se você acredita tanto no que a sua mãe lhe disse, por que você está com medo de perguntar a verdade a ela? Pense sobre isso, Jill. Você tem quase dois dias para tirar essa história a limpo! Agora, se você não tiver coragem de fazer isso nesse período de tempo, faça um favor a si mesma e nunca mais pergunte a verdade a sua mãe, pois se você descobrir que eu estava certa, eu acho que você não vai querer conviver com a culpa de que poderia ter sido responsável por um final diferente, certo? E não tenha dúvidas quanto a se sentir culpada. Eu me encarregarei de fazê-la sentir-se assim pessoalmente”.

Eu virei as costas e bati a porta logo que passei por ela. Quando estava na metade do corredor eu ouvi a porta bater novamente. Era Adrian vindo atrás de mim.

“Rose, espera”, ele disse ao me segurar pelo braço, impedindo que eu fosse adiante e me puxando contra seu corpo como se soubesse que precisava ser contida. Aquilo me fez parar e então eu fechei os olhos porque minha raiva era tanta que eu chegava a tremer.

“Nós vamos dar um jeito nisso, ok?”, ele beijou o topo da minha cabeça. “Nós vamos dar um jeito”, ele repetiu.

“Adrian, eu preciso falar com você sobre uma coisa…”, eu comecei. Pior do que estava não poderia ficar, então porque não tratar de todos os assuntos desagradáveis de uma vez, não é mesmo?

“Mais tarde Little Dhampir, nós precisamos voltar antes que alguém nos veja aqui”. Infelizmente, ele estava certo.

Na sala de Kirova, Abe estava sozinho, pois Dimitri havia se retirado para tratar de alguns assuntos com Alberta. Ele não me perguntou por onde andei, nem o que eu havia feito enquanto estava fora. Aliás, pra dizer a verdade ele sequer olhou nos meus olhos depois que eu e Adrian voltamos à sala da direção, mas quando ele dirigiu a palavra a Adrian, avisando que voltaria sozinho ao Alaska assim que o sol se pusesse, eu entendi que estava sendo ignorada.

“Eu estou indo para os meus aposentos agora, então aqui estão as chaves dos quartos de vocês”, Abe finalizou, entregando dois molho de chaves a Adrian. “E você, Adrian, não fique andando muito por aí, pois o seu quarto é na ala dos Morois, em breve estará amanhecendo e eu não quero ouvir que você não dormiu lá essa noite”. Adrian me surpreendeu ao pedir que Abe o esperasse pois ele iria junto, vindo se despedir de mim com um abraço e um breve beijo. Eu fiquei olhando para ele, confusa.

“E a nossa conversa?”, eu resmunguei tão baixinho que Abe não seria capaz de escutar.

“Mais tarde”, ele disse ao me beijar uma última vez e entregar-me a chave do meu quarto. Então ele e Abe saíram e quando a porta foi fechada, algo retumbou na minha cabeça. Abe está voltando para o Alaska sozinho? Mas que diabos? Eu peguei meu celular e disquei para Abe na mesma hora, pois algo me dizia que essa conversa não daria muito certo se fosse pessoalmente.

“Alô?”, Abe disse do outro lado, como se não soubesse que era eu.

“Por que você está partindo? E o mais importante de tudo, por que eu não estou sendo levada junto?”, eu fui direto ao assunto. Abe tinha meu número registrado na memória do telefone, logo ele sabia com quem estava falando e talvez por isso respirou fundo antes de me responder.

“Eu estou partindo porque é necessário. E você não vai junto, exatamente pelo contrário”.

“Você está desistindo?”, eu perguntei com o estômago momentaneamente pesado, pois na verdade a versão completa da pergunta seria se ele havia desistido de mim ou dessa missão. No entanto, eu não tive coragem de dar minha cara a tapa. E se ele me achasse uma causa perdida? Eu e Abe certamente não tínhamos uma relação de pai e filha, mas nós desenvolvemos uma forma de nos relacionarmos e até então eu não havia percebido o quanto ele me fazia sentir segura. E por que raios ele estava demorando para responder?

“Abe?”. Eu o chamei novamente para saber se ele ainda estava me escutando. Eu foquei minha atenção no som de passos que eu parecia ouvir ao fundo e por isso dei um pulo quando alguém bateu na porta.

“Sou eu, pode abrir”, ele disse no telefone, desligando em seguida, me fazendo olhar para a porta e depois para o telefone sem entender absolutamente nada. Mas fiz o que ele me pediu. Abe estava sozinho e entrou assim que a porta havia aberto o suficiente para que ele pudesse passar. Eu a fechei rapidamente, o que foi inteligente da minha parte, pois Abe não perdeu tempo para começar a falar.

“Como você ousa pensar que eu desistiria?”, ele perguntou, indignado. “De todas as pessoas que estão envolvidas nessa história, você achou que justo eu recuaria? Eu sinto muito por você ter se acostumado a lutar sozinha as suas batalhas, Rose, mas isso mudou agora. Seus amigos, sua mãe, eu… Nós todos queremos o que é melhor para você. Nós estamos todos juntos nessa”.

“Droga, Zmey..”, eu disse, enxugando uma lágrima que escapou pelo canto do meu olho esquerdo. Céus, será possível que eu não consigo mais ouvir palavras carinhosas sem cair no choro? De um tempo pra cá tem sido impossível ter controle sobre minhas emoções, chega a ser irritante.

Então algo muito inusitado aconteceu. Abe veio até mim e me abraçou tão naturalmente que até pareceu certo. Ao contrário do que eu imaginava, eu não me senti uma estranha nos braços do meu pai. Era como se eu apenas estivesse esperando por aquilo há muito tempo. E na verdade, eu acho que estava esperando.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 28

Ontem, depois de termos acertado os ponteiros da nossa relação mal resolvida, eu e Abe sentamos para conversar e concordamos que precisávamos agir em conjunto. Então eu lhe contei sobre a minha teoria de que Emily estava mentindo sobre o relacionamento dela com Eric para proteger a identidade de Jill. Abe estava se perguntando como ainda não havia considerado essa idéia quando eu o bombardeei com a notícia de que havia ido até o quarto de Jill para contar a ela o que sabíamos. Antes que Abe simplesmente tivesse um AVC na minha frente eu expliquei meus motivos e alguns deles eram óbvios, como o fato de estarmos correndo contra o tempo. Mas Abe também precisava ouvir que talvez a única forma de descobrirmos a verdade seria se Jill questionasse sua mãe e por isso ela precisava saber da nossa versão da história. Além disso, com o rumo que a conversa teve, eu nem sei se havia conseguido convencê-la a fazer o que pedi, pois Jill ficou uma fera ao me ver acusar sua mãe de estar mentindo. Ao mesmo tempo, a minha esperança era que essa reação servisse como combustível para que ela confrontasse Emily.

Abe se mostrou preocupado quanto à segurança dessas informações, pois como não sabemos quem está envolvido com a sujeira do conselho real, elas poderiam muito bem cair nos ouvidos das pessoas erradas, e se isso acontecesse, as conseqüências não seriam nada boas, pois os culpados certamente iriam atrás da fonte dessa informação e não parariam até encontrá-la e eliminá-la.

Eu tentei tranqüilizar Abe afirmando que enquanto Jill não questionasse sua mãe, ou até mesmo se questionasse, ela não sairia espalhando fofocas sobre golpe nenhum, muito menos sobre a possibilidade ou o fato de ela ser a irmã de Lissa, pois além de atrair muita atenção para ela, algo que eu sei que não faz o estilo de Jill, ela teria dificuldade em fazer as pessoas acreditarem que eu fui a fonte dessas informações, já que eu ainda não havia saído de dentro do armário, ou melhor, do caixão. E se ela dissesse que isso veio da boca de qualquer outra pessoa ligada a mim, Jill teria que envolver pessoas que ela preza demais, algo que ela não teria coragem para fazer, então a princípio nós estávamos seguros. Se havia risco do tiro sair pela culatra? Certamente, mas era um preço a ser pago.

Abe decidiu confiar em mim, até mesmo porque em um dia haveria uma assembléia para a escolha do novo governante e nós precisávamos impedir ou pelo menos adiar esse evento. Eu não pude deixar de pensar que um ataque de Strigois seria muito conveniente numa hora dessas, se eles se limitassem a matar apenas quem estivesse por trás daquele maldito golpe. Mas como eles poderiam saber, não é mesmo? Nem nós sabíamos!

Meu devaneio foi interrompido por uma frenética batida na porta. O som normalmente não me incomodaria, mas hoje eu havia acordado com uma dor de cabeça intensa e constante, logo aquele barulho retumbou em cada terminação nervosa do meu cérebro.

“Sou eu”, Dimitri disse do outro lado, sabendo que eu não abriria a porta só por ouvir uma batida. Eu lentamente me levantei e o deixei entrar. O olhar preocupado de Dimitri não era nada inspirador. “Coloque aquela peruca na sua cabeça e vamos sair daqui. Esse lugar não é mais seguro”.

“Desculpa, mas como é que é?”, eu perguntei, pois não entendi nada do que ele havia dito depois de “peruca”.

“Eugene está desembarcando de um avião agora mesmo, aqui no pátio da escola, para uma reunião relâmpago com Kirova e Alberta e, considerando a autoridade que aquele homem tem agora, ele pode circular por qualquer parte da escola sem autorização de ninguém, o que significa que se ele inventar de visitar as instalações de St. Vladimir, ninguém poderá impedi-lo. Então por favor pegue aquela maldita peruca e coloque na sua cabeça para sairmos daqui, pois só há um lugar onde você poderá ficar segura, pois Lazar não sabe que ele existe, e é para lá que estamos indo”. Eu tentei colocar a peruca rapidamente, mas ela parecia fazer minha cabeça latejar ainda mais e por isso deixei escapar um palavrão.

“Algum problema?”, Dimitri perguntou, constatando meu incômodo.

“Minha cabeça. Eu acordei com essa dor que nunca vai embora. Eu já estou sentindo meu humor ficar arruinado por causa disso! Você tem certeza de que a peruca é realmente necessária? Porque eu ainda tenho essas pulseiras e a correntinha no pescoço”, eu tentei barganhar.

“Deixa pra lá. Nós precisamos sair daqui e ir para o observatório da sala da diretora Kirova. Agora!”.

“Você está louco? Onde você pensa que será a reunião dos três?”, eu perguntei massageando a região das têmporas na tentativa de aliviar a pressão.

“É por isso que eu estou com um pouco de pressa, se você não percebeu. Nós precisamos chegar lá antes deles”. E então Dimitri me arrastou para fora do quarto, mas nos primeiros dez passos eu tive que parar.

“Não dá, Dimitri. Não dá”, eu disse choramingando. Minha vontade era de realmente chorar. Eu apenas segurei a onda pois isso só pioraria a situação. Dimitri não pensou duas vezes antes de me erguer em seus braços. Apoiando a cabeça no ombro de Dimitri com todo o cuidado, eu envolvi os braços ao redor do pescoço dele e deixei que ele me carregasse até a sala de Kirova. A sensação que eu tinha era de que Dimitri estava circulando com alguma mercadoria ilegal que não pudesse ser descoberta, tamanha era a cautela dele. Bem, tratava-se de Dimitri, afinal de contas, o que mais eu poderia esperar?

Durante o caminho uma única pergunta não saiu da minha cabeça. O que Eugene Lazar fazia na escola a quase dois dias da assembléia que elegeria nosso próximo governante?  Bom, já que eu estaria escondida no local onde aconteceria a misteriosa reunião, acho que teria minha pergunta respondida. Isso se eu conseguisse prestar alguma atenção à conversa.

Chegando lá Dimitri me colocou no chão e, quando acionou o dispositivo do espelho, ouvimos vozes vindas do corredor.

“Droga”, Dimitri resmungou ao entrar junto comigo na sala que o espelho havia revelado, acionando o botão que havia ali dentro para que o espelho voltasse ao seu lugar original. Segundos depois de estarmos presos na sala de observação, Alberta, Kirova e Eugene entraram e fecharam as portas do escritório para uma reunião aparentemente privada.

“O que o traz aqui na véspera da assembléia mais importante dos últimos tempos, senhor Lazar?”, Kirova perguntou ao sentar atrás de sua mesa. Pelo visto a dúvida não era apenas minha.

“Os Strigois atacaram novamente há dois dias”. Eu e Dimitri nos olhamos surpresos, pois nenhum de nós ouvimos falar sobre esse ataque. Eugene continuou. “Nós não divulgamos essa informação nem para a corte para não gerar pânico na véspera da eleição. Mas eu imaginei que vocês em particular deveriam ser avisados”.

“Em particular? O que nos torna tão especiais?”, Alberta questionou, desconfiada. Lazar respirou fundo.

“Porque como prometido, haveria um segundo bilhete, indicando onde seria o local do terceiro ataque e…”. Eugene não precisou completar a sua frase para que todos entendessem o recado, principalmente eu, instantaneamente compreendendo que minha cabeça não estava explodindo por causa de nenhuma enxaqueca forte ou coisa do gênero. Se minha cabeça estava doendo desse jeito provavelmente era porque a proteção ao redor da escola estava sendo destruída para tornar possível esse terceiro ataque. Isso já havia acontecido antes, como eu não percebi os sinais?

Kirova levou uma mão a cabeça, parecendo preocupada. “Senhor Lazar, os alunos estão começando a retornar para St. Vladimir mais cedo exatamente porque os pais estão achando que aqui eles ficariam seguros! Como essa informação não chegou aqui antes?”, ela exclamou quase gritando, para o meu pesadelo. A essa altura eu já estava com as mãos ao redor dos ouvidos na intenção de poupá-los da voz estridente de Kirova. Se eu pudesse ao menos me concentrar um pouco…

Alberta colocou a mão sobre o ombro de Kirova numa tentativa de acalmá-la.

“Será amanhã, não é mesmo? O ataque”. As palavras de Alberta soaram quase como uma afirmação, apesar de eu compreender que ela havia feito uma pergunta.

“Você já sabia?”, Eugene parecia surpreso.

“Tragédias nunca acontecem isoladamente, senhor Lazar. A eleição de um governante estar acontecendo logo após um trágico assassinato mal investigado e no mesmo dia de um ataque premeditado de Strigois a St. Vladimir, parece a combinação perfeita para mim. O senhor não concorda?”.

“Concordo que é a fórmula perfeita para uma tragédia, mas não com o que a senhora chamou de assassinato mal investigado. Permita-me discordar Guardiã Alberta, mas todas as provas apontaram para uma única pessoa e ela foi executada alguns dias atrás. A justiça foi feita e tudo aconteceu como tinha que acontecer”.

“Eu trabalhei por mais de 15 anos no conselho internacional de guardas reais, Sr. Lazar e se eu aprendi alguma coisa durante esse tempo foi que as aparências enganam. Eu sei quando uma investigação deixa a desejar”.

“Então por que razão seus ex-colegas não apontaram os erros dessa investigação?”, Eugene a desafiou. Alberta apenas sorriu.

“Porque eles ainda estão cegos, infelizmente. Espero que não por muito tempo”, ela respondeu. ”Mas voltemos ao assunto que lhe trouxe aqui, afinal Strigois sempre são mais importantes”.

Eugene estudou Alberta por alguns segundos, mas não continuou a discussão. Ao invés disso ele tirou de dentro do bolso da calça duas folhas de papel presas com um grampo e entregou a Kirova.

“Vejo vocês daqui a quatro dias, assim que a noite chegar”, Kirova começou a ler em voz alta. “Não haverá misericórdia, mas se os guardiões Tanner e Belikov estiverem presentes e dispostos a aceitarem seus destinos, o saldo de mortos pode ser bem menor, pois não vamos parar até que Dimitri esteja morto e eu tenha Mikhail em mãos e devidamente embalado para viagem. Então não se preocupem com formalidades. Nós não ficaremos para o jantar. Ps: em algum lugar aí dentro está o papel com o local escolhido para a batalha final. Ele pode estar meio danificado, mas eu tenho certeza de que vocês decifrarão a mensagem a tempo. Com amor, Sonya Karp”.

“Bem, isso explica porque você trouxe Mikhail Tanner com você, mas há uma coisa que eu não entendi”, disse Kirova. “Onde está escrito que St. Vladimir será o local do ataque?”. Eugene fez um sinal com as mãos para Kirova virar a página. Na segunda folha estavam colados, lado a lado, pequenos pedacinhos de papéis amassados, formando o que um dia foi um bilhete. Um quebra cabeça de no mínimo 100 minúsculas peças. As partes pareciam se encaixar como um quebra-cabeça formando o nome do lugar que eu considero quase como um lar: St. Vladimir.

“Apenas por curiosidade, senhor Lazar, dentro de onde estava isso?”. Quem perguntou dessa vez foi Alberta, que parecia ter esquecido a pequena discussão que tivera com Eugene anteriormente.

“Dentro de um saco plástico… que foi encontrado dentro da garganta do corpo sobre o qual foi encontrada a primeira parte do bilhete. Nós precisamos literalmente abrir aquele Moroi dos pés a cabeça para saber o que estávamos, de fato, procurando. Quando achamos o pacote plástico imaginamos que a brincadeira havia acabado, mas não. Era apenas o começo. Aquela filha da mãe fez o favor de cortar essa tira de papel em 150 micro pedaços. A senhora queria saber o motivo de termos demorado tanto tempo para avisar a escola, não é mesmo, Kirova? Bom, é esse o motivo. Estávamos tentando decifrar a mensagem”.

Com muito esforço eu havia conseguido controlar consideravelmente minha dor de cabeça, até porque essas novas informações acabaram fazendo com que eu temporariamente a esquecesse e, de repente, tudo fez sentido. Por isso os dois ataques anteriores. A Sra. Karp queria desviar a atenção de onde a coisa realmente ia acontecer e com isso conseguiu tornar a tragédia ainda maior, pois com as ameaças de ataque, os pais entraram em pânico e começaram a mandar seus filhos de volta para a escola, imaginando que aqui seria o local mais seguro para eles. Ninguém jamais poderia imaginar que St. Vladimir seria alvo de ataques novamente, afinal que ladrão rouba a mesma loja duas vezes, não é mesmo? Mas como a professora que um dia foi, a Sra. Karp sabia como as coisas funcionavam e tudo o que ela precisou fazer foi evitar que nós soubéssemos o local do confronto final antes que eles estivessem prontos para atacar. E eles estavam prontos. Minha cabeça estar quase explodindo era a prova disso.

No entanto ela precisava revelar o local do ataque com um mínimo de antecedência, até mesmo para que Dimitri e Mikhail estivessem presentes como ela solicitara. Assim também não haveria muito o que pudéssemos fazer para evitar o confronto. Talvez conseguíssemos recrutar alguns guardiões habilidosos e usuários do elemento fogo que estivessem dispostos a lutar ao nosso lado mas, fora isso eu não via o que mais poderíamos fazer.

Eu levantei da cadeira e comecei a andar ao redor da sala, sentindo os olhos de Dimitri em mim. Meu coração batia aceleradamente, pois o pensamento de que havia um exército de Strigois querendo a cabeça dele me deixava nervosa. A única forma de evitar uma tragédia seria acabar com eles primeiro, mas como fazer isso quando o número de Dhampirs, que já é reduzido, seria menor ainda graças à eleição do conselho real, que aconteceria no mesmo dia? O bilhete dizia que assim que Dimitri fosse morto e Mikhail capturado, o ataque cessaria. Mas quem seria idiota de acreditar nas palavras de um Strigoi?

“Você está me deixando nervoso”, Dimitri disse ao me segurar pelo braço para que eu parasse de andar em círculos pela sala. “Dá pra sossegar um instante?”. Dimitri não se preocupou em baixar sua voz, levando-me à conclusão de que a sala tinha isolamento acústico. Eu respirei fundo, sem falar nada, estalando o pescoço ao jogar a cabeça para os lados com cuidado, na tentativa de relaxar.

“Diretora Kirova? Podemos falar a sós por um momento, por favor?”, Alberta perguntou. Kirova hesitou, mas pediu licença e acompanhou Alberta até o lado de fora do escritório, anunciando que em 10 min estaria de volta. Eugene ficou sentado na cadeira, pensativo e, ao mesmo tempo, preocupado.

“Eu não confio nesse cara”, Dimitri refletiu em voz alta, analisando cada gesto do Moroi que estava do outro lado do espelho.

“Merda!”, eu exclamei, ignorando totalmente as palavras de Dimitri, apesar de concordar com ele. Meu celular havia vibrado, alertando a chegada de uma mensagem de Adrian.

“O que houve?”.

“Jill e Emily foram embora”, eu balbuciei ao sentar novamente na cadeira, como se tivesse sido nocauteada com uma bola de boliche. Alberta tinha razão. Desgraças dificilmente acontecem de maneira isolada.

“E por que você está achando ruim? É melhor que elas tenham saído antes que isso aqui vire um campo de guerra”.

“É, pelo menos isso”, eu me limitei a responder, sem ânimo para explicar que eu havia contado tudo a Jill na esperança de que ela pudesse arrancar a verdade de Emily e pelo visto, agora não havia porque ter esperança.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 29

mos se a denúncia era quente, então mandamos alguns de nossos guardas investigarem antes de chamarmos os alquimistas sem necessidade. Quando recebemos a segunda ligação denunciando outro ataque, você acha que esperaríamos amanhecer para seus alquimistas se deslocarem até o local do crime com segurança para investigá-lo, sabendo que lá havia um bilhete revelando o local do terceiro ataque? Nós não podíamos perder tempo, Sr.

Antes do esperado Kirova e Alberta retornaram, porém elas não estavam sozinhas.

“Abe?”, eu quase engasguei ao vê-lo entrar com as duas. “O que você está fazendo aqui? Você deveria estar no Alaska!”, eu falei como se ele pudesse me ouvir.

“Eugene Lazar! Eu estou surpreso de vê-lo por aqui”, Abe disse com um veneno na sua voz, denunciando que a sua surpresa era apenas da boca para fora, afinal ele não é o tipo de homem que se surpreende com facilidade. Lazar, por sua vez, deu um pulo da cadeira ao ouvir quem havia lhe dirigido a palavra, aproveitando para levantar-se e disfarçar o susto. Nesse momento Alberta e Kirova, saíram novamente, deixando os dois homens a sós, ou melhor, pensando que estavam a sós, pois nenhum deles a princípio sabia que estavam sendo observados por duas pessoas atrás do espelho.

“Ibrahim Mazur!”, Eugene disse ao estender a mão para cumprimentá-lo. “Eu não esperava vê-lo por aqui tão cedo. Não depois de…. você sabe”. Minha morte, eu pensei.

“Trabalhar mantém minha cabeça ocupada. A vida continua, não é mesmo?”, Abe disse. Eugene concordou, meio sem graça. “Aliás, é exatamente trabalho o que me traz aqui, Lazar”. O tom de voz de Abe parece ter sofrido uma leve alteração e, de uma hora para outra ele não estava mais se esforçando para parecer amigável. “Eu estou cansado de ser o último a saber das coisas, meu caro. Eu espero que você tenha uma boa explicação para eu não ter sido informado desses ataques de Strigois em primeira mão. Você conhece o protocolo”. Eugene parecia estar esperando por isso e começou sua argumentação.

“Nós recebemos ligações avisando que os ataques haviam ocorrido. Na primeira vez que aconteceu nós não sabía

Mazur! Se tivéssemos esperado pelos alquimistas seria tarde demais”. Talvez Eugene tivesse razão, mas não de acordo com Abe.

“Eu estou pouco me lixando para quem chegou lá primeiro. O que você quer? Uma medalha de honra? Eu posso lhe conseguir uma se você quiser parecer importante. Mas isso não exclui o fato de que você tinha a obrigação de reportar a mim o corrido. Custaria apenas uma ligação e você não perderia mais do que cinco minutos”.

“Sr. Mazur, você não acha que está exagerando? Talvez seja melhor você se acalmar um pouco e pensar em tirar umas férias. Você acabou de perder sua filha exatamente por ela não saber controlar aquele comportamento que, agora está claro, ela herdou de você”. Abe lançou um olhar tão enfurecido para Eugene que eu cheguei a dar um passo para trás de onde estava.

“Não ouse a falar do comportamento da minha filha”. Abe vociferou. Eugene parecia estar gostando de levar Abe aos extremos.

“Dói, não é mesmo? Pelo menos agora você sabe exatamente o que é perder um filho”. Eu parei de respirar naquele mesmo instante e pela expressão de Abe, ele deveria estar tendo a mesma reação que eu.

“Malditas sejam as aberrações que você chama de filhos, Lazar! Pelo menos você ainda tem eles”. A expressão de Eugene também começou a mudar, indicando que Abe não era mais o único a ser levado aos extremos.

“Aberrações? Se eles são aberrações hoje é porque a sua filha foi responsável por isso. Olho por olho, dente por dente, Sr. Mazur. Ela teve o fim que mereceu”.

“Seu filho da puta, desgraçado. Eu vou matar você!”, eu gritei. Dimitri me segurou antes que eu esmurrasse o espelho. Abe fechou suas mãos com força no intuito de controlar sua raiva.

“Por acaso você acabou de admitir que foi responsável por Rose ser condenada a morte e que você fez isso somente para se vingar dela?”. Eugene apenas ergueu suas sobrancelhas, feliz por alguém ter finalmente descoberto sua pequena façanha. Acho que ele estava cansado de manter a informação para si, pois antes de responder ele pensou um pouco e olhou ao redor.

“Aqui entre nós eu posso lhe confessar, afinal se isso sair dessa sala será a sua palavra contra a minha. Então sim, eu fiz isso”. Eu precisei sentar novamente na cadeira. “Eu não poderia perder a oportunidade que havia batido na minha porta. Foi como receber um sinal divino”.

“Você consegue ouvir o que está dizendo? Você não está sendo coerente”, Abe pontuou. Eugene ignorou Abe e seguiu com sua explicação.

“Logo depois que a princesa Vasilisa foi resgatada e a notícia de que ela havia transformado Dimitri Belikov novamente em um Dhampir se espalhou, eu recebi um estranho telefonema de Mikhail Tanner”. Mas que diabos? “Ele me disse que era possível trazer um Strigoi de volta a sua origem se um usuário do elemento espírito cravasse uma estaca de prata enfeitiçada com esse elemento no coração daquela pessoa e contou que Rose havia comentado com ele que apenas conhecia mais dois usuários desse raro elemento: Adrian Ivashkov e Avery, mas como ele não ousaria pedir isso para o sobrinho da rainha, ele optou por pedir ajuda da minha filha para, por ironia do destino, trazer Sonya Karp de volta”. Eugene deu uma pequena risada, mas Abe manteve-se quieto. Quanto mais Eugene falasse, melhor. E ele falou. “Eu estava prestes a atualizá-lo da atual condição de Avery quando ele me interrompeu dizendo que até já tinha pegado a estaca que foi enfeitiçada por Lissa do quarto de Rose”. Diante da colocação de Eugene, Abe se obrigou a fazer uma pergunta e graças a Deus ele teve tino para isso.

“Desculpa interromper, Lazar, mas ele comentou onde achou essa estaca?“.

“Sim, afinal quando eu decidi que essa era a situação perfeita para me vingar de Rose, eu precisava ter certeza de que a estaca era dela. Então ele me garantiu que havia pegado o tal objeto de dentro da gaveta do criado-mudo do quarto de Rose, no dia seguinte ao resgate de Lissa, pois por algum motivo ele foi procurá-la no quarto dela mas não a encontrou. Ele disse que estava quase saindo quando viu a gaveta aberta com uma estaca dentro”. A verdade acertou a todos, com exceção de Eugene, é claro, como um tapa na cara, porque a estaca que estava no meu criado-mudo não era a enfeitiçada por Lissa e sim a que fora encontrada no peito de Tatiana.

Fazia sentido. Eu estava tão transtornada ao acordar que simplesmente tomei um banho de cinco minutos, vesti a primeira roupa que vi pela frente e saí do quarto. Eu encontrei com Mikhail no caminho, conversei com ele, inclusive. Mas até então ele me pareceu normal. Então eu fui até o prédio onde estava Dimitri, não consegui entrar e por isso procurei Lissa. Depois de muito tempo espiando a mente dela eu voltei frustrada para meu quarto, Adrian apareceu lá logo em seguida, me convidando para aquela cerimônia de homenagem aos mortos e…

“Só pode ter sido isso!”, eu exclamei em voz alta.

“Isso o que?”, Dimitri questionou sem entender nada.

“No dia que eu consegui entrar na prisão junto com Mikhail para visitar você, eu havia recém sido convidada a me retirar de uma festa de homenagem aos mortos que a elite Moroi havia organizado. Eu usei uma máscara e Adrian conseguiu que eu entrasse sem maiores problemas, enfim, mas quando me descobriram eu precisei sair e foi quando eu dei de cara com Mikhail. Ele estava nervoso e desconfiado, dizendo que estava atrás de mim e que havia ido até o meu prédio tentando me achar. Então ele revelou que poderia dar um jeito para que eu visitasse você na prisão, o que justificava ele estar nervoso, afinal estaríamos burlando regras, mas talvez para ele houvesse outro motivo para estar assim. Nunca me ocorreu que poderia ser mais do que isso, mas se ele foi até meu prédio, ele pode muito bem ter ido até meu quarto e pego aquela estaca, conforme Eugene contou”, eu disse com a certeza de que Mikhail pode até ter feito aquilo, mas não havia sido algo que estava nos planos dele. Eu conhecia Mikhail o suficiente para saber que ele tinha um bom coração. Tão bom, na verdade, que foi por causa dele que Mikhail acabou cometendo esse erro. Desde o começo ele viveu a minha experiência de ter Dimitri de volta como sendo a dele também, mas ao ver a estaca que ele pensou ser a enfeitiçada dando sopa, o objeto chave para a transformação da Sra. Karp, ele apenas não deve ter resistido à tentação de poder viver a própria experiência de ter o amor da sua vida mais uma vez. Eu não posso culpá-lo por isso, não quando eu mesma fui protagonista de missões insanas em nome do meu amor por Dimitri.

“Isso não está fazendo sentido! A estaca da sua gaveta não era a enfeitiçada”, Dimitri pontuou corretamente.

“Eu sei, mas Mikhail não tinha como saber disso. Quando ele chegou no meu quarto e viu que eu não estava lá mas aquela estaca estava, Mikhail deve ter deduzido que aquela deveria ser a que foi enfeitiçada, afinal um Dhampir sempre carrega consigo sua ferramenta de trabalho. Naquele dia, porém, eu estava uma pilha de nervos e sai do meu quarto assim que pude para ter notícias suas e de Lissa, sem nem me lembrar que eu tinha uma estaca para carregar. Aliás, eu só vi que ela havia desaparecido quando foi apresentada como prova do crime”.

E nesse momento Abe deixou de lado qualquer tentativa de parecer tranqüilo. “Você está dizendo que Mikhail assassinou a rainha?”, Abe perguntou, incrédulo e um pouco exaltado, para o deleite de Eugene.

“Bem, se você questioná-lo ele negará até a morte. Mas não porque ele tenha medo de admitir. Ele apenas não sabe o que fez”. Ou seja, ele usou compulsão sobre Mikhail para que ele assassinasse a rainha e não lembrasse do que aconteceu depois, certamente  tendo instruído ele para usar luvas, ou eu não seria facilmente incriminada. Afinal somente minhas digitais foram encontradas lá, pelo menos foi o que disseram. Devia ser verdade, pois Mikhail não seria burro de furtar uma estaca sem se preocupar com um detalhe desses.

Abe estava inconformado e por isso foi pego de surpresa quando Eugene, sorrindo, o olhou com intensidade nos olhos. Abe percebeu as intenções de Eugene, mas não a tempo de conseguir evitar que aquela conversa fosse apagada da memória dele.

“Não!”, eu gritei admitindo apenas para eu mesma que Eugene havia sido esperto ao usar compulsão sobre meu pai, muito esperto, afinal por mais que eu e Dimitri tivéssemos presenciado a conversa, eu ainda estava morta perante os olhos do mundo, não podendo, assim, provar que algo foi dito e com a memória de Abe apagada, seria a palavra de Eugene contra a de Dimitri, que ainda teria que admitir estar escondido na sala de observação. Então, se em algum momento nós tivemos uma confissão, agora tudo havia ido para o espaço.

Eu estava assistindo a confusão de Abe, que estava visivelmente incomodado, como se quisesse pular em cima Eugene e espancá-lo até a morte, o que ele não poderia fazer, lógico, ou ele se transformaria em um Strigoi, algo do que não precisávamos agora. Ele sabia que Eugene havia usado compulsão sobre ele, pois conhecia muito bem os efeitos desse poder, mas obviamente não sabia o que havia esquecido. Não ter esperado isso de alguém como Eugene e ter sido vítima desse erro, parecia estar sendo insuportável para ele. Então Abe mandou Eugene sair, deu um soco com força na mesa e discou para alguém usando o celular.

“Preparem meu avião. Eu estou partindo. Agora.”, ele disse antes de sair batendo a porta de entrada do escritório.

Então eu ouvi a risada de Dimitri

“Nós acabamos de perdemos a chance de virar o jogo! O que você vê de engraçado nisso?”, eu perguntei, irritada.

“Cuidado com o jeito que você fala comigo, garota”, ele alertou. “Você ainda vai se arrepender e querer me compensar por isso”.

“O que há com você? Ficou muito tempo fechado aqui dentro e o cérebro está ficando sem oxigênio ou você decidiu apenas agir como um idiota mesmo? Porque eu não vejo como essa situação possa parecer engraçada!”.

“Ok, já que você foi educada, eu explicarei”. Eu revirei os olhos, ainda não acostumada com as recentes manifestações irônicas de Dimitri. “Toda a conversa que eles tiveram do outro lado foi gravada assim que eu apertei esse botão aqui”, ele disse apontando para um painel próximo de onde ele estava. “Então basicamente nós usamos um sistema criado para investigar os alunos, justamente contra o atual coordenador do nosso sistema educacional. Se você não acha a ironia disso no mínimo engraçada, você não tem moral para dizer que eu não tenho senso de humor”. Eu sorri e dei dois passos em direção a ele como se isso fosse me fazer ouvir melhor.

“Você gravou essa conversa?”, eu perguntei sem conseguir tirar o sorriso do rosto e usando um tom de voz mais suave.

“Cada palavra que foi dita”, Dimitri respondeu, orgulhoso. Então eu comecei a rir.

“Você estava certo, camarada”, eu admiti.

“Sobre a ironia disso ser engraçada?”.

“Não. Você estava certo quanto a eu me arrepender por ter falado com você daquele jeito e querer recompensá-lo por isso”, eu disse aproximando nossa distância rapidamente e beijando-o assim que trouxe a cabeça dele em direção a minha e senti ao mesmo tempo, seus braços envolverem minha cintura.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 30

Eu não pensei antes de agir e simplesmente apoiei minha mãos no peito de Dimitri para empurrá-lo para trás, onde havia uma mesa. O que eu estava fazendo não tinha nada a ver com me sentir culpada por ter sido mal educada com ele. Eu me joguei nos braços de Dimitri apenas porque aquilo parecia o certo a fazer. O dia seguinte seria definitivo em nossas vidas independente de como as coisas terminassem, pois qualquer resultado implicaria em uma série de mudanças com as quais eu não queria me preocupar agora. Dimitri pareceu surpreso com o meu repentino ataque, mas ele não me interrompeu em momento algum.

Assim que nossos lábios se tocaram, literalmente pegamos fogo. Era como se tivéssemos liberado todo aquele sentimento que por um bom tempo ficamos tentando acreditar que não tínhamos um pelo outro. Sentimentos que faziam meu coração doer cada vez que a boca de Dimitri procurava pela minha. Doía pois cada beijo mexia nas feridas que a rejeição de Dimitri deixou em mim assim que voltou a ser um Dhampir. Feridas tão profundas que me levaram a beira de acreditar que eu o havia perdido para sempre e que o amor que um dia ele declarou ter por mim havia acabado.

Eu não queria me iludir pensando que o que estava acontecendo era apenas uma reação instantânea de duas pessoas que precisavam liberar suas tensões de alguma forma. O que eu queria era me sentir desejada, importante e ter a certeza de que se estávamos nos deixando levar era apenas porque nós dois queríamos isso. Então sempre que podia eu interrompia os beijos para recuperar o fôlego e conforme aqueles lábios vinham ao encontro dos meus como que por livre e espontânea vontade, a dor começou a desaparecer. Porém, no instante seguinte eu congelei, pois Dimitri interrompeu o beijo e segurou meu rosto entre suas mãos. Eu sei que é ridículo, mas meu medo era de que se eu abrisse os olhos, ouviria ele dizer que o que estávamos fazendo não era certo ou que não era a hora para isso, essas coisas sensatas que Dimitri sempre consegue dizer mesmo em situações como a de agora. Então não, eu não abri os olhos e fiquei apenas ouvindo minha respiração ofegante entre as mãos dele. Ele selou nossos lábios mais uma vez e então quebrou seu silêncio.

“Eu sinto muito, Roza. Por tudo, eu realmente sinto muito…”. Dimitri respirou fundo e eu abri meus olhos, pois a dor na voz dele parecia ter me atravessado como uma lança em chamas. Então lembrei de quando Dimitri disse a Lissa que não queria me receber na prisão pois me ver doeria demais e entendi que eu não era a única curando feridas do passado. Os olhos de Dimitri me diziam isso, além de parecerem implorar por algo mais. Minhas mãos sobrepuseram-se às dele.

“Se você precisa do meu perdão pelas coisas que você fez quando era um Strigoi, eu perdôo você, Dimitri. Eu o perdoaria quantas vezes fosse necessário, você não entende? Não importa o que você pensava de mim, o que fazia comigo, pois o que doeu mesmo foi ouvir você dizer que não me amava mais, aquele dia na igreja. Mas por favor, não se sinta mal por isso pois agora eu entendo que você estava apenas se protegendo da sua própria dor”, eu lhe disse ao virar a cabeça para o lado e beijar a palma de uma das mãos de Dimitri que adornavam meu rosto.

“Nós somos tão estúpidos”, ele disse quase sussurrando ao acariciar minha bochecha. “Nós apenas nos machucamos e machucamos um ao outro na tentativa de não sofrer mais. Isso soa tão estúpido, Rose, tão, mas tão estúpido…”. Dimitri parou de falar e voltou a me beijar com intensidade e me abraçando com força. Ele estava encostado na mesa contra a qual eu o havia empurrado, então ele afastou as pernas para que eu ficasse entre elas enquanto nossos lábios se tornavam os protagonistas de beijos agora vorazes, fazendo com que Dimitri me segurasse pela nuca com uma sensualidade quase bruta, entrelaçando seus dedos entre meus cabelos, tudo para manter o mínimo de espaço entre nós.

Minhas mãos desceram automaticamente até a calça dele, desabotoando o botão frontal e deslizando o zíper para baixo, até que estivesse completamente aberto. Minhas mãos contornaram o cós da calça até chegarem nas costas de Dimitri e meus dedos então deslizaram para dentro da calça, fazendo com que a mesma abaixasse à medida que minhas mãos desciam sem jamais perderem contato com a parte do corpo que elas agora não só tocavam, mas apertavam com força. Dimitri afastou-se levemente da mesa para que eu continuasse a me livrar daquela calça e para isso projetou a pelve levemente para frente. Como reflexo eu instintivamente enterrei minhas unhas nos glúteos de Dimitri.

Foi a vez dele estremecer e me dar uma resposta, passando as mãos por baixo da minha blusa, subindo pelas costas de forma lenta e suave e descendo pelo contorno da minha silhueta. Assim que seus polegares passaram de raspão pelos meus seios eu segurei brevemente os lábios de Dimitri entre meus dentes devido a onda de calor que percorreu meu corpo, o que ele deve ter entendido com um sinal para dar um pouco mais de atenção à região, pois meus seios voltaram a ser acariciados por aqueles polegares, me obrigando a inesperadamente respirar fundo pelo nariz, já que nossos lábios e línguas ainda duelavam entre si. Num piscar de olhos minha blusa estava no chão junto com a calça de Dimitri e o mesmo aconteceu com o resto de nossas roupas até que não havia mais tecidos entre nós.  Era corpo contra corpo, eu explorando cada músculo do corpo de Dimitri, enquanto ele contornava cada curva do meu e, a cada toque, a cada gesto, a cada mudança no ritmo de nossa respiração eu sentia o quanto eu queria ainda mais.

Eu não sei como aconteceu, mas eu acabei empurrando Dimitri para cima da mesa e subindo em seguida, com a ajuda dele. Dimitri se posicionou sentado sobre a superfície de madeira com os joelhos flexionados na extremidade da mesma e assim que eu subi, ele me segurou pelo quadril, colocando-me sentada sobre ele, com as pernas afastadas uma para cada lado. Nossos corpos se encaixaram perfeitamente, mas Dimitri ainda mantinha as mãos na lateral do meu quadril, me puxando contra ele enquanto beijava meu pescoço. A essa altura era necessário respirar pela boca para suprir a falta de fôlego que tomava conta de mim então era inevitável que alguns gemidos de prazer escapassem ocasionalmente. Os lábios de Dimitri percorriam meu pescoço e causavam arrepios a ponto de fazer meu corpo estremecer, mas isso não o intimidava, muito pelo contrário. Era como um incentivo para que ele continuasse a testar meus limites. Em seguida eu assumi controle dos meus movimentos, sentindo a necessidade de acelerá-los mais e mais, aplicando mais força e pressão cada vez que me movia sobre ele, de frente pra trás, de cima para baixo e vice-versa, com meus braços sobre os ombros dele para me impulsionar com mais facilidade. Mas parecia que ainda assim não era o suficiente, pois quando vi minhas pernas abraçaram Dimitri pela cintura enquanto meus braços fizeram o mesmo ao redor do pescoço dele. Considerando que eu não conseguia pensar em mais nada, só me restou crer que meu corpo havia criado vida própria, agindo como se soubesse o que era bom para ele. E ele sabia, pois mais alguns movimentos de ambas as partes nessa posição foi o suficiente para que sucumbíssemos ao prazer e a fadiga de nossos corpos.

Eu ainda estava aprendendo o que mais me deixava excitada quando o assunto era sexo, mas posso dizer que ouvir Dimitri deixar escapar um último gemido que mais parecia um breve urro, sufocado contra o meu pescoço, foi tão maravilhoso que eu faria tudo de novo apenas para ouvi-lo mais uma vez. Eu me senti poderosa, porque bem ou mal eu havia feito Dimitri perder o controle sobre sua razão e foi simplesmente incrível. Aquilo me fez sorrir e relaxar nos braços dele, que agora envolviam meu corpo e o acariciavam com a suavidade e delicadeza de um algodão.

Nós ficamos ali por alguns segundos, no mesmo lugar, juntinhos e somente ao som de nossos corações acelerados até que Dimitri murmurou algo.

“Ya lyublyu tebya, Roza, Ya lyublyu tebya”, foi o que eu ouvi, apesar de não saber se foi o que ele realmente disse. Pelo sotaque eu sabia que era Russo, mas se ele disse agora que essa havia sido a pior transa da vida dele, eu não teria como saber.

“Tradução, por favor”. Dimitri riu baixinho.

“Desculpa, eu não estava pensando. Eu disse eu amo você, Rose, eu amo você”. Eu não consegui segurar o sorriso, tamanha era minha felicidade. Eu queria repetir as palavras dele mas era impossível pronunciar aquilo tendo ouvido apenas duas vezes e ainda pensando que estava sendo ofendida.

“O mesmo para você, Belikov, o mesmo para você”. Era o melhor que eu podia fazer considerando que meu cérebro ainda estava nas nuvens com o que havia acontecido entre nós. Dimitri riu novamente, parecendo entender a minha situação.

Então ele me deu aquele olhar.

“Ah, não”, eu resmunguei, com o humor de uma criança de cinco anos ao ser contrariada, quando ele me abraçou forte e me soltou em seguida. Era como se eu soubesse o que viria a seguir.

“Rose,nós precisamos ir e organizar um plano para matar Strigois”. Justamente o que eu pensei.

“É quase inacreditável, sabia? Eu acabei de decidir que você vai ter o seu próprio livro, ao lado de Abe e Victor. Como sempre, eu já tenho até um nome para sua obra: Frases sensatas para horas inoportunas, por Dimitri Belikov”, eu disse com uma mistura de ironia e frustração. Dimitri caiu na gargalhada, mas isso não o impediu de sair de cima da mesa comigo nos braços, colocando-me em pé ao seu lado e alcançando minhas roupas e vestindo-se também. Então ele foi até o painel, apertou um outro botão e um pequeno cd apareceu de um compartimento que eu não havia percebido que existia. Nós ouvimos a parte final da conversa de Abe com Eugene para nos certificarmos de que a gravação estava correta e ainda nos preocupamos em fazer uma cópia do material. Quando Dimitri segurou minha mão para irmos embora eu não consegui sair do lugar, pois meu coração apertou ao ter aquela estranha sensação de que isso já havia acontecido. E de certa forma havia. Eu e Dimitri trancados dentro de uma pequena cabana de madeira nos entregando aos nossos desejos e saindo de lá  com as mãos dadas quando nos obrigamos a voltar para a escola. Então um ataque inesperado de Strigois a St. Vladimir aconteceu, seguido de uma batalha com grandes conseqüências e perdas inestimáveis. Por fim a morte de Dimitri diante dos meus olhos e a dor que feriu meu coração pensando que eu o havia perdido para sempre. Eu sacodi a cabeça para espantar o pensamento que invadiu minha mente sem permissão.

“Tudo bem com você?”, Dimitri perguntou. Eu não quis incomodar Dimitri com o meu medo de reviver aquele trauma novamente, então eu apertei minha mão contra a dele e disse que estava apenas pensando para onde Abe poderia estar indo quando pediu que preparassem um avião, o que na verdade era uma boa pergunta sem resposta. Para onde ele estaria indo e sem Dimitri, ainda por cima? Se ele queria que alguém acreditasse que ele agora tinha um guardião pessoal ele não poderia simplesmente sair por aí desacompanhado, principalmente com um ataque de Strigois anunciado. Mas ele estava tão irritado que não deve ter se preocupado com esse detalhe.

“Talvez devêssemos ligar para o meu pai e dizer que nós temos a gravação da conversa”, eu sugeri.

“Mais tarde”, Dimitri disse. No mesmo instante o celular dele vibrou e após olhar rapidamente o visor, ele atendeu a ligação.

“Alô?”, Dimitri disse com uma ruga de preocupação na testa. “Sim, ela está comigo”. Aquilo me chamou a atenção. Com quem Dimitri estaria conversando a respeito de mim? Em seguida eu estava me empoleirando sobre Dimitri para tentar ouvir alguma coisa, porém Dimitri ficava andando de um lado para outro, não parecendo muito feliz com o que deveria estar ouvindo. Quando ele parou e respirou fundo, eu tive certeza disso.

“Escuta, Adrian. O que você quer?”. Eu congelei onde estava e segundos depois Dimitri estava me alcançando o telefone.

“Ele quer falar com você”. Eu arregalei os olhos para Dimitri, querendo bater nele por estar me fazendo passar por essa situação. Como eu poderia falar com Adrian depois do que havia acontecido nessa sala de observação? “Ele está esperando”. Dimitri disse ao fechar minha mão no aparelho e saindo de perto, parecendo preocupado. Eu controlei minha ansiedade e finalmente pus o celular no ouvido.

“Oi, Adrian”.

“Rose, nós precisamos conversar”. De fato, nós precisávamos, eu pensei.

“Mas eu não acho que agora seja uma boa hora, Adrian, porque…”

“Lissa está aqui”, ele me cortou assim que eu estava pronta para dar a desculpa de que precisávamos organizar um plano de ataque para o confronto de amanhã.

“O que você disse?”, eu gritei. Então ele me explicou que Lissa, Christian e minha mãe haviam fretado um avião e partiram em direção a St. Vladimir assim que o céu escureceu. Quando eu perguntei o motivo disso, Adrian hesitou um instante, parecendo escolher as melhores palavras.

“Bem, porque a informação que o conselho revelou a elas em sigilo foi de que o alvo do terceiro ataque dos Strigois liderados pela Sra. Karp seria a corte real”. Eu senti meu rosto ficar pálido com a notícia.

“Você está falando sério?”. Eu estava indignada. Estávamos justamente investigando um caso mais do que sujo entre os conselheiros e elas acreditam na primeira coisa que eles lhe dizem?

“Sim, inclusive elas ficaram sabendo que Eugene Lazar havia fugido da corte hoje cedo em um avião, carregando um Dhampir com ele por questões de segurança. E não qualquer Dhampir, mas um que certamente ninguém sentiria muita falta, para não chamar muita atenção. Um Dhampir que nós conhecemos, inclusive: Mikhail”. Eu fiquei tão chocada com o que Adrian me contou que não conseguia falar.

“Rose?”

“Adrian, se Lissa e minha mãe estiverem perto de você, dê um jeito de falar comigo em particular e rápido, por favor”.

“Elas não estão aqui agora, o que houve?”. Eu respirei fundo e contestei o fato de Eugene Lazar ter fugido, explicando sobre a recente visita dele a St. Vladimir, local onde ele disse que aconteceria o terceiro ataque daqueles Strigois. Expliquei também que Eugene trouxe Mikhail consigo pois foi uma exigência da Sra. Karp, que Mikhail e Dimitri estivessem presentes no local do ataque, pois teoricamente era atrás deles que ela estava. Do outro lado da linha, eu ouvi Adrian começar a rir.

“Eu não estou brincando, Adrian! Eu tenho provas do que estou lhe falando.
Acredite, isso aqui vai se tornar um verdadeiro campo de guerra amanhã à noite”.

“Nós já sabemos sobre o ataque. Alberta contou a sua mãe assim que viu ela, Lissa e Christian por aqui. Sua mãe surtou, com razão e saiu atrás de você, afinal os conselheiros que falaram com ela disseram que o ataque seria em três dias, não amanhã”.

“Como você sabe disso tudo?”, eu perguntei.

“Sua mãe me contou quando nos encontramos no meio do caminho, ambos procurando por você”.

“E você acha que é coincidência eles quererem Lissa longe da corte exatamente durante o período da assembléia e ao mesmo tempo mandarem-na para onde os Strigois estão planejando atacar? Acredite, Adrian, eles não estão contando que Lissa volte para fazer outra visita tão cedo”, eu disse percebendo que mesmo minha mãe tendo descoberto sobre o ataque em St. Vladimir, ela poderia até não ficar na escola para lutar, mas também não levaria Lissa de volta a corte antes de pelo menos três dias, com medo de que algo pudesse acontecer lá também. Malditos Morois!

“Ok, mas me esclareça uma dúvida. Se St. Vladimir realmente for o alvo do ataque anunciado e se o ataque realmente acontecer amanhã, você não acha que está perdendo um tempo precioso se escondendo com Belikov pelas dependências da escola?”, Adrian perguntou com uma pitada de maldade.

“Eu entendo que você esteja preocupado, Adrian, mas isso não lhe da o direito de falar desse jeito sobre coisas que você não sabe, ok?”, eu disse.

“O que você quer que eu faça? Sua mãe me encontrou no meio do caminho feliz por imaginar que o namorado de sua filha pudesse saber onde ela estava, mas não! Eu estava tão por fora da situação quanto ela! Pelo menos nosso encontro serviu para eu me inteirar do que estava acontecendo, porém quando fomos até o seu quarto, o que foi uma péssima idéia, tudo que encontramos foi uma enorme bagunça, aquela peruca atirada em cima da cama e você não estava lá! E quando encontramos com Abe agora a pouco, quando ele estava transtornado indo para o hangar, ele disse que também não tinha notícias suas”. Droga! Eu pensei que Dimitri estava agindo a mando de Abe. “Nós então tentamos ligar para você, mas adivinha? Caía direto na caixa postal!”. Essa eu sabia. A bateria do meu celular havia acabado logo em seguida que vi a mensagem de Adrian avisando sobre Jill. Mas pelo visto Adrian não queria realmente que eu respondesse, então apenas deixei que ele terminasse de me dar aquela bronca, pois de certa forma eu sentia como se a merecesse. “Eu não liguei para Dimitri antes porque de alguma forma eu sabia que se eu ligasse, encontraria você e não queria encarar essa verdade. Mas eu acabei ficando sem escolhas”. Adrian se exaltou, recuperando a compostura em seguida. “Olha, eu não quero discutir isso por telefone. Eu só liguei para dizer que Lissa e Christian estão aqui junto com sua mãe e que eles já estão perdendo a paciência por não encontrarem você. Alberta disse para nos encontrarmos na sala dos professores mais tarde, daí conversaremos melhor, ok? Até mais”. Então ele desligou o telefone sem me dar oportunidade de me explicar.

Imediatamente eu me virei para Dimitri e o agradeci por não ter avisado a Abe que ele me seqüestraria do quarto.

“Você realmente acredita que eu agiria pelas costas de seu pai, Rose? Eu trabalho para ele agora! Que tipo de irresponsável você pensa que eu sou?”.

“Se você avisou Abe, então porque Adrian disse que… Meu Deus”, eu parei assim que um pensamento me ocorreu. “Dimitri, é possível que Abe não lembre do que você lhe disse porque Eugene ferrou com a mente dele usando compulsão?”.

“É provável. Nossa memória funciona como uma rede de conexões, então quando Eugene simplesmente apagou uma lacuna de informações da memória de Abe, uma série de conexões foram interrompidas, fazendo com que as informações relativas ao que foi apagado se perdessem apenas pelo fato de não fazerem mais sentido”.

“Bem, nesse caso estamos um pouquinho encrencados, pois Abe não lembra da conversa que você diz ter tido com ele e por isso agora estão todos atrás de nós achando que o pior aconteceu”, eu disse, constatando o que parecia ser óbvio. “Nós precisamos sair daqui”. Porém não fomos a lugar algum antes de Dimitri contatar Alberta para sabermos do paradeiro de Eugene, afinal tudo o que não poderia acontecer era nos depararmos com ele no meio do caminho. Felizmente ela nos deu a noticia de que já havia despachado Eugene de volta a corte, uma vez que ele havia terminado seus negócios por aqui. Talvez ele sim. Mas, nós? Bem, nós estávamos apenas começando.

Era o início do dia para os Morois e como ainda estávamos no período de férias e os alunos presentes na escola estavam lá apenas por questões de segurança, não existia um rigor para os horários, logo não era surpresa que a grande maioria aproveitasse para levantar mais tarde, principalmente porque não havia muito o que fazer por lá nessa época do ano. Isso era bom, pois eu e Dimitri precisaríamos andar pelos corredores para ir até a sala dos professores da escola, local indicado por Alberta para nos encontrarmos com o resto do pessoal, como Adrian havia dito, por ser um lugar com acesso restrito e onde, por sorte, Dimitri sabia como chegar.

Por mais que a escola ainda estivesse vazia, a rota que seguimos, além de alternativa, não passava nem perto das acomodações dos alunos. Eram caminhos desconhecidos até mesmo por mim, que quase nasci dentro deste lugar, provando que existe um mundo além do que os nossos olhos podem ver, um mundo onde… Eu congelei e parei de correr, fazendo com que Dimitri parasse também, após quase me arrancar o braço fora, quando eu senti minha cabeça ser esmagada por uma dor que eu conhecia muito bem, seguida de visões de fantasmas que também não eram nenhuma surpresa.

“Rose, o que há de errado com você?”, Dimitri perguntou parecendo preocupado.

“Minha cabeça”, eu disse entre os dentes, abaixando-me com as mãos ao redor dela. “Meu Deus, eles estão gritando tão alto”, eu reclamei. Dimitri não fez mais perguntas, apenas se abaixou, colocando um dos braços atrás de minhas costas e outro por baixo dos joelhos.

“Não se preocupe, eu peguei você”, ele falou baixinho, erguendo-me do chão e me carregando com cuidado, como se soubesse que minha cabeça parecia que ia explodir.

Enquanto seguíamos para a sala dos professores, eu tentava me concentrar e bloquear aquelas visões ou pelo menos as vozes que ecoavam na minha cabeça, pois o som era o que definitivamente me incomodava mais. Não eram palavras sendo ditas, era apenas um burburinho de grandes proporções, como se todos aqueles fantasmas estivessem falando ao mesmo tempo, discutindo, gritando, lamentando. Tapar os ouvidos com as mãos não funcionava, aliás piorava a situação, dando a impressão de que o som ecoava dentro de mim.

“Calem a boca, por favor, calem a boca”, eu sussurrei, como se eles pudessem me ouvir. O barulho continuava. “Por favor, eu não posso ajudá-los assim. Pelo amor de Deus, calem a boca” eu continuei murmurando e me irritando conforme o tempo passava e eu não conseguia me concentrar para bloqueá-los da minha mente. Minha respiração começou a ficar acelerada e eu massageava as têmporas na tentativa de aliviar a dor. “Eu disse, calem a boca!”, eu gritei em voz alta, surpresa por imediatamente ter sido ouvida. O silêncio parecia acariciar meus ouvidos , embora eu ainda pudesse ver formas translúcidas flutuando ao meu redor com expressões assustadas e algumas irritadas, algo que ainda não era agradável, mas que eu poderia tolerar.

Ao chegarmos na sala dos professores, Dimitri abriu a porta comigo ainda nos braços, acabando com qualquer intenção dos que estavam lá dentro de começarem a me interrogar para saber onde eu estava até agora.

“Meu Deus, Rose, o que aconteceu?”, Lissa perguntou já levantando da cadeira e vindo na minha direção pronta para me curar de qualquer coisa, caso fosse necessário. Eu a tranqüilizei dizendo que estava tudo bem, enquanto Dimitri me colocava de volta ao chão, anunciando que eu informaria a respeito do que havia acontecido, pois ele precisava encontrar Alberta no ginásio para tratar de assuntos importantes. Ele não comentou nada sobre o ataque dos Strigois para não correr o risco de falar mais do que deveria, mas a verdade era que ele ia ajudar Alberta na determinação de estratégias de ataque, pois soldados já haviam sido recrutados e aquele ginásio deveria estar um verdadeiro caos.

“Posso ter uma palavrinha rápida com você la fora, Dimitri?”, eu perguntei como quem não quisesse nada. Ele franziu a testa enquanto eu o empurrei para fora da sala, antes que ele pudesse dizer alguma coisa.

“O que foi?”, Dimitri questionou.

“Você vai me deixar sozinha aqui? Qual é Dimitri?! Cada pessoa do outro lado dessa parede tem no mínimo uma razão para querer minha cabeça e eu vou ter que enfrentá-las ao mesmo tempo e sem cobertura?! Não é justo!”, eu resmunguei.

“Você fala como se estivesse lidando com seus inimigos! Lá dentro estão seus pais, sua melhor amiga e…seu namorado”, Dimitri finalizou meio incomodado. “Você pode confiar em todos eles, então não se preocupe, ok?”, ele finalizou, aproximando-se e me dando um leve selinho na boca.

“Dimitri…”, eu comecei a frase mas não tive coragem para continuar.

“Diga, Roza, não esconda seus pensamentos de mim”. Com isso ele não me deixou escolhas, a não ser criar coragem para pedir a ele algo que seria difícil para nós dois. Difícil, mas extremamente necessário.

“Nós não podemos simplesmente ignorar que o mundo está virado de cabeça para baixo e agir como um casal apaixonado diante dos olhos de todos, principalmente por causa de Adrian. Eu.. eu preciso falar com ele primeiro. Eu devo isso a ele”. Como a egoísta que eu sou capaz de ser, eu havia deixado as coisas irem muito longe, fazendo Adrian sofrer demais e eu estava cansada disso. Dimitri não havia me prometido um relacionamento duradouro nem nada do gênero, mas a verdade era que eu o amava como eu nunca poderia amar alguém, nem mesmo Adrian e, de alguma forma, até Adrian sabia disso. Eu era a única que preferia fingir que não era bem assim. Eu fingi tanto que acabei acreditando na minha própria mentira. Eu sou um monstro.

Dimitri respirou aliviado e sorriu, como se ele estivesse esperando algo pior. “Claro, Rose. Leve o tempo que precisar, não tenha pressa. Quer dizer, nós estamos no meio de um campo de guerra, talvez não seja a melhor hora”.

“Não, Dimitri. Eu já esperei demais”, eu disse com um suspiro. Dimitri então me abraçou forte e beijou o topo da minha cabeça.

“Como eu disse, leve o tempo que precisar. Enquanto isso, eu prometo beijá-la apenas quando ninguém estiver por perto”, ele sussurrou no meu ouvido, fazendo meu corpo estremecer com o arrepio causado por aquelas palavras. No segundo seguinte Dimitri estava seguindo rumo ao ginásio.

Eu então olhei de volta para a porta e respirei fundo, repetindo mentalmente que na primeira oportunidade que houvesse eu falaria com Adrian, esperando que ele fizesse o favor de não me perdoar e ainda me odiar pelo resto de sua vida. Eu tive que rir. Nunca seria tão fácil assim. Adrian certamente tentaria ser compreensivo, como ele sempre faz e essa seria justamente a parte mais difícil, porque não importa o quão grande ele provar ser seu coração: pelo bem de nós dois, dessa vez eu teria que achar forças para recusar o que ele estivesse disposto a me oferecer.

Tendo feito esse acordo comigo mesma, eu abri a porta e entrei novamente porque o tempo estava passando e eu não poderia perder mais nenhum precioso segundo com auto-piedade.

Ao invés de ser questionada sobre uma dúzia de coisas, como esperava, fui surpreendida por um silêncio ensurdecedor. Tudo o que eu ouvi foi o som de um copo ser servido e ao seguir com os olhos naquela direção vi Adrian enchendo uma espécie de taça com um líquido verde claro. Eu franzi a testa momentaneamente ao não enxergar a tradicional garrafa de Vodka ao seu lado, porém quando vi melhor o rótulo do que ele estava prestes a ingerir, eu simplesmente fiquei cega pela raiva que tomou conta de mim. Eu arranquei o copo das mãos dele poucos segundos antes de sua boca provar o que deveria ser a sua terceira dose de absinto com uma porcentagem alcoólica de 80% e o joguei contra o chão com tanta força que estilhaços de vidro voaram por todo lado. Adrian permaneceu como se nada tivesse acontecido, fixando seu olhar na garrafa parcialmente vazia a sua frente.

“Nós não precisamos disso agora”, eu disse.

“Talvez não você. Eu sei que eu preciso”, foi o que ele respondeu, ainda sem me encarar, ao pegar a garrafa para beber direto do gargalo.

Completamente fora de sério e nada delicada, eu tirei a garrafa da mão de Adrian, atirando-a contra a parede com toda a minha força. Adrian apenas apertou os olhos no momento que a garrafa chocou-se contra o concreto.

“Não, você não precisa”, eu disse entre os dentes. Eu percebi pelo tom de voz com que ele havia falado no telefone, o quanto ele estava chateado comigo. Vodka daria conta disso e eu não me importaria de vê-lo empinar uma garrafa inteira goela abaixo, se fosse o caso. Mas uma garrafa de absinto? Com aquele alto teor de álcool?

Isso era suficiente para saber que Adrian tentava neutralizar algo mais forte do que mágoa e quando ele finalmente olhou nos meus olhos, eu vi o que era.

Chamava-se dor.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 31

Eu queria ir até ele, sentar ao seu lado e colocar tudo em pratos limpos, mas isso não era possível no momento, pois ao lado de Adrian, Lissa parecia preocupada com a forma com que eu reagira há pouco. Mais adiante minha mãe permanecia em pé próxima à janela, com a postura de quem não estava muito feliz em me ver. Abe havia puxado um banquinho onde sentou com as pernas levemente afastadas, apoiou os antebraços sobre os joelhos e entrelaçou os dedos ao juntar as mãos, provavelmente analisando as ondas de emoção no ar esperando o momento certo para intervir. Eu não via Christian e Mikhail, mas considerando o que Dimitri havia dito sobre Alberta estar organizando os ataques de amanhã, eles deveriam estar juntos com ela no ginásio.

Eu sentia um peso no ar, como se todos estivessem me condenando, mas seria isso mesmo? O que eles viram foi apenas uma louca que entrou na sala e surtou, ao se deparar com o namorado tentando embriagar-se com doses pesadas de absinto, quebrando de forma agressiva o copo e a garrafa utilizados por ele. Ninguém além de mim sabia que Adrian estava afogando as mágoas com aquela bebida e que eu não tinha tanto direito assim de ir pra cima dele e impedi-lo de amenizar a dor que sentia, pois eu mesma havia sido a responsável por causá-la. Logo a condenação não poderia vir deles. Ela vinha da minha própria consciência.

“Chega!”, minha mãe disse de onde estava, sem sequer alterar o volume de sua voz, mas ainda assim fazendo os pelos do meu pescoço se arrepiarem. “Rose, eu exijo que você me diga onde você se enfiou nas últimas horas, pois caso você não saiba, essa escola está prestes a ser atacada por Strigois e por sua causa Lissa ainda está aqui correndo perigo. Aliás, todos nós estamos”.

“Eu sei, ok?”, eu gritei, visivelmente irritada com a forma autoritária com que minha mãe havia se dirigido a mim. “E eu entendo que vocês todos estejam indignados comigo”. Eu olhei para Adrian rapidamente, mas ele desviou o olhar. “Porém eu preciso da ajuda de vocês agora, porque nesse CD”, eu disse ao erguer o pequeno objeto entre meus dedos, “está a confissão da participação de Eugene Lazar no assassinato da rainha Tatiana, entre outras coisas. Então se não for  pedir demais, será que vocês poderiam deixar esses ressentimentos de lado para agirmos unidos novamente como um grupo?”.

“Do que você está falando?”, minha mãe perguntou.

Então eu expliquei que Lazar havia aparecido na escola sem avisar e que por isso Dimitri me tirou do quarto às pressas, para não correr o risco de Eugene me encontrar caso ele decidisse circular pelos aposentos de St. Vladimir e, por isso me levou para o único lugar da escola que Eugene não conhecia: a sala de observação.

“Quando estávamos abrindo a passagem para a sala oculta, ouvimos Kirova, Alberta e Lazar se aproximando do escritório, logo Dimitri precisou entrar no observatório junto comigo para não ser visto.” Essa explicação havia sido mais para Adrian do que qualquer outra pessoa. “E de lá ouvimos cada palavra que foi dita naquela reunião, inclusive Eugene revelando o motivo de sua visita e anunciando St. Vladimir como o local do ataque dos Strigois. Assim que foi possível, Alberta não perdeu tempo e trouxe Abe para ter uma conversa a sós com Lazar, afinal ele era um de nossos suspeitos e estava ali à disposição. E aqui a história se torna dramática, pois depois que Eugene confessou tudo, ele simplesmente apagou a conversa da memória de Abe, apenas por diversão. Por isso você provavelmente não lembra de nada, Abe”, eu encerrei meu discurso direcionando-o ao meu pai.

“O que faz você pensar que eu não lembraria?”, Abe perguntou tranqüilamente, com uma expressão engraçada. “Modéstia a parte, é com um especialista no assunto que você está falando, mocinha! Eu sei que alguém vai usar compulsão antes mesmo da própria pessoa pensar em fazer isso, então dificilmente eu sou afetado quando usam esse poder sobre mim. Mas como Eugene não sabe disso e tentou me compelir, eu precisei agir como se tivesse funcionado. Caso contrário teríamos um Moroi poderoso a beira de um ataque histérico. Um risco desnecessário”.

“Quer dizer que você lembra de tudo?”. Abe apenas sorriu.

“Mas… Se é assim você deveria lembrar sobre Dimitri ter falado que me tiraria do quarto e que me levaria para um lugar seguro”, eu questionei. Abe olhou nos meus olhos e quando repetiu que não lembrava disso, foi como ler um placar em neon dizendo que ele não admitiria uma coisa dessas na frente de Adrian. Eu não tinha o mesmo poder de Abe, mas ainda assim era possível perceber que as emoções de Adrian estavam muito instáveis. Não ajudaria em nada se ele soubesse que Abe havia concedido ou até mesmo pedido que Dimitri me mantivesse em segurança, principalmente depois de tudo que Adrian fez pelo meu pai. Não seria justo. Por isso eu fingi ter acreditado quando Abe argumentou que talvez a compulsão de Eugene tenha funcionado apenas um pouco.

“Bem…”, eu desviei o assunto para não criar maiores transtornos, “De qualquer forma Eugene não esperava que tudo estivesse sendo registrado digitalmente em áudio! Eu mesma me surpreendi quando soube o que era este CD que Dimitri me entregou depois. Então por favor, eu peço que vocês ouçam à gravação primeiro e, se depois disso, vocês ainda quiserem discutir o motivo do meu sumiço, eu estarei disposta a fazê-lo. E se quiserem continuar me condenando por isso, eu aceitarei”.

Então eu liguei o aparelho de som que havia em uma estante e coloquei o cd para tocar. A primeira parte da conversa não surpreendeu ninguém, pois todos já sabiam que o ataque seria na escola, logo estava mais do que claro que haviam enviado Lissa e minha mãe para onde aconteceria o ataque para que elas se afastassem da corte durante o período da eleição do novo governante real. Se “por sorte” Lissa acabasse morrendo durante o ataque, eles teriam mais do que um motivo para impor a obrigatoriedade de todos os Dhampirs servirem como guardiões, alegando que pessoas importantes estavam morrendo por falta de proteção.

Porém a reação das pessoas não foi a mesma quando ouviram a conversa entre Abe e Eugene, que confessou a organização de um plano maquiavélico para se vingar pelo que aconteceu com sua filha Avery. Bem ou mal ele havia tirado proveito da situação de Mikhail e o compelido a assassinar a rainha, apagando isso da memória dele para que eu pudesse ser condenada a morte pelo crime. “Ele foi longe demais”, minha mãe disse como se anunciasse a sentença final de Lazar.

“Não se preocupe, Janine. Ele pagará por isso”, meu pai tentou amenizar a situação, dando-lhe a certeza de que Eugene não ficaria impune. E então eu tive a certeza de que Eugene havia mexido com a filha das pessoas erradas e por um pequeno segundo eu tive pena por ele. Apenas por um segundo.

Depois que ouviram toda a gravação, ninguém lembrava mais do meu pequeno sumiço e tampouco do porquê estavam brabos comigo, o que era um alívio. E mais. Com uma prova tão consistente a favor da minha inocência e ao mesmo tempo contra a de Eugene Lazar, não se tornava necessário que eu permanecesse escondida e foi o próprio Abe quem determinou isso, apesar de eu não estar esperando nenhum sinal verde dele para aparecer diante das pessoas da escola e participar do confronto do dia seguinte. Ele querendo ou não, eu lutaria, porém saber que eu contava com a aprovação dele de certa forma me dava mais confiança. Eu estava empolgada com a virada da situação e com esperança de que agora poderíamos achar uma luz no fim do túnel.

“Então amanhã o mundo saberá que Rosemarie Hathaway está de volta”, eu disse não conseguindo conter um sorriso de felicidade.

“Apenas uma coisinha antes disso, Rose”, Lissa falou pela primeira vez desde que entrei na sala, parecendo preocupada, o que levou embora o meu sorriso. Quando lhe dei a devida atenção, ela explicou que logo que o avião pousou, ela e Christian resolveram dar uma volta pelos arredores  da escola enquanto minha mãe procurava por Alberta. Eles ainda não sabiam sobre o ataque então, a princípio, pensaram que estavam todos seguros. Eles seguiram caminhando e perderam a noção da distância que percorreram, tanto que quando perceberam, estavam no bosque que havia próximo a St. Vladimir, o mesmo bosque onde, há alguns anos atrás, Lissa ressuscitou aquele corvo diante da Sr. Karp, quando ela ainda era Moroi.

O local era de fácil acesso aos alunos, o que tornava a vida dos monitores um verdadeiro inferno quando resolvíamos nos esconder por ali. Com o ataque dos Strigois que aconteceu um tempo depois, algumas mudanças foram necessárias para garantir a segurança dos estudantes, já que o bosque não era muito distante dos limites da escola, onde a barreira de proteção havia sido destruída, tornando o ataque possível. Então uma cerca foi colocada ao redor daquele lugar, tornando uma pequena ponte de madeira em forma de arco, a única forma de acesso a ele.

“Eu não sei como explicar, mas… Há algo naquela ponte”, Lissa desabafou.

“Você viu alguma coisa?”, minha mãe perguntou.

“Não”, Lissa respondeu, pensativa. “Era como se alguém estivesse me observando”. Considerando os olhares que Lissa recebeu, essa informação deveria ser nova.

“Strigois”, minha mãe disse em voz alta o que provavelmente passava pela mente de cada um de nós.

“E eles não estão sozinhos novamente”, eu adicionei.

“O que você quer dizer, Rose?”, meu pai perguntou. Eu o respondi apenas depois de me sentar em uma cadeira.

“Quero dizer que eles estão novamente contando com a ajuda de humanos para destruir a proteção ao redor da escola”.

“Como você sabe disso?”.

“Eu comecei a alucinar e ouvir vozes novamente. Acho que a maioria aqui sabe o que isso significa”. E pela cara deles, eles sabiam. “Por isso, mãe, você e Lissa precisam sair daqui”, eu continuei. “Sair daqui e retornar para a corte real. Eu sei que você não achará essa idéia sensata, mas estamos falando da votação do novo governante real e não do presidente de algum grêmio estudantil. Lissa precisa estar lá pelo mesmo motivo que eles não a querem por perto: pois uma comoção no povo pode por os planos deles por água abaixo”.

“Além disso”, Abe interrompeu, “podemos ganhar algum tempo apresentando essa gravação como prova de que houve corrupção no processo investigatório do assassinato da rainha. Se isso cair nos ouvidos do povo, certamente teremos a comoção que procuramos”. Minha mãe olhou para Abe, parecendo não acreditar.

“Você perdeu a cabeça? Como você pode concordar com as idéias de uma garota que só sabe se meter em confusão?! Se aparecermos agora lá, eles vão saber que descobrimos sobre a mentira deles. É perigoso!”, ela enfatizou. Abe se aproximou de mim e colocou a mão sobre meu ombro.

“Não estamos falando de qualquer garota, Janine. Essa garota aqui é uma guardiã maior de idade, com habilidades excepcionais, sendo inteligência uma delas e, por mais que eu saiba que o que eu vou dizer será usado contra mim mais tarde, eu não posso negar. Rose está certa: vocês precisam voltar para a corte o quanto antes, pois eles não sujarão seus nomes tentando algo contra Lissa na véspera da eleição. Então voltem para lá e façam com que todos saibam que Eugene estava por trás do assassinato da rainha”.

“E levem Adrian com vocês”, eu adicionei ao discurso de Abe. “Ele pertence a uma família real de importância e com certeza será mais útil lá do que aqui”. O som do vidro contra a madeira chamou minha atenção. Eu virei a cabeça e vi que de dentro de uma bolsa que eu não havia visto ao lado de Adrian, ele tirou uma garrafa de Vodka, apoiou-a sobre a mesa, removeu o lacre de segurança e bebeu cinco goles de uma só vez, parando para responder ao olhar incrédulo que eu lhe lancei.

“Ah, que gentil da sua parte querer a minha opinião! Mas não, obrigada, eu prefiro ficar”, ele disse com deboche.

“Nem pensar, Adrian! Você vai junto com elas”. Ao ouvir essas palavras, Adrian deixou de lado sua expressão de divertimento.

“Não ouse dizer onde eu devo ou não devo ir, Little Dhampir. Você já foi longe demais determinando o que eu devo ou não devo beber. Eu não sou seu filho nem seu animal de estimação, então não mande em mim como se eu não fosse dono do meu nariz. Eu tenho aqui tudo que preciso, então não, eu não vou a lugar algum”. Eu senti Lissa ficar um pouco perturbada e quando achou as palavras certas, ela não conseguiu controlá-las, cutucando Adrian com seu cotovelo, como se aquilo fosse tirá-lo de alguma espécie de hipnose.

“Se você não quer que ela lhe trate com um filho, que tal parar de agir como uma criança? Ficando aqui, você será apenas uma preocupação a mais, você não vê isso? Seja sensato!”, Lissa disparou. E ela tinha razão. Com Adrian por perto, minha atenção não ficaria 100% focada no inimigo, eu sei disso. É o que fazemos quando há um Moroi que precisa ser protegido: nós o protegemos custe o que custar.

“Adrian, por favor”, eu disse encarando seus olhos ainda marcados pela dor que eu havia lhe causado. “Nós não sabemos nada sobre esse ataque. Pode ser bem pior do que estamos imaginando e eu não quero você envolvido nisso. Por favor, vá junto”.

“Desde quando você se importa?”, ele perguntou com uma voz ríspida.

“Eu sempre me importei, Adrian. Apenas não da forma como você gostaria que eu me importasse”, eu respondi com calma e sinceridade. Por alguns segundos ficamos nos encarando em silêncio até que algo parece ter feito sentido na cabeça de Adrian.

“Você tem certeza de que seus amigos não se importam? Ou o seu namorado ciumento?”, ele perguntou com ironia ao encarar Lissa, finalmente concordando em ir com ela e minha mãe, graças a Deus. Eu respirei aliviada, apesar de não me sentir dessa forma, pois a idéia de que Adrian poderia estar pensando que estava sendo descartado por não ser importante me incomodava, principalmente porque não era verdade. Eu estava apenas preocupada, pois Adrian é um Moroi especializado em um elemento de baixa ofensividade no contexto de uma batalha contra um exército de Strigois, então seria melhor que ele não corresse riscos, até mesmo porque eu não menti quando disse que essa era uma batalha de proporções desconhecidas, podendo ser, por isso, perigosa até para mim.

Uma coisa no entanto não fazia sentido. Se Adrian estava aparentemente tão chateado comigo, por que resistiu tanto em ir com Lissa e minha mãe para a corte? O que ele poderia querer por aqui, se ficar perto de mim era tão penoso assim? A chance de conseguir minhas respostas veio quando estávamos deixando a sala dos professores para ir em direção ao ginásio, afinal Mikhail precisava saber o crime que havia cometido para não ser pego de surpresa caso alguém resolvesse acusá-lo de assassinato.

Abe também tinha intenções de aproveitar que os alunos estavam reunidos para contar-lhes a verdade e anunciar que eu ainda estava viva e pronta para lutar amanhã, mas essa segunda parte poderia esperar um pouco. Já a minha conversa com Adrian, não. Eu estarei participando de um confronto violento no dia seguinte, do qual posso não sair viva, então caso algo dê errado, eu preciso que Adrian saiba o quanto ele significou e ainda significa para mim. Eu não quero que ele pense que foi apenas um passatempo ou um brinquedinho. Ele precisa saber que foi amado, desejado e querido de uma forma que eu pensei que jamais seria possível. Entretanto ele também precisa saber o que aconteceu entre eu e Dimitri. Significará o fim da minha história com Adrian, eu sei, mas é um mal necessário, afinal ele partirá em breve rumo à corte real e se nós nunca mais nos vermos eu não quero que Adrian fique se lamentando ou sofrendo por alguém que não merece o sofrimento dele.

Por isso decidi que assim que Adrian saísse, eu o empurraria de volta para dentro daquela sala à força, pediria aos demais que nos dessem um minuto de privacidade e não sairia de lá até que definitivamente acertássemos nossos ponteiros. Mas quando vi que todos já haviam saído, com exceção de Adrian, que esperou para ser o último, provavelmente imaginando que eu estaria longe o suficiente para ele não se incomodar com a minha presença, eu entrei novamente dentro da sala e fechei a porta logo em seguida, trancando-a com a chave que, por questões de segurança, escondi no meu avantajado e, quem diria, útil decote. Quando me virei, dei de cara com Adrian.

“Eu estou confuso. Você escondeu a chave aí querendo ou não que eu a pegue?”, ele perguntou com malícia, tentando não rir da situação. Admito que foi engraçado e se a situação fosse outra talvez eu até entraria no jogo dele, mas eu estava ali por outra razão.

“Adrian, eu preciso falar com você”.

“Você acha que essa realmente é uma boa hora para discutirmos a relação?”, ele perguntou.

“Eu não estou aqui para discutir nossa relação”. Eu estou aqui para terminá-la, eu pensei, não tendo coragem de dizer isso dessa forma. “Adrian, estou aqui porque ultimamente eu tenho estado tão distante e tão confusa que eu não sei mais se você sabe o quanto é importante para mim”. Adrian virou de costas e caminhou até a janela próxima a ele.

“Rose, você não precisa fazer isso”.

“Sim, eu preciso, Adrian. Quando eu voltei da Rússia, eu pensei que estava morta por dentro, mas você mostrou que eu ainda estava viva, despertando sentimentos em mim que eu jamais imaginei poder sentir novamente. No começo eu pensei que eu era apenas um troféu que você precisava conquistar, no entanto conforme o tempo foi passando, eu entendi o que eu significava pra você”. Adrian respirou fundo e sentou-se em uma cadeira de frente para mim.

“Eu acho que você não tem a menor idéia, Rose”. Eu senti um frio percorrer a espinha quando percebi que ele me faria ter essa idéia. E era exatamente isso. “Você deve ter ouvido boatos a meu respeito de que eu não era confiável ou uma boa companhia, não é mesmo? Bem, não eram apenas boatos. Antes de você, de fato eu era um colecionador de mulheres. Morois, Dhampirs. Até mesmo humanas. Eu nunca precisei ter o trabalho de conquistar alguém, pois naturalmente elas sempre me quiseram antes mesmo de eu notar a presença delas, então tudo que eu precisava fazer era escolher. Quando eu a vi pela primeira vez naquela estação de esqui, eu escolhi você, Rose. Não que você quisesse, é claro, mas eu não pude evitar. Você então criticou meu hábito de beber, fumar e flertar, o que para uma pessoa normal significaria motivos suficientes para não seguir adiante e considerá-la uma conquista perdida, mas eu acordei no dia seguinte pensando em você e ainda querendo conquistá-la. E desde aquele dia, eu tenho escolhido você, Rose”.

“Adrian…”. Minha voz estremeceu com a emoção e, com os olhos marejados de lágrimas, eu fui em direção a ele e o abracei com força. Adrian retribuiu o abraço com a mesma intensidade, envolvendo minha cintura e me segurando forte enquanto sua outra mão acariciava a parte de trás do meu pescoço, aproximando nossos corpos o máximo possível. Era como se ele tivesse medo de me soltar novamente.

“Isso é o quanto você significa para mim, Rose. Você significa tudo”, Ele sussurou no meu ouvido. E de repente conversar sem encarar os olhos de Adrian pareceu mais fácil, então aproveitei para falar enquanto estava nos braços dele.

“Mas você merece alguém melhor do que eu, Adrian”. Eu senti o peito dele inflar com a excessiva quantidade de ar inspirada e depois voltar ao normal ao expeli-lo. A mão que acariciava meu pescoço parou todos os movimentos que fazia, exatamente como o meu pulmão naquele momento. Eu não conseguia respirar, principalmente porque Adrian não falou nada após o que eu lhe disse e eu não tinha a menor idéia do que estava passando pela cabeça dele. Eu esperei para não parecer ansiosa, embora eu tivesse certeza de que minha ansiedade transpirava por cada poro do meu corpo. Demorou, mas ele finalmente falou, voltando a acariciar meu pescoço.

“Eu sabia que esse dia chegaria, apenas não imaginava que seria tão cedo”, ele disse com um tom de voz sério e pensativo.

“Que dia?”, eu perguntei ao encostar minha cabeça no ombro dele, ainda com um nó se formando na boca do estômago.

“O dia que você sairia da minha vida”. Aquelas palavras causaram em mim um impacto maior do que eu imaginava e me atingiram como um ácido. As lágrimas escorriam livremente dos meus olhos mas eu só fui percebê-las quando senti a camisa de Adrian molhada contra meu rosto.

“Sinto muito”, eu disse, ou pelo menos tentei dizer. O que saiu na verdade foi apenas um murmúrio. Adrian acariciou minhas costas e então me afastou para olhar-me nos olhos, segurando minha cabeça entre suas mãos.

“Eu também”, ele respondeu baixinho, enxugando minhas lágrimas e beijando-me em seguida. Nada de beijos apaixonados, apenas um breve selinho com um sabor de despedida, me acolhendo em seus braços em seguida, mas uma batida na porta, seguida da voz da minha mãe, chamou nossa atenção.

“Adrian, eu e Lissa estamos partindo. Você vem ou não?”.

“Eu encontrarei vocês no hangar”, ele respondeu. Minha mãe concordou e, após ouvirmos passos se afastando, presumimos que ela havia saído.

“Você está bem?”, Adrian perguntou ao enxugar uma última lágrima que passeava pelo meu rosto.

“Sim, eu estou bem, Adrian. Você pode ir”, eu disse esfregando as mãos no rosto, em seguida deslizando-as pelos cabelos. Adrian apenas beijou minha testa e saiu, e quando isso aconteceu, eu me perguntei o que realmente havia acontecido. Estaria tudo terminado entre nós? Porque sinceramente não parecia e agora era tarde demais para qualquer outro acerto de contas. Confusa, inicialmente eu não sabia o que fazer dentro daquela sala, mas assim que me acalmei, decidi passar no ginásio para tomar conhecimento de quais sistemas ofensivos e defensivos  seriam adotados para o confronto contra a tropa de Strigois da Sra. Karp.

Ao chegar lá me deparei com uma enorme quantidade de Dhampirs, a maioria estudantes prestes a se formar. O problema é que quando eles me enxergaram começou um burburinho e então eu lembrei de que a notícia sobre eu ainda estar viva não havia sido dada.

Tarde demais para fazer qualquer coisa, o burburinho se transformou em uma gritaria caótica e impossível de controlar. Talvez a única coisa que pudesse funcionar aqui seria a sirene ensurdecedora usada no auditório da corte real, mas a escola não dispunha desses recursos, então nada feito.

Alberta me lançou um olhar de reprovação pelo descuido e o meu pedido de desculpas veio através de uma careta do tipo “eu sei que fiz merda”. Nada parecia funcionar para acalmar aquele grande número de pessoas, mas se eu havia começado a confusão, o mínimo que eu poderia fazer era tentar alguma coisa. Então eu puxei Alberta contra mim com uma certa força e a imobilizei facilmente, já que ela não estava esperando por isso. Com minha estaca já em mãos, a apontei para o coração de Alberta, que me olhou assustada.

“Você perdeu a cabeça?”, Alberta vociferou.

“Shhh”, eu sussurrei, tentando impedir que ela estragasse minha atuação. Então eu limpei a garganta encarei os alunos e demais presentes e soltei a voz.

“A vida de Alberta pelo silêncio de vocês”, eu disse em alto e bom tom. E em segundos, como num passe de mágica e de forma mais eficiente que a sirene da corte, o ginásio se calou.

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Fanfic Last Sacrifice – Capítulo 32

Alberta ainda me encarava com surpresa quando eu a soltei.

“Se você não aproveitar essa oportunidade para explicar aos demais o motivo de eu estar presente entre eles, eu não garanto que conseguirei o silêncio deles mais uma vez”, eu avisei. Nesse meio tempo, tanto Abe quanto Dimitri, que estavam em meio à multidão quando eu apareci e baguncei tudo, se aproximaram de onde nós duas estávamos para ajudarem a contornar a situação e, como não poderia ser diferente, Abe assumiu o controle antes que Alberta pudesse abrir a boca para contestar.

“Isso é exatamente o que vocês estão pensando”, ele começou a explicar. “Rose está viva e o que vocês assistiram no dia da execução foi apenas uma pequena encenação. Ela foi acusada injustamente do assassinato da rainha e outras pessoas inocentes além dela também foram envolvidas nesse crime. Nós temos provas e vamos mostrá-las, mas antes de vocês entenderem os motivos que nos levaram a simular a morte de Rose e julgarem se o que fizemos foi certo ou errado, devemos lembrá-los de que amanhã haverá um ataque de Strigois nessa escola e precisaremos da habilidade e experiência de alguém como a guardiã Hathaway para enfrentá-los”. Em seguida os portões de acesso ao ginásio foram fechados.

Abe então providenciou que o CD fosse executado e, enquanto as pessoas ainda assimilavam o que estava acontecendo e começavam a prestar atenção na gravação que estava sendo reproduzida, chamou Mikhail para uma conversa particular. Ao passar por mim, ele apenas tocou levemente meu braço, como se me convidando a participar também, já que Alberta, Dimitri e mais alguns guardas ficariam no ginásio para garantir que mais nenhum tumulto acontecesse.

Nós entramos numa sala ao lado do ginásio e assim que a porta se fechou, Abe não perdeu tempo e contou a Mikhail que ele era um dos envolvidos no esquema do assassinado da rainha. Mikhail olhou para Abe com uma expressão de confusão, também pudera.

“De que tipo de envolvimento você está falando, senhor Mazur? Eu não estou entendendo”.

“O pior envolvimento possível, caro guardião Tanner. De acordo com Eugene, você assassinou a rainha com a estaca que aparentemente foi roubada do quarto de Rose”, meu digníssimo pai respondeu com a delicadeza de um elefante. Ele estava pronto para prosseguir quando eu o interrompi para explicar os fatos a Mikhail do meu jeito, aos poucos, pois por mais que estivéssemos correndo contra o tempo, não era justo atropelá-lo com a verdade.

“Mikhail, nós sabemos sobre a estaca que você furtou do meu quarto, na corte real”. Ele arregalou os olhos, desviou o olhar e baixou levemente a cabeça, envergonhado. “Sinto muito, Rose. Eu apenas pensei que seria possível trazer…”. Mikhail ficou corado momentaneamente ao falar sobre a estaca, mas então a informação sobre ele ser o assassino da rainha parece ter assentado.

“Desculpe, mas por acaso eu acabei de ouvir que eu assassinei a rainha com a estaca de Rose?”, Mikhail perguntou, voltando a encarar Abe.

“Eu não disse nada, guardião Tanner. Quem disse isso foi Eugene Lazar”, Abe o corrigiu ironicamente.

“Mas isso não faz sentido”, Mikhail exaltou-se. “Eu admito que roubei a estaca do quarto de Rose, mas…”.

“Mikhail, eu entendo os motivos que o levaram a pegar aquela estaca do meu quarto, mas o problema é que você cometeu um engano. Aquela não era a estaca enfeitiçada por Lissa”. Uma ruga de preocupação surgiu na testa de Mikhail e eu continuei. “A estaca enfeitiçada perdeu seu poder assim que foi usada, como acontece com qualquer objeto enfeitiçado e não foi trazida de volta. Logo a estaca que você pegou da gaveta do criado mudo era como qualquer outra e provavelmente a que eu usei para lutar contra os Strigois naquele mesmo dia”.

“M-Mas quando eu cheguei lá você não estava e a estaca estava tão….”.

“Desprotegida, eu sei”, eu completei. “Mas naquele dia, quando acordei, minha cabeça só pensava em uma coisa, e você sabe o que, então assim que pude, eu saí do quarto com tanta pressa que não me preocupei em carregá-la comigo.“

“Em resumo”, Abe se atravessou na conversa, “a estaca que você pegou não era a enfeitiçada e quando você entrou em contato com Eugene no intuito de ter a ajuda de Avery para trazer a Sra. Karp de volta, dizendo que já tinha até mesmo a estaca de Rose em mãos, você deu os ingredientes necessários para Eugene colocar seu plano em prática. Ele armou um encontro com você, compelindo-o a assassinar a rainha e sugerindo a você que esquecesse essas lembranças logo depois, para que Rose pudesse ser incriminada sem problemas. Então parabéns, Mikhail, você foi o responsável por tudo isso”.

“Abe!”, eu exclamei, indignada pela falta de respeito com o Dhampir que estava diante de nós, agora com uma aparência pálida e assustada. Meu pai, no entanto, não parecia arrependido de ter sido duro. Ele estava mesmo irritado com o rumo que as coisas tomaram.

“V-Vocês tem certeza disso?”, Mikhail perguntou.

“É provável”, eu respondi. “Você tem acesso às dependências reais, logo não levantaria suspeita ao aparecer por lá e o fato de ser um Dhampir tornava tudo mais fácil, já que não havia o risco de você se transformar em um Strigoi ao matar a rainha e não chamaria tanto a atenção por carregar uma estaca consigo. Você certamente deu todas as condições possíveis para Eugene colocar seu plano em prática, Mikhail”, eu lamentei ao ter que repetir as palavras de Abe.

“Eu não sei o que dizer”, ele disse com a voz trêmula. “De fato eu não consigo me lembrar de absolutamente nada”.

“Agora realmente não há o que dizer”, eu lhe disse. “O que você precisa fazer, no entanto é se preparar para o que virá. A essa altura os alunos e demais presentes naquele ginásio estão ouvindo que você foi o responsável pelo assassinato da rainha e vão querer respostas. Nós sabemos que você pode enfrentá-los sem maiores problemas porém, logo mais, não serão apenas os alunos a saberem disso, mas também os pais deles e assim por diante. Daqui a pouco toda comunidade Moroi saberá disso e por mais que a afirmação de Eugene tenha sido bem clara sobre você ter sido compelido a assassinar a rainha, sempre haverá alguém que lhe considerará culpado pelo que aconteceu”.

“Portanto se você se comportar como se tivesse pena de si mesmo eles passarão por cima de você sem piedade e eu não duvido que sejam capazes até de fazer você confessar algo que nem sabe que fez. Então não banque o inocente, porque diante dos olhos do povo você não é, não completamente. E, acima de tudo, mostre confiança porque eles estarão esperando que você não suporte a pressão”. Céus, Abe estava impossível. “Sua sorte é que nós temos as provas necessárias para livrá-lo da acusação, portanto não há o que temer”. Abe completou impiedosamente o meu comentário. Mikhail ficou paralisado por alguns minutos com o choque das informações, mas em seguida recuperou-se e mostrou-se pronto para enfrentar o que fosse necessário, agradecendo a mim e ao meu pai por nos colocarmos a disposição para ajudá-lo no que fosse necessário, afinal era importante que ele se sentisse apoiado e soubesse que ainda confiávamos nele, pois por mais que Mikhail tivesse cometido o erro de roubar minha estaca e pedir ajuda justamente para Eugene, ele jamais teve a intenção de assassinar a rainha para que eu fosse condenada por isso.

“E já que estamos falando de assuntos desagradáveis é melhor já elucidarmos outra questão”, Abe prosseguiu. “Eu espero que não haja nenhum tipo de esperança da sua parte de ainda tentar trazer Sonya Karp de volta a vida, porque nós não vamos fazer isso e se você pretende lutar ao nosso lado, precisamos ter certeza de que você não tentará nada estúpido”. O silêncio de Mikhail mostrou o quanto as duras palavras de Abe o atingiram.

“Eu mesmo a matarei, se for possível, Sr. Mazur”. Ai céus, isso de novo não! “Mikhail, isso não é tão fácil quanto parece, acredite em mim”, eu tentei avisá-lo. Não que eu esperasse que ele me ouvisse, pois eu no caso dele não ouviria, mas eu precisava tentar abrir os olhos dele, pois matar um Strigoi que um dia foi alguém que você amou ou ainda ama pode parecer fácil, mas não é. Eu descobri isso da pior maneira possível.

“Não se preocupe, Rose. Quando eu pensei em trazer Sonya de volta, minha idéia era sair novamente mundo afora para caçá-la e fazer tudo que fosse necessário longe de onde ela representasse um risco para outras pessoas. Porém, a partir do momento que ela decidiu vir aqui atrás de Dimitri, e também atrás de mim, a situação mudou. Uma escola inteira está correndo risco e esses alunos não têm nada a ver com essa guerra. A verdadeira Sonya jamais faria qualquer coisa para prejudicar seus alunos então eu sei que não é com ela que estamos lidando. Nós estamos falando de Strigois, Rose e se é isso que Sonya está destinada a ser por toda a eternidade eu não consigo ver um final melhor para ela e menos perigoso para todos do que a morte”, ele respondeu, para minha surpresa, parecendo decidido. Bravura, uma nobre qualidade para um Dhampir mas, quando em excesso, certamente é o pior defeito.

“V-você tem certeza de que conseguirá fazer isso?”, eu perguntei com um nó na garganta, lembrando o quão traiçoeiros podem ser os olhos de um Strigoi.

“Se eu hesitar, não conseguir ou não puder fazer isso, ela é toda de vocês e vocês podem matá-la como bem quiserem. Até então, Sonya é minha”.

Eu nunca saberei se o amor que eu sinto por Dimitri é maior do que o que Mikhail sente pela Sra. Karp, até mesmo porque não há como comparar sentimentos que pessoas diferentes sentem umas pelas outras. O que eu sei, contudo, é que eu não tive coragem de cravar uma estaca no coração de Dimitri quando ele era um Strigoi e Mikhail não só está demonstrando confiança e coragem para fazer isso com a mulher que ama, como também está autorizando qualquer um a matá-la se ele não puder fazê-lo. Se havia ressentimento por trás de tanta confiança, Mikhail não deixava isso transparecer, afinal era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Ou o ressentimento era tanto que ele não se permitiu sequer senti-lo. De uma forma ou outra, era triste ver uma história tão parecida com a minha ter um final tão diferente e trágico e por um momento me senti mal com a situação, como se Mikhail estivesse sendo vítima de uma injustiça, mas me recuperei em seguida ao lembrar que ainda havia uma guerra pela frente, e introjetei a idéia de que o fim da história dos dois significava que muitas famílias não lamentariam a morte de seus entes queridos.

Sacrifícios. Atos que todos nós, Dhampirs, aprendemos a fazer desde a nossa formação, afinal precisamos nos acostumar com a idéia de que nem sempre podemos escolher o que queremos e às vezes precisamos fazer o que não gostaríamos em nome do que é melhor para todos. Assim, por mais triste que fosse o desfecho desta história, Mikhail estava certo. O cenário da escola mudou completamente o rumo das coisas, pois agora a trama estava mais para um filme de terror de proporções catastróficas do que para uma tragédia romântica envolvendo apenas duas pessoas. Não havia o que pensar. Sonya Karp era uma ameaça e precisava morrer.

Após nossa conversa, retornamos para o ginásio. Muitos ainda não entendiam como eu poderia estar viva depois de ter sido oficialmente declarada morta pelo resto da sociedade enquanto outros não acreditavam na veracidade da gravação que havia sido reproduzida. Havia certamente os que estavam deslumbrados com as revelações feitas e dispostos a ficar do nosso lado, mas esses representavam apenas uma parcela dos presentes. Todos, porém, ficaram em silêncio assim que apareci, provavelmente aguardando algum tipo de pronunciamento. Eu não esperava que as pessoas aceitassem a verdade facilmente, por isso não me surpreendi ao ver que eles ainda estavam resistentes, sendo assim eu subi alguns degraus da escadaria que dava acesso ao ginásio para que todos pudessem me ver.

“Pessoal, eu sei que tudo isso parece uma loucura, mas muita coisa aconteceu”.

“O suficiente para não sabermos mais de que lado você está”, uma aluna Moroi disse em voz alta, interrompendo meu discurso. Ok, eu pensei, não vai adiantar eu bancar a boazinha com eles. Eu fechei os olhos brevemente e respirei fundo para encarar a jovem ruiva que havia me dirigido a palavra, pois aquelas palavras me tiraram do sério.

“Você ousa me dizer uma coisa dessas?”. A garota arregalou os olhos, não esperando minha reação. “Eu não consigo acreditar que vocês não sejam capazes de julgar de que lado eu realmente estou?! Aqueles malditos Strigois estão vindo para cá, vocês ouviram bem? E eu estou aqui, ouvindo vocês dizerem coisas absurdas a meu respeito e disposta a lutar para protegê-los! Se ainda assim alguém não entendeu que eu estou do lado do que é certo, é porque tem sérios problemas”.

“Você tem razão. Principalmente se você assassinou a rainha porque achou que era certo. É um problema e tanto!”, um Dhampir engraçadinho resolveu dar a cara a tapa.

“Pela milionésima vez, EU NÃO MATEI A RAINHA!”, eu gritei, já indignada, surpreendendo a muitos. “E eu não estou aqui para discutir isso. Não com vocês! Eu estou aqui porque independente do que vocês pensam a respeito da minha inocência, assim que anoitecer essa escola será atacada por um bando de Strigois sedentos por sangue e eles matarão tudo e todos que estiverem no caminho. Quando isso acontecer eu estarei com a minha estaca em punhos pronta para acabar com a raça deles, quer vocês queiram ou não. E quem não quiser, sinto muito, mas precisará me impedir fisicamente, pois eu não ficarei de braços cruzados assistindo um massacre acontecer”, eu desabafei.

“Modesta você, não? Ao pensar que um massacre aconteceria se você decidisse não lutar?”, o mesmo Dhampir perguntou. Ele deveria ter o que? Uns dois anos a menos que eu? Certamente um formando, ou quase isso. Um formando que não me era familiar, mas que merecia uma lição. Eu virei de costas, tirei a blusa para ficar apenas com uma regata que vestia por baixo e ergui meus cabelos.

“Você vê essas marcas?”, eu perguntei. Tudo que eu ouvi foi silêncio. “Eu lhe perguntei, senhor falante, se você está vendo essas marcas?”. Assim que ouvi um tímido sim sair por entre os lábios dele, eu voltei a encará-lo, sem me preocupar em vestir a blusa novamente. Não foi inteligente, uma vez que o rapaz parece ter apreciado minha exibição. Eu bufei e continuei falando. “Como obviamente você não tem nenhuma marca e não tem a menor idéia do que elas representam na prática, veja se aprenda uma coisa: eu não estou sendo modesta, eu estou apenas constatando o óbvio, ou seja, que eu tenho melhores chances de sair viva de uma batalha contra Strigois do que você, o que significa que eu posso proteger muito mais pessoas. É o que essas marcas dizem, que eu tenho mais experiência do que você, meu querido. Então eu sugiro que você faça um favor a todos e cale a sua boca, porque você não tem a menor idéia do que está prestes a enfrentar”.

Dimitri então se aproximou, colocando a mão sobre o meu ombro e dando uma leve apertadinha. Eu respirei fundo e então encarei os profundos e intensos olhos castanhos de Dimitri, que não só me derreteram imediatamente, mas também disseram que eu precisava controlar meu temperamento.

O garoto então cruzou os braços, parecendo não ter se abalado nem um pouco com o meu discurso e apontou a cabeça na direção de Dimitri.

“Então por que ele não nos mostra?”. Eu olhei para Dimitri rapidamente e de volta para o garoto, dessa vez com um sorriso surgindo no canto da boca.

“Sabe que para um Dhampir desaforado, você até teve uma boa idéia… hã… desculpe, mas qual o seu nome mesmo?”, eu perguntei apontando-lhe o dedo. Com uma expressão de vitória no rosto, ele deu um passo a frente, ainda com os braços cruzados.

“Zach Schoenberg, a seu inteiro dispor”, ele disse parecendo orgulhoso. Assim que o sobrenome dele foi pronunciado meu sorriso começou a desaparecer.

“Zach Schoenberg, o filho mais novo de Arthur Schoenberg, o legendário assassino de Strigois?”, eu perguntei parecendo uma retardada.

“O próprio”, ele respondeu. Atrás de mim eu escutei Dimitri rindo baixinho e automaticamente me transportei para o passado, quando a mesma coisa aconteceu no dia que Dimitri contou que quem aplicaria o meu teste qualificador seria justamente o legendário Arthur.  Eu fiquei apavorada por saber que seria avaliada por alguém tão importante e Dimitri riu da minha reação. Mais tarde porém, o encontramos morto juntamente com a família que ele protegia, todos assassinados brutalmente por Strigois que contaram com a ajuda de humanos para destruir a proteção da magia Moroi existente ao redor da casa.

E agora eu estava diante do filho mais novo dele, acusando-o de não saber o tipo de perigo que estávamos prestes a enfrentar e me gabando por ter mais experiência, sendo que na verdade Zach sabia o tipo de perigo que estava se aproximando com a chegada da noite. Ele pode não ter lutado diretamente contra aqueles monstros, mas ele sabe que o pai dele foi pego de surpresa e perdeu a batalha mesmo sendo muito mais experiente. E Zach pode não ter suas marcas ainda, porém ele deve ter aprendido muita coisa com seu pai, coisas que não se aprende na escola e que somente aqueles que já tiveram a chance de matar um Strigoi de verdade podem saber. Considerando tudo isso, eu provavelmente não estava falando com nenhum Dhampir metido a besta que gostaria de chamar a atenção e aparecer. Eu estava falando com alguém que sabe o que é ter uma pessoa importante tirada de sua vida inesperadamente por Strigois, alguém com a mesma sede de vingança que eu.

Dimitri deveria saber de quem ele era filho e por isso veio até mim, pedir que eu moderasse minhas palavras, mas eu estava alterada demais para ter qualquer sentimento de compaixão ou piedade por alguém naquele momento. A raiva era tanta que havia me deixado momentaneamente cega, afinal tudo que eu queria era ser aceita por todos para podermos lutar em unidade, sem me preocupar em ser atacada por algum Dhampir revoltado e, no entanto, tudo parecia tão difícil!

Talvez  no intuito de facilitar um pouco as coisas, para minha surpresa, Kirova apareceu escoltada por seus guardiões pessoais e com uma expressão séria e nada simpática.

“Em nome desta escola eu gostaria de anunciar que a guardiã Rosemarie Hathaway é bem vinda e terá todo o apoio que ela quiser e precisar para enfrentar a batalha contra nossos inimigos na noite de hoje. Por isso todos aqueles que tiverem algum problema em permanecer na companhia dela, eu vou pedir que, por favor, deixem a escola enquanto ainda é dia e seguro para vocês se deslocarem, pois aqui queremos apenas aqueles que estão dispostos a lutar a favor do mesmo propósito que nós e nas condições que estipularmos”.

Facilitar as coisas? Diante das palavras da diretora da escola, o caos novamente tomou conta do ginásio. Kirova havia sido bem clara e parecia irredutível na sua decisão e alguns dos presentes não gostaram disso, certamente aqueles que ainda acreditavam fielmente na lei e nos nossos governantes, sentindo-se traídos ao me ver viva e recebendo regalias enquanto eles estavam sendo convidados a se retirarem da escola por não concordarem com a minha presença lá. Por um lado era bom saber que dessa forma eu teria apenas aliados ao meu lado, porém me preocupava o fato de essas pessoas saírem da escola espalhando por aí a notícia de que eu estava viva, pois certamente isso chegaria aos ouvidos de Eugene e isso só poderia ser traduzido em uma palavra: perigo.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 33

Alberta parece ter gostado da idéia de Zach tanto quanto eu. Dimitri já havia sido um Strigoi então por que não aproveitá-lo para aprendermos mais sobre nosso principal inimigo? Era tão lógico que chegava a ser vergonhoso ninguém ter pensado nisso antes, nem mesmo Dimitri. Então assim que Kirova passou seu recado e meia dúzia de estudantes decidiu entrar em contato com seus pais e deixar a escola imediatamente, o resto de nós ficou onde estava, pois ao que tudo indicava, haveria um treino intensivo pré-batalha ali mesmo. Antes da ação, porém, Dimitri ministrou uma espécie de palestra, informando coisas básicas que um Dhampir deve saber sobre Strigois.

“Primeira lição. Se eles decidirem que você precisa morrer, será só uma questão de tempo, pois eles não irão parar até atingirem seu objetivo. Se eles decidirem que você merece viver, corra, pois significa que eles têm intenção de transformá-lo em um Strigoi também. A melhor solução de todas? Mate um Strigoi antes que ele decida o que fazer com você. Mas isso não é uma tarefa fácil, pois eles são mais rápidos e ágeis do que nós, logo evitem ir para lugares muito abertos. Eles farão vocês correrem e cansarem desnecessariamente. Outra coisa. Ao contrário do que pode parecer, Strigois tem facilidades em ler as emoções de seus oponentes, portanto eles saberão se vocês estão com medo, confiantes, se sabem o que estão fazendo ou não. Mostre-se vulnerável e você está morto, porque Strigois gostam de uma boa briga e não perderão tempo com coisas bobas. Se o alvo diante deles não for atrativo o suficiente, tudo que eles farão é eliminá-lo o mais rápido possível para poder encontrar algo a sua altura”. Dimitri fez um breve pausa para que as informações fossem registradas e então continuou.

“Como vocês bem sabem, Strigois são criaturas brutas, portanto não sejam gentis com eles. Não há nada mais intrigante e até mesmo…“. Dimitri fez uma pausa, encarou meus olhos rapidamente e então continuou, com um leve sorriso no rosto. “…excitante para Strigois do que lutar com alguém que eles sabem que pode matá-los, portanto outro conselho, não mostre imediatamente todo seu potencial, pois isso pode chamar atenção demais e eu acho que ninguém aqui quer ter um Strigoi na cola por mais tempo do que é necessário para matá-lo”, ele finalizou.

Eu não conseguia acreditar. Dimitri por acaso acabou de dizer que quando era um Strigoi ele achava excitante lutar comigo e fazer aquele jogo todo só porque ele sabia que eu era capaz de matá-lo, se eu quisesse, é claro?! Todas aquelas ameaças com suas presas próximas do meu pescoço, provocando-me ao extremo, pedindo para eu perder o controle e começar algo, uma luta, talvez mais? Céus, ele estava certo, realmente era excitante, eu pensei, mordendo meu lábio e ao mesmo tempo me obrigando a voltar a prestar atenção nas palavras de Dimitri, que agora explicava sobre a forma como Strigois lutavam.

“Por razões lógicas, eles protegerão muito mais a região do peito do que qualquer outra, então enquanto não for possível acertar o golpe no coração deles, ganhem tempo atingindo os membros inferiores, cortando-lhes pés e pernas, o máximo que puderem. Isso diminuirá a velocidade deles por alguns segundos que podem ser preciosos numa situação de emergência, além de vocês estarem protegendo regiões vitais de vocês por estarem curvados para esse tipo de ataque. Regiões próximas ao peito doem mais e qualquer golpe forte na região da cabeça causa um grande incômodo, mas se decidirem fazer qualquer uma dessas coisas, tenham certeza do que estão fazendo, pois ao atingir essas áreas, ficamos mais vulneráveis por expormos mais nosso corpo, então tenham cuidado. E uma vez que tiverem a chance de acabar com um deles, não hesitem. Considerem isso uma lei”.

Dimitri ficou um bom tempo dando dicas de ataques em diversas situações, sugerindo sempre abordagens mais cautelosas, evidenciando que não tínhamos os números em nossa vantagem e que não poderíamos desperdiçar vidas na tentativa de fazer um ataque perfeito. Eu sempre critiquei muito esse lado cauteloso de Dimitri, mas agora eu entendia que às vezes isso era realmente necessário.

Os alunos e demais presentes prestavam atenção em cada orientação dada, como se aquela fosse a batalha de nossas vidas. E de alguma forma, era. Sem querer desmerecer este confronto, eu já lutei em situações mais difíceis, sendo atacada de surpresa e por um número maior de Strigois. Os complicadores dessa vez, porém, iam além do confronto em si, pois esses Strigois queriam mais do que atacar, eles queriam acabar com aquele que agora representa uma ameaça para a raça deles, Dimitri. E quando qualquer ser está lutando pela sobrevivência da espécie, não há regra, não há limite, não há o que se esperar deles, pois quando se trata de viver, mesmo para um Strigoi, tudo é possível. Por isso estávamos sendo cautelosos. Normalmente antes de uma batalha como essa costumamos descansar, nos alimentarmos bem para termos forças e concentração na hora certa. Mas não dessa vez. Não havia porque descansar porque se os novatos não tivessem um mínimo de instrução sobre como enfrentar esses Strigois, a tragédia seria pior do que se lutassem descansados.

Sendo assim, logo depois que Dimitri terminou sua explanação, Alberta subiu até onde estávamos, parou na nossa frente e colocou as mãos na cintura, imponente.

“Preparados para um pouco de ação?”, ela perguntou com um sorriso no rosto, antes de pedir que abrissem um espaço no meio da multidão para ser a arena improvisada onde lutaríamos, demonstrando algumas das situações mencionadas anteriormente. Além de mim, lutariam Alberta, Zach, nosso convidado especial, por ser filho de um dos assassinos de Strigois mais famoso da história e Dimitri, nosso Strigoi particular.

Os demais guardiões presentes foram limitados a manter a ordem dos alunos enquanto nossa encenação acontecesse, afinal, sabíamos muito bem que lutas entre guardiões de renome sempre geram uma certa euforia nos espectadores, por mais que todos saibam que não se trata de uma luta real. Não que eu fosse famosa como Alberta ou Dimitri, mas eu já me meti em confusões de grande repercussão, logo eu tinha minha fama também.

Todos prontos para o começo do confronto, Dimitri se posicionou no centro da roda e foi encarando cada um de seus adversários.

“Você”, ele disse apontando um dedo para Zach, o chamando para lutar. Eu não fiquei surpresa ao ver Zach mostrar-se confiante, afinal ele era filho de uma lenda e agora era o momento de ele mostrar ao mundo tudo o que havia aprendido com o seu pai. Um garoto com porte de guerreiro. Talvez a vida o tenha feito amadurecer mais rápido, vai saber. Independente disso, ele parecia se destacar com a sua cabeça raspada, provavelmente com a máquina dois ou três, pois era possível ver com clareza a cor natural de seus cabelos. Preto, bem como petróleo. Olhos castanhos esverdeados, adornados por largas sobrancelhas escuras, davam um ar sombrio àquele corpo bem trabalhado, principalmente porque o garoto parecia cobrar para sorrir. Definitivamente uma expressão talhada pela dureza da vida, eu pensei.

Uma coisa porém chamou minha atenção assim que Zach deu alguns passos adiante, aceitando o desafio proposto por Dimitri. Havia uma cicatriz horizontal de aproximadamente dez centímetros esculpida na parte de trás da cabeça dele. Pela aparência da marca, parecia algo recente mas que o acompanharia pelo resto da vida. E céus, como deve ter doído! Onde ele teria conseguido uma marca tão profunda como aquela? Durante alguma luta, ou talvez em um acidente? Difícil deduzir. Talvez a única forma de saber seria perguntando a ele, sem garantias de se ter uma resposta, pois Zach tinha tudo para ser uma pessoa fechada.

“Então é isso, Schoenberg Júnior. Mostre que você não é uma vergonha para a raça”, Dimitri disparou, arrancando vários gritos entusiasmados da platéia. Eu admito que fui pega de surpresa por essas palavras, mas Dimitri estava bancando um Strigoi e Strigois nunca são gentis ou delicados em seus discursos. Parte da estratégia deles é tirar o oponente do sério, mexendo com o psicológico do adversário. Se acertarem um ponto fraco então, melhor ainda. Nada melhor do que lutar contra alguém enfurecido não é mesmo? Torna tudo mais… excitante, eu pensei, recordando as palavras de Dimitri. E era exatamente isso que ele estava fazendo com Zach, provocando-o com algo que talvez seja o pior pesadelo de quem é filho de pais famosos: ser eternamente considerado uma sombra deles. Eu sei quão perturbadora pode ser essa sensação e talvez por essa razão eu tenha sentido a necessidade de prestar meu apoio ao novato.

“Ei, Zach”, eu gritei. Ele olhou na minha direção sem pestanejar, como se soubesse que estava sendo chamado por mim e então eu lhe joguei uma das estacas de treino. “Acabe com ele”, eu o incentivei, fazendo a platéia ir a loucura novamente. Se não estivéssemos na véspera de um ataque de Strigois, até que isso estaria sendo divertido.

Zach segurou a estaca com firmeza na mão esquerda, voltando a encarar Dimitri imediatamente. Um canhoto, quem diria?

“Com o maior prazer, Belikov”, Zach prontamente rebateu, adotando uma posição de ataque. E a dança começou. Desconsiderando as orientações de Dimitri, Zach não demorou muito para mostrar seu potencial, indo para cima de Dimitri com a ferocidade de um demônio e força de um animal, movimentando-se com rapidez e inteligência. Zach não estava brincando em serviço e parecia estar tirando o couro de Dimitri. Eu estava impressionada e pela reação dos espectadores, eles também estavam, pois se aquela estaca fosse de verdade, Dimitri já teria sido atingido em um dos braços, na coxa esquerda e no ombro direito. O que havia de errado com ele?

Zach dominou Dimitri rapidamente, derrubando-o no chão, sentando-se sobre ele e imobilizando um de seus braços, permitindo que fosse agarrado pela camiseta para pelo menos manter a outra mão de Dimitri ocupada, pois a única coisa que ele poderia fazer com aquela mão seria tentar impedir que Zach se aproximasse da região mais vulnerável de um Strigoi, o peito. Então Zach precisaria agir rápido, debruçando-se sobre Dimitri usando sua força para vencer a de seu oponente e poder atingi-lo com a estaca. Mas quando Zach jogou seu peso contra o braço de Dimitri, na certeza de que ele cederia o suficiente para agir,  Dimitri simplesmente cuspiu no rosto de Zach, precisamente nos olhos dele e em dois segundos, tempo que Zach levou para sacudir a cabeça e se recuperar da surpresa, Dimitri com força afastou de si a mão que segurava a estaca apontada para seu coração. Com tanta força, aliás, que fez Zach perder o equilíbrio. Um segundo depois, Dimitri estava montado sobre Zach, simulando uma quebra de pescoço que teria sido mortal em uma batalha de verdade.

“Você sabe qual foi o seu erro?”, Dimitri perguntou, ainda sobre Zach. “Você foi morto por se deixar ser surpreendido pelo cuspe de um Strigoi. Quando se trata dessas criaturas, você não pode ser surpreendido por nada. Você precisa estar preparado para tudo, garoto”, ele fez uma breve pausa enquanto saía de cima de Zach e então finalizou, falando baixinho para somente ele ouvir. “E você já deveria ter aprendido essa lição com a morte do seu pai”. A maioria das pessoas ao redor não ouviu nem percebeu o impacto das palavras de Dimitri, pois estavam ocupadas demais vibrando e comemorando a vitória dele como um bando de ogros, mas eu estava próxima o suficiente para presenciar tudo. Algo diferente parece ter brilhado nos olhos de Zach, que se levantou, parabenizou Dimitri e caminhou em direção ao aglomerado de pessoas, penetrando por entre elas para sair dali. Eu fiquei indignada! Que necessidade tinha Dimitri de insinuar que Zach deveria ter aprendido alguma coisa com a morte do pai dele? Possessa, eu o puxei pelo braço.

“Qual é o seu problema? Para sua informação se você tivesse seguido o seu próprio conselho e se ele fosse tão infalível assim, você não teria sido transformado em um Strigoi, em primeiro lugar! Quer ensinar uma lição, tudo bem, mas não precisa ser cruel. Você não é mais um Strigoi, Dimitri, tente lembrar disso”, eu falei entre os dentes, soltando o braço dele e, sem esperar por uma resposta, disparei atrás de Zach, parando apenas para dizer a Alberta que era a vez dela de enfrentar Dimitri, uma boa forma de manter todos ocupados e impedir que Dimitri tentasse vir atrás de mim.

Como os acessos ao ginásio haviam sido fechados, não foi nenhuma surpresa ver Zach entrar na única sala cuja porta não havia sido chaveada, a sala onde eu e Abe havíamos conversado com Mikhail pouco tempo atrás. Diante da porta que ele havia fechado ao passar, eu parei um instante e pensei no que eu diria a ele, afinal eu nem conhecia esse garoto. Não importava, eu pensei ao bater na porta e entrar mesmo sem ele responder.

Zach estava de frente para a janela, pernas levemente afastadas, braços aparentemente cruzados, postura ereta como a de um guardião em serviço.

“Você está bem?”, eu perguntei com a voz meio trêmula, temendo falar uma bobagem tão grande quanto a de Dimitri. Quando Zach não respondeu, eu continuei, andando de um lado a outro da sala com as mãos inquietas. “Olha, Dimitri foi um idiota por ter dito o que disse. Tente não dar bola pra esse tipo de coisa, por favor. Ele ainda está se adaptando a ser ele mesmo novamente”, eu tentei justificar.

“Por que você está aqui?”, ele perguntou parecendo incomodado.

“Eu estava apenas… Deixa pra lá. Eu vou deixar você sozinho”, eu disse já começando a ficar arrependida de ter sentido compaixão por ele.

“Apenas o quê?”, Zach continuou conversando como se não tivesse ouvido que eu esta saindo da sala e por alguma razão eu parei assim que ouvi a voz dele. Zach então se virou para mim e ficou encostado na parede. “Então?”.

“Rosemarie Hathaway, prazer em conhecê-lo”, eu disse ao ir até ele e estender-lhe a mão. Zach me olhou com um ponto de interrogação na testa, mas acabou sorrindo, finalmente. Um sorriso perfeito, diga-se de passagem, típico de um arrasador de corações.  Eu sacodi minha cabeça. Foco, Rose!

“Zachary Schoenberg ou apenas Zach, se preferir”,  ele disse educadamente apertando minha mão de volta. “Prazer em conhecê-la também”.

Assim que soltamos nossas mãos eu me afastei alguns passos.

“Então, Rose… posso chamar você assim?”.

“Nossa, sim, por favor! Eu até acho estranho quando me chamam pelo meu nome inteiro”. Ele riu novamente.

“Bem, você dizia que estava aqui porque…?”.

“Ok, eu vou ser sincera com você. Eu vi o quanto você ficou incomodado com o que Dimitri lhe disse e eu vim checar se você estava bem”.

“Obrigado pela consideração, mas eu estou bem, eu juro. Nada com que você precise se preocupar”.

“É, você parece bem”, eu repeti meio sem saber o que dizer. “Bom, então eu vou… você sabe… voltar para o ginásio”, eu me enrolei toda para dizer o que queria. Bom trabalho Rose, agora ele vai pensar que você tem necessidades especiais ou algum tipo de retardo mental.

“Ok…”.

“É… eu ainda tenho que lutar contra Dimitri. Você sabe…ensinar uma lição a ele. Considerando que eu sou…”.

“A mãe dele?”, Zach perguntou, me pegando desprevenida.

“O quê? Não! Eu…”, então eu comecei a rir entendendo o sarcasmo implícito na pergunta dele. “Eu ia dizer que eu sou ex-aluna dele. Eu sei como ele luta e inclusive já o venci uma vez, então eu tenho alguma chance”.

“De ensinar uma lição a ele?”, Zach repetiu tentando não entregar que estava se divertindo com o meu nervosismo.

“É…”, eu disse me dirigindo até a porta. “Ele foi um garoto mau”, eu tentei entrar na brincadeira e parecer mais inteligente. Zach atirou sua cabeça para trás soltando a risada que estava segurando a um bom tempo.

“Realmente foi um prazer conhecer você, Rose Hathaway”, ele disse, ainda achando graça, quando eu estava já do outro lado da porta, pronta para fechá-la novamente.

“Eu sei, é difícil resistir aos meus encantos”, eu brinquei, puxando a porta logo atrás de mim, parecendo ter ouvido Zach concordar assim que a fechei por completo, o que me fez pensar que diabos tinha acontecido ali dentro.

Ao retornar para o ginásio, encontrei Alberta e Dimitri duelando, um espetáculo realmente interessante de se ver, já que Alberta faz parte do que eu chamaria de antiga cavalaria e Dimitri pertence a uma geração nova de guardiões. Porém o que me chamou a atenção foi a diferença da luta entre Zach e Dimitri em relação a esta, pois aqui os dois não pareciam estar competindo para vencer, era uma luta didática, onde eles atacavam explicando porque e como aplicar cada golpe.

“Aí está você!”, Alberta anunciou ao me ver de volta. “Nós estávamos praticando alguns golpes até você aparecer, já que eu acabei com o nosso monstro em cinco minutos”. Ela disse dando um leve soquinho no braço de Dimitri. Por um momento eu pensei que Dimitri deve ter deixado Alberta ganhar por uma questão de respeito, mas ao olhar para ele eu percebi que deve ter sido um dos cinco minutos mais longos da vida dele, pois além de completamente suado, ele parecia exausto. Muito bem, Alberta. Ao menos alguém ensinou a ele uma lição.

“Então…”, eu disse entrando para a roda onde ocorreria a próxima luta, “Você está preparado perder novamente?”, eu o desafiei. Dimitri me encarou por um instante, me estudando, antes de responder.

“Vamos ver o que você tem aí”, ele disse, sabendo que eu colocaria toda minha raiva para fora nessa briga.

“Eu espero que você não facilite para me deixar ganhar”, eu falei ao amarrar meu cabelo com um elástico, olhando bem dentro dos olhos de Dimitri.

“E eu espero que você não hesite novamente”, ele rebateu. E com isso a luta começou. Dimitri partiu para cima de mim tentando me acertar golpes na cabeça e torso, mas eu defendi todos eles com facilidade. Com isso Dimitri se aproximou perigosamente de mim e na tentativa de afastá-lo eu ameacei chutá-lo na boca do estômago, mas Dimitri conseguiu segurar meu pé mesmo tendo recuado para evitar o golpe, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio. Eu estava em queda livre em direção ao chão e minhas costas certamente não seriam mais as mesmas depois do impacto, já que nessa parte do ginásio o chão não era almofadado. Eu aprendi que ao tentar corrigir uma queda é quando mais nos machucamos, motivo pelo qual bêbados e crianças pequenas, quando caem, parecem se machucar menos. Então eu tentei relaxar e apenas me permitir cair.

Não durou muito tempo, pois quando viu que eu estava caindo, Dimitri soltou meu pé e segurou um dos meus braços para que eu não me esparramasse no chão como uma geléia. Porém como eu já estava próxima demais do chão, ele apenas foi aos poucos me soltando até que minhas costas tocassem suavemente o solo. Uma vez deitada, Dimitri montou em cima de mim, segurando meus braços para cima, um de cada lado da cabeça. Os cabelos dele haviam se soltado e caíam ao redor  do rosto conforme ele baixava a cabeça para me encarar. Eu não relutei contra a imobilização, então ele nem precisou fazer esforço para me manter daquele jeito.

“Você não vai me dizer qual foi o meu erro?”, eu perguntei ironicamente, sem me dar o trabalho de tentar tirá-lo de cima de mim.

“Não, você estava certa. O erro foi meu, desculpa”, Dimitri respondeu baixinho, se referindo ao incidente com Zach. Não era o que eu estava esperando, mas mesmo surpresa eu sabia que Dimitri estava falando sério, eu via isso nos olhos dele. Parecia haver algo mais, mas seja la o que for, agora não era o momento para discutirmos isso.

“Tudo bem”, eu finalmente disse, desviando o olhar por me sentir um pouco culpada pela forma como o havia tratado antes.

“Roza?”, Dimitri chamou me fazendo voltar a olhar para ele. “Eu amo você”, ele sussurrou para que somente eu ouvisse. Sorrindo, eu levei minhas mãos até os cabelos dele, que estavam soltos e caídos ao redor de seu rosto, para colocá-los atrás da orelha. Com um olhar apaixonado que não denunciaria minhas intenções, eu puxei os cabelos dele com força, fazendo-o perder a concentração por alguns segundos. E eu estava de volta ao jogo.

Quando Dimitri se esquivou pela dor que não estava esperando sentir eu consegui soltar uma de minhas pernas e posicioná-la contra o peito dele, empurrando-o para longe. Como Dimitri não soltou meus braços em nenhum momento, rolamos como uma bola, invertendo nossas posições. Agora eu estava sobre ele. Meus pulsos, porém, ainda estavam sendo agarrados pelas garras de ferro de Dimitri, me obrigando a bater com a mão dele contra o chão até que ele me soltasse. Assim que isso aconteceu, eu não perdi tempo, agarrei minha estaca, que estava presa à cintura e apontei para o peito dele, determinando o fim da batalha e minha vitória.

“Eu amo você também”, eu sussurrei de volta, sorrindo maliciosamente. “E me desculpa pelo cabelo”, eu disse em seguida, mordendo o lábio e realmente lamentando teê-lo puxado com tanta força.

“Rose, você está toda suada em cima de mim, pressionando o seu corpo contra o meu para me manter preso ao chão e dizendo que me ama. Acredite, valeu a pena”, Dimitri disse, dando uma piscadela e me fazendo arrepiar toda.

Colocando a estaca de volta ao meu suporte na cintura, eu levantei do chão antes que eu me derretesse por completo e simpaticamente ofereci minha mão para ajudar Dimitri a se levantar. Obviamente ele não precisava de ajuda nenhuma, mas ainda assim segurou minha mão, me fazendo perceber, pelo olhar que recebi em seguida, que ele havia feito aquilo apenas pelo prazer de poder me tocar em público sem chamar atenção para o clima que havia surgido entre nós.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 34

Por volta do meio dia o treino havia terminado. Técnicas foram demonstradas, informações sobre Strigois foram dadas e as dúvidas, esclarecidas. Não havia mais nada a fazer a não ser esperar a hora certa chegar. Alberta sugeriu aos menos experientes que ficassem um pouco mais no ginásio colocando em prática os novos conhecimentos e, para minha surpresa, a maioria acabou fazendo exatamente isso, o que era bom, pois a espera poderia ser muito estressante e treinar serviria para pelo menos dar um pouco mais de confiança a eles. Ao mesmo tempo em que isso era muito bom, era algo que me incomodava porque fazia com que eu me sentisse uma hipócrita, afinal quando Tatiana aprovou a lei da redução de idade para formação de Dhampirs, eu fui uma das pessoas que mais se mostrou revoltada com essa decisão e agora, no entanto, eu estava aqui ensinando a estudantes, que sequer haviam se formado, qual a melhor maneira de se matar um Strigoi!

Maldita eleição, eu pensei. Se não fosse por isso poderíamos recrutar alguns guardas reais e fortalecer nosso exército ao invés de colocar a vida de jovens em risco. A única coisa que me confortava um pouco era pensar que poderia ser pior, afinal pelo menos esses novatos estavam participando dessa batalha por livre espontânea vontade e não por determinação de uma lei superior, como alguns Morois estavam planejando impor. Se não fosse pela lei aprovada por Tatiana, antes de ser assassinada, esse golpe contra Dhampirs poderia ter sido aplicado já há algum tempo, o que por um momento me obrigou a pensar que, de repente, a lei da redução de idade para formação de Dhampirs não era a medida paliativa perfeita, mas talvez fosse a única na ocasião. Eu só não saberia dizer até quando ela funcionaria, já que esse ataque nos forçou a interromper as investigações a respeito do irmão ou irmã de Lissa e, sem termos como colocá-la entre os conselheiros, por conseqüência dando-lhe direito a votar contra uma medida radical, era só uma questão de tempo até que o pior acontecesse.

Minha mãe e Lissa em breve chegariam na corte e eu queria acompanhar tudo de perto, então para não ficar mais ansiosa, além de desperdiçar horas preciosas, eu decidi que não assistiria ao treino dos alunos e resolvi ir a um lugar que há muito tempo eu não ia, enquanto isso. À igreja.

Eu nunca escondi a minha falta de religiosidade de ninguém. Em um dia normal eu jamais pensaria em passar por ali, mas hoje eu senti como se precisasse. Era como se algo dentro de mim soubesse que ali eu poderia me concentrar em tudo que estava acontecendo e me fortalecer para o que estava por vir. Eu não conseguiria chegar lá e simplesmente fazer um pedido, pois seria demais pedir algo a uma entidade para a qual eu viro as costas praticamente o resto dos dias e ainda querer ser atendida, porém eu me sentiria bem o suficiente apenas ficando sentada em um dos bancos, pensando em silêncio com meus olhos fechados. Decidida a fazer isso, com os acessos ao ginásio liberados novamente, nada mais poderia me impedir. No entanto, minha determinação foi arruinada assim que ouvi meu nome ser chamado atrás de mim.

“Rose, onde você está indo?”. Eu reconhecia aquela voz, mas apenas pela pergunta em si eu saberia que se tratava de Abe. Ninguém, em toda minha vida, esteve tão interessado em saber aonde eu estou indo como ele.

“Importa, por acaso? Se você está aqui me fazendo essa pergunta é porque não aprova a idéia, então apenas faça o favor de ir direto ao assunto”.

“Nós temos uma visita”, Abe disse ignorando meu resmungo. Visita? Quem seria louco de nos fazer uma visita na véspera de um ataque, eu pensei. “Ela está na sala da direção esperando e eu acho que dessa vez seria bom você estar junto”, Abe finalizou já me conduzindo até lá.

“Ela quem?”, eu disse já curiosa.

“Vou deixar que você veja com seus próprios olhos”. Tão típico de Abe manter o mistério até o último momento.

Ao abrir a porta da sala de Kirova eu não acreditava no que meus olhos viam. Era Lillian Demir, em carne, osso e arrogância.

“Desculpe a demora, Sra. Demir. Eu não conseguia encontrar minha filha e eu queria que ela participasse dessa conversa”, Abe disse.

“Sem problemas, Sr. Mazur”, ela disse a Abe, virando imediatamente para mim. Eu a cumprimentei acenando com a cabeça e exibindo um simpático sorriso, que foi retribuído por ela da mesma maneira. Foi quando eu percebi que na verdade Lillian não era uma mulher arrogante. O que a fez parecer uma megera foi o feitiço que Abe colocou nos acessórios que eu estava usando na primeira vez que ela me viu. Agora ela estava sendo tão simpática comigo que eu poderia levá-la para casa e ainda chamá-la de vovó!

“Então vamos ao que interessa. O que lhe trouxe aqui novamente, mesmo com a iminência de um ataque de Strigois à escola?”, meu pai questionou.

“Eu posso parecer uma senhora inocente e indefesa, senhor Mazur, mas eu sei em que tipo de mundo nós vivemos e por isso eu vim com o meu próprio jatinho, pilotado por pessoas de minha confiança, na certeza de estar no aconchego de minha casa quando o sol se por e esse lugar ser tomado por aquelas criaturas da noite”, Lilliam respondeu, parecendo não tão mais simpática assim. “Além do mais, o motivo que me trouxe aqui não poderia esperar”, Lillian alfinetou antes de se acomodar na cadeira que sentava e continuar. ”Saiba que aquela nossa primeira conversa acabou me lembrando de como eram bons os tempos antigos. Veja bem, Sr. Mazur, há mais ou menos vinte anos eu jamais precisei me preocupar com o que acontecia na sociedade real porque tudo sempre funcionou como precisava funcionar. Quem precisava lidar com a lei e as burocracias estava lá e nós apenas confiávamos que aquelas pessoas cumprissem com as suas obrigações. Nós nos sentíamos seguros, embora agora eu saiba que não deveria ter me sentido assim”.

“Eu não sei do que exatamente a senhora está falando, Sra. Demir”, Abe disse, com um olhar através do qual eu pude ver que na verdade ele estava apenas sondando para saber até onde ela levaria esta história.

“Bem, como eu disse, eu fiquei um pouco nostálgica com a nossa conversa e assim que saí daqui resolvi ir atrás de notícias ou fotos, qualquer coisa que fosse relacionada àquele incrível homem que eu conheci por apenas um dia, mas que mudou a minha vida para sempre. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ele havia mentido sobre o próprio nome!”, ela exclamou. “O homem que eu e Emily conhecemos como sendo Arthur e por quem nos deixamos ser enfeitiçadas, na verdade chama-se…”.

“Eric Dragomir”, eu completei a frase de Lillian, sem me preocupar em revelar a ela a verdade.

“Como você conhece esse nome?”, ela perguntou numa mistura de confusão e surpresa. Eu estava começando a dizer que era uma longa história, quando Abe resolveu se intrometer.

“Em resumo, nós já sabíamos dessa informação quando tivemos aquela nossa primeira conversa, Sra. Demir. Eu não lhe contei a verdade naquele momento pois poderia comprometer nossas investigações”.

“Sim, eu lembro muito bem de ouvir você dizer que estaria investigando o paradeiro de uma criança que poderia ser irmã de uma jovem órfã que pensava estar sozinha no mundo. Mas eu não sou uma senhora ingênua e fácil de enganar, Sr. Mazur. Se Arthur, quero dizer, Eric Dragomir, for o pai da criança que o senhor está procurando, ela só pode ser irmã de uma pessoa na face da Terra e eu tenho certeza de que o senhor sabe de quem estou falando”, Lillian disparou sem piedade evitando dizer o nome de Lissa em voz alta, como se alguém pudesse estar escutando nossa conversa.

Com essa revelação eu tive certeza de que o papo levaria mais tempo do que eu estava imaginando, então me atirei sobre uma poltrona, jogando minhas pernas por cima do braço da mesma e fiquei conferindo o estado das minhas unhas. Mesmo sem olhar, eu sentia a tensão de Abe, como se ele estivesse medindo suas opções.

“Para uma pessoa que dizia não saber muito sobre famílias reais, até que a senhora está bem informada, Sra. Demir”, Abe finalmente disse. Lillian deu um sorriso maroto antes de responder.

“Quando você ligou para agendar um encontro comigo, eu achei estranho, principalmente quando fiquei sabendo que Arthur, ou Eric, não importa, era o cerne da discussão. Eu procurei ser cautelosa nas respostas enquanto observava atentamente o seu comportamento e percebi que em determinados momentos o senhor mostrava-se mais interessado. E era sempre quando Arthur era mencionado. Eu não tinha a menor idéia de quem era aquele homem, pois nunca me dei o trabalho de procurar algo sobre aquela pessoa que vi apenas por um dia, mas sua reação despertou minha curiosidade”.

“Mas a senhora já conhecia Eric?”, Abe perguntou se referindo ao pai de Lissa apenas pelo primeiro nome, sem a menor consciência disso.

“Quem não conhece? A história dele é uma questão que envolve toda a sociedade, eu diria”. Mais do que a senhora, imagina, eu pensei. “Porém, quase vinte anos depois eu jamais conseguiria associar que ele era o misterioso homem que conheci no Witching Hour quando eu ainda tinha 50 anos. O tempo muda as pessoas, Sr. Mazur. O que talvez o senhor deveria perguntar é se Emily Mastrano sabia que Arthur na verdade era Eric?”.

Abe não respondeu de imediato, o que me fez olhar para ele tentando entender o que estava acontecendo. Então ele falou.

“Bem, durante toda conversa que tivemos com Emily, ela sempre se referiu ao homem da foto que lhe mostramos como sendo Arthur, então não. Eu acho que Emily não sabia de nada. E assim como ela, a senhora não saberá, Sra. Demir”.

“Abe, mas que diabos…?”, eu perguntei levantando com um sobressalto de onde estava sentada. Abe apenas ergueu uma das mãos na minha direção, indicando que eu ficasse quieta e continuou.

“Você vai esquecer o que descobriu sobre Eric Dragomir, Sra. Demir. Arthur voltará a ser apenas um misterioso homem que você conheceu e nunca mais viu na vida. Mantenha suas lembranças originais a respeito daquele dia e esqueça o motivo que lhe trouxe até aqui hoje”, Abe finalizou, ainda mantendo contato visual com Lillian, que parecia completamente hipnotizada. Parecia não, ela estava, considerando que Abe acabara de usar sua magnífica compulsão sobre ela. “Agora vá, antes que seja tarde demais”, ele ordenou a pobre senhora que, sem dizer uma única palavra, deixou a sala da direção. Nós nem nos preocupamos em verificar se ela estava indo pelo caminho certo. O fato de ter sido Abe a compeli-la e não outra pessoa nos dava a garantia disso.

“Por que, Abe? Ela estava apenas tentando ajudar”, eu tentei entender.

“Porque a informação que ela tinha não nos era mais útil, mas poderia ser de grande interesse para nossos inimigos, caso isso caísse nos ouvidos das pessoas erradas. Além disso, qual a necessidade de estragar as lembranças que Lillian tinha de alguém que mesmo sem estar presente fez diferença na vida dela? Quando tudo que nos resta de uma pessoa importante são lembranças, o medo de perdê-las é constante e dor de tê-las abaladas é forte demais”, Abe disse com sabedoria, parecendo saber do que estava falando por experiência própria e por isso não entrei em detalhes. Não se mexe com sentimentos que estão quietos, não é mesmo?

Com Lillian despachada para fora da escola e minha visita a igreja arruinada, eu pedi licença a Abe para me retirar, pois eu ainda precisava ir até meu quarto tomar um banho e eliminar do meu corpo aquele suor decorrente de horas de treino.

A assembléia estava marcada para as quatro da tarde, no horário da Pensilvânia. Um horário não usual para eventos importantes, já que a noite dos Morois é exatamente no período em que o sol está alto, mas como diria Victor, grandes revoluções começam silenciosamente, escondidas na escuridão. Acontece que há uma diferença de duas horas em relação a Montana, ou seja, quando a assembléia começar lá na corte às quatro da tarde, o relógio aqui já estará marcando seis, ou seja, estaremos a apenas uma hora do por do sol em Montana, a uma hora do inicio de nossa guerra contra Strigois. Eu teria pouco tempo para acompanhar a assembléia, mas assistiria através de Lissa tudo que fosse possível.

Eu estava no caminho para meus aposentos, quando ouvi uma voz familiar.

“Rose, espera”, Eu me virei para enxergar Eddie correndo na minha direção.

“Meu Deus, Eddie, o que você está fazendo aqui?”, eu perguntei ao abraçá-lo.

“Qual é Rose? A escola será alvo de mais um ataque de Strigois. Eu não perderia isso por nada.”, ele respondeu, sorrindo, ao me soltar. Céus, St. Vladimir estava parecendo mais um terminal aéreo do que uma escola, tamanha era a quantidade de vôos que recebera nas últimas horas.

“Você veio por sua conta?”

“Kirova entrou em contato comigo por telefone e explicou a situação. Ela disse que com toda a movimentação em torno da eleição do novo governante o conselho não autorizou que guardas reais fossem enviados para ajudar a combater o ataque a St. Vladimir, então ela estava contatando ex-alunos da confiança dela para ver quem poderia ajudar. Eu não pensei duas vezes”, Eddie explicou.

“E-eu não sei o que lhe dizer, Eddie. Talvez porque eu realmente não sei o que esperar dessa batalha, mas… é bom saber que teremos você lutando conosco”, eu disse lhe dando um leve tapinha no ombro. Eddie se limitou a sorrir e acenar com a cabeça. Assim que baixei meu braço, ele me perguntou sobre Alberta e os demais guardiões, seguindo em direção ao ginásio logo depois que eu informei sobre o local onde eles estavam concentrados e expliquei que como não havia um procedimento padrão a respeito do que todos deveriam fazer eu não ia acompanhá-lo.

Sozinha novamente, eu rezei para não encontrar mais ninguém no meio do caminho e acelerei meus passos até o dormitório onde eu estava instalada. Ao fechar a porta atrás de mim, tranquei-a e encostei-me nela com força, fechando os olhos e respirando fundo. Ao abri-los, eu percebi que havia sido puxada para dentro da mente de Lissa. Eu sabia disso, pois diante de mim, ou melhor, dela, estava a mãe de Adrian.

“Entrem, rápido!”, Daniella ordenou com a porta aberta entre elas, puxando as duas imediatamente para dentro da sala onde estava, olhando para os lados certificando-se de que não havia ninguém observando. “Vocês não deveriam ter voltado”, ela disse ao fechar e chavear a porta, tal como eu havia feito quando cheguei no meu quarto alguns segundos atrás.

“Então a senhora está sabendo do que está acontecendo?”, Lissa pronunciou-se, parecendo irritada por ter sido recebida desse jeito. O que Daniella esperava? Que elas ficassem na escola para serem iscas de Strigois?

“Será que eu posso me explicar antes de você avançar sobre mim, mocinha?”, a mãe de Adrian respondeu, fazendo com que Lissa respirasse fundo para se acalmar. Então Daniella continuou. “O que eu sei é que um pouco depois de  vocês partirem em direção a escola, o conselho convocou uma reunião emergencial para divulgar a informação de que St. Vladimir seria o local do terceiro ataque. Todos ficaram chocados, principalmente porque muitos sabiam que você duas tinham ido para lá há pouco tempo e pensaram que se tratava de uma trágica coincidência. Ninguém sabia e ainda não sabem que vocês foram orientadas a fazer isso”.

“E como você sabe?”, minha mãe perguntou, desconfiada.

“Porque o meu filho ligou depois que ficou sabendo sobre o ataque a St. Vladimir e pediu que eu não deixasse a corte, se assim o conselho orientasse, pois essa havia sido a armadilha que eles armaram para vocês”.

“Isso explica porque Adrian disse que você estaria disposta a ajudar no que fosse necessário. Ele provavelmente deve ter avisado que viríamos aqui assim que chegássemos de volta à corte”. Daniella sorriu, confirmando as suspeitas de minha mãe.

“É, ele ligou assim que colocou vocês duas no avião”. Do que ela estava falando? Adrian deveria não só ter colocado as duas no avião, mas se colocado no avião junto com elas! “Então, em que posso ajudá-las?”, Daniella perguntou ao sentar-se confortavelmente em um dos sofás que havia no recinto, sinalizando para que minha mãe e Lissa sentassem-se também.

“Como você já deve ter percebido, alguns membros do conselho estão agindo de forma estranha e não segundo os interesses do povo, mas segundo os próprios interesses. E por alguma razão Lissa parece ser uma ameaça a algumas dessas pessoas, quer dizer, é óbvio que alguém não queria que Lissa estivesse aqui hoje, na eleição do novo governante real”, minha mãe começou.

“E nós temos evidências para acusar pelo menos um dos suspeitos”, Lissa continuou.

“Evidências?”, Daniella questionou. “Contra quem?”.

“Eugene Lazar”, minha mãe e Lissa responderam ao mesmo tempo. Então as duas explicaram, alternando suas falas como se num jogral, que Eugene havia ido até a escola antes de elas deixarem a corte, para levar Mikhail até St. Vladimir e avisar que a escola havia sido escolhida como o palco do terceiro ataque. Contaram também que na conversa que Abe teve com Eugene, Eugene acabou confessando, sem saber que a conversa estava sendo gravada, sua participação em graves crimes, não especificando no momento em que tipo de crimes ele estava envolvido. Daniella finalmente resolveu mostrar-se chocada.

“E o que vocês têm em mente?”, ela questionou.

“Nós pensamos e discutimos bastante sobre isso durante a viagem até aqui e concluímos que nossas chances de convencer o povo de que estamos falando a verdade serão melhores se colocarmos o áudio dessa confissão para tocar no auditório onde ocorrerá a assembléia, porque dessa forma Eugene será confrontado diante de todos, e será solicitado a se manifestar a respeito da acusação no mesmo momento”.

“Você parece bem confiante”, Daniella pontuou.

“Eugene é o tipo de pessoa que precisa planejar muito antes de agir e esse tipo de pessoa não se sai muito bem com improvisações. Daí vem a minha confiança”, minha mãe disse com um sorriso malicioso. “Porque ele não tem nem idéia do que está por vir”.

“Então você acha que pode nos ajudar, Sra. Ivashkov?”, Lissa perguntou. “Tudo que precisamos é que a senhora peça alguns minutos antes da assembléia começar para dar um comunicado em nome de Ibrahim Mazur. O resto é por nossa conta”.

“Claro, eu posso fazer isso sem sombra de dúvidas, mas como vocês conseguirão reproduzir a fita sem serem barradas?”. Uma boa pergunta de Daniella.

“Nada que alguns contatos não resolvam nosso problema, mas como eu disse, nós cuidamos disso”, Lissa finalizou. De alguma forma eu senti que ela já tinha algo em mente, mas eu não fazia a menor idéia do que poderia ser. “Agora com a sua licença, nós precisamos ir”.

“V-vocês tem certeza de que não é mais seguro ficarem aqui até o momento da assembléia?”, Daniella questionou.

“Com todo o respeito, Sra. Ivashkov, mas cuidar da segurança de Lissa é o meu trabalho”, minha mãe respondeu com orgulho. “E contanto que Lissa esteja comigo, ela está a salvo, porque eu atacarei qualquer um que representar uma ameaça a ela”. Ou aos nossos planos, eu quase ouvi minha mãe dizer.

“Eu espero que sim”, Daniella murmurou. “Afinal, você a trouxe para dentro de um ninho de cobras”. Aquilo chamou a atenção de todos, inclusive a minha.

“O que você quer dizer com isso?”, minha mãe resolveu sondar.

“Olha…”, Daniella soltou seus braços para que caíssem ao longo do corpo, “Eu não queria me envolver nisso, mas eu acho que vocês deveriam saber que alguns Morois pretendem aplicar um golpe e…”.

“Nós sabemos sobre o golpe”, minha mãe interrompeu no intuito de não perder tempo. Daniella ficou um pouco surpresa, mas não se deixou abater.

“O que vocês sabem?”, ela rebateu.

“O suficiente. E nós estamos de saída, se você não se importa”, minha mãe disse já caminhando até a porta.

“Esperem!”, Daniella quase gritou antes que a porta fosse aberta “Há uma coisa que vocês não sabem”. Lissa olhou para trás e eu pude ver através dos olhos dela o duelo interno que acontecia dentro da mãe de Adrian.

“Eu a-acho que…”, Daniella esfregou o rosto com as mãos, mostrando-se nervosa. “Eu acho que Nathan pode estar envolvido nisso”. Ok, realmente isso era novidade. E o pior, foi como se uma bomba tivesse sido jogada sobre mim. Nathan? O pai de Adrian? Como…? Então eu lembrei da conversa que tivemos durante um jantar na casa deles, onde Nathan mostrou-se indignado e ofendido com a idéia de Morois lutarem ao lado de Dhampirs. Maldição!

O silêncio na sala durou pouco, pois quando Daniella viu que minha mãe e Lissa desistiram de sair da sala, ela continuou, entendendo que era um incentivo para que ela fornecesse mais informações.

“Ele não é mais o mesmo homem de antes. No início eu pensei que fosse alguma reação a morte da irmã dele, mas a situação chegou a um ponto que, mesmo sendo um caso da elaboração de luto, estava se tornando perigosa demais”.

“A senhora poderia pular o drama e ir direto ao assunto?”, Lissa perguntou, para a minha surpresa. Por outro lado, eu sei que ela apenas traduziu o que eu e minha mãe estávamos também sentindo. Daniella ficou um pouco incomodada com o comentário, mas não pelo tom usado por Lissa e sim pelo fato de precisar enfrentar aquele assunto que ela estava evitando já há algum tempo.

“Ele tem participado de reuniões secretas com os membros do conselho. Até aí isso não era uma novidade, pois Nathan sempre fora politicamente engajado, afinal sua família faz parte da realeza Moroi. Uma noite dessas, porém, tivemos um pequeno desentendimento discutindo a respeito do futuro de Adrian e precisamos postergar a conversa por causa de uma dessas reuniões. Eu estava irritada demais para dormir, fingindo que não era nada demais, então o esperei acordada. Nathan retornou ansioso e eu insisti em retomar nossa conversa, o que não foi um bom plano, pois ele tentou me calar usando compulsão. Vocês conseguem ver onde eu quero chegar?”.

“Para ser sincera, não, Sra. Ivashkov”, minha mãe respondeu. Daniella respirou fundo.

“Nathan foi sempre terrível com compulsão, aliás acho que essa foi uma das coisas que sempre dificultou a relação dele com Adrian, que mesmo com limitações, ainda usa compulsão melhor que o próprio pai. Sendo assim, quando Nathan chegou aquele dia querendo ter controle sobre mim usando aquele poder, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que ele pudesse estar usando essas reuniões como desculpas para praticar essa habilidade às escondidas. Eu fiquei tão assustada que deixei a discussão para depois e esperei que ele dormisse para vasculhar suas coisas”. Daniella levantou-se, foi até a mesa e de uma gaveta tirou algumas folhas de papel. “E olhem o que eu achei”, ela disse, entregando as folhas nas mãos de minha mãe, que leu em voz alta.

“Projeto de Lei sobre formação obrigatória de Dhampirs”. Maldição de novo! Nathan não estava apenas com as mãos sujas, mas com o corpo inteiro enterrado na sujeira.

“A julgar pelo título não me pareceu algo muito grave, mas ao correr os olhos pelas páginas eu fiquei horrorizada. Eles vão tentar obrigar todos os Dhampirs a lutarem usando compulsão! Eu entendo o desespero dele ao ver o número de Dhampirs diminuírem ao longo dos anos, mas essa claramente não é a solução para manter a segurança de todos”.

“Certamente não é”, minha mãe concordou, com os olhos nos papéis. “Você sabe onde Nathan está nesse momento?”.

“Ele disse que se encontraria com Eugene Lazar, por quê?”.

“Porque é exatamente para lá que estamos indo”, minha mãe anunciou, colocando sua mão no ombro de Lissa para avisar que elas estavam de saída. “E obrigada pela informação, Sra. Ivashkov. Você fez a coisa certa. Agora nós só precisamos evitar que o pior aconteça”.

Quando a porta da sala de Daniella foi fechada, eu sai da mente Lissa, pois de nada adiantaria eu acompanhar os acontecimentos sem poder fazer nada a respeito enquanto aqui eu tinha muitos problemas a meu alcance para resolver. Então eu finalmente fui até o banheiro tomar um rápido banho e trocar de roupa. Ao sair do banheiro, ainda com a toalha enrolada na minha cabeça, eu vi um papel no chão, próximo a porta.

“Encontre-me no corredor quando estiver pronta”. Estranho, nenhum remetente. Sem criar expectativas a respeito de quem estaria me esperando no corredor eu terminei de me arrumar, pentear o cabelo e me armar para somente depois abrir a porta.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 35

Do outro lado, sentado no chão com as costas contra a parede e joelhos flexionados para servirem de apoio aos seus braços, estava alguém que eu não esperava. Zach.

“O que você está fazendo aqui?”, eu quase gritei, surpresa e frustrada, pois uma parte de mim desejava que o bilhete tivesse sido escrito por Dimitri, embora eu soubesse que não era ele, ou eu teria reconhecido a letra no papel.

“Eu ouvi dizer que você venceu Belikov”, ele disse casualmente.

“Você veio até aqui para me dizer isso?”, eu perguntei meio sem paciência.

“Na verdade…”, ele disse ao se erguer, “…eu vim aqui para lhe dar uma coisa”. Então ele me entregou o que parecia ser uma estaca dentro de um estojo de couro.

“Zach, o que você está…”.

“Pegue, é um presente”, ele insistiu. Revirando os olhos, eu estendi o braço, peguei o estojo e tirei a estaca ali de dentro com cuidado, percebendo que se tratava de uma estaca diferente, certamente de prata, mas um pouco mais pesada que as tradicionais e com detalhes em cobre adornando o pequeno cabo da mesma. Um acabamento tão impecável que era quase impossível não admirá-la. “Ela pertenceu ao meu pai”, Zach confessou.

“Ela… O quê?”, eu exclamei, surpresa, deixando que a estaca escapasse das minhas mãos. Por sorte, Zach a pegou poucos segundos antes de ela atingir o chão, oferecendo-a a mim novamente. Eu ergui minhas mãos num nítido sinal de “pare”.

“Espera um pouco, Zach. O que está acontecendo?”.

“Eu ouvi muito sobre você, Rose. Desde que eu era desse tamanho”, ele disse batendo com a mão na altura do joelho. “A garota que fugiu da escola com a princesa Dragomir por dois anos, a garota que matou Strigois antes mesmo de se formar, a garota que foi para a Rússia executar uma chacina de Strigois. Eu levei um tempo para descobrir quem realmente você era, Rose”.

“Isso deveria tornar alguma coisa mais clara? Porque, honestamente, eu estou tão confusa quanto antes”.

“Você foi a última pessoa a ser avaliada por meu pai, não foi?”, ele perguntou como se já soubesse a resposta.

“Na verdade, Zach, e-eu não cheguei a fazer a avaliação. Quando chegamos lá…”

“Eu sei”, ele interrompeu, parecendo não querer ouvir que havíamos encontrado o pai dele morto no chão. “Bem, meu pai costumava dar uma estaca como essa aos estudantes que eram aprovados por ele, você sabe, como um incentivo. Mas você não teve a chance de receber a sua e, bem, eu tenho certeza de que você teria feito por merecer. Eu sei porque na verdade ninguém me disse que você venceu Belikov agora há pouco. Você não percebeu, mas eu vi com meus próprios olhos e eu tenho que dizer… eu estou feliz de lutar ao seu lado e não contra você”. Com um sorriso encabulado ele desviou rapidamente o olhar mas voltou a me encarar em seguida. Pasma e sem saber o que fazer, só me restou encará-lo de volta. “Rose, diga alguma coisa, pelo amor de Deus! Ou pisque duas vezes se você não estiver passando bem”, Zach brincou quando viu que eu estava praticamente catatônica diante dele. Eu então fiz um esforço.

“Como você sabia que eu estava aqui?”. Foi o melhor que eu consegui.

“Na verdade eu não sabia, porém quando Alberta entrou em contato comigo, informando sobre o ataque, ela mencionou que estava recrutando os melhores guardiões disponíveis, então eu imaginei que você estaria entre eles e por isso trouxe a estaca comigo. Aqui, pegue. Ela é sua agora”, Zach disse criando coragem novamente ao segurar minha mão, envolvendo-a ao redor da estaca, já que eu não conseguia coordenar meus movimentos.

“O-Obrigada”, eu disse olhando novamente para estaca. “Ela é linda”. Zach sorriu.

“Combina com você”, ele disse com um tom diferente na voz. Eu o estudei por um instante e percebi que aqueles olhos castanhos esverdeados me observavam com algo mais do que admiração. Como se não bastasse esse clima estranho, Zach levou a mão dele em direção ao meu rosto, segurando uma mecha de cabelo molhado que estava próxima aos meus olhos.

“Céus, você é tão bonita”, ele disse no meio de um suspiro, afastando a tal mecha para o lado. Aquilo me causou um arrepio inesperado, mas eu não sabia dizer se era porque o cabelo molhado encostou-se no meu pescoço ou se era alguma reação à proximidade dele. Ou as duas coisas.

“Zach…”, eu comecei a falar, mas ele colocou um dedo sobre meus lábios para que eu não continuasse e de alguma forma pareceu se aproximar ainda mais. Chega, eu pensei, esse garoto está indo longe demais! E assim, eu afastei a mão dele dos meus lábios e falei em alto e bom tom.

“Pra trás, por favor”. Ele parou, mas não se moveu um centímetro.

“Zach, pra trás!”, eu falei com a voz já alterada.

“Calma, Rose, eu estou apenas…”

“Você é surdo, ou o quê?”, Dimitri perguntou conforme foi se fazendo presente na minha visão periférica. “Droga!”, eu gritei mentalmente. Eu estava feliz por ele estar aqui, mas não por presenciar… isso! E Deus me ajude, pois pelo tom que Dimitri usou, ele não parecia muito feliz. “Ela mandou você recuar, amigo”, Dimitri reforçou. Apesar de eu manter minha cabeça baixa, sem coragem para olhá-lo nos olhos, eu podia ver que Dimitri estava parado com as mãos nos bolsos da calça que vestia, como estivesse super tranqüilo.

“Veio defender sua pupila, Belikov?”, Zach disse ao dar um passo para trás, para meu alívio. Dimitri riu com ironia.

“Defendê-la de quem, você?”, ele perguntou, aproximando-se pelo corredor. “Por que, se é ela que tem uma estaca na não? E mesmo sem uma estaca, ela ainda acabaria com você em segundos. Sem a minha ajuda”. Dimitri parou ao meu lado e somente nessa hora eu percebi que havia espaço suficiente para que eu pudesse me afastar de Zach, quando ele insistiu em não se mover, mas por alguma razão eu me senti encurralada e não saí do lugar. Teria Zach exercido tanto poder assim sobre mim? Pensar que sim chegava a ser assustador.

“Está tudo bem?”, Dimitri me perguntou baixinho, ignorando o olhar enraivecido que recebia de Zach.

“Sim, sim, tudo bem. Nós estávamos apenas conversando”. Então eu olhei para Zach. “E você estava de saída, não é mesmo? Aqui está sua estaca. Obrigada por deixar que eu a visse”, eu disse tentando entregá-la de volta a Zach.

“Eu já disse, Rose, é um presente. Fique com ela”, Zach disse, dando uma piscadinha. Dimitri limpou a garganta, visivelmente incomodado. “E já que eu não estou mais sendo bem vindo aqui, eu acho que vou indo. Até mais tarde”. E finalmente virou as costas e foi embora, assobiando pelo corredor.

“Esse garoto é um pé no saco”, Dimitri resmungou, me fazendo rir. Sério, Dimitri dizendo “pé no saco”? De repente eu me senti em um filme de comédia.

“Você está com ciúmes, camarada?”, eu perguntei, falhando em esconder um sorriso. Dimitri apenas olhou para mim. “Tudo bem, eu sei que você nunca admitiria isso. Mas é bom ver que o quanto você ainda se importa”.

“É claro que eu me importo”, Dimitri disse acariciando meu rosto, desviando os olhos para minha mão em seguida que viu o que ela segurava.

“Não é o que você está pensando”, eu disparei em minha defesa.

“É sim. É a estaca que você deveria ter recebido de Arthur. Uma bela peça, não?”, ele perguntou, ignorando meu nervosismo. Eu não conseguia acreditar. Quer dizer que Zach estava falando a verdade a respeito da estaca? Por um momento eu achei que fosse apenas uma história para jogar um charme pra cima de mim e fazer com que eu aceitasse um presente dele, mas pelo visto não.

“E-Eu, quer dizer, e-ela é…”.

“Eu sei”, Dimitri disse sorrindo ao colocar o braço por cima dos meus ombros e me conduzir pelo corredor. Eu ainda estava anestesiada pelo que havia acontecido e de alguma forma preocupada. Zach era um garoto com um grande poder de sedução que, por razões que eu não compreendia, me fazia sentir intimidada pela presença dele. Nem mesmo Adrian conseguiu me perturbar tanto assim nas primeiras investidas dele em me conquistar! Estaria minha auto-estima tão abalada a ponto de permitir que qualquer um flertasse comigo? Meu Deus, eu pensei ao lembrar-me de Adrian e esquecendo completamente de Zach. Será que ele já sabe sobre o envolvimento de seu pai no golpe contra os Damphirs? Eu precisava falar urgentemente com ele, mas onde Adrian estaria, já que claramente ele não foi para a corte com minha mãe e Lissa?

“Espera, eu tenho que fazer uma coisa”, eu disse a Dimitri ao parar de caminhar, surpreendendo-o ao começar uma revista, apalpando-lhe em toda a extensão das pernas. Frente e verso. Dimitri não disse uma palavra, limitando-se a afastá-las para facilitar meu trabalho e apenas quando eu estava abaixada diante dele com as mãos em suas panturrilhas, finalizando minha busca sem sucesso, Dimitri riu e perguntou.

“Era isso que você precisava fazer?”.

“Eu preciso do seu celular”, eu respondi. Então Dimitri colocou uma das mãos por dentro do casaco e de lá tirou o pequeno aparelho. Eu olhei furiosa para ele, que se justificou.

“Você poderia ter apenas perguntando, não me olhe como se eu tivesse culpa por ter deixado você me revistar”.

“Sei…”, eu disse já me levantando. Isso era o bom da minha relação com Dimitri. Eu havia acabado de deslizar minhas mãos pelo corpo dele sem aviso prévio como se fosse a coisa mais natural do mundo e ele parece ter achado graça disso, permitindo que eu fosse até o fim.

Frente a frente com Dimitri, eu peguei o celular e digitei o número de Adrian, ainda fresquinho na minha cabeça. Ele poderia não atender se o identificador mostrasse meu número, mas o de Dimitri…

“Não é uma boa hora, Belikov”, Adrian atendeu do outro lado.

“Belikov? Não. Quem sabe, Hathaway?”, eu disse com um tom de voz não muito amigável.

“Little Dhampir! Eu não estava esperando você ligar deste número”.

“Não me venha com apelidos carinhosos agora, Adrian. Onde você está? E não ouse a dizer que está na corte, pois eu sei que você não está lá”.

“O que eu posso dizer? Eu não poderia partir, Rose. Eu disse que tudo que eu precisava estava aqui”.

“Aqui? O que você quer dizer com isso? Você ainda está em St. Vladimir?”, eu perguntei sem querer saber da resposta.

“Pode-se dizer que sim”.

“E Lissa concordou com isso? Minha mãe também?”, eu estava possessa. “Elas vão ouvir tanto de mim…”.

“Ei, deixe as duas fora disso, ok?”, Adrian tentou amenizar. “Elas não tiveram culpa de nada. Eu disse a elas que conversamos melhor e que você aceitou minha presença na escola”. Eu fiquei alguns segundos chocada, sem conseguir dizer uma palavra.

“Você é um Moroi teimoso, orgulhoso e inconseqüente, sabia disso?”, eu o xinguei ao recobrar consciência.

“Digamos que sim, afinal é algo que eu ouço com freqüência”. Adrian zombou.

“Olha Adrian”, eu disse ignorando a piadinha dele. “Eu preciso conversar com você sobre algo sério. Onde você está?”. Adrian deve ter sentido pelo tom da minha voz que eu não estava para brincadeira.

“No lugar mais seguro que um Moroi poderia estar nesta escola, Rose. Eu estou na igreja”. Ao menos isso, eu pensei, respirando aliviada.

“Não vá a lugar algum. Eu estou indo aí”. E desliguei o telefone, entregando-o de volta a Dimitri.

“Desculpa, eu tenho que ir”, eu disse a ele. “Adrian precisa saber sobre o pai dele”.

“O que tem o pai de Adrian?”, Dimitri perguntou confuso.

“Eu prometo que eu explico tudo a você depois, ok?”, eu disse já me afastando com largos passos, mas no meio do caminho eu parei e virei para trás. Dimitri ainda estava com os olhos em mim. Eu voltei correndo e envolvi meus braços ao redor do pescoço dele, beijando-o com intensidade. Assim que nossos lábios se tocaram, Dimitri por um instante me apertou com força contra ele e então me soltou.

“Você sabe que eu amo você, não sabe?”, eu perguntei. Dimitri me beijou mais uma vez, como se respondesse minha pergunta.

“Eu amo você também”, ele disse em seguida, com os olhos ainda fechados, como se aquelas palavras estivessem sendo arrancadas das profundezas de seu coração. Então com um suspiro ele abriu os olhos e me soltou. “Pode ir”.

“Eu não vou demorar. Enquanto isso encontre Abe e diga que eu preciso falar com ele também, ok? Por favor”. E dessa vez eu não dei largos passos, eu literalmente corri ao encontro de Adrian.

A porta da igreja rangeu quando eu a empurrei para trás lentamente e fechou-se sozinha assim que eu a soltei. Olhei ao redor. Nada.

“Seja bem vinda”, Adrian disse saindo de uma porta lateral que dava acesso ao altar da igreja. Eu acelerei meus passos e parei diante dele.

“Por que você não foi para a corte conforme havíamos combinado?”, eu disse fincando meu dedo indicador no peito de Adrian várias vezes. “O que há de tão importante aqui que você não pode simplesmente deixar pra trás por um dia sequer?”.

“Você, Rose”, ele disse, me desarmando completamente. Eu estava esperando qualquer resposta, menos essa, principalmente depois da conversa que tivemos. “Claro que eu também quero ajudar, afinal eu posso ser útil aqui, curando os feridos na medida do possível, mas, você é o motivo principal. Usando suas próprias palavras, você é o que eu não poderia deixar para trás por um dia sequer. Sinto muito, Rose, mas eu não estou pronto para…”, os olhos dele encheram-se de lágrimas e ele precisou de alguns segundos para se recompor. “Isso não é fácil, ok? Eu não estou pronto para deixar você”.

“Adrian, nós já conversamos sobre isso”. Céus quantas vezes eu precisarei quebrar o coração de Adrian para ele entender?

“Eu sei que você ama Dimitri, Rose. Eu sempre soube e decidi que a amaria mesmo assim, mesmo sabendo que um dia isso tudo poderia vir a acontecer. Se dói ver você com ele? Dói, mas a dor de estar longe de você é pior. Então não venha tentar me convencer a deixar a escola. Eu vou ficar”.

“Adrian eu vou concordar com isso para não perdermos mais tempo, até mesmo porque não é mais seguro que você saia da escola agora, no meio da tarde. Não há mais aviões disponíveis aqui e viajar por terra não é uma hipótese viável com Strigois nos arredores de St. Vladimir. Mas que fique claro que isso me deixa numa situação desconfortável, pois agora eu me sinto mais responsável ainda pela sua segurança, uma responsabilidade da qual eu não precisava na iminência de um ataque! Droga, eu deveria ter acompanhado vocês até o avião e obrigado você a embarcar”, eu resmunguei.

“Rose, você não pode achar que é responsável por tudo que acontece ao seu redor e querer salvar todas as pessoas do mundo. Por mais que seja uma garota extraordinária, você não é uma super heroína”, Adrian pontuou com sabedoria. Ele estava certo. Eu sempre me achei responsável pelas coisas que acontecem ao meu redor, como se eu tivesse a obrigação de fazer alguma coisa, como se as pessoas esperassem isso de mim.

“Eu sei”, eu disse a ele. “Mas dessa vez eu não estava tentando salvar o mundo. Eu queria apenas ter certeza de que você ficaria bem. É tão errado assim?”.

“Cuidado com as palavras carinhosas, Little Dhampir”, Adrian disse apontando para o peito. “Meu coração está um pouco frágil aqui”.

“Desculpa”, eu disse ao sorrir meio sem graça.

“Sem problemas”, ele respondeu sacudindo a cabeça como se entendesse que eu não havia feito por mal. “Eu prometo me acostumar com isso”, ele disse. Eu vi Adrian respirar fundo, desviando o olhar. “Então… O que traz você aqui?”, ele interrogou ao descer do altar e sentar-se no banco que estava diante de nós.

“Na verdade eu vim até aqui para falar a respeito do seu pai”. E machucar um pouco mais seu coração com essa notícia, eu pensei.

“Então você descobriu as sujeiras dele?”, Adrian disse para minha surpresa, quando eu pensei que o surpreso aqui deveria ser ele.

“Meu Deus, Adrian, você já sabia do envolvimento do seu pai no golpe?”, eu exclamei, olhando para os lados em seguida, com medo de que alguém mais pudesse ter ouvido.

“Eu tinhas minhas suspeitas, você sabe. Eu nunca confiei de fato naquele homem, mas uma parte de mim ainda temia que eu pudesse estar apenas procurando mais um motivo para detestá-lo. Porém, quando minha mãe começou a relatar o comportamento estranho dele nos últimos dias, eu vi que o buraco era mais embaixo”.

“Adrian, eu sinto muito. Você deve estar desapontado com ele, não é mesmo?”.

“Desapontado? Claro que não! Eu nunca duvidei que meu pai pudesse fazer algo do gênero. O que me tira do sério é que aquele desgraçado não pensou nem por um segundo no impacto que isso causaria na minha mãe. Só de lembrar da voz com que ela falou comigo no telefone eu tenho vontade de acabar com ele”.

“Pelo amor de Deus, Adrian! Em nome do que você diz sentir por mim, me prometa que não fará nenhuma bobagem!”. Adrian ficou em silêncio com a cabeça baixa controlando sua respiração na tentativa de se acalmar. Eu segurei as mãos dele e as apertei levemente.

“Adrian, olha pra mim”, eu disse com uma voz suave. Após relutar um pouco, ele atendeu meu pedido, acomodando-se no banco para ficarmos de frente um para o outro. “Prometa que não fará nada estúpido”. Ele me observou por um breve minuto e sorriu.

“Rosemarie Hathaway, eu posso não ser santo, mas também não sou como meu pai. Eu não faria nada que pudesse fazer você sofrer, nada. Eu não teria coragem, principalmente depois de ver sua aura mudar agora, diante dos meus olhos, daquela cor turva para o mais lindo tom de rosa”.

“Rosa? O que o rosa significa?”. Adrian sorriu novamente

“Significa o quanto você se importa”, ele respondeu.

“Eu espero que isso seja bom”, eu disse.

“Tão bom que chega a doer”, Adrian desabafou, me fazendo sorrir também. Ele estava machucado sim, mas aqueles olhos verdes me diziam que cada ferida havia valido a pena. E de alguma forma eu soube que ele superaria isso tudo, mais cedo ou mais tarde. Aliás, falando sobre ser tarde…

“Adrian, eu preciso voltar à escola. Eu tenho que  falar com Abe e é urgente”. Uma urgência chamada Nathan Ivashkov.

“Tudo bem, eu ficarei aqui aguardando instruções”, ele disse casualmente. Eu tive que rir.

“Eu não vou cometer o mesmo erro duas vezes, por isso desculpa, meu querido, mas não. Agora você vem junto”, eu disse, arrastando Adrian comigo.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 36

Após me informar sobre o paradeiro de Abe, Adrian e eu fomos até o laboratório da escola, pois a princípio era lá que meu pai estava. Dimitri e Christian estavam lá também, acompanhados de alguns Morois reconhecidos por mim como sendo estudantes que, assim como Jill, estavam aprendendo a usar seus poderes de forma ofensiva em virtude das aulas que Adrian e Christian ministravam às escondidas. Eu sabia que muitos estudantes haviam decidido ficar na escola mesmo sabendo do ataque, propondo-se a ajudar no que fosse necessário, mas eu não esperava encontrá-los junto com Abe e Dimitri e por isso abri a porta do laboratório como um furacão, arrastando Adrian junto comigo para dentro dele e parei quase imediatamente ao perceber os olhares curiosos.

“Adrian Ivashkov”,  Abe disse parecendo surpreso e ao mesmo tempo, incomodado. “Você por acaso não deveria estar na corte?”.

“Isso não importa agora, Abe. Deixe as perguntas para depois”, eu interrompi, dizendo que precisava conversar com ele em particular, apontando para porta, sinalizando que a conversa ocorreria do outro lado dela. Abe deu um passo, parou e, antes de me acompanhar, deu mais uma olhada intimidadora para Adrian. Foi quando eu percebi que Dimitri parecia estar curioso para participar da conversa que eu teria com meu pai e ao mesmo tempo frustrado porque não poderia fazer isso, pois seja lá o que for que esses Morois estavam fazendo, eles pareciam precisar de supervisão.

“O que foi agora?”, Abe perguntou sem rodeios assim que chegamos ao lado de fora.

“Eu ouvi através de Lissa que Nathan Ivashkov pode estar por trás do golpe contra os Dhampirs”.

“O pai de Adrian?”.

“Sim, infelizmente sim. Parece que Daniella encontrou alguns papéis nas coisas do marido que falam de um projeto de lei sobre a formação obrigatória de Dhampirs”. Abe coçou a cabeça, pensativo.

“Bem, eu não posso dizer que estou chocado, pois Nathan nunca escondeu sua aversão à idéia de Morois lutarem ao lado de Dhampirs. Mas eu não imaginava que ele chegaria a esse ponto”.

“Pois é, eu também. De qualquer forma, eu achei que você deveria saber, porque se alguma coisa acontecer comigo nessa batalha…”.

“Nada vai acontecer a você, Rose”, Abe interrompeu, nitidamente se negando a pensar na hipótese de perder sua filha. Ele podia negar o quanto quisesse, mas esse era um risco que existia e sempre existirá, cada vez que um Dhampir se deparar com um Strigoi. Um risco chamado morte.

“E quanto a você?”, eu rebati ao optar por não discutir sobre as chances de algum ruim acontecer comigo.

“Quanto a mim o quê?”.

“O que você vai fazer em relação ao ataque?”. Abe riu, achando graça da minha pergunta, como se fosse óbvia.

“Enquanto você ficar, eu fico também”, Abe disse, resoluto. “Sua mãe já está longe, Rose. Eu não ousaria deixá-la sozinha numa situação como essa. Aliás, eu posso ser útil aqui, ao contrário do que você pensa”.

“Vocês, Morois, ensaiaram esse discurso por acaso?”, eu perguntei achando coincidência demais que Abe tenha dito a mesma coisa que Adrian disse lá na igreja.

“Não é um discurso, minha filha, é um fato. Morois podem ser úteis e se você não acredita, então porque aceita que eles usem seus poderes como uma arma e lutem com vocês? Apenas porque é conveniente? Não seja hipócrita.”

“Eu sei, mas é mais difícil aceitar quando pessoas importantes estão envolvidas”, eu resmunguei. “Eu não quero que ninguém se machuque”.

“Viu? Você acabou de admitir que, de alguma forma ou outra, nós somos importantes”, ele disse ao dar uma piscadinha para mim. “Vem cá, deixe-me mostrar que eu estou certo”. Então Abe abriu a porta do laboratório novamente e foi até Christian. “Esse garoto é a razão de estarmos aqui. Ele teve a brilhante idéia de enfeitiçar balas de prata com a mesma magia das estacas que vocês usam contra Strigois”.

“O quê? Mas como?”, eu exclamei. Quem respondeu foi o próprio Christian.

“Nós tínhamos tudo que era necessário. Veja bem, para enfeitiçar um objeto e torná-lo mortal para um Strigoi basta encontrar no mínimo quatro Morois, cada um especializado em um elemento diferente, menos espírito, é claro”, Christian pontuou, dando um leve sorriso. “Afinal nós queremos matar Strigois e não trazê-los de volta a vida”. Sem falar que não tínhamos um usuário deste quinto elemento disponível no momento, quer dizer, Adrian estava aqui, mas enfeitiçar objetos nunca fora algo que ele fizesse com destreza, sem falar que exigiria muito dele. Como Christian disse, dessa vez não seria possível salvar ninguém. “E com seu pai auxiliando nas técnicas desse processo, já que ele é especialista no assunto, não estamos enfrentando muitas dificuldades”.

“Mas e isso funcionará?”, eu perguntei atônita por nunca alguém ter pensado numa coisa dessas, afinal fazia sentido. Era uma forma relativamente segura de matar Strigois, ou pelo menos de incapacitá-los temporariamente. Além disso, garantiria a nossa segurança, uma vez que o ataque poderia ser feito à distância e não cara a cara.

“Em teoria não há porque dar errado, pois a única diferença da bala para a estaca é o formato. Quanto à prática, veremos assim que dispararmos a primeira bala em direção a um Strigoi”, Christian explicou com um brilho diferente nos olhos e um sorriso no rosto.

“O que você quer dizer com nós?”, eu perguntei preocupada com aquele excesso de empolgação nas palavras de Christian.

“Nós, Morois, que estaremos na linha de ataque junto com vocês!”, ele exclamou.

“Você perdeu completamente a cabeça, garoto? Um tiro direto no coração de um Strigoi com uma dessas balas e vocês podem se tornar um deles! É perigoso demais!”.

“Com todo respeito, Rose, mas quando eu comecei a usar meu poder deliberadamente, as pessoas diziam a mesma coisa, que era perigoso. Mas eu aprendi a controlá-lo e você mesma sabe o quanto. A situação não é muito diferente aqui. Tudo o que precisamos fazer é mirar na cabeça deles, nos membros inferiores ou em qualquer outro lugar longe do coração”.

“E o melhor de tudo isso”, Adrian acrescentou também excitado com a idéia, “é que eles não estarão esperando por isso”. Pensando por esse lado…

“Ok, vocês estão começando a me convencer. Digamos que funcione… Quantas balas de prata nós teremos à disposição?”. Christian tinha a resposta na ponta da língua.

“Bem, no momento já produzimos em torno de cem balas, mas considerando que temos uma equipe de Morois relativamente grande trabalhando aqui, até a hora do ataque acredito que teremos aproximadamente duzentos e cinqüenta. Um bom número”. De fato, um bom número. Eu ainda estava meio chocada com a reviravolta dos acontecimentos, mas lúcida o suficiente para lembrar que eu não tinha mais o que fazer ali.

“Bem, nesse caso deixarei vocês trabalharem em paz”, eu disse. Adrian me lançou um olhar de mil palavras, informando que ficaria no laboratório com os demais e eu o correspondi com outro que lhe dizia para não fazer eu me preocupar a toa. Em seguida me aproximei de Abe e sussurrei em seu ouvido que iria atrás de mais informações sobre o que nós havíamos conversado, imaginando que ele entenderia que na verdade eu tentaria entrar na mente de Lissa mais uma vez. E assim, deixei o laboratório.

Porém, Lissa foi mais rápida e no caminho para meu quarto, as emoções dela acabaram me puxando para dentro de sua cabeça contra minha vontade. Nervosismo, ansiedade, preocupação e um desejo de vingança insaciável faziam com que eu tivesse vontade de gritar. Diante de Lissa estavam Eugene e Nathan, ambos em uma espécie de sala de estudos, com olhos arregalados e respiração acelerada ao ver ela e minha mãe paradas perto da porta.

“Surpresos em nos ver?”, minha mãe disparou com ironia. “Pois imagine qual não foi nossa reação ao chegarmos em St. Vladimir e descobrirmos que você, Eugene, nos enviou direto para um verdadeiro campo de guerra. Eu tenho que dizer, surpresa nem chega perto da descrição perfeita”.

“Me chamando pelo primeiro nome?”, Eugene aproveitou para disfarçar o espanto. “Onde está o seu profissionalismo, Sra. Hathaway?”.

“Provavelmente no mesmo lugar que seus escrúpulos. Em um lugar muito, muito distante”, ela respondeu. Isso aí, mãe. Acabe com eles! Eugene não esperava por isso e apenas engoliu seco, dando margem para minha mãe continuar. “Nós precisamos conversar agora e em particular”. Eugene olhou para Nathan e depois novamente para minha mãe.

“Não há nada que ele não possa saber”.

“Entao é verdade que Nathan Ivashkov está no mesmo barco sujo e cheio de mentiras que você?! Adorável!”.

“Do que se trata essa conversa?”, Nathan se manifestou parecendo nervoso.

“Bem, digamos que por alguma razão parece que vocês estão impedindo que a princesa Dragomir participe da assembléia de eleição do novo governante real. Nem tentem parecer inocentes, pois depois do que fizeram, nos enviando para St.Vladimir na véspera de um ataque de Strigois, nós sabemos que vocês estão armando alguma coisa, embora não saibamos exatamente o quê, mas seja lá o que for, nós não estamos aqui por isso. Estamos aqui apenas para dar um recado. Vasilisa vai participar da assembléia e não apenas porque ela quer, mas porque ela tem o direito de participar, como qualquer membro de qualquer família real. Então se houver mais alguma tentativa de impedi-la de realizar sua vontade, eu estou avisando, haverá conseqüências”.

“Mas Vasilisa não pode participar da votação. Ela sabe disso”, Nathan argumentou. Então Lissa surpreendeu a todos respondendo antes que minha mãe interviesse por ela.

“Minha intenção não é estragar a votação de vocês, Sr. Ivashkov, não se preocupe. Como o senhor muito bem disse, eu estou bem ciente do que eu posso ou não fazer e me contentarei em participar apenas como ouvinte”.

“Nesse caso…”, Eugene começou a falar.

“Nesse caso nos vemos mais tarde, na assembléia”, Lissa antecipou-se mais uma vez, sorrindo ao dirigir-se até a porta, com minha mãe logo atrás.  E num estalar de dedos eu estava fora da mente dela e de volta a realidade, percebendo que estava sentada em um dos bancos dos corredores da escola.

“Você está se sentindo bem?”, uma voz perguntou. Eu pisquei algumas vezes para me situar no tempo e espaço e então percebi que não estava mais sozinha.

“Que diabos você faz aqui? Está me perseguindo ou coisa parecida?”, eu retruquei sem paciência. Ao meu lado estava minha mais nova sombra, Zachary Schoenberg.

“Vou tomar isso como um sim”, ele resmungou, alcançando-me um copo com água que eu acabei aceitando. “Você pode me dizer o que houve? Você parecia catatônica, parada no meio do corredor. Eu tentei conversar e trazê-la de volta, mas era impossível, então eu carreguei você até aqui”.

“Com a autorização de quem?”, eu exclamei com uma voz aguda, quase engasgando com a água.

“Bem, você não parecia habitar seu próprio corpo, então eu tomei a liberdade”.

“Eu estava apenas… perdida em pensamentos, você sabe, como se minha cabeça estivesse em outro lugar, mas isso não quer dizer que você pode sair carregando as pessoas para onde bem entende”, eu resumi para não dar maiores explicações sobre a minha ligação com Lissa.

“Você realmente vai começar uma discussão porque eu carreguei você por alguns metros? Por favor, Rose! Eu não dei mais do que seis passos com você até aqui”. Eu senti meu rosto ruborizar.

“Não interessa, eu não gosto de ser carregada”, eu menti para não dar o braço a torcer.

“Não tem problema. Isso não acontecerá novamente”, ele me garantiu. Não vai mesmo, eu pensei.

“Você ainda não me respondeu, Schoenberg. O que você faz por essas redondezas? E não me venha dizer que estava perdido pela escola”, eu disse. Zach baixou a cabeça e a sacudiu para os lados, rindo.

“Eu não preciso mentir, Rose. Eu vim aqui atrás de você”. Ok, alguém mais acha que esse garoto é sincero até demais? “Depois do que aconteceu naquele corredor com o seu ex-instrutor eu achei que lhe devia algumas explicações”.

“Você não deve explicações a ninguém Zach. Pelo menos não a mim”.

“Sim, eu devo. Eu disse algumas coisas antes, que você era linda, que a estaca combinava com você por causa disso, mas…”

“Mas o que?”, eu perguntei impaciente e ao mesmo tempo curiosa para saber a continuação daquela frase.

“É muito mais que isso, Rose. Eu me sinto encantado por você”, Zach disse olhando nos meus olhos com intensidade. Eu baixei a cabeça pensando numa forma de explicar a ele que não rolaria nada entre nós, mas Zach entendeu errado meu gesto, aproximando-se um pouco mais. Quando senti a mão dele sob meu queixo para erguer minha cabeça novamente, um arrepio percorreu minha espinha, pois eu sabia que ele estava perto, mas eu tinha medo de encará-lo para ver o quanto. Minha única saída foi levantar do banco, alegando que eu precisava ir. Sacudindo minha cabeça para clarear os pensamentos, eu segui pelo corredor sem olhar para trás, pois Zach estava vindo atrás de mim. Eu podia ouvir seus passos. Céus qual era a desse garoto?

Eu tentei acelerar o ritmo de minha caminhada, mas ele estava determinado a me acompanhar até que eu decidisse enfrentá-lo. Então eu o fiz, parando no meio do corredor, respirando fundo antes de me virar.

“Você pode parar de me seguir?”, eu disse com calma.

“Por que, você está com medo?”.

“Não. Eu apenas quero ficar sozinha. Você acha que é possível?”, eu disse a Zach apesar de parecer que ele entendeu o contrário, pois deu mais dois passos adiante. Irritada, eu apenas bufei.

“Eu incomodo tanto você assim, Rose?”, Zach perguntou com provocação, dando outro passo a frente apenas para ver como eu reagiria. Eu não me movi um centímetro.

“Mais do que você imagina”, eu respondi, decidindo entrar no jogo ao avançar em direção a Zach, recebendo um sorriso malicioso dele como resposta.

“Mesmo?! Por quê?”, ele perguntou, fingindo não saber a resposta.

“Exatamente o que eu queria que você perguntasse, novato”. Eu praticamente voei em direção a Zach, empurrando-o até a parede, onde pressionei meu antebraço contra seu pescoço, usando meu quadril para impedir que o resto do corpo dele se movesse caso ele tentasse sair dali. “Você quer saber por quê? Por que você não escuta, Schoenberg. Se eu digo para você se afastar, você se aproxima; se eu peço para me deixar sozinha, você me segue. Eu só espero que você entenda que isso”, eu disse fazendo uma pressão maior contra o pescoço dele, “é um aviso de que minha paciência está acabando e que eu não estou para brincadeiras”.

Inesperadamente Zach desvencilhou-se de mim, invertendo a situação de forma tão rápida que eu não vi como tudo aconteceu. Resultado: quem acabou imobilizada contra a parede fui eu.

“Mas e se eu quiser brincar com você?”, ele disse com aquele sorriso irônico que me dava vontade de partir a cara dele ao meio. Foi nesse instante que ouvi um barulho. Não era possível identificar a origem dele, mas parecia uma batida de porta. Então ouvi passos, silêncio e então… Dimitri.

“Tire suas mãos dela”, ele disse pronunciando palavra por palavra. Maldição, eu pensei. Isso de novo não! Com toda a situação de ter sido puxada para dentro da mente de Lissa eu fiquei meio desorientada assim que voltei à órbita terrestre e Zach não ajudou ao se fazer presente diante de mim. A verdade é que estávamos mais perto do laboratório do que eu imaginava e com nossos tons de vozes elevados era provável que eu e Zach acabaríamos chamando a atenção de alguém. Eu só não esperava que fosse a de Dimitri.

Zach apenas revirou os olhos, como se Dimitri tivesse interrompido algo muito importante.

“Dimitri, eu posso cuidar disso”, eu disse tentando evitar uma briga desnecessária que culminasse em alguém machucado.

“Eu estou vendo”, Dimitri falou, me deixando um pouco envergonhada, pois nesse momento eu realmente não estava me esforçando para sair da armadilha de Zach porque a raiva de ter sido pega de surpresa por um novato me deixou paralisada e porque, puta merda, ele me imobilizou mesmo. Eu realmente não conseguia me mover. Se Dimitri aparecesse três segundos mais tarde, eu estaria me debatendo e fazendo Zach se arrepender de ter me provocado daquela forma, mas agora lamentar não adiantaria nada. Eu teria que enfrentar a situação.

“Zach, eu não quero machucar você e quero menos ainda que Dimitri o faça então, por favor, me solta”, eu falei baixinho olhando nos olhos dele, que para minha surpresa atendeu ao pedido na mesma hora, me soltando e virando-se de frente para Dimitri, nunca deixando meu lado. Ele parecia… Estar me protegendo?! Mas que diabos?!

Sem perder tempo, Dimitri partiu na direção de Zach, mas antes que ele pudesse fazer alguma coisa eu me coloquei na frente dele. Dimitri parou a um passo de mim, mas eu não sei se essa era a intenção dele desde o inicio ou se ele parou porque eu estava no meio do caminho impedindo que ele quebrasse a cara de Zach. Por via das dúvidas eu fiquei exatamente onde estava.

“Qual o seu problema com ela, garoto?”, Dimitri disse com um sotaque pesado, um sinal de que ele estava perturbado demais para articular bem as palavras em inglês.

“Eu não tenho que dar satisfações a você, Belikov”.

“Não, mas eu sou o guardião do pai dela e se você preferir eu posso muito bem chamá-lo aqui para você se explicar a ele. Porém, conhecendo-o bem, eu acho que ele não vai gostar de saber que sua filha está sendo perseguida contra sua vontade. Vá por mim, Zachary, eu ainda sou a sua melhor opção”, Dimitri respondeu.

“E se por acaso eu não aceitar nenhuma das opções?”, Zach desafiou.

“Então eu terei que fazer você falar”, Dimitri disse tentando avançar novamente, mas eu coloquei minhas mãos sobre o peito dele, fazendo força contrária para ele não se aproximar ainda mais.

“Pelo amor de Deus, Belikov, controle-se, cara! Você está se comportando como o namorado dela, ou coisa do gênero!”. No segundo seguinte, Dimitri me empurrou para o lado como se eu fosse uma boneca de pano, agarrou Zach pela camisa com uma mão e pelo pescoço com a outra.

“Surpresa!”, Dimitri exclamou com um sorriso maldoso no rosto, soltando a mão do pescoço de Zach para dar-lhe dois tapinhas na face, apesar de que eu achei que eles foram mais fortes do que deveriam ser. “Eu sou o namorado dela”, Dimitri finalizou.

Fúria tomou conta de mim naquele instante, pois eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Dimitri acabou de dizer que era meu namorado? Como ele teve a capacidade de dizer uma coisa dessas quando eu sequer estava participando da cena? Eu sempre imaginei ouvir Dimitri assumir nosso relacionamento, mas jamais pensei que seria em uma situação como essa, onde ele mantinha suas mãos não no meu corpo, mas no de  Zach e usando aquelas palavras como uma ameaça e não como uma declaração de amor.

“Chega!”, eu gritei, me metendo no meio dos dois e empurrando Dimitri para longe de Zach, que deu um passo para trás e recostou-se na parede ainda em choque. Se pela informação de Dimitri ou por achar que levaria a surra do século, era difícil dizer.

“Antes que você me pergunte, sim é verdade”, eu disse ao jovem de olhos castanhos esverdeados que buscava por uma confirmação da declaração de Dimitri. “A princípio”, eu resmunguei, repreendendo Dimitri com um olhar, mas ele estava muito ocupado encarando Zach para ter percebido alguma coisa. “Dimitri, eu disse chega!”, eu alterei minha voz mais uma vez, conseguindo a atenção que desejava.

Então eu comecei a falar. Expliquei que eles precisariam dar um jeito de deixar os problemas pessoais de lado porque logo os dois teriam que lutar lado a lado contra Strigois. Talvez Dimitri não precisasse estar ouvindo isso, mas depois do comportamento dele aqui, acho que não custaria relembrá-lo desse detalhe. Já para Zach eu salientei que eu era uma pessoa complicada e comprometida, duas coisas que de cara já me impediriam de ter qualquer relação com ele, além de uma possível amizade ou parceria.

“Meu Deus, vocês dois…”, Zach disse, impressionado. “Eu não tinha a menor idéia”.

“Sim, Zach, nós dois”, eu anunciei, estendendo minha mão para segurar a de Dimitri, colocando-me ao lado dele. Pelo menos segurando Dimitri eu tinha a garantia de que ele não tentaria mais nada contra Zach. E se tentasse eu poderia facilmente afastá-lo outra vez. “Por quê? Você tem alguma coisa contra?”, eu perguntei com um certo veneno em minhas palavras.

“Não, é que…”.

Eu respirei fundo e resolvi dar um fim nessa discussão.

“Que bom!”, eu me atravessei. “Então faça um favor a todos nós e se manda daqui”.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 37

Zach partiu em direção ao ginásio parecendo não ter controle sobre suas próprias pernas, como um zumbi. A informação de que eu e Dimitri éramos namorados o atingiu como uma bomba, apesar de eu também estar um pouco anestesiada por causa disso, afinal Dimitri sempre teve dificuldade em aceitar o que havia entre nós. No começo ele dizia que era errado um instrutor ter qualquer relacionamento com uma aluna, que ele havia cometido um erro ao ceder a essa tentação, mas conforme fomos reincidindo nesse “erro”, o argumento dele passou a não ter mais validade. Então ele admitiu que gostava daquilo que tínhamos, embora nunca tenha determinado exatamente se era um rolo, uma aventura ou um namoro.

Para todos os fins eu sempre o considerei um namorado, mesmo quando ele se tornou um Strigoi, porém nesse caso, por  pensar tê-lo perdido para sempre, eu o via como um ex-namorado, assim como quando ele voltou a ser um Dhampir e disse que não queria mais nada comigo. Mas depois que voltamos a nos beijar e, pior, termos feito sexo mais uma vez, eu não sabia mais o que pensar. Até agora.

“Então você decidiu ser meu namorado?”, eu perguntei ao me pendurar no pescoço de Dimitri, que por sua vez me segurou pela cintura.

“Algo contra?”, ele disse baixinho, repetindo a mesma pergunta que eu fiz a Zach pouco tempo atrás.

“Nem um pouco”, eu respondi, beijando-o em seguida.

“Acho bom mesmo”, Dimitri disse, retribuindo o beijo e envolvendo-me em seus braços. Por aproximadamente cinco minutos tudo o que fizemos foi ficar ali, nos beijando, um nos braços do outro, sem a preocupação de que alguém pudesse aparecer. Era como se o mundo tivesse parado para aproveitarmos aquele momento. Mas depois disso o encanto acabou.

“Roza, sinto muito, eu realmente não queria, mas eu preciso voltar ao laboratório”, Dimitri lamentou.

“Eu sei, infelizmente eu sei. Aproveite e diga ao meu pai que Lissa e minha mãe acabaram de confrontar Eugene, avisando-o que Lissa participará da assembléia custe o que custar”.

“Quando você soube disso?”.

“Assim que sai do laboratório. Lissa me puxou para dentro da mente dela antes que eu pudesse fazer alguma coisa”. Dimitri gentilmente tocou meu rosto com um de seus dedos, deslizando-o pela extensão da minha bochecha.

“As coisas estão acontecendo rápido demais, não é mesmo?”.

“Demais”, eu respondi. Dimitri se aproximou e me abraçou forte, dizendo que toda essa loucura terá terminado ao final do dia de hoje e que eu não precisava me preocupar. Em seguida ele se afastou e voltou ao laboratório.

Já eu, sem nada em especial para fazer, decidi ir até Alberta e acompanhar os treinos que estavam sendo feitos com aqueles que estavam dispostos a praticar suas habilidades até o último momento, mas parei assim que lembrei que era exatamente para onde Zach havia ido depois da nossa “conversa”. Azar, eu pensei. Como eu mesma havia dito a Dimitri, mais cedo ou mais tarde teríamos que lutar lado a lado, então era só uma questão de tempo até que eu precisasse encará-lo mais uma vez.

Chegando lá, a primeira coisa que fiz foi sentar nos primeiros degraus da escadaria de acesso ao ginásio, observando alunos e instrutores, lado a lado, tornando prática a teoria vista dentro da sala de aula. Cada golpe executado era seguido de um urro, prova de que aqueles Dhampirs estavam dando o máximo de si. Zach estava no meio deles, mas parecia possuído, provavelmente descarregando naqueles pobres coitados a raiva e frustração decorrentes da discussão com Dimitri. Eu sorri, pois pelo menos eu sabia que assim eles estavam se esforçando e isso me fazia sentir bem e acreditar que daria tudo certo.

Porém a verdade me atingiu assim que me permiti relaxar. Eu não estava bem.

Um aperto no peito, uma mistura de ansiedade e medo que embrulhava meu estômago e me deixava enjoada, era a prova disso. Cansada de lutar contra a sensação, debrucei-me sobre meus joelhos e baixei a cabeça, rezando em silêncio dentro daquele pequeno casulo, com os olhos fechados, para qualquer entidade divina disposta a ouvir minhas preces.

E ali eu dormi, mas só percebi que isso havia acontecido quando abri os olhos, assustada, ao sentir a presença de alguém sentar ao meu lado.

“Você está bem?”. Ah, não!  Zach novamente, não! No mínimo ele deve ter me visto em algum momento, aqui sentada. Céus, esse garoto não entende que as pessoas às vezes precisam de espaço? “Rose eu sei que você está acordada, não adianta fingir que não está me ouvindo”, ele continuou. Eu suspirei alto e finalmente falei, apesar de não erguer minha cabeça.

“Como você conseguiu saber que eu estava acordada?”, eu perguntei um pouco surpresa.

“Na verdade eu estava blefando. Você acabou de ser pega em flagrante, mocinha”, Zach respondeu ao espanar minha cabeça com sua mão. E lá se foi minha paciência, ou que ainda havia dela.

“O que você quer”, eu perguntei a ele.

“Eu já disse, quero apenas saber se está tudo bem”.

“Sim, Zach! Está tudo bem, ok?!”, eu disse sem me preocupar em parecer simpática. Aliás eu não fui nada simpática, eu o respondi com uma pitada de impaciência e agressividade na voz, tanto que Zach apenas levantou-se dizendo que se era assim ele me deixaria sozinha. Aquilo chamou minha atenção. Zach desistindo facilmente desse jeito? Não que eu o conhecesse muito bem, mas esse não parecia ser o feitio dele.

“Zach, espera”, eu finalmente disse. Ele não esperou. A culpa tomou conta de mim por tê-lo tratado daquela forma, então eu agarrei Zach pela mão quando ele fez menção de sair dali, puxando-o de volta para sentar ao meu lado. Apenas quando Zach se acomodou, eu prossegui. “Desculpa, ok? Eu estou apenas um pouco tensa com a aproximação do ataque. Você queria me dizer alguma coisa? E não me venha com o papo de que só queria saber se eu estava bem”, eu disse com uma voz mais agradável e dessa vez olhando nos olhos dele, mesmo sabendo que minha cara devia estar toda inchada e amassada.

“Não, Rose, me desculpa você, pela forma como eu venho agindo e principalmente pela discussão de agora há pouco. Se seu soubesse que você tinha um namorado eu jamais faria algo que pudesse comprometer o relacionamento de vocês”. Zach estava sério e visivelmente chateado, o que acabou me amolecendo mais uma vez. Esse garoto realmente existe?

“Eu sei, Zach. E eu também deveria ter lhe contado desde o início, mas pra ser sincera eu não estava acreditando que você pudesse estar interessado em mim, quer dizer, você mal me conheceu e veio com umas conversas estranhas. Eu pensei que era coisa da minha cabeça”. Zach riu.

“É, esse sou eu. É um pouco impulsivo de minha parte, mas o que posso fazer? Acho que depois que meu pai faleceu eu percebi que quando se enfrenta a morte no dia a dia da profissão, como nós, se a vida lhe da uma chance você a agarra com unhas e dentes. Por isso quando a vi e me encantei logo de cara, eu pensei ‘por que raios não tentar’? Obviamente eu não esperava topar com um namorado no meio do caminho!”, Zach parou um instante e continuou. “E não estamos falando de qualquer namorado. Estamos falando de Dimitri Belikov”. Foi minha vez de rir, pois eu entendi que Zach ainda estava impressionado em saber que eu estava com Dimitri, porque na verdade Dimitri não parecia alguém que se permitiria apaixonar-se por alguém. Pra dizer a verdade ele não se permitia, tanto que conquistá-lo foi uma tarefa árdua, mas que valeu cada esforço.

“Ele é apenas um Dhampir, Zach. Não é como se ele fosse intocável com um Deus ou uma pessoa fria e sem sentimentos. Eu até arriscaria dizer que ele tem um coração”, eu brinquei, rindo.

“Se você diz”, Zach respondeu apesar de ainda não parecer convencido disso.

“Então… Isso é uma espécie de acordo de paz ou algo assim?”, eu perguntei.

“É…”, Zach, respondeu meio pensativo, olhando para os alunos que treinavam no ginásio. “Eu acho que é sim”. Por alguns instantes ficamos em silêncio, lado a lado, como se consolidando nosso acordo. Eu me senti aliviada, pois depois de tantos desentendimentos eu pensei que seria impossível não me incomodar com ele.

Essa minha relação com Zach era uma coisa estranha, pois por mais que ele tivesse me paquerado, me desafiado diante de uma multidão e discutido com Dimitri duas vezes por minha causa, eu sentia algo forte por Zach, como se eu e ele ainda tivéssemos uma grande história pela frente. Não como amantes ou coisa do gênero, mas como amigos e parceiros de profissão que lutam por uma mesma causa.

Zach era uma pessoa forte, sem sombra de dúvidas. A vida havia lhe ensinado a ser assim desde cedo e acho que eu acabei me identificando com esse por causa disso. Eu mesma cresci praticamente sendo criada pelos professores da escola, já que minha mãe viva ausente por conta do trabalho e meu pai era alguém com quem eu nunca tivera contato. Não foi a infância e adolescência que eu pedi a Deus, mas me ajudou a ver a vida de outra forma, com certeza.

Além disso, Zach era sinônimo de intensidade. Depois de conviver algumas horas com o garoto você não tem outra escolha a não ser amá-lo ou odiá-lo e antes mesmo que eu pudesse me dar por conta, estava escolhendo a primeira opção. O que eu poderia fazer?

“Posso fazer uma pergunta?”, eu virei para Zach, decidindo que se iríamos agir como pessoas civilizadas não deveria haver segredos entre nós.

“Faça”.

“Quando você disse que teríamos um problema se eu tivesse assassinado a rainha e achasse isso certo..”

“Não, eu não estava falando sério”, Zach respondeu antes que eu pudesse perguntar, me surpreendendo por ter adivinhado que essa era minha dúvida. “Eu estava apenas tentando chamar sua atenção”.

“Bem, você conseguiu, aparentemente”. Zach tentou esconder um sorriso, mas não conseguiu.

“Não me leve a mal, mas eu estou contente por ter conseguido” ele respondeu com sinceridade. E já que estávamos sendo sinceros eu resolvi dizer a verdade também.

“Quer saber, Zach?”. Ele ficou tenso com a pergunta. “Eu também”. Então Zach relaxou, se permitindo sorrir mais uma vez. Foi quando decidi que eu adorava vê-lo sorrir, pois além de ser um sorriso sincero, me fazia sentir tranqüila e serena, e nesse momento era tudo que eu precisava para não entrar em parafuso. Em seguida, porém, Alberta gritou anunciando o fim dos treinos e aquilo chamou minha atenção. E não de maneira positiva.

“Zach, você tem horas?”.

“Cinco e meia, por quê?”. Maldição, o tempo realmente havia voado.

“Desculpa, mas eu preciso ir. Eu prometo explicar tudo para você depois, ok? Eu tenho que resolver alguns assuntos antes de anoitecer, sem falar que preciso me preparar para o ataque. Uma sugestão? Faça o mesmo”. Com isso eu levantei e deixei Zach a ver navios para voar em direção ao meu quarto.

A assembléia começaria em meia hora  e eu conversando com Zach como se estivéssemos tomando o chá das cinco? Onde eu estava com a cabeça? Sem falar que em breve o sol daria espaço para a lua e o azul do céu seria substituído por um véu negro, declarando o início de um ataque mais do que esperado por todos.

Engraçado, algum tempo atrás eu costumava ficar tensa durante as noites, também pudera, era o turno mais agitado para mim, pois é quando começa o dia dos Morois, conseqüentemente o de seus respectivos guardiões, o que nos obrigava a manter uma vigilância permanente sobre tudo que acontecia ao nosso redor. Porém, eu aprendi a ver a noite de outra forma quando fugi da escola com Lissa por dois anos, porque eu tive a experiência de mudar essa rotina, acordando pela manhã e dormindo à noite e eu preciso dizer que isso foi muito bom. Dormir à noite significava que eu estaria acordada pela manhã para contemplar o meu querido e adorado sol, então quando o céu escurecia, meu corpo já relaxava como se quisesse hibernar até a manhã seguinte para sentir na pele aquele calor aconchegante mais uma vez. A partir daí, por mais que as noites tenham voltado a ser agitadas, afinal minha aventura chegou ao fim e eu precisei voltar aos horários de St. Vladimir e logo meus dias também se tornaram uma agitação do cão devido ao assassinato da rainha, meu corpo parou de reagir à noite com tensão, como fazia no começo.

Mas hoje, era como se eu tivesse viajado no tempo e voltado ao passado, pois conforme a noite de aproximava, eu sentia meus músculos tencionarem, embora eu quisesse permanecer calma. Pobre corpo, o meu, eu pensei. Eu estava apenas acelerando os passos para chegar ao meu quarto e ele já estava sofrendo os efeitos da adrenalina correndo pelo meu sangue, preparando-se como se fosse lutar.

Eu não era a única. Lissa estava tão nervosa que me puxava para a mente dela por pequenos intervalos de tempo, possibilitando que eu visse flashes do que acontecia por lá. O problema é que quando isso ocorria, eu me obrigava a parar de correr e meu medo era de não conseguir chegar ao quarto antes que a assembléia começasse.

Essa situação toda me deixava preocupada, pois Lissa não estava sendo solidária, tentando me mostrar alguma coisa importante, ela estava apenas perdendo o controle sobre o bloqueio que ela mantém da sua mente e isso nunca é um bom sinal.

“Qual é Lissa! Me deixe correr”, eu resmunguei baixinho. “Eu estou quase chegando”. E como se tivesse escutado, Lissa me manteve bloqueada até que eu conseguisse entrar no quarto e me sentasse na cama com as pernas entrelaçadas. Nas mãos, duas almofadas. Uma delas eu deixei sobre meu colo e a outra usei para me agarrar, pois o nervosismo era tanto que eu precisava descontar em alguma coisa.

“Ok, Lissa, aqui vou eu”, eu disse em voz alta após um suspiro. Como eu já esperava, não foi difícil furar o bloqueio dela e como num passe de mágica eu estava sentada em uma das primeiras fileiras de um auditório, na companhia de minha mãe. Conforme Lissa olhava ao redor, conferindo quantas pessoas estavam presentes, eu pude ter uma idéia do motivo que a estava fazendo perder o controle. O auditório estava explodindo de tanta gente e Lissa teria que enfrentar todas aquelas pessoas.

No palco foram colocadas onze poltronas, uma para cada representante de cada família real. Destas onze, dez seriam ocupadas, pois a que seria destinada a Lissa ficaria vazia, como sempre fica cada vez que o conselho se reúne para tomar uma decisão. Um fato lamentável e sem perspectivas de mudança, uma vez que seria necessário haver mais um Dragomir vivo para que Lissa assumisse seu lugar entre os conselheiros. E nós sequer sabíamos se de fato existia mesmo um outro Dragomir, já que a pista que estávamos seguindo esfriou assim que Emily declarou que Jill, nossa suspeita número um de ser irmã de Lissa, era filha de outro Moroi e não de Eric. Sendo assim, Lissa continuava sendo a única de sua família, condição que a impedia de participar do processo eleitoral que ocorreria logo em seguida.

Morois e Dhampirs de várias regiões haviam se deslocado até a corte para participarem desse grande e importante evento. Como de costume apenas era permitida a presença das gerações mais antigas de cada família real, a fim de não tornar o momento ainda mais caótico, então nem preciso dizer que a visão do auditório lembrava uma exposição de peças de museu.

Isso trouxe uma dúvida a minha cabeça: será que eles acreditarão na idéia de que estão tentando aplicar um golpe contra os Dhampirs e aceitarão prorrogar a eleição por causa disso? Pessoas antigas sempre tem uma certa dificuldade em aceitar mudanças e raramente acreditam nas palavras dos mais novos, achando que exatamente pela diferença de idade eles querem tirar proveito daqueles que estão envolvidos no poder a muito tempo e Lissa era, sem dúvidas, a pessoa mais nova dentro daquele auditório.

O burburinho ainda era grande quando Eugene se fez presente no palco e anunciou o nome dos conselheiros reais que, um a um, foram ocupando seus lugares. Porém, quando Daniella apareceu, o silêncio tomou conta do ambiente, tornando até mesmo desnecessário o microfone que ela segurava. Lissa parou de respirar.

“Deu tudo certo com a gravação?”, ela perguntou a minha mãe, quase cochichando.

“Sim, o pai de Mia está apenas esperando o sinal para reproduzi-la”, minha mãe respondeu no mesmo tom, quase inaudível. “Agora é apenas uma questão de tempo”. O pai de Mia, como todo funcionário de limpeza da corte, tem acesso livre à praticamente todas as salas e demais dependências reais, exatamente o que minha mãe e Lissa precisavam. Tudo que elas tiveram que fazer, pelo visto, foi pedir um pequeno favor.

“Senhoras e senhores, antes de darmos início ao processo que elegerá nosso novo governante real, eu gostaria de pedir alguns minutos da atenção de vocês para transmitir um recado de Ibrahim Mazur”. Nathan olhou para sua esposa na tentativa de entender o que estava acontecendo e quando não chegou a nenhuma conclusão, virou-se para Eugene, que se mostrava tão confuso quanto ele.

“A estabilidade de um governo se baseia em uma série de critérios, sendo alguns deles transparência, honestidade, caráter e confiança. Ao acabar com uma dessas coisas, podemos dizer que temos uma crise. Acabar com todas elas, nos leva ao caos. Foi o que o assassinato da rainha gerou na nossa sociedade. Caos. Por isso, para começarmos uma nova etapa no governo, nada melhor do que usarmos os fortes alicerces mencionados anteriormente, não é mesmo? Por isso, senhoras e senhores, com vocês, um pouco de transparência e honestidade. Som, por favor!”, Daniella disse não parecendo nem um pouco ressentida de seu ato.

A gravação começou a ser tocada imediatamente e ao descobrir que se tratava da confissão de sua participação no assassinato da rainha, Eugene disparou um olhar mortal para Daniella. Não havia nada que ele pudesse fazer, no entanto, pois as entradas do auditório estavam todas fechadas e o povo começava a reconhecer as vozes como sendo de Eugene e Abe, portanto se ele simplesmente deixasse o local ou atacasse Daniella de alguma forma, seria o mesmo que se declarar culpado.

Bem como imaginamos, Eugene optou por permanecer até o fim, pois pelo menos dessa maneira ele teria uma chance de se explicar ao povo, se é que alguém permitiria que ele se explicasse, pois conforme a gravação avançava, mais revelações vinham à tona, chocando os presentes.

O tumulto que se formou no começo continuou mesmo depois que a gravação parou de ser reproduzida e os guardas que eram responsáveis pela segurança do auditório estavam tendo dificuldades em controlar pequenas brigas que eclodiam pela divergência de opiniões sobre a veracidade da gravação. Quando a força física passou a não ser suficiente para se estabelecer controle, a segurança real foi obrigada a utilizar talvez o artefato mais eficiente disponível para trazer razão de volta às pessoas. A maldita e ensurdecedora sirene. Apesar das pessoas resistirem ao impacto inicial do estridente som aos seus ouvidos, em cinco minutos estavam todos calados e com as mãos tapando suas orelhas. Foi tiro e queda.

Diante de uma platéia silenciosamente enfurecida, Eugene levantou-se e disse provavelmente a única coisa que lhe restava dizer.

“Que espécie de brincadeira é essa?”, Eugene perguntou assim que o silêncio foi restabelecido. “Essa conversa jamais ocorreu, eu posso garantir isso a vocês!”.

“Como você pode negar uma coisa dessas? Era a sua voz na gravação!”, um dos Badicas o acusou diretamente da platéia.

“Tecnologia digital, só pode! Hoje em dia tudo é possível com a ajuda de um computador! Vocês acham o quê? Que eu teria a capacidade de cometer os crimes mencionados nessa gravação e ainda ter cara de aparecer aqui? Isso não está me cheirando bem. Alguém deve estar querendo me incriminar!”.

“Chega! Pelo amor de Deus, chega!”, exaltou-se um dos conselheiros reais, provavelmente o porta-voz deles. “Essa discussão não vai levar a nada a não ser especulações infundadas. Além disso, estamos no meio de um processo eletivo importante e, por isso, após discutir com os demais conselheiros, consideramos que é melhor darmos continuidade a ele. Há muitas coisas acontecendo nesse momento e certamente um governante seria a peça fundamental para decidir sobre elas. Lembrem-se de que um povo sem governante é um povo sem lei e um povo sem lei é um povo sem razão”.

Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo e pelo visto minha mãe também não. Será possível que mesmo sabendo da possibilidade de Eugene ter participado de um plano tão cruel, aqueles conselheiros ainda achavam melhor primeiro eleger um governante? Não, não era possível. Certamente entre os membros do conselho havia quem estivesse metido na sujeira junto com Eugene e Nathan e essas pessoas deviam estar agindo em prol da causa deles, convencendo os demais a concordarem com essa idéia, talvez até mesmo usando compulsão. No meio de tanto caos, isso passaria sem ser percebido. O pior de tudo era que, enquanto um governante não era nomeado, a autoridade maior era exatamente o conselho real e se eles disseram que a eleição deveria vir antes da investigação dessa conversa entre Lazar e meu pai, assim seria.

As emoções de Lissa nesse momento poderiam ser definidas como intensas e ela parecia paralisada, em choque com a seqüência dos acontecimentos, afinal a gravação em si deveria ter funcionado quase automaticamente para adiar essa maldita eleição, mas para nossa surpresa isso não aconteceu. Diante disso eu imaginei que Lissa fosse se rebelar, ter um ataque de fúria ao tentar mostrar que a decisão tomada pelo conselho não era a mais inteligente, mas ao invés disso ela permaneceu calada em seu lugar e aquilo me tirou do sério. Minha vontade era de sacudir os ombros dela até que seu cérebro fizesse um “click” e Lissa esboçasse alguma reação, o que era impossível, infelizmente. Era como se eu fosse um espírito revoltado preso dentro de um corpo.

Foi então que eu percebi que o motivo do choque de Lissa não era o que eu imaginava. Ao prestar mais atenção ao que os sentidos dela captavam, eu vi que ela mantinha seu olhar fixo para a platéia a sua esquerda, onde um senhor de cadeira de rodas estava. Um senhor que conhecíamos muito bem e que atendia pelo nome de Victor Dashkov!

Inacreditável! Como se não tivéssemos problemas suficientes, agora eu tinha mais uma razão para estar à beira de um ataque de nervos! Que diabos Victor fazia no meio de um monte de Morois que facilmente poderiam reconhecê-lo? Quer dizer, ele havia pintado o cabelo, estava em uma cadeira de rodas e, graças a sua doença, parecia ser mais velho que realmente era. Mas ainda assim, era Victor. Se eu e Lissa conseguimos identificá-lo, então qualquer um poderia fazer o mesmo, apesar de que as atenções dos demais estavam voltadas para Eugene e os conselheiros.

Quando Victor piscou para ela e sorriu timidamente, Lissa saiu de sua hipnose e virou-se para o outro lado.

“Sra. Hathaway, você poderia me explicar o que Victor Dashkov está fazendo aqui?”, Lissa perguntou com toda a calma do mundo, ao sussurrar no pé do ouvido de minha mãe, que sem saber o que dizer, apenas encolheu os ombros, pois Lissa ainda não sabia que Victor estava do nosso lado e agora não era a melhor hora para ela ficar sabendo. Eu tinha planos de contar isso a ela, mas tanta coisa aconteceu e ainda estava acontecendo que eu não quis preocupá-la com mais esse detalhe, pois por mais que Victor tenha se aliado a nós, para Lissa ele sempre será o cara que a seqüestrou e torturou. Ela ainda tinha mágoas e ressentimentos não elaborados em relação a seu tio e por isso não me surpreendi quando ela teve vontade de chamar a atenção para Victor na intenção de retardar mais um pouco a eleição, desistindo no último momento, ao ponderar se essa seria uma boa idéia, pois se os conselheiros relevaram o caso de Eugene, com Victor não deveria ser muito diferente. Não havia o que fazer, Lissa pensou. Com ou sem revelações bombásticas, essa eleição estava destinada a acontecer.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 38

Eu ainda não acreditava que as coisas estavam tomando esse rumo. Por que minha mãe simplesmente não se manifestou para revelar tudo que sabia? Ta certo que como guardiã da princesa Dragomir ela não tinha direito de falar por Lissa, mas se for isso, Eugene também não tinha direito de fazer metade das coisas que fez e isso não o impediu de chegar aonde chegou. Ela poderia argumentar que meu pai lembrava da conversa com Eugene e poderia provar que ele estava mentindo, mas ao invés de fazer um escarcéu, minha mãe ficou calada. Se por medo de ser expulsa do local e piorar ainda mais as coisas, ou  por ter visto que não adiantaria nada armar um barraco, eu não tinha como saber.

A verdade era que o povo estava precisando desesperadamente de um governante para se sentir seguro e os aliados de Nathan e Eugene estavam se aproveitando disso, dando ao povo exatamente o que ele precisava, conquistando assim sua confiança. Confiança essa que mais tarde seria fundamental para convencer as pessoas de que as provas contra Eugene eram falsas e ele, inocente, não o responsável pela morte de Tatiana. É, de alguma forma eu precisava dar crédito ao porta-voz dos conselheiros quando ele disse que um povo sem governo é um povo sem razão porque era simplesmente inadmissível, e completamente irracional, ninguém achar errado nomear o sucessor do trono antes de investigar as barbaridades praticadas por Eugene!

O mais engraçado era que eu estava certa de que Nathan ficaria surpreso com as revelações sobre a morte de sua irmã contidas na gravação e exigiria que as investigações fossem realizadas agora, mas não. O máximo que ele fez foi franzir a testa e encarar Eugene por alguns segundos, porém provavelmente não acreditando que seu comparsa faria uma coisa dessas, acabou relevando as acusações e acreditou que Eugene estava sendo vítima de alguém que queria incriminá-lo, um erro do qual se arrependerá certamente quando essa situação for investigada, o que pelo visto não ocorreria tão cedo. Será possível que não há justiça nesse mundo?

Eu me sentia com as mãos amarradas, pois usar o que sabíamos sobre Eugene para interromper a eleição, além de não ter sido uma boa idéia, foi uma idéia que não deu certo. Sem falar que Daniella, ao pedir um espaço para a reprodução daquele áudio, declarou aos quatro cantos que é contra qualquer irregularidade que estivesse acontecendo, incluindo as irregularidades em que seu marido está envolvido, o que pode ser perigoso para ela, pois quem se torna uma pedra no caminho de quem já perdeu a noção do que é certo e errado, pode facilmente ser chutada para fora da estrada. Enquanto eu lamentava as desgraças da vida, Lissa parecia preocupada com outra coisa, pois olhou mais uma vez para Victor e aquilo acabou me fazendo pensar que de todas as pessoas disponíveis para assumir o governo, ele talvez seria a melhor opção para substituir o lugar de Tatiana. Aliás, ele já era o sucessor do trono antes ser diagnosticado com sua doença e só não estava no poder agora porque o destino quis que sua doença não tivesse cura, e de acordo com as leis, isso o impedia de exercer tal posição. Irônico, pois alguns anos atrás eu jamais consideraria viável colocar uma pessoa como Victor no poder. E se hoje ele pudesse ser escolhido, eu acho que ergueria as mãos para o céu. Se ao menos tivéssemos mais tempo, poderíamos dar um jeito de pelo menos colocar Lissa entre os conselheiros e evitar que algum aliado de Eugene e Nathan fosse eleito. Mas não havia mais tempo, pois o porta-voz olhou para a platéia, provavelmente no intuito de se certificar de que não haveria outras interrupções, ele anunciou o que não queríamos ouvir.

“Senhores e senhoras, acredito que agora seja possível dar início à assembléia que elegerá nosso futuro governante, então por favor…”.

Um enorme estrondo ecoou pelo auditório e o discurso precisou ser interrompido mais uma vez, fazendo alguns dos conselheiros revirarem os olhos, não acreditando que aquilo estava acontecendo. O silêncio que se formou era maior do que o que já existia e com isso foi possível identificar um tumulto acontecendo do lado de fora.

“Talvez devêssemos ir direto ao assunto que interessa e deixar as solenidades de lado”, sugeriu um dos conselheiros. O estrondo se repetiu, mas desta vez não foi preciso identificar de onde ele veio, pois a porta de entrada do auditório se abriu escancaradamente.

“Não tão cedo”, uma voz gritou ao fundo, fazendo com que todos virassem suas cabeças naquela direção, parecendo surpresos. Mas não Lissa, porque pela voz ela sabia quem era e por isso não teve nem coragem de olhar para trás.

Jill avançou pelo corredor principal do auditório em direção onde estavam os conselheiros, seguida por sua mãe e munida de uma pilha de papéis. Para minha surpresa, na porta por onde elas entraram estavam os guardas de Victor, prontos para atacar quem tentasse expulsar Jill ou sua mãe de lá. Então tudo fez sentido. Victor estava aqui para ver o circo pegar fogo, porque ele sabia o que aconteceria se Jill aparecesse e pelo visto ele não apenas sabia que ela apareceria como também a ajudou a chegar até aqui.

“Não tão cedo?”, interrompeu o porta-voz dos conselheiros. “Com todo respeito, quem é você, garota? Você pensa que pode invadir esta assembléia desse jeito e dizer o que quiser?”.

“Não, na verdade eu sei que não posso sair dizendo o que eu bem entendo aqui dentro, mas eu sei de alguém que tem esse direito, apesar de não tem permissão para exercê-lo”, ela disse com ousadia. “E eu estou aqui para corrigir esse erro”, ela concluiu.

“Do que você está falando?”, ele perguntou.

“Eu estou falando do caso de Vasilisa Dragomir, senhor”. O porta-voz a olhou com curiosidade e Jill, entendendo isso como um sinal para prosseguir, assim o fez. “O que eu quero dizer, senhor, é que aqui nesses papéis eu tenho provas suficientes para que Lissa se junte aos demais conselheiros e tenha direito a um voto nesta assembléia”. O Moroi com quem ela estava falando a olhou com curiosidade, parecendo achar graça de Jill.

“Sinto muito minha querida, mas isso não é possível. Vasilisa Dragomir é a última de sua família e…”.

“Não mais”, Jill interrompeu com um sorriso maroto no rosto, olhando brevemente para Lissa, que estava tão perdida quanto os demais presentes. “Há outro Dragomir vivo, um filho que Eric Dragomir teve fora do casamento alguns anos atrás”.

“Eu não sei de onde você tirou essa informação, mas eu lhe garanto que ela não é verdadeira”, ele rebateu.

“Mesmo? Não é o que os testes de DNA que eu tenho aqui em mãos dizem, pois de acordo com eles Lissa tem um irmão, ou melhor, uma irmã”.

“Mesmo?”, ele questionou parecendo ainda desconfiar de que se tratava de um blefe. “E quem seria essa pessoa?”.

“O senhor está falando com ela neste exato momento”. Lissa ergueu-se de onde estava, apoiando as mãos na pequena divisória de madeira que a separava de onde estavam os conselheiros à sua frente. Ofegante como se tivesse corrido uma maratona, Lissa olhava atentamente para Jill, não acreditando no que ela havia revelado. Eu não acreditava também, apesar de já saber que havia a possibilidade das duas serem irmãs. Mas depois que Jill deixou St. Vladimir com sua mãe eu tinha perdido as esperanças de que ela questionaria a verdade sobre seu pai e talvez por isso meu coração parecia bater no mesmo ritmo acelerado do de Lissa, movido pela emoção de saber que agora ela não estava mais sozinha no mundo, que por mais que as coisas ficassem difíceis ou complicadas, Lissa teria alguém para chamar de família, para estar do lado dela e dizer que tudo ficaria bem.

Agora, se o choque foi grande para quem já estava por dentro da história, ele foi bem maior para aqueles que não sabiam de nada. Eu estava começando a identificar algumas expressões de espanto entre alguns dos conselheiros e demais presentes no auditório quando fui bruscamente desconectada da mente de Lissa, apesar de que, desta vez, ela não havia sido a responsável por isso.

Uma palavra foi o suficiente para me trazer de volta a realidade. Buria, uma palavra russa que eu já conhecia, mas apenas porque um dia eu fui obrigada a anunciá-la quase como uma sentença, quando a escola foi atacada por Strigois pela primeira vez, pareceu ecoar pelos corredores da escola, o som vindo da direção do ginásio. Tempestade é a melhor tradução para o termo e é fácil de se entender o motivo, afinal uma tempestade é uma ameaça intensa, que pode ser classificada como uma catástrofe ou apenas um incômodo, dependendo de como e se sobrevivemos a ela.

Eu não estava certa de que havia escutado corretamente porque por alguns segundos tudo parecia na mais absoluta paz, porém em seguida o alvoroço começou. Pessoas corriam pelos corredores repetindo o que o guarda havia anunciado e eu não esperei a palavra ser dita mais do que pela segunda vez para descer voando em direção ao ginásio, local em que estavam praticamente todos reunidos.

Bendita seja Alberta por ter dado seguimento ao processo de reativação dos postos de observação da escola, eu pensei. Aquelas antigas cabanas de madeira que se localizavam na periferia do território de St. Vladimir e ficavam em pontos estratégicos para podermos visualizar o inimigo a uma distância segura infelizmente acabaram sendo desativadas devido à confiança que se depositou na proteção da magia Moroi contra Strigois. Um grande erro, já que certamente ninguém considerou a hipótese de que humanos pudessem ajudar esses seres a destruir a barreira mágica, o que não apenas ocorreu, mas também resultou no primeiro ataque de Strigois a St. Vladimir, que só não foi uma tragédia completa, pois eu e Dimitri por um acaso estávamos próximos a uma dessas cabanas quando eles invadiram a propriedade da escola pela primeira vez. Assim, enquanto Dimitri tentava dificultar o avanço dos Strigois, eu tive condições de avisar aos demais guardas sobre o ataque a tempo de eles se prepararem para lutar. Essa invasão serviu para que Kirova e Alberta considerassem a reutilização daquelas cabanas, mas foi a ameaça iminente da Sra. Karp que fez com que os planos fossem definitivamente colocados em prática. E pelo visto o sistema havia funcionado mais uma vez.

No ginásio a primeira pessoa que eu procurei foi Dimitri. Ele estava de costas para mim dando algumas últimas instruções para um grupo de alunos e tentando tranqüilizá-los. Aliviada por ver que ele não havia tentado nenhum ato de coragem como se entregar para evitar o confronto, eu acelerei meus passos em direção a ele, empurrando para o lado todas as pessoas que me impediam de chegar até lá. Ao me desvencilhar das duas últimas pessoas que me separavam de Dimitri eu me impulsionei para frente com um pouco mais de força do que o necessário e acabei sendo projetada na direção dele, que precisou me segurar em seus braços para me estabilizar. Dimitri apenas ergueu as sobrancelhas, sem entender o que estava acontecendo.

“Finalmente achei você”, eu disse, sem me preocupar em explicar o motivo de ter me agarrado nele como se fosse um cipó. Dimitri dispensou os alunos com quem falava e virou-se de frente para mim.

“Eu estava começando a ficar preocupado. Onde você estava?”, ele perguntou.

“Com Lissa, acompanhando o começo da assembléia, mas isso é uma longa história. Me diga…Eles estão vindo, não estão?”. Dimitri suspirou fundo e nesse momento eu sabia que a resposta era afirmativa. Ainda assim, ele sentiu a necessidade de verbalizá-la.

“Sim, eles estão vindo. Não é um grande grupo, mas eles estão se aproximando a toda velocidade”.

“E se houver mais? Quer dizer, e se esse primeiro grupo for o primeiro de muitos?”.

“Só existe uma maneira de saber, mas nós não esperaremos para descobrir. Nós vamos atacar”, Dimitri respondeu, não oferecendo uma melhor resposta. “Nós já estamos equipando os Morois que lutarão conosco com armas carregadas com as balas enfeitiçadas”.

“Morois? Meu Deus, Dimitri. Eu preciso encontrar Adrian! Você viu ele?”.

“Pensei que você não perguntaria nunca”, Dimitri disse para minha surpresa. “Eu estou de olho nele desde que saímos do laboratório. Não que ele saiba, é claro, senão ele já estaria arrumando confusão, mas eu sei que você se importa, então, lá está ele”, Dimitri apontou para uma pequena multidão.

“Eu vou levá-lo para a igreja para não precisar me preocupar com a segurança dele e encontro vocês em seguida ok?”.

“E seu pai?”, Dimitri perguntou, lembrando-me que Adrian não era o único Moroi que precisava de proteção.

“Abe já é bem grandinho e sabe como se cuidar, Dimitri. E nós dois sabemos que Adrian apenas pensa que sabe”. Aquilo serviu para mantê-lo calado e me deixar ir atrás de Adrian, afinal eu tinha razão. Alguns empurrões depois eu alcancei Adrian, não me preocupando em interromper qualquer conversa que ele pudesse estar tendo. Eu simplesmente o agarrei pela mão e o puxei, arrastando-o junto comigo.

“Bom ver você também, Little Dhampir, mas isso realmente é necessário?”, Adrian perguntou com deboche. Incrível como ele sempre consegue manter o sarcasmo mesmo nas piores situações.

“Não me provoque, Adrian. Eu não estou de bom humor”.

“Eu posso perceber isso”, ele resmungou. Alguns segundos de silêncio e então… “Para onde estamos indo?”, Adrian perguntou, falando sério dessa vez.

“Eu estou levando você para um lugar seguro”, eu disse sem parar de caminhar. Porém, ao dizer isso eu senti um puxão no braço de Adrian, me obrigando a virar para trás e ver o que era. Adrian estava tentando se soltar. “Adrian, pára com isso!”, eu gritei ainda segurando o pulso dele com força.

“Me solta, Rose. Eu não ficarei escondido enquanto todos aqui se arriscarão para ajudar”.

“Você quer ajudar?”, eu gritei novamente, puxando o braço dele com força para que ele parasse de se debater e prestasse atenção. “Pois saiba que melhor ajuda quem não atrapalha, Adrian e é o que você fará se ficar solto por aí. Atrapalhar”.

“Eu sinceramente não vejo como. Se fosse assim essa regra então deveria valer para todos os Morois”, Adrian desafiou. Eu respirei fundo, sem paciência. Se fosse um dia comum eu ficaria horas discutindo com Adrian para convencê-lo a vir comigo sem eu precisar apelar para sentimentalismos, mas estávamos correndo contra o tempo, pois a qualquer momento aqueles Strigois poderiam aparecer no meio do caminho e impedir que eu levasse Adrian com segurança até a igreja, então eu simplesmente lhe joguei a verdade na cara.

“Mas essa regra não vale para todos. E você quer saber por quê? Porque se alguma coisa acontecer com qualquer um desses Morois, eu vou lamentar o ocorrido e continuarei lutando, mas se algo acontecer com você eu…”. Eu precisei sacudir a cabeça para clarear a mente e então prosseguir. “Adrian, eu acho que eu me culparia pelo resto da minha vida se algo lhe acontecesse. Então, por favor, se você não quer fazer isso por si próprio, pelo menos o faça por mim, pois eu não conseguirei me concentrar em luta alguma se eu ficar me perguntando a cada instante se você está vivo ou não”. Adrian ficou me encarando em silêncio, mas eu me senti obrigada a pressioná-lo devido ao pouco tempo que tínhamos. “Adrian, por favor!”, eu disse olhando-o nos olhos, com um pouco de apreensão.

“Não me olha assim, Rose. Isso é golpe baixo…”, ele resmungou, mas eu continuei encarando Adrian com aquele olhar pidão, que na verdade era mais sincero do que ele poderia imaginar. “Ok, Rose! Eu irei com você até esse lugar seguro”, Adrian finalmente respondeu. “Mas que fique claro que isso não foi justo!”.

“Tudo bem, está anotado. Agora venha”, eu disse, puxando-o novamente pelo pulso, abrindo caminho entre a multidão com o meu braço livre.

Ficamos em silêncio durante todo o percurso, o que me fez observar a noite estava fria e o céu estrelado. Mas era a umidade do ar, que o tornava pesado e cansativo de se respirar, que chamava a atenção, pois tratava-se de uma condição climática atípica para esta época do ano, o que me levava a crer que alguma frente fria se aproximava da região. Tomara Deus, que o tempo não feche e chova durante a madrugada, pois seria um pequeno grande transtorno lutar nessas condições. Não que a chuva nos impedisse de avistar a chegada dos Strigois ou diminuísse nosso ritmo de luta, pois como Dhampirs, nós somos fisicamente fortes e herdamos dos Morois a acuidade de nossos sentidos. Mas sinceramente ninguém merece lutar com uma roupa molhada, pisando em poças de lama e correndo o risco de deixar uma estaca escorregar. Sem falar que o fogo produzido pelos usuários desse elemento não duraria muito tempo e não teria o mesmo efeito agressivo sobre os Strigois com a presença constante da chuva.

Pra dizer a verdade, até seria uma noite agradável se, de onde estávamos, já não fossem ouvidos os gritos da luta que acontecia próxima aos postos de observação, lembrando a quem precisasse de que essa noite não era para ser apreciada. Não havia dúvidas, eu constatei, era só uma questão de tempo até que os Strigois se tornassem fisicamente visíveis.

Ao colocarmos os pés na igreja eu não pude deixar de respirar aliviada, pois seja qual for o cenário com o qual me depararia ao sair dali, agora eu poderia enfrentá-lo sem problemas. Mas antes de sair, por segurança, eu verifiquei se a igreja estava realmente livre de qualquer ameaça e, ao me certificar que Adrian ficaria bem, me dirigi à porta pela qual entramos.

“Adrian, você conhece as regras. Esse lugar é naturalmente protegido por ser sagrado e teoricamente Strigois não conseguem entrar aqui mesmo com a porta aberta, então aconteça o que acontecer apenas não saia dessa igreja, ok?”, eu disse ao parar diante da porta, antes de abri-la.

“Mas e se…”.

“Não existe ‘e se… ’”, eu interrompi. “Eu tentarei não me afastar muito, então se você precisar, apenas grite, ok? Eu virei o mais rápido possível”. Adrian concordou erguendo parcialmente sua camisa, revelando uma pequena arma por baixo dela, enfiada no cós de sua calça.

“Em todo caso eu ainda tenho isso”, ele bateu com a mão sobre o artefato. Por um instante eu fiquei possessa, pois se Adrian estava portando uma arma com balas de prata enfeitiçadas, é porque ele tinha mesmo intenções de participar diretamente do confronto e não apenas ficar curando possíveis feridos, como ele havia dito que faria. No entanto, pensando melhor, era bom mesmo que ele estivesse armado. Significava uma proteção extra, uma chance a mais de sobreviver em uma situação de emergência.

“Apenas tente não acertar o coração deles, ok?”, eu sugeri.

“Não se preocupe, Rose. Minha mira é péssima”. Adrian piscou para mim e eu o abracei com toda minha força, como se um de nós fosse viajar para longe e demorar a voltar. A sensação era tão real que eu de fato já estava sentindo falta dele. Adrian me abraçou de volta, colocando uma de suas mãos na parte de trás da minha cabeça.

“Por favor, cuide-se”, ele sussurrou no meu ouvido, quando eu ainda estava de olhos fechados. Porém me senti obrigada a soltá-lo ao ouvir vozes cada vez mais nítidas e passos que pareciam fazer o chão tremer.

“Céus, eles realmente estão avançando rápido”, eu refleti em voz alta ao perceber a aproximação dos Strigois. “Sinto muito Adrian, eu tenho que ir”. Ele apenas concordou com a cabeça.

“Ei, Rose?”, Adrian chamou quando eu já estava com a mão na maçaneta da porta. Eu virei para trás. “Já que você terá que matá-los, seja cruel e ensine a esses monstros que nos menores frascos estão os melhores venenos, ok? Me deixe orgulhoso de você”.

“Não se preocupe. Eu deixarei”. Com o coração apertado eu bati a porta assim que passei por ela e corri de volta ao ginásio, carregando comigo o medo de não conseguir cumprir minha promessa.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 39

Sem dizer uma palavra eu abri a porta da igreja. Ou teria sido o portal para um outro mundo? A realidade diante dos meus olhos era bem diferente do que a de alguns minutos atrás, pois agora era possível ver uma nuvem de Strigois no horizonte, tentando avançar em direção a escola enquanto Dhampirs esforçavam-se para impedir que isso acontecesse. Eu não conseguia ver quem levava vantagem, no entanto, até porque não tinha tempo para isso, mas eu sabia que enquanto Dimitri e Mikhail estivessem vivos e livres, nós seríamos alvos certos de ataque.

Com uma das estacas em mãos eu procurei seguir de volta ao ginásio sem ser percebida, pois mesmo com Strigois atacando, eu tinha prometido que voltaria até lá para falar sobre Nathan com Abe e Dimitri. É claro que a conversa precisaria ficar para depois, já que os Strigois não estavam brincando em serviço.

Minha prioridade agora era garantir a segurança de Abe. Céus, quando Dimitri me perguntou sobre o que eu faria com meu pai, eu estava tão nervosa com a vulnerabilidade de Adrian que ignorei completamente o fato de que Abe também poderia ser facilmente morto, se atacado. Eu disse que Abe era grandinho e sabia se cuidar porque realmente acredito que a experiência de vida dele o ajudaria a não fazer nada estúpido, mas até então eu imaginei que teria tempo de deixar os dois a salvo antes do ataque começar. Doce ilusão.

Ao me aproximar da porta do ginásio os guardas que cuidavam da segurança externa avisaram os que estavam lá dentro para abrirem a porta e eu quase trombei direto com Dimitri assim que entrei. Ele me amparou para que eu não perdesse o equilíbrio, mas sua expressão não era a das mais amigáveis.

“Eu pensei que tinha acontecido alguma coisa. Você disse que voltaria logo”, foi tudo que ele disse.

“E eu pensei que você tinha concordado que me esperaria aqui”, eu rebati ao ver que Dimitri estava preparado para sair do ginásio quando eu me choquei com ele.

“E aqui estou eu, não estou? Só estava cogitando a hipótese de ir atrás de você”.

“Eu vou fingir que acredito porque não temos tempo pra isso agora, ok?”, eu resmunguei deixando claro que ainda temia uma possível rendição de Dimitri na tentativa de poupar vidas ou que ele saísse para lutar sem ninguém para lhe dar cobertura. Sendo o alvo principal, ou melhor, um dos alvos principais, afinal Mikhail também tinha um “x” marcado no peito, seria burrice Dimitri arriscar-se sozinho ao enfrentar uma massa de Strigois que queriam a cabeça dele, mas estudos comprovam que quando se trata de salvar vidas, somos capazes de fazer as coisas mais estúpidas, então minha preocupação não era totalmente sem fundamento. Exceto pelo fato de que nada havia acontecido e por isso me permiti deixar as neuras de lado e me focar em coisas mais importantes, como a situação de Abe, por exemplo. Após discutir brevemente com Dimitri, concluímos que, com Strigois por toda parte, seria arriscado demais levar Abe até a igreja, logo a única alternativa seria abrigá-lo junto dos demais Morois que não participariam da batalha.

Por uma questão de segurança, havíamos evacuado a unidade dos Morois e levamos todos eles para os últimos andares do prédio onde os Dhampirs estudam, pois na necessidade de fuga, este prédio dispunha de mais aberturas de vidro e outras formas mais fáceis de comunicação com o exterior. Seria um problema se a batalha durasse até o sol nascer, mas como não duraria, graças à sensibilidade dos Strigois à luz solar, não haveria riscos para os Morois. Porém, enquanto o céu estivesse escuro, tudo poderia acontecer e só de imaginar qualquer coisa dando errado, eu sentia um arrepio percorrer pelo meu corpo.

Tentando me concentrar e deixar as neuroses de lado, coloquei na cabeça que essa era apenas mais uma batalha para meu currículo, uma outra oportunidade de mostrar ao mundo que Strigoi que enfrenta Rosemarie Hathaway não volta para seu esconderijo nem vive para contar histórias e de provar a Dimitri que todo o trabalho que ele teve como meu instrutor não foi em vão, afinal essa seria a primeira batalha em que eu de fato lutaria ao lado dele, de igual para igual. Não haveria mais motivos para eu ser poupada do perigo maior ou impedida de fazer parte da primeira linha de ataque. E é exatamente aí é que mora o problema.

Eu não sou mais uma estudante, eu sou uma guardiã agora, assim como Dimitri, Alberta, minha mãe, enfim, e mais do que nunca, estava sentindo o peso de se ter um dever a cumprir, pois quando se é um aluno e um erro é cometido, você tem um respaldo, afinal, ainda está aprendendo. Contudo, depois de formado, as responsabilidades dobram de tamanho e hoje eu teria a minha prova de fogo, sendo testada ao máximo ao participar de uma batalha de onde pessoas que eu amo podem sair muito mais do que feridas e com o dever de me manter viva para poder proteger aqueles que não sabem ou não podem se defender. E aqui estou eu novamente com minhas neuroses. Bom trabalho em mantê-las longe, Rose, eu pensei comigo mesma.

“Então, vamos lá?”, Dimitri disse, interrompendo meus pensamentos. “Nós temos alguns Strigois para matar”. Eu respirei fundo e me posicionei ao lado dele, diante da porta pela qual eu havia entrado, apenas esperando que os guardas recebessem o sinal externo de que seria seguro abri-la. Dimitri me surpreendeu ao segurar minha mão perante todos e apertá-la levemente. Eu apertei a dele de volta e fechei meus olhos por um breve momento, mas as memórias que invadiram minha mente eram tão antigas que os segundos tomados para acessá-las pareceram uma eternidade. Lembranças de quando Dimitri uma vez disse que nós dois não poderíamos ser guardiões de Lissa juntos, pois em uma situação de perigo, como um ataque de Strigois, ele primeiro pularia na minha frente para proteger-me e não na frente dela, como deveria.

Hoje não estávamos defendendo a vida da princesa Dragomir, mas defenderíamos as vidas de diversos outros Morois, pessoas que não só arriscaram suas vidas ao decidirem ficar em St. Vladimir, mas que também estarão lutando lado a lado conosco para ajudar, tornando nossa responsabilidade talvez ainda maior. Será que ainda assim Dimitri pularia na minha frente se eu fosse atacada violentamente por um Strigoi? Uma parte de mim, infantil e ingênua, gostaria que sim, que o amor de Dimitri fosse incondicional a este ponto. Porém, outro lado meu não queria que isso acontecesse, pois ver alguém se sacrificar ou sacrificar a vida de outros por minha causa era algo que eu ainda não estava pronta para aceitar. Aliás, essa idéia não me desce desde que Victor comentou, usando outras palavras, que a vida de um pela vida de muitos às vezes é um bom negócio. Até então eu não havia parado para pensar em como seria caso eu fosse o motivo da morte de inocentes, mas conclui que o peso da culpa seria tão grande que eu provavelmente o carregaria para o resto da vida.

Ou não, eu repensei. Afinal, havia também o outro lado da moeda. E se eu instintivamente pulasse na frente de Dimitri para salvá-lo, percebendo apenas depois que acabei sacrificando a vida de alguém em nome de quem eu amo? Não era uma situação absurda de acontecer, até mesmo porque Dimitri era o alvo principal desses Strigois, logo ele seria bem mais “assediado” do que qualquer outra pessoa e eu não sei como eu reagiria ao ver Strigois ao redor do homem que eu amo, dispostos a acabar com a vida dele mais uma vez e, o pior, para sempre. Será que eu me sentiria culpada nessa situação, deixando de proteger alguém para salvar Dimitri? Meu Deus, como eu posso ainda ter dúvidas? É claro que eu sentiria culpa, onde eu estou com a cabeça?

Imagens começaram a se formar na minha mente, como se respondendo a minha própria pergunta. Minha cabeça estava completamente imersa no medo de perder pessoas queridas. Dhampirs como Dimitri, Eddie e até mesmo Zach, por quem eu me afeiçoei tão rapidamente, corriam riscos mas tinham como se defender. Porém, Morois como Adrian e meu pai, estavam correndo risco apenas por estarem aqui. Já Christian corria um risco muito maior, expondo-se diretamente aos Strigois por ser um dos nossos escudeiros principais, que usará seu elemento para distrair os Strigois e torná-los mais fáceis de serem mortos. E se algo chegar a acontecer com Christian, como dar a notícia a Lissa? Ela recém ganhou uma irmã, oficialmente desta vez. Não seria justo se ela perdesse o amor da vida dela logo agora. Céus, que pandemônio…

“Rose?”, Dimitri me chamou no segundo seguinte, me fazendo abrir os olhos e encará-lo. Foi então, ao mergulhar nas profundezas daqueles olhos castanhos, que eu tive a certeza de que eu faria qualquer coisa por Dimitri e que ele faria o mesmo por mim. Romântico, mas ao mesmo tempo assustador. “Preparada?”, ele perguntou. Apesar de não estar, eu disse que sim porque além de achar que nunca estaria preparada, eu queria ver tudo acabado o mais cedo possível. O sinal externo veio, os portões se abriram e, ao mesmo tempo, eu e Dimitri soltamos nossas mãos, seguindo em direção ao som da batalha que já acontecia. Não demorou muito para que encontrássemos nossos primeiros obstáculos. Três grandes e habilidosos obstáculos, por assim dizer.

Apesar de sentir a proximidade dos Strigois e ficar nauseada, não foi possível evitar que os três nos cercassem. Eu fiquei costa a costa com Dimitri para que pudéssemos ter uma visão total de nossos adversários, andando em círculo para não sermos um alvo fácil. Eles nos acompanharam, observando atentamente nossos movimentos assim como nós, os deles. Cautela, essa era a palavra da vez. Um terreno bem conhecido por Dimitri, mas ainda meio estranho para mim e por isso não agüentei aquela ladainha por muito tempo e parti para o ataque contra o Strigoi diante de mim, que prontamente segurou meu braço com tanta força que eu não pude evitar soltar um grito de dor. Aquilo me irritou tanto que uma espécie de mostro despertou dentro de mim e, num ataque de fúria, eu tirei outra estaca do suporte na minha cintura e mesmo com a mão esquerda consegui acertá-lo na barriga, fazendo-o aliviar o agarro o suficiente para que eu me soltasse e cravasse as duas estacas no peito daquele desgraçado, filho da mãe de olhos vermelhos. A alegria de ter acabado com ele não durou muito, porém, já que meu ataque inicial fez com que os outros dois Strigois também reagissem e agora duelassem com Dimitri, que como eu bem imaginei, era o foco principal deles. Dois para ele e nenhum para mim? Tão injusto!

Os monstrengos estavam tão compenetrados que não perceberam o parceiro deles cair mortinho da silva no chão, uma vantagem bem aproveitada por mim que, sem pestanejar, rasguei as costas de um deles de fora a fora, do ombro até a cintura, num corte transversal profundo. Ele imediatamente virou-se para mim, deixando Dimitri finalmente livre para acabar com o outro Strigoi sem maiores problemas.

Na minha frente, o que eu via era uma besta raivosa vinda diretamente do inferno pronta para matar, ou melhor, para me matar. Eu não o culpo pela reação, afinal eu também não gostaria de ser lacerada do jeito que ele foi. Mas quem mandou ele virar as costas e subestimar uma pequena Dhampir como eu?

“O que houve, olhos vermelhos?”, eu provoquei. “Machuquei você, foi?”. Ele soltou um som gutural como resposta, o que eu tomei como um sim. “Então vem cá, grandão, me mostre que você é capaz de fazer bem mais do que sons estranhos”, eu disse com um sorriso. E ele veio, mais rápido do que eu esperava e mais possesso também, se isso fosse possível, desviando da maioria dos meus golpes e ignorando os que eu lhe acertava.

Maldição, esse é um dos fortes e eu ainda fui provocar, eu pensei antes de ser jogada longe, como uma roupa suja no cesto da lavanderia. O impacto só não foi maior porque uma das coisas que aprendemos nos treinos é como cair estrategicamente e, diferente do que foi a demonstração de luta com Dimitri no ginásio, aqui eu fui arremessada e não derrubada. A diferença é que assim eu tive tempo para me corrigir, enquanto não tocava o chão, pois  tinha a altura a meu favor e ninguém me segurava pelo pé, graças a Deus. O problema foi que enquanto eu voava, literalmente, meu agressor seguiu na mesma direção onde eu aterrissei e, quando eu estava quase levantando, praticamente montou em cima de mim, obrigando-me a recuar até cair de bunda no chão.

Eu me arrastei para trás com a ajuda das mãos, mas ele me pegou pelo pé, puxando-me de volta para perto de si. Entre chutes e golpes com a estaca, que eu disparava quase cegamente, ele deu um jeito de me segurar pelo pescoço e apertar com força. O grito sufocado que eu soltei deve ter chamado a atenção de alguém, pois em seguida era o tal Strigoi que gritava, à medida que era consumido por uma grande labareda de fogo. Com um chute eu o afastei de mim e assim que me aproximei com a estaca em direção ao peito dele as chamas se extinguiram como num passe de mágica. Tamanha sincronia só poderia ser obra de uma pessoa, por isso não me surpreendi ao ver Christian me observando a uma distância considerável quando levantei do chão e sacudi a poeira de mim. Mesmo distante eu pude notar a respiração ofegante dele, como se ele tivesse aliviado por ter conseguido agir em tempo, embora também me lançasse um olhar repreensivo, nitidamente nem um pouco satisfeito com a minha atuação e, eu tenho que admitir, Christian estava certo em pensar assim. Eu estava tensa com tudo o que poderia acontecer e me sentindo pressionada pela minha própria consciência.

Esse primeiro ataque descuidado e desastroso foi a descarga dessa tensão acumulada, servindo apenas para eu abrir os olhos e lembrar que se eu quisesse sair viva desse confronto eu teria que deixar minhas preocupações de lado e me concentrar apenas na luta e não no que havia por trás dela.

Lançando um olhar de desculpas e também de agradecimento para Christian, que se mostrou mais uma vez o guerreiro fiel que é, eu me abaixei para arrancar a estaca do peito do Strigoi caído aos meus pés. Foi quando eu senti alguém puxar meu braço com força.

“Você está tentando se matar, por acaso?”, Dimitri perguntou, me obrigando a olhar para ele. Pelo visto ele havia acabado com o Strigoi com o qual estava lutando e agora tinha tempo para me dar uma lição de moral. Tão típico de Dimitri.

“Não! Eu apenas…”.

“Não importa”, ele interrompeu. “Apenas não…droga, Rose, será que pelo menos uma vez você pode não agir impulsivamente?”. Eu ergui meus olhos para encará-lo, pois essa não era a pergunta que eu estava esperando. Quer dizer, eu esperava esse tipo de pergunta, mas algo na voz de Dimitri me chamou a atenção. Ele estava realmente preocupado ou com medo do que poderia ter acontecido se Christian não tivesse me socorrido? Aquilo mexeu tanto comigo que um nó se formou na minha garganta.

“Desculpa, ok? Eu acho que estava…”. Ele me interrompeu novamente, mas dessa vez ele apenas colocou uma de suas mãos na parte de trás do meu pescoço e me puxou para perto de si, calando-me com um beijo bruto e inesperado, seus lábios firmes contra os meus, através do qual eu pude sentir a intensidade dos sentimentos de Dimitri. Nós dois ainda segurávamos nossas estacas, sujas com o sangue do inimigo, tornando o toque sensual de nossos lábios ainda mais selvagem. Foi um beijo breve mas, meu Deus, acabou com o meu fôlego.

“Você pede pra eu não agir impulsivamente e me beija desse jeito em pleno campo de batalha? Que tipo de mensagem você quer passar?”, eu respondi ainda meio confusa. “É sério, Dimitri, se você realmente quer que eu me concentre mais na luta, por favor, não faça isso de novo”. Sorrindo, ele apenas passou a mão na minha cabeça antes de beijá-la no topo.

“Eu não queria ter que dizer isso, mas talvez seja melhor nos separarmos”, Dimitri sugeriu depois de alguns segundos.

“Você só pode estar brincando!”, eu disse dando um passo para trás para ver se era mesmo uma brincadeira. Droga, não era. Ficar longe de Dimitri justo quando ele é o alvo principal de Strigois não era uma idéia que me agradava, porém eu entendi o que ele quis dizer. Essa preocupação excessiva que um tem com o outro, e da qual eu pareço ter menos controle em comparação a Dimitri, era contraproducente nesse momento. Em outras palavras, a presença física de Dimitri era um estímulo potencializador de uma tragédia, que certamente poderia acontecer, se eu agisse como uma estúpida, repetindo a atuação de agora há pouco. O que os olhos não vêem o coração não sente, certo? Eu espero que sim.

Concordamos, então, que seria mais seguro se não permanecêssemos no campo visual um do outro, eu ficando nos arredores da Igreja para poder cuidar da segurança de Adrian, enquanto Dimitri ficaria mais à frente, próximo ao limite da propriedade da escola. Uma estratégia arriscada, mas que seria mais segura para todos caso funcionasse, pois ao menos assim os Strigois não teriam que ir até o prédio onde eu costumava estudar para procurar Dimitri, afinal os Morois que permaneceram em St. Vladimir estavam todos abrigados lá e, apesar de eu odiar essa regra às vezes, eles vêm primeiro. Com isso em mente, nos beijamos mais uma vez, negando-nos a tornar o momento uma despedida e seguimos até nossos destinos, prometendo não olhar para trás.

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Fanfic Last Sacrifice  (by Little) – Capítulo 40

Eu tive que matar mais dois Strigois até chegar aos arredores da Igreja e estava me afastando deles, dando alguns passos cuidadosos para trás, ainda com a estaca em mãos no caso de outro Strigoi aparecer, quando senti algo esbarrar em minhas costas. Eu me virei rapidamente, pronta para atacar, quando me deparei com Christian e sua versão Moroi de Rambo, pois além de usar uma faixa amarrada na cabeça, ele tinha uma escopeta de calibre 16 cruzada em sua frente,  presa a uma tira de couro pendurada sobre o ombro esquerdo. Em cada uma de suas mãos, havia uma bola de fogo, e elas estavam a um segundo de serem lançadas em minha direção. Se um de nós tivesse se virado com um pouco mais de agressividade eu não sei se ele acabaria estaqueado ou eu, incinerada. O destino agiu a nosso favor, porém, pois seguramos nossos impulsos até identificarmos, de fato, nossos alvos. Quando nos enxergamos as chamas extinguiram-se imediatamente das mãos de Christian e eu quase derrubei minha estaca no chão.

“Rose, por pouco nós…”. Christian não finalizou a frase, fechando suas mãos em punhos, não com raiva, mas com medo do que poderia ter acontecido. Pelo visto eu e Dimitri não éramos os únicos a beira de um ataque de nervos.

“E-eu sei. Por pouco nós… não nos matamos”, eu repeti, conseguindo pôr em palavras o que Christian não havia conseguido, também chocada com o que quase foi um trágico acidente.

Eu mal tive tempo de me recuperar do susto quando senti aquela náusea que precedia a aproximação de Strigois tomar conta de mim. Sem pensar duas vezes, agarrei Christian pelo braço e o puxei junto comigo.

“Nós temos companhia”, eu disse ainda arrastando Christian para o meio das árvores, pois de acordo com minhas sensações, o ataque vinha do lado oposto.

“E nós estamos fugindo?”, Christian perguntou inconformado e, ao perceber que eu o ignorei para não ter que responder afirmativamente, lançou uma bola de fogo em um dos troncos próximos a mim. Eu não estava esperando por aquilo, então acabei possibilitando que ele escapasse do meu agarro.

“Christian, não é hora de bancar o corajoso. Eles estão vindo em nossa direção”, eu alertei, sentindo a náusea tornar-se cada vez mais forte.

“Rose, nós podemos acabar com eles”, Christian exclamou. “Qual é, eu sei que você está tentando me proteger, caso contrário, você jamais correria de um Strigois, mas isso de nenhuma forma é diferente de quando os enfrentamos naquele primeiro ataque à escola. Aliás, é diferente. Agora nós temos isso aqui a nosso favor”, ele argumentou segurando a escopeta em uma de suas mãos.

“Você não entende? Se algo acontecer com você, como eu vou explicar a Lissa, seu cabeça-dura?”. A resposta de Christian me surpreendeu.

“Não ouse usar Lissa como desculpa para os seus próprios medos, Rose. Deixe-a fora disso”.

“Ok, mas você ficará fora disso também”, eu disse automaticamente, tentando agarrá-lo pelo braço de novo, mas Christian se esquivou. Foi a minha vez de fechar as mãos em punhos, mas porque a vontade que eu tinha era de nocautear Christian até que ele caísse inconsciente no chão e eu pudesse arrastá-lo para longe, o que obviamente não era uma opção válida. Tentando me controlar para soar mais convincente nos meus argumentos e tirá-lo dali antes que fosse tarde, eu encarei o chão por alguns segundos.

“Rose, olha pra mim”. Eu senti a mão de Christian tocar de leve o meu braço. A voz dele era suave, quase oferecendo conforto. “Eu sei o que essa batalha significa para você, bem como imagino que deve estar sendo difícil não poder proteger todas as pessoas que você quer e ainda ter que lidar com o fato de que a única pessoa que você pode proteger no momento talvez seja a que menos precisa da sua proteção e que, para sua infelicidade, talvez seja a mais preparada para enfrentar esses monstros com você”, ele disse quase com orgulho de si.

“Christian, nós não temos tempo para essa conversa!”, eu interrompi e, tendo dito isso, consegui segurá-lo pelo pulso. “Vem, nós precisamos sair daqui agora!”, eu finalizei.

“Nós não vamos a lugar nenhum, Rose”, ele respondeu. Imediatamente um círculo de fogo se formou ao nosso redor e eu fui obrigada a parar para não me queimar, acabando com minha última esperança de levar Christian para um lugar seguro. O pouco tempo que tínhamos em nossa vantagem havia acabado e já era possível ver cinco Strigois nos observarem com curiosidade do lado de fora da parede flamejante.

“Vai me dizer que você não está com vontade de descarregar nesses Strigois a raiva que está sentindo por mim agora?”, ele perguntou com um sorriso maroto.

“Pensando por esse lado… eu realmente estou com vontade de matar alguém. Mas é você!”, eu disse entre os dentes, sem desviar os olhos de Christian, afinal enquanto estivéssemos ao redor desse fogo, estávamos seguros.

“Esse é o espírito!”, Christian quase comemorou, sabendo que não precisaria se preocupar com meus sentimentos hostis em relação a ele. “Então, o que você me diz? Você e eu, eu e você, como nos velhos tempos?! Nós já fizemos isso uma vez, Rose e podemos fazer novamente. Eu faço o fogo, você espeta a carne…”, ele sugeriu, piscando para mim.

“Christian Ozera, você está sugerindo mesmo fazer um churrasco de Strigois?”, eu perguntei, incrédula.

“Por que não?”, ele rebateu. Eu respirei fundo, talvez pela milionésima vez no dia de hoje, segurei minha estaca com força e respondi.

“Apenas cuide o ponto, ok? Eu prefiro carne mal passada. É mais fácil de atravessá-la assim”. Christian soltou uma gargalhada.

“Rosemarie Hathaway, é um prazer tê-la de volta”. Eu não consegui evitar um sorriso ao ouvir o entusiasmo de Christian, pois de alguma forma eu me senti mesmo de volta. Eu não estava sendo eu mesma, tendo chegado ao ponto de quase ter esquecido que esse mesmo Moroi, que estava me propondo lutar em conjunto agora, há pouco me salvou de não ter minha cabeça arrancada por um desses Strigois. E ainda assim eu estava querendo escondê-lo como se ele fosse a criatura mais frágil do planeta? Acorda Rose, em primeiro lugar, um Dhampir deve proteger aquele que não pode ou não sabe se defender e, Christian nunca se encaixou em nenhum desses perfis.

“Ok, Christian. Hora de soltar a besta”, eu anunciei. Em outras palavras eu pedi que ele desse fim no fogo ao nosso redor para que eu pudesse começar a atacar. Meu pedido foi atendido prontamente e eu não perdi tempo pensando no que deveria fazer primeiro, afinal não havia o que pensar. Se esses Strigois não fossem mortos, nós seríamos.

Como sempre, fui subestimada pelo meu tamanho e talvez por isso acabar com dois dos Strigois foi mais fácil que tirar doce de criança. Enquanto isso, Christian distraía os demais com sua pirotecnia, ateando fogo nos pés daqueles monstros que sapateavam tanto em desespero que pareciam estar um espetáculo de dança. Não era a toa que Christian estava se divertindo com eles.

Porém, o clima de brincadeira acabou assim que parti para atacá-los, pois daqueles cinco, os três que restaram eram os mais fortes e habilidosos. Eu tive certeza disso quando fui ao chão pela terceira vez ao tentar cravar minha estaca no coração no primeiro deles. Não adianta, eu pensei. Para acabar com um Strigoi mais forte que você é necessário ter paciência e concentração, motivo pelo qual eu até fiquei feliz de ter me separado de Dimitri durante a batalha, afinal se ele estivesse por perto eu já estaria uma pilha de nervos e aqui com Christian eu conseguia focar minha atenção na luta. Ainda bem, pois mal tive tempo sentir o impacto da queda e aquele desgraçado já estava vindo para cima de mim de novo.

Eu estava prestes a me levantar quando enxerguei Zach, no horizonte, finalizando três Strigois, um em seguida do outro, mostrando que, sem sombra de dúvidas, era um oponente de qualidade, o que enfureceu outros dois Strigois que estavam por ali. O problema, como Dimitri mesmo comentou em seu treino, é que ao se mostrar um bom oponente você não assusta um Strigoi, você chama a atenção dele da pior forma possível, pois Strigois adoram lutar com alguém que represente de fato um risco a eles. E foi exatamente isso que acabou acontecendo, pois mais próxima dos portões e dos limites da propriedade de St. Vladimir, estava a maioria de nossos guardiões mais experientes, uma ameaça letal que serviria para reduzir o número de Strigois que pudessem chegar às proximidades do prédio da escola, evitando assim que os menos experientes que estavam por lá tivessem alguma dificuldade em lidar com a situação. Era onde Zach estava, uma exceção em meio a um bando de estudantes, pois apesar da falta de experiência prática, o garoto era dono de habilidade técnica e agilidade impressionantes, destacando-se dos demais exatamente por isso.

Eu poderia jurar que, mesmo de longe, enxerguei os olhos daqueles Strigois brilharem antes de eles partirem para um ataque brutal, sem piedade. Zach estava preparado e parecia dar conta do recado, mas era visível que a situação não duraria assim por muito tempo e o problema era que se aqueles Strigois vencessem Zach, eles poderiam vencer quase qualquer um que estivesse por ali, e isso não era bom, nada bom.

A primeira coisa que pensei foi que eu tinha que agir rápido para poder ajudá-lo, então com toda minha força, eu acertei um chute contra o peito do Strigoi que avançava em minha direção, afastando-o o suficiente para que eu pudesse me reerguer e partir para o contra-ataque com força total. Acontece que meu alvo não se abalou da forma como eu esperava, então eu me obriguei a mudar de estratégia, pois além de querer dar uma cobertura a Zach, eu estava começando a ficar preocupada com o fato de Christian estar usando seu poder de forma intensa. Apesar de saber que não é como a coisa funciona, eu o via como um isqueiro cujo líquido inflamável que serve como combustível para seu funcionamento pudesse acabar a qualquer instante.

“Christian, me passa sua arma!”, eu gritei.

“Alô? Você não vê que eu estou meio ocupado aqui?”, ele perguntou com certa indignação, afinal, como eu tinha imaginado manter aqueles dois Strigois ocupados estava exigindo bastante dele. Então eu simplesmente corri até Christian, soltei a arma da alça que a mantinha presa ao corpo dele e me virei novamente para o Strigoi que eu havia chutado. Eu não precisei esperar muito para poder testar a eficiência das balas enfeitiçadas, afinal o Strigoi não foi muito longe com o meu chute. Ainda assim, por precaução, eu mantive uma estaca em mãos.

O primeiro tiro disparado atingiu o Strigoi no meio do peito, mas como ele continuava vindo ao nosso encontro, prova de que seu coração ainda não havia sido acertado ou de que as balas não haviam funcionado, eu disparei mais uma, duas, três vezes contra ele, até que finalmente o ser desabou diante dos nossos olhos, direto com a cara no chão, para meu alívio. Porém, ainda assim eu achei mais seguro me aproximar do corpo que eu havia fuzilado e cravar a estaca no coração dele. O seguro morreu de velho, não é mesmo? Além disso, o que era mais um furo naquele coração?

Os Strigois que estavam sob o controle de Christian ficaram boquiabertos diante da facilidade com que o parceiro deles foi morto, afinal armas de fogo não deveriam causar danos prejudiciais a eles. Pelo menos não a princípio. Claro que eles não esperavam que alguém tivesse a idéia de confeccionar balas de prata e enfeitiçá-las com a magia Moroi, mas acredito que mesmo assim os dois conseguiram entender o que estava reservado à eles.

“Você pode fazer com eles o que fez conosco há pouco?”, eu sussurrei a Christian, explicando que se ele mantivesse os dois Strigois próximos um do outro seria mais fácil acertá-los com um tiro. Sem hesitar, Christian os encurralou em um enorme círculo de fogo e, como dois animais domesticados, os Strigois foram se aproximando à medida que as chamas consumiam o espaço entre eles.

“O que diabos há de errado com a sua estaca?”, Christian perguntou, sem tirar os olhos de seus prisioneiros, ao dar-se conta de que eu não ia usá-la.

“Nada de errado, não se preocupe”, eu respondi já mirando no coração de um deles. “Eu estou apenas cansada de perder meu tempo”. Eu puxei o gatilho e, dois tiros mais tarde, transformei aqueles Strigois em apenas uma sujeira adicional que os alquimistas teriam que limpar depois.

“Duas balas para dois Strigois? Uau!”, Christian disse meio impressionado com a melhora da minha média desde a primeira vez que usei a arma, minutos atrás. Porém não havia grandes mistérios que explicassem tal evolução, afinal para manusear uma arma tudo que você precisa é de boa pontaria e sangue frio, no caso de precisar matar alguém e eu, como todo Dhampir, possuía as duas coisas. E eu preciso admitir, matar Strigois dessa forma era algo com que eu poderia facilmente me acostumar.

Christian estava pegando sua arma de volta quando o som de tiros ecoou no horizonte. Minha cabeça virou naquela direção e eu gelei ao perceber que era onde eu avistei Zach pela última vez. Merda, eu pensei, fazendo menção de correr até lá, mas parando para dar uma satisfação a Christian.

“Vá, eu ficarei aqui ajudando os outros”, ele me disse como se tivesse lido meus pensamentos. Eu apenas acenei com a cabeça e disparei rumo à escola entendendo, no meio do caminho, o motivo de não ter enxergado Zach. Ele estava no chão, com um Strigoi levemente desorientado sobre ele, devido ao tiro que havia aparentemente perfurado seu crânio, próximo a orelha. Usando segundos preciosos a seu favor, Zach acabou com aquele brutamonte sem maiores problemas. Ao levantar-se rapidamente, porém, já pronto para agradecer a ajuda do Moroi que efetuou o disparo, viu que o mesmo estava nas mãos de outro Strigoi, o qual apenas aguardou Zach ter conhecimento daquilo para torcer o pescoço do jovem Moroi, expressando assim seu prazer vingativo.

Foi nesse exato momento que eu cheguei lá, talvez tarde demais para salvar aquele Moroi, mas pelo menos a tempo de evitar outra tragédia, pois Zach estava à beira de um ataque de fúria e na idade dele, lidar com essa impotência de ver alguém ser morto diante dos seus olhos sem poder fazer, não é fácil. E quando isso ainda é jogado na sua cara como uma provocação, controlar a frustração que se manifesta em forma de agressividade torna-se uma missão quase impossível. Ter controle sobre esses intensos sentimentos vai além da prática, é uma questão de maturidade, motivo pelo qual um ou dois anos fazem diferença na formação de um Dhampir. Eu mesma passei por isso quando Mason foi morto na minha frente, coincidentemente da mesma maneira que esse Moroi, alguns anos atrás. Os sentimentos dentro de mim eram tão intensos que eu acabei permitindo que eles guiassem meus atos, fazendo-me perder completamente o controle sobre a razão. Tudo em que eu conseguia pensar era fazer aqueles desgraçados pagarem pelo que fizeram a Mason. Céus, e imaginar que até então eu jamais havia matado um Strigoi de verdade. Definitivamente, eu estava fora de mim.

E agora Zach estava passando pela mesma situação e talvez com um agravante a mais porque parecia estar querendo provar aos outros, ou até a si mesmo, que poderia lidar com isso, que poderia ser tão bom quanto ou melhor que seu pai e ainda assim não ter o mesmo final que ele. Porém era exatamente a necessidade dessa auto-afirmação o atestado do quanto Zach ainda não sabia quem ele era de fato e do peso que a morte de Arthur ainda tinha na vida dele. E aqui estava Zach, diante de seu maior inimigo, pronto para descarregar sobre ele todos esses sentimentos que eu nem sei se um dia chegaram a ser colocados pra fora.

Exatamente aí é que mora o perigo, o desconhecido. Soltar uma fera que há dentro de você e que parece te consumir vivo todos os dias pode lhe dar a força necessária para derrotar seu adversário, mas também pode lhe cegar ao ponto de não perceber a hora de parar. Minha própria experiência permitiu que eu identificasse nos olhos de Zach o que estava acontecendo e quando ele partiu em direção aquele Strigoi, tão enfurecido que nem se deu o trabalho de recuperar sua estaca ou pegar uma reserva, eu corri na direção dele a toda velocidade, interrompendo sua trajetória com o choque de nossos corpos, que foi tão intenso e inesperado por Zach, que ele literalmente foi arremessado contra o chão.

“Eu assumo a partir daqui”, foi tudo que eu tive tempo de dizer antes de desviar meu corpo do tal Strigoi, que vinha na minha direção como uma bola de boliche pronta para fazer um strike. Eu joguei meu corpo para o lado a segundos de um grande impacto, mas com meu braço esticado e estaca em mãos, fiz um corte de fora a fora na altura do peito dele, girei praticamente 360º e acertei seu coração pelas costas, encaixando a estaca perfeitamente entre as costelas do Strigoi. Um golpe tão perfeito que eu até me permiti sentir orgulho de mim mesma. Porém minha alegria não durou muito tempo.

“Você não tinha esse direito!”, Zach quase gritou para mim, assim que se levantou, acabando com o meu momento. “Era minha obrigação matar aquele Strigoi!”. Eu tive que rir.

“Sua obrigação?”, eu disparei, percebendo pela primeira vez o quanto eu estava irritada com Zach. “Deixe-me ensinar uma lição sobre isso. Sua primeira obrigação é agir com responsabilidade, Zach! Pelo amor de Deus, você estava correndo em direção a um Strigoi sem ter nem mesmo uma estaca em mãos!”.

“Eu poderia ter vencido ele facilmente”, ele retrucou estupidamente.

“Talvez seja um choque pra você, mas isso também poderia não acontecer. Desculpa se eu acabei com a sua brincadeirinha suicida, mas eu não ia esperar para ver quem cairia morto no chão primeiro”. Zach abriu a boca para argumentar, no entanto, eu o cortei na mesma hora.

“Poupe-me Schoenberg, nós não temos tempo para isso. Você vem comigo e vem comigo agora”.

“Rose, eu posso ter agido impulsivamente, mas eu não preciso de uma babá”.

“Querido, se você precisasse de uma babá, você não estaria lutando aqui agora, para começo de história. Eu preciso ir até a Igreja verificar se está tudo bem com Adrian e eu preciso de cobertura”. E claro, eu queria ficar de olho nele, mas isso ele não precisava saber, apesar de ele desconfiar, pois ficou me olhando como se estudasse minhas feições, tentando ver se eu me contradizia, mas pelo visto eu pareci convincente, pois Zach acabou concordando em ir comigo. “E a propósito”, eu disse após alguns minutos, “se eu fosse sua babá, você estaria muito encrencado agora”.

“Rose, você poderia me fazer um imenso favor?”, Zach casualmente, perguntou logo atrás de mim.

“Sim?”.

“Pára de falar nisso!”, ele resmungou como uma criança que já havia entendido o que fez de errado e agora estava com vergonha. Eu sorri em silêncio para não ouvir outra advertência, aproveitando que ele estava atrás de mim e não poderia me ver. Um sorriso que não tinha nada a ver com deboche, mas com a emoção de ter percebido que, apesar de nossa diferença de idade não ser tão grande assim, Zach me levava tão a sério que o fato de eu ter me metido na briga dele e ter lhe dado um sermão depois, realmente o incomodou. E se isso aconteceu é porque de alguma forma eu represento uma autoridade para ele, não havendo palavras para eu descrever o quanto isso representava para mim. Nós continuamos em silêncio por alguns metros, até que Zach o quebrou.

“Posso lhe fazer uma pergunta?”, ele indagou, não esperando minha resposta para lançar sua dúvida. “Por que você está tão preocupada? Eu posso sentir a tensão no ar. Quero dizer, esse Adrian, ele não está a salvo na Igreja?”.

“Sim, ele está, mas não custa verificar. E estou preocupada porque… Eu não sei como colocar isso em palavras, mas digamos que Adrian seja…”.

“Especial?”, Zach completou minha frase.

“É…”, eu respondi vagamente. “Ele é especial”, foi o que eu me limitei a dizer.

“Nesse caso permita-me sugerir um caminho alternativo, pois claramente nós estamos na rota principal dos Strigois e se tivermos que parar para lutar, nós não chegaremos tão cedo onde você quer”.

“Por alternativo, você quer dizer…”.

“Eu quero dizer pelos fundos da igreja. Isso nos tomará um pouco mais de tempo, mas as chances de nos depararmos com imprevistos são relativamente menores”.

“Mais tempo? Zach, é quase o dobro da distância!”, eu me exaltei.

“Exatamente, você acha que algum Strigoi escolheria ir por um caminho mais longo para atingir um objetivo, se há um mais curto? Rose, o bosque diante de nós é o cenário perfeito para uma guerra, você não vê? Pode haver um Strigoi escondido atrás de cada tronco de árvore e dezenas nos topos delas. Eles são rápidos e ágeis e podem se mover com facilidade, mas nem todo Dhampir consegue lutar com troncos por todos os lados. Sem falar que a maioria do nosso exército está lá no meio e bem ou mal isso chama a atenção deles”.

Zach estava certo. Não havia motivos para enfrentarmos um bosque provavelmente repleto de Strigois, se poderíamos seguir por um caminho mais longo, porém seguro. O campo aberto que nos levaria aos fundos da igreja nos colocava em uma situação vulnerável, mas isso também significava que poderíamos avistar nosso inimigo com mais facilidade e as chances de derrotá-lo ou fugir, dependendo do caso, eram maiores. Sendo assim, mudamos de rota e aceleramos nossos passos.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 41

Zach estava certo quanto ao caminho alternativo, mas ele não foi o único a ter essa magnífica idéia. Estávamos correndo em ritmo de trote, lado a lado, quando eu me vi obrigada a parar ao sentir uma indisposição que eu já conhecia muito bem, pois significava Strigois à vista. Zach não sabia, no entanto, que eu tinha esse pequeno grande poder e por isso mostrou-se preocupado quando me viu curvada, com as mãos sobre os joelhos.

“Rose, você está bem? Você está ferida?”, ele perguntou ao colocar gentilmente sua mão sobre minhas costas e abaixando-se para tentar entender o que estava acontecendo. Eu respirei fundo para me concentrar na voz de Zach e esquecer a náusea que havia me pego desprevenida.

“Eu espero que você esteja preparado para lutar”, eu disse sem responder a pergunta dele.

“O quê? Rose, do que você está falando? Você está bem?”, Zach insistiu.

“Sim, eu estou bem. Agora vem comigo”. E tendo dito isso fiz um sinal para que Zach me seguisse, mas em um ritmo bem mais acelerado.

Após corrermos aproximadamente cem metros, encontramos o motivo da minha náusea, outro grupo de Strigois. Por alguma razão eles parecem ter se dividido em pequenos grupos para esse ataque e o que estava diante de nós era formado por seis Strigois, um grupo um pouco maior do que os outros com os quais eu já havia me deparado até agora, mas o que chamava mesmo a atenção eram dois pequenos detalhes. A Sra. Karp era um dos Strigois do grupo e eles lutavam contra ninguém menos do que Mikhail.

Eu congelei momentaneamente, pois Mikhail estava sozinho lutando contra os seis deles e depois de tanto tempo trabalhando atrás de mesas e lidando com papeladas, meu medo era que ele estivesse um pouco enferrujado. Mas não, Mikhail movimentava-se com destreza para desviar dos golpes direcionados a ele e retribuía a violência com ataques inteligentes. Seus olhos pareciam brilhar com emoção e adrenalina, mas até então eu não saberia dizer se era por finalmente ter encontrado Sonya Karp novamente ou se por estar lutando para valer mais uma vez. Ainda assim, ele parecia saber o que estava fazendo.

“Rose, que gentileza da sua parte vir nos fazer companhia”, Sonya disse, sem parar um instante sua busca pelo momento ideal para atacar Mikhail.

“Ela conhece você?”, Zach sussurrou ao meu lado, parecendo preocupado. Nós dois estávamos a uma certa distância da luta que ocorria, mas ainda assim fomos percebidos. Malditos Strigois e seus sentidos aguçados.

“Me desculpe, Sra. Karp. Mas eu não estou aqui para ser gentil”, eu rebati, ignorando a pergunta retórica de Zach. Sem outra opção a não ser comprar a briga, eu dei alguns passos adiante, explicitando minhas intenções, o que não agradou muito minha ex-professora. Com apenas com um breve olhar ela ordenou que dois de seus amiguinhos impedissem Zach e eu de avançarmos. Eles cobriram a distância existente entre nós em poucos segundos.

“Então, você está preparado para lutar?”, foi tudo que eu tive tempo de dizer a Zach antes de me engalfinhar com o Strigoi que vinha determinado a me atropelar como um trator se eu não fizesse nada a respeito. A resposta de Zach veio traduzida em ações, me surpreendendo ao tirar de sua calça uma arma que estava escondida sob a camiseta que vestia. O que aconteceu a seguir eu não pude ver, pois estava no chão, montada em cima do Strigoi com o qual lutava, buscando uma abertura para perfurar seu coração, mas pelo som que ouvi, Zach só poderia ter aberto fogo ao segundo Strigoi. Com um pouco menos prática do que eu, Zach usou quatro tiros para derrubar o massivo homem, porém sem matá-lo e, provavelmente não querendo desperdiçar balas, completou o serviço usando sua estaca.

Foi então que eu pude observar com atenção à arma que Zach carregava na cintura. Ela pertencia ao Moroi que salvou a vida dele há pouco, mas que acabou sendo morto logo em seguida, quando um Strigoi quebrou seu pescoço num vingativo ato contra o ataque de Zach. Não que ele fosse poupar o pobre Moroi de alguma forma, afinal Strigois não tem compaixão, obrigando-nos a agir igualmente em relação a eles. É a vida, fazer o que?

Eu ainda estava no chão, logo após ter dado um fim no meu adversário e rolado-o para longe de mim, quando Zach apareceu no meu campo de visão oferecendo-me ajuda para levantar, a qual eu acabei aceitando. Com firmeza segurei a mão que me foi estendida, impulsionei-me fazendo força com meus pés contra o solo e deixei que Zach fizesse o resto do trabalho, absorvendo o meu peso à medida que me puxava para cima. Num piscar de olhos eu estava sobre minhas duas pernas novamente, impressionada por Zach não ter se abalado nem um pouco ao me levantar como um guindaste. Tudo bem que eu não sou uma pessoa que pode ser considerada pesada, mas um peso morto é sempre um peso morto e foi isso que eu me permiti ser quando ele me puxou. Também, o que eu poderia esperar de um garoto com um corpo como aquele? Verdade seja dita, se ele já chama a atenção com a idade que tem, daqui a alguns anos ele será um legítimo pedaço de mau caminho que provavelmente deixará um rastro de corações partidos. Homens de bem, protejam suas filhas.

Porém, além da demonstração de força de Zach eu percebi o verdadeiro motivo de ele ter me erguido tão rapidamente. Mais dois Strigois vinham em disparada em nossa direção. Eu não pensei duas vezes antes de arrancar a arma de Zach de sua cintura e mirar no peito dos dois desgraçados.

“Quantas balas sobraram?”, eu perguntei a Zach.

“O suficiente”, foi a resposta dele. Eu não precisei ouvir mais nada para começar a disparar, mas depois de dois tiros a arma parou de funcionar e apenas um dos meus alvos havia sido atingido, apesar de isso não ter impedido que ele continuasse sua perseguição.

“Duas balas? Isso é o que você chama de suficiente?”, eu disse entre os dentes.

“Você não precisou mais do que isso antes! Além disso, eu não queria pressioná-la dizendo que restava pouca munição.

“Você só pode estar de brincadeira!”, eu exclamei ao atirar a arma no chão, completamente descarregada. “E pegue sua estaca, nós resolveremos isso do jeito antigo”.

Para se redimir, Zach fez questão de ficar com o Strigoi que não foi atingido e deixou para mim o que estava ferido, não percebendo, é claro, que era exatamente porque ele parecia mais letal que eu atirei nele primeiro. Porém, eu tive mais sorte que juízo, pois como o tiro o atingiu em uma área próxima do coração, alguns de seus movimentos ficaram limitados. Frente a frente com o inimigo, eu usei isso a meu favor, concentrando minha força em um pancada que eu pretendia acertar na cabeça dele. Ao movê-la para o lado, desviando assim do golpe que a acertaria, o Strigoi acabou expondo seu pescoço o suficiente para eu lhe talhar um corte entre o ombro e o maxilar utilizando a estaca que eu segurava na outra mão.

A açougueira adormecida dentro de mim despertou de um sono profundo ao ver uma grande quantidade de sangue começar a escorrer por aquela profunda fissura e, não conseguindo controlar o impulso que me ocorreu, fiz o mesmo do outro lado antes de finalmente ter o prazer de sentir a estaca perfurando lentamente as camadas de pele, gordura e músculos do corpo daquele desgraçado. Eu fiz questão de lhe dar uma morte lenta e dolorosa porque, na condição em que minha vítima se encontrava, ela não representava um risco a ninguém e se eu pudesse fazê-la sentir uma ponta da dor que sua raça maldita um dia causou em mim, eu não perderia tal oportunidade.

Por um breve instante, a lâmina de metal hesitou e nesse momento eu soube que ela havia chegado a seu destino final. A resistência física encontrada não era nenhuma surpresa, tratando-se apenas do pericárdio, uma membrana densa e inelástica que reveste um de nossos órgãos mais vitais, o coração. Normalmente não temos a chance de apreciar o momento em que a perfuramos, mas somos treinados para identificar de olhos fechados a sua tenacidade com a ponta de uma estaca e saber a pressão exata a ser exercida para rompê-la em questão de segundos.

Com a força calibrada, pouco a pouco fui empurrando a estaca para dentro do coração do Strigoi, vendo sua agonia ao perceber que aquele seria o seu fim. No começo precisei lidar com algumas respostas involuntárias daquele corpo, como fortes espasmos musculares, reagindo à prata como se fosse um verdadeiro veneno, mas assim que tudo se aquietou e o que eu tinha nas mãos não passava de mais uma carcaça vazia, eu deixei que ele caísse aos meus pés, assistindo a gravidade fazer o seu trabalho.

Ao procurar por Zach, o encontrei me encarando com uma expressão estarrecida, como se ele não acreditasse que estava me vendo dar uma de psicopata pra cima de um Strigoi. Um pouco incomodada, a primeira coisa que pensei foi por que raios ele estava ali parado ao invés de partir para o ataque dos Strigois restantes, já que claramente ele tinha acabado com o qual estava lutando. Mas então percebi que, dos seis, havia sobrado apenas mais um além de Sonya e era ele quem lutava com Mikhail, o que não fazia muito sentido. Por que ela permitiria que Mikhail corresse riscos lutando já que, de acordo com o bilhete assinado por ela, sua intenção era capturá-lo vivo? Como tudo que faz parte do bizarro contexto do mundo dos Strigois não tem o menor sentido, eu me detive apenas nos fatos em si.

Sonya assistia a luta dos dois com apreensão e excitação, provocando Mikhail com discursos ácidos e cruéis baseados no que eles um dia tiveram juntos, enquanto Mikhail parecia um touro enfurecido diante de um pano vermelho, ansiando passar por cima daquele único obstáculo que o impedia de enfrentar diretamente o amor de sua vida. Ocorreu-me, de repente, que Sonya poderia ter dado ordens para Mikhail ser poupado e a luta que ocorria era apenas uma conseqüência da resistência de Mikhail ao seqüestro oferecido por sua amada. Havia outra hipótese, mas por alguma razão eu me nego a pensar que ela estaria com medo de lidar diretamente com Mikhail e perceber que ele não aceitaria ser transformado, preferindo morrer do que se tornar um Strigoi.

Aproveitando que Sonya estava tão compenetrada em perturbar Mikhail que não percebeu  Zach e eu tínhamos terminarmos de brincar com o passatempo nos dado por ela, combinamos que enquanto Zach distraísse a Sra. Karp eu ajudaria Mikhail, afinal ele ainda estava do nosso lado. Mas nós precisávamos agir rápido, pois em algum momento aquela brincadeirinha de Sonya deixaria de ter graça e as formas que Strigois têm de apimentar as coisas não são nada tradicionais, muito menos agradáveis. Eles partem, sem piedade, para a violência sádica. Mesmo. E se isso acontecesse, meu medo que Mikhail acabasse hesitando em cravar a estaca no peito de Sonya.

O problema foi que eu subestimei os sentidos desses filhos da mãe e quando minha ex-professora percebeu que eu pretendia me meter na briga de Mikhail, ela não pensou duas vezes antes de ir pra cima de Zach, que não estava esperando por um ataque naquele momento, pois tínhamos combinado que ele entraria em cena apenas depois de mim. Zach ainda tentou recuar ao ver Sonya avançar sobre ele, mas não conseguiu evitar que ela o derrubasse e o virasse de barriga para o chão, montando sobre suas costas com um dos braços dele puxado bruscamente para trás. Com a outra mão ela apenas manteve o rosto dele colado ao chão. Ela poderia matá-lo se quisesse, mas não foi o que ela fez porque de certa forma ela sabia que se Zach acabasse morto não haveria nenhum tipo de negociação possível comigo. Eu perderia a cabeça e partiria para o massacre do século, arruinando qualquer plano que ela pudesse ter. Sendo assim, ao manter Zach sob seu poder, Sonya queria apenas a minha atenção, o que ela acabou conseguindo.

“Tire suas mãos dele”, eu ordenei com os dentes cerrados. Sonya soltou uma gargalhada.

“Veja só que interessante”, ela rebateu. “Você ainda pensa que pode salvar todo mundo! Isso não é genuinamente lindo?”. Céus, por que raios Strigois precisam ser tão sarcásticos?

“Qual é Sra. Karp! Ele é apenas um garoto. Eu não consigo acreditar que você se sinta ameaçada por alguém como ele”.

“É claro que eu não me sinto ameaçada, sua idiota. Na verdade eu não sinto absolutamente nada por ele. Nada mesmo, mas é sempre curioso observar como vocês se importam. A questão é até onde vai esse sentimento”.

“O que você quer de mim?”.

“Ah, aí está uma pergunta interessante. Veja bem, eu sei que a sua intenção era ajudar Mikhail enquanto o seu amiguinho aqui me distraísse e acho um tanto presunçoso de sua parte pensar que poderia conseguir as duas coisas. A sua sorte é que eu estou tão feliz em ver o guardião Tanner novamente que até vou lhe fazer uma proposta indecente”.

“Desculpa, Sra. Karp, mas eu não negocio com Strigois”.

“Talvez seja hora de repensar sobre o assunto, minha querida, pois o que eu tenho a oferecer é grande demais para simplesmente ser ignorado”.

“Eu acho que fui bem clara sobre…”.

“Eu proponho uma troca”, ela me interrompeu. “O garoto… por Dimitri”.

No instante em que essas palavras foram ditas, Zach, que se contorcia no chão como uma minhoca, parou instantaneamente. O seu corpo parecia tenso e sua respiração, ofegante. Contudo, quando um breve silêncio se formou, ele deve ter entendido que aquilo era a minha resposta, pois relaxou em seguida e parou de se debater, como se tivesse aceitado que ali era o fim da linha para ele. Eu não o culpo por ter desistido tão facilmente porque Zach sabia muito bem como eu me sentia em relação à Dimitri, mas não esperava que ele fosse acreditar tão facilmente assim que eu desistiria dele. Ele estava até evitando olhar na minha cara, o que começou a partir meu coração, pois eu sabia tudo que aquele novato não queria era ter o mesmo fim que seu pai teve e agora ele estava nas mãos de um Strigoi, tendo sua vida negociada pela de alguém com quem ele nem ousava a se comparar, como se ele não tivesse valor ou importância.

“Você acha que eu vou acreditar nisso?”, eu perguntei indignada. “Dimitri é uma ameaça a vocês. Ele sabe de coisas que não deveria saber e por isso, mesmo que você o poupe, ele sempre será alvo de alguém”.

“É, mas você poderia salvá-lo de mim. Não seria ótimo garantir a ele alguns meses, talvez anos de vida?”.

“Eu gosto de correr riscos, Sra. Karp. Tanto que eu tenho até uma contra proposta a fazer”.

“Mesmo?”, ela disse ironicamente. “Parece que ouvi você dizer que não negocia com Strigois”.

“Digamos que eu segui o seu conselho sobre reconsiderar. E eu devo dizer, minha proposta é tentadora”. Quando vi aquele par de olhos vermelhos brilharem como rubis, eu soube que havia conseguido sua atenção, porém agir na hora certa é fundamental em qualquer negócio e demonstrar ansiedade e insegurança num momento desses nunca é bom. Por isso, mesmo que eu estivesse gritando e me arrancando os cabelos por dentro, eu esperei até que ela me desse um sinal concreto de seu interesse em ouvir o que eu tinha a propor.

“Rose, isso não é um chá das cinco e eu estou começando a cansar de ficar em cima do seu amigo, então é melhor você começar a dizer algo antes que eu, você sabe, fique entediada”. Justamente o que eu precisava ouvir.

“É tão simples, na verdade, que parece estúpido. Você poupa o garoto e luta comigo, porque cá entre nós, eu sou uma adversária mais a sua altura, uma vez que eu já matei vários de vocês. Se você me matar, você pode ter o garoto de volta, Mikhail, Dimitri e quem mais você quiser, afinal eu não estarei aqui para impedir você. Mas se eu matar você, bem… Eu acho que isso resolve todos os meus problemas”.

“Rose, não faça isso!”, Zach disse com certo esforço, já que a Sra. Karp não estava sendo nada gentil com ele. Ainda assim eu notei uma parcela de emoção em sua voz.

“Poupe-me de seu discurso, novato. Eu não vou desistir de você”, eu respondi sinceramente, emocionada de uma forma que eu não pude demonstrar, evitando chamar Zach pelo nome para que ele não fosse associado com o seu pai, pois uma vez que isso acontecesse não se teria como provar que o garoto era inofensivo e meu plano iria por água abaixo.

“Interessante! Você está mesmo abrindo mão de salvar Dimitri Belikov…”, Sonya Karp ergueu de leve a cabeça de Zach pela testa e o estudou, “… por causa disso aqui?”, ela perguntou, chocando a cabeça dele contra o chão, com uma expressão de nojo, como se aos olhos dela isso não valesse a pena. Eu estremeci junto com Zach, mas fiquei aliviada ao ouvir a Sra. Karp pedir para que eu ficasse com a estaca dele por precaução. Em outras palavras ela havia aceitado minha proposta e não queria correr o risco de ser atacada por ele pelas costas. É a lei da sobrevivência, afinal, não se pode nunca confiar no inimigo, não importa quão frágil e inofensivo ele pareça, porque as aparências enganam e nós podemos sempre cometer erros.

Atendendo a solicitação feita a ele, Zach atirou para mim a estaca com que vinha lutando até agora, mantendo consigo, porém, uma estaca sobressalente escondida debaixo de suas roupas, presa rente a sua cintura por uma faixa elástica exatamente para não ser de fácil percepção. Uma espécie de arma de emergência, utilizada por nós em batalhas como essa, afinal, como Dimitri disse uma vez, um guardião prevenido sempre carrega mais do que uma estaca consigo, algo do que a Sra. Karp sequer desconfiou, até mesmo porque prendemos essa estaca reserva na nossa frente, devido ao fácil acesso e Zach estaca de barriga contra o chão.

Conhecer o inimigo. Eis uma poderosa arma se você usá-la de maneira inteligente. Era isso que eu estava tentando fazer, propondo a um Strigoi um bom desafio, exatamente o tipo de coisa para a qual eles não conseguem dizer não. Já a Sra. Karp parece não ter feito direito sua lição de casa, pois sequer considerou que Zach poderia ter mais do que uma estaca e ele tinha. Ela estava cometendo provavelmente o maior erro de sua vida agora, apenas não sabia disso.

Supostamente desarmado, Zach foi usado de escudo pela Sra. Karp assim que ela saiu de cima dele e o ergueu, mantendo agora os dois braços dele para trás.

“Não me leve a mal, garoto, mas eu não gosto de ser surpreendida, então isso…”, Sonya disse, quebrando o braço direito de Zach, fazendo-o gritar de dor, “… é para caso você resolva bancar o corajoso, o que eu espero que não aconteça”. Ok, por essa eu não esperava.

“Não se preocupe, Sra. Karp”, eu disse entre os dentes, apertando minha estaca com tanta força, devido à raiva, que eu chegava a tremer. “Ele não vai fazer nada estúpido”. Zach olhou enfurecido para mim, segurando seu braço machucado contra o corpo, como se negasse a ficar fora disso mesmo na condição em que se encontrava. Eu o encarei de volta, apesar de continuar dirigindo meu discurso a Sonya. “Por mais que ele ainda seja um bebê, ele sabe muito bem quando pode ou não pode atacar”. E ao dizer isso eu rezei para que a Sra. Karp tenha entendido que meu olhar para Zach significava um “mantenha distância” e que Zach o entendesse como um “espere meu sinal para atacar”.

Empurrando Zach com força para alguns metros longe de nós, Sonya Karp ficou frente a frente comigo, mas através da minha visão periférica eu notei que Mikhail não gostou da movimentação que percebeu. O motivo era mais do que óbvio para mim, pois quando a Sra. Karp assumiu a autoria dos ataques anteriores e expôs suas intenções para este último, Mikhail deixou claro que enquanto fosse possível, ele queria ser a pessoa a matar Sonya e agora eu estava aqui acabando com os planos dele. Sinto muito, Mikhail, eu pensei, mas acho que você matar sua amada, não vai rolar.

“Eu vou lhe dar apenas mais uma chance para mudar de idéia”, minha ex-professora disse. “E pense bem, pois será sua última oportunidade de salvar Dimitri”.

“E deixar um dos meus para trás?”, eu tive que rir. “Sinto muito, Sra. Karp. Como você mesma disse, eu ainda penso que posso salvar todo mundo, então se eu estiver realmente equivocada, você terá que me provar isso”. Ela sorriu maliciosamente para mim.

“Então considere a aula começada”. Aquela mulher que um dia foi minha professora avançou em minha direção e eu vi nos olhos dela a determinação de um Strigoi que pararia apenas quando o coração de uma de nós não estivesse mais batendo.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 42

Ela era rápida e eu não esperaria menos de um Strigoi, mas por alguma razão a feição frágil daquele corpo, como toda a estrutura corporal dos Morois, me levava a pensar que ela deveria se mover com mais delicadeza e suavidade. Ledo engano. O fato era que diante de mim estava uma mulher forte e bruta, cuja única fragilidade estava bem protegida dentro de sua caixa torácica e que, por sua vez, era meu alvo principal. Um alvo do qual eu não estava conseguindo chegar perto, já que Sonya parecia prever todos os meus movimentos, esquivando-se de todos eles mesmo quando eu mudava minha seqüência de golpes na tentativa de confundi-la. E assim que percebia onde eu queria chegar, ela mudava também a sua forma de atacar, me fazendo pensar que, por um momento, seria impossível vencê-la. Era quase como lutar com Dimitri quando ele ainda era meu instrutor, pois ele sabia o que eu faria até mesmo de costas. Para dizer a verdade, acho que consegui surpreendê-lo mais o atacando com meus beijos inesperados do que com qualquer golpe ensinado por ele, algo que não ajudaria muito na situação de agora, pois não creio que a Sra. Karp apreciaria tal gesto de minha parte. Mas a surpreenderia com certeza.

Comandando meu cérebro a parar de pensar bobagens, eu continuei tentando achar o momento certo para cravar aquela estaca no peito da Sra. Karp, mas não consegui. E como diz aquele velho ditado muito usado em jogos de futebol, quem não faz, leva. A diferença é que, fora do futebol, quando você leva é mais do que uma bola na rede e a dor que se sente é maior que a de um orgulho ferido, porque o corpo também sofre, também dói. Aliás, o orgulho é uma das coisas com que menos nos preocupamos em momentos como esse. Pelo menos foi assim que me senti quando, em mais uma tentativa de acabar logo com aquela luta, a Sra. Karp conseguiu segurar meu braço com uma de suas mãos e começou a dar uma seqüência de socos em minhas costelas, pela lateral. Eu tentei me soltar no primeiro soco, mas ela realmente havia me pego de jeito e quando eu tentei usar meu outro braço para pegar uma estaca reserva, minha agressora atingiu-me nas costelas novamente, com mais força, e qualquer ar que houvesse dentro de meus pulmões saiu de lá naquele momento, fazendo-me perder força e concentração. Com o impacto, não pude evitar que a estaca da qual eu tinha posse voasse a alguns metros de distância, ficando completamente desarmada até segunda ordem. Porém, ainda dona dos meus sentidos, vi Zach dar um passo adiante, como se decidindo se deveria ou não intervir.

“Não ouse, Schoenberg”. Na mesma hora Sonya parou de me atacar e olhou na direção de Zach, que me encarava com uma expressão de “você perdeu a cabeça?”. Eu então percebi que, merda, eu devo ter dito aquilo em voz alta.

“Corrija-me se eu estiver enganada, Rose, mas eu posso jurar que ouvi você chamar o seu novato de Schoenberg”. Eu não respondi e como incentivo, recebi outra pancada forte na boca do estômago, pois Sonya ainda mantinha meu braço preso. “Então?…”.

“Você a ouviu muito bem”. A confirmação veio da boca do próprio Zach, o que não foi uma surpresa. Eu sei que ele não agüentaria me ver ser agredida por muito tempo antes de fazer alguma coisa para tirar a atenção da Sra. Karp sobre mim. Garoto estúpido.

“Ora, ora, se eu não tenho uma pequena mentirosa em minhas mãos”, Sonya Karp disse ao voltar a me encarar. O esforço para controlar a raiva que ela sentia era tanto que sua voz tremulava. “Você estava escondendo um legítimo Schoenberg de mim! Inacreditável!”.

“Isso não muda o fato de que ele é apenas um garoto sem noção, então o deixe em paz”, eu argumentei, apesar de ter sido ignorada. A Sra. Karp parecia estar perdida em seus próprios pensamentos.

“Qual o seu nome, garoto?”, Sonya questionou.

“Zachary”, o filho da mãe respondeu.

“Ah, o mais novo. Interessante”. Eu franzi minha testa e percebi que Zach também parecia confuso. “Você até se parece com o seu pai. Aliás, nem sei como eu não percebi antes”. Ao dizer isso, a Sra. Karp deu um passo em direção a Zach, tão fascinada com ele que se eu agisse rápido talvez conseguisse me soltar, mas isso significava que ela teria suas mãos livres para avançar sobre Zach, sem falar que se eu não fosse ágil o bastante ela poderia me matar facilmente. Sendo assim eu não reagi, abrindo minha boca apenas quando ela se aproximou demais de Zach para meu gosto.

“Deixe-o em paz!”, eu disse tentando impedir que ela prosseguisse. Sonya revirou os olhos e me puxou pelo cabelo com força.

“Será possível que você não consegue fechar essa sua matraca? Agora eu entendo porque sua mãe praticamente a abandonou naquela escola. Você é irritante!”. Boa tentativa, vadia, mas minha mãe e eu já resolvemos nossos problemas do passado. “Quer saber?”, ela continuou, “Considere nosso acordo cancelado, porque eu mudei de idéia. Eu decidi que quero ficar com o seu amiguinho também. Não me leve a mal, mas…”, ela disse olhando para Zach como quem aprecia um prato apetitoso, “… é sempre bom enfrentar um Schoenberg. Eu gosto de como eles lutam”.

“Do que você está falando?”, Zach perguntou tenso e desconfiado como ele sempre fica quando alguém comenta alguma coisa sobre Arthur, o que fez nossa inimiga sorrir. A reação de Sonya apenas mostrou o quanto ela queria que isso fosse questionado.

“Eu conheci seu pai, garoto, e vi ele em ação uma vez”. Zach estava começando a relaxar quando Sonya continuou. “Apenas lamento ter tido que matá-lo em seguida, mas sabe como é. Eu estava apenas seguindo ordens”. E num piscar de olhos Zach congelou onde estava e eu tive minhas dúvidas sobre se ele ainda estava respirando. Suas mãos, porém, fecharam-se em punhos, com força.

“Zach, não dê ouvidos a ela!”, eu gritei na tentativa de trazê-lo de volta. “Ela está blefando para distrair você!”. Os olhos castanhos esverdeados dele foram as únicas coisas que se moveram em minha direção. Nós nos encaramos por alguns poucos segundos, onde muita coisa parece ter sido dita em silêncio e então ele voltou seu olhar para Sonya, que não cabia em si com suas gargalhadas.

“Blefando? Eu posso afirmar categoricamente que deixei o corpo dele caído no chão de um corredor, próximo a entrada de um quarto com sua garganta dilacerada. Você esteve lá que eu sei Rose, então me diga. Eu estou mesmo blefando?”, ela perguntou enfurecida. As palavras fugiram de minha boca porque, não, ela não estava. Como Sonya disse, eu estive lá e uma das cenas que eu dificilmente esquecerei é a de Dimitri me apresentando ao corpo de Arthur Schoenberg, atirado exatamente onde e como Sonya acabara de descrever. “Responda minha pergunta!”, ela gritou sem paciência ao me sacudir com força.

“Não, Sra. Karp”, eu disse, desviando o olhar. “Você não está…”. Eu não consegui terminar minha frase, pois no instante seguinte estava sendo arremessada contra Zach que, sem eu saber exatamente como, havia pegado sua estaca reserva e corria na nossa direção, ignorando completamente seu braço quebrado, apesar de ainda mantê-lo junto ao corpo. Nada como uma dor mais forte para nos esquecermos da que já estamos sentindo, não é mesmo?

Ao ouvir aquele infeliz comentário sobre Arthur, Zach não precisou de mais nada para vencer sua limitação física e perder a razão mais uma vez, partindo para um ataque inconseqüente e potencialmente fatal. Era quase como assistir a um filme repetido, porém, quando isso aconteceu antes eu me coloquei no meio do caminho porque era a coisa certa a fazer. Agora, entretanto, eu estava no meio do caminho porque não havia escolha.

Talvez Zach não achasse necessário ter seus dois braços livres para lutar, mas a Sra. Karp, pelo jeito, não pensava da mesma forma, pois finalmente mostrou o poder da força de um Strigoi ao desfazer-se de mim. Por mais que eu tenha tentado parar e Zach me segurar, nós dois caímos, parte do meu corpo sobre o dele, mas por dois motivos assim que tocamos o chão eu aproveitei o embalo da queda e rolei imediatamente para trás, numa espécie de cambalhota. Um, eu caí justamente sobre o braço fraturado de Zach; o grito involuntário de dor que ele soltou me deu a certeza disso. E dois, eu sabia que antes que eu pudesse me levantar, Sonya Karp estaria vindo atrás de nós.

Agachada em posição de ataque, apoiando-me no chão com as mãos, eu estava de frente para Sonya, observando-a vir em nossa direção como um assassino de filme de terror, dando passos lentos e confiantes. Próximo de mim, Zach começava a se erguer, fixando seu cotovelo esquerdo contra o chão na tentativa de sentar. Sem tirar os olhos de Sonya, eu apoiei as costas de Zach com uma das mãos até que ele se estabilizasse.

“Você está bem?”, eu perguntei.

“Já estive melhor”, ele disse com sua voz alterada pela dor. “Mas pelo menos ainda tenho meu outro braço”, ele prosseguiu, dando ênfase em “outro”. Sem esboçar nenhuma reação ao que ele disse, eu apenas dei dois leves tapinhas nas costas dele, indicando que havia entendido o recado. Zach era canhoto, diferente da maioria das pessoas, o que não fazia dele uma aberração, mas o tornava especial, quer dizer, é muito mais comum de se encontrar um destro do que um canhoto por aí. Isso significa que quando somos alvos de atrocidades como o que a Sra. Karp fez com Zach, a tendência é que sempre se atinja o lado direito primeiro, afinal, as chances de sucesso são maiores dessa forma. Mas a genética de Zach agiu em nosso favor.

É óbvio que ele não teria condições de atacar diretamente nenhum Strigoi, mas pelo menos assim ele teria como se defender caso as coisas ficassem complicadas. Ok, mais complicadas.

“Vamos Zach”, eu disse envolvendo meu braço ao redor da cintura dele. “Nós precisamos levantar você”. Ele então dobrou os joelhos e, na minha contagem até três, fez força contra o chão quando me levantei e o puxei para cima junto comigo. Em pé, pelo menos ele não seria um alvo tão vulnerável, eu pensei, pois mesmo machucado ele ainda poderia fazer algum estrago com sua mão esquerda ou fugir, se fosse o caso, algo que só aconteceria se Sonya passasse por cima do meu cadáver. Em outras palavras, enquanto eu estivesse viva, Zach ficaria longe de qualquer confronto, eu jurei a mim mesma, e para lembrá-lo de que lutar estaria fora de questão até segunda ordem, coloquei-me entre Zach e Sonya.

“Você vai pagar muito caro por isso”, eu resmunguei como uma promessa antes de começar a correr na direção de Sonya, evitando ao máximo que ela se aproximasse mais. Entretanto, quando eu percebi Mikhail logo atrás dela, completamente livre e decidido a assumir a situação a partir dali, eu parei e Sonya, talvez também percebendo tal aproximação, farejou o ar de onde estava e sorriu ao exalá-lo.

“Não chegue mais perto, meu amor, ou eu não me responsabilizo pelos meus atos”, Sonya disparou o que eu não soube definir se era uma ameaça ou uma declaração apaixonada. Ao perceber que ele não deu ouvidos a ela e continuou avançando, as narinas de Sonya inflaram, conforme sua respiração acelerou. Eu podia sentir o clima pesando no ar e, por isso, com todo cuidado, fui recuando sem tirar os olhos dela até quase esbarrar em Zach novamente, o que só não aconteceu porque ele pôs a mão no meu ombro indicando que não havia mais para onde ir. Ele até tentou, num gesto protetor, me puxar para trás de si, mas eu dei um tapa em sua mão para ele deixar de ser bobo e fiquei ao seu lado.

Se Sonya notou meu recuo ela não demonstrou se importar com isso, pois parecia tão envolvida com a abordagem de Mikhail que fixou seu olhar em um ponto vazio e sequer piscava, apesar de eu saber que ela estudava cada movimento dele, mesmo sem vê-lo. O guardião Tanner parou a uma distância considerada “proibida” para se manter de um Strigoi e não era necessário ser um profissional para saber disso, já que as pontas dos pés de Mikhail estavam a um dedo de distância dos de Sonya e, apesar de ele segurar uma estaca, seus braços caíam ao longo de seu corpo.

“Desde quando você se tornou tão imprudente, Mikhail?”, minha ex-professora perguntou.

“Desde que eu não tenho nada a perder”, ele respondeu.

“Nem mesmo a sua vida?”.

“Você está me ameaçando sem nem olhar na minha cara? Desde quando você se tornou tão covarde?”, Mikhail rebateu impiedosamente, para meu desespero.

“Covarde? Apenas porque você ainda está vivo, não quer dizer que eu não tenha coragem de matá-lo, meu querido, portanto tenha cuidado com suas palavras”.

“Então porque você não acaba com isso de uma vez?”. Ela soltou uma risada maquiavélica e finalmente o encarou, ainda respeitando a pequena distância entre os dois.

“Porque eu tenho planos melhores para você”, a Sra. Karp respondeu com tranqüilidade. Mikhail parou de respirar quando ela se virou e seus olhos incrédulos e curiosos corriam por toda extensão do corpo daquela que estava diante dele, como se não acreditasse em seus próprios sentidos. Por sua vez, Sonya permitiu que ele a estudasse de tal maneira, parecendo saber do conflito interno entre razão e emoção que o assolava, afinal era a primeira vez que eles ficaram cara a cara desde que ela se tornou Strigoi. Não havia compreensão nem empatia da parte dela para estar fazendo isso, era estratégia pura. Sonya sabia que Mikhail estava confuso, decidindo se ela era uma inimiga ou se por trás dessa mulher de olhos vermelhos ainda havia um pouco da Sonya que um dia lhe amou e sabia que se controlasse sua ansiedade poderia convencê-lo da segunda opção, afinal, é a natureza do eterno apaixonado, não é verdade? Sempre tentar resgatar no objeto amado um sentimento para lhe curar a dor do coração, mesmo sabendo que é impossível e que depois se sentirá incrivelmente estúpido por sequer ter tentado.

“Sinto muito, Sonya, mas eu não estou interessado nos seus planos”, Mikhail respondeu após algum tempo, decepcionando-a, mas não a desanimando.

“Mesmo sabendo que meu plano é voltar para você?”, ela provocou ao sussurrar-lhe a pergunta e continuou ao ver que o pegou desprevenido. “Quer dizer, Dimitri foi trazido de volta, então talvez haja esperança para mim, não?”.

“Desgraçada, filha da mãe…”, eu resmunguei baixinho, para que Sonya não me ouvisse. A regra é clara. Se você ver um Strigoi, não hesite, não pare para pensar nem para ouvir o que ele tem a dizer. Apenas mate-o. Por quê? Porque se o Strigoi diante de você um dia foi mais do que um simples conhecido, você tem um pequeno problema que ninguém nunca fez questão de nos ensinar. Que a probabilidade de se conseguir matar um Strigoi é inversamente proporcional ao sentimento que se tinha por ele ainda em vida, ou seja, se você está tentando matar alguém que ama ou já amou, você está ferrado! Trata-se de uma brincadeira perigosa da qual eu já participei e foi onde eu aprendi que não basta ter o conhecimento de que determinação e coragem são necessárias para matar quem se ama. Você precisa saber encontrá-las dentro de si, o que não é fácil. No meu caso, eu somente comecei a aceitar que seria melhor matar Dimitri, constatando que eu nunca seria amada da mesma forma por ele, afinal Dimitri queria desesperadamente me transformar em um Strigoi para que fôssemos felizes, literalmente para sempre, mas quando eu o questionei, várias vezes, a respeito do motivo de ele querer tanto me transformar, a resposta foi frustrante: “Porque eu quero você”. Eu ainda insisti na tentativa de arrancar dele algo do tipo “Porque eu te amo”, mas não aconteceu. E foi quando eu percebi que a explicação era simples. O amor de um é mortal, transforma-se em obsessão na imortalidade, já que o que torna viva a essência de um sentimento tão nobre e puro é exatamente o espírito de cada um. Logo quando o mortal se torna imortal, ele perde mais do que sua alma, ele perde a capacidade de amar, o que significa que o Dimitri que eu estava procurando naquele Strigoi nunca esteve lá.

A situação de agora não era muito diferente, a não ser pelo fato de Sonya estar usando uma carta na manga que Dimitri não teve na época em que ele era um Strigoi. Ela não estava propondo que Mikhail se tornasse um deles, mas que ela voltasse a ser uma Moroi. Uma boa jogada, diga-se de passagem, pois assim ela conseguiria iludir Mikhail de que a antiga Sonya ainda estava lá desesperada para voltar a viver, quando isso na verdade não passava de uma mentira para confundi-lo. Se Mikhail escolher ajudá-la nessa falsa missão de encontrar um Moroi que crave uma estaca enfeitiçada com espírito no coração dela, ele deixará de lado a batalha contra os Strigois por uma questão pessoal e, dependendo do quanto ele ficar cego com isso, poderemos até considerá-lo inimigo.

“Você escolheu sua sentença ao atacar a escola, Sonya. Você não tem idéia do quanto eu sinto por isso, mas eu não posso trazê-la de volta”. Eu respirei aliviada ao ver que Mikhail não tinha caído no papo de Sonya.

“Isso não é justo!”, ela exclamou com tanto entusiasmo que eu quase acreditei que ela estava dizendo a verdade. “Por que Rose pode trazer Dimitri de volta e você não? O que a torna melhor que você?”. Desgraçada! Ela está tentando me colocar contra Mikhail agora?! Eu só percebi que havia dado um passo na direção deles quando senti Zach me puxar pelos cabelos com seu braço bom.

“Calma aí, garota”, ele me alertou, recebendo um olhar enfurecido como resposta. Ainda assim, ele somente me soltou depois que voltei para o lado dele e cruzei os braços, indignada. A impaciência começava a tomar conta de mim, afinal isso não estava nos planos e eu já deveria estar na igreja.

“O problema aqui não é a Rose, Sonya”, Mikhail respondeu dando um passo para trás, aumentando a distância entre eles. “É você”.

“Eu? Como eu posso ser o problema? Por acaso você não me quer mais é isso? Diga-me a verdade, Mikhail”.

“Não, eu não quero”, ele disse sem hesitar, para a surpresa de todos, mas principalmente de Sonya.

“Por que não?”. Céus, ela parecia realmente transtornada. Tanto, na verdade, que eu achei melhor tirar a atenção de cima de Mikhail, afinal ele ainda estava perigosamente perto de Sonya e se ela decidisse atacá-lo, o estrago seria feio.

“Céus, por que vocês Strigois tem tanta dificuldade em aceitar a decisão dos outros?”, eu perguntei ao conseguir me livrar de Zach e dar alguns passos adiante. “Ele certamente tem seus motivos, então apenas aceite. Mikhail disse não”. No mesmo instante Sonya virou suas costas para Mikhail e rosnou feito um cão raivoso para mim.

“Sonya, acalme-se”, Mikhail sugeriu ao avançar novamente até minha ex-professora e colocar sua mão sobre o ombro dela, o que não foi uma boa idéia, pois com um movimento brusco de seu braço ela lançou Mikhail longe.

“Minha paciência com você acabou”, ela vociferou ao voltar-se para mim. Nós começamos a correr uma na direção da outra ao mesmo tempo e nenhuma deas duas parecia diminuir a velocidade, como se esperando para ver quem desistiria primeiro. Sonya lançou-se sobre mim como um lince e derrubou-me no chão. Nós rolamos juntas e nesse momento consegui enrolar uma de minhas pernas ao redor do pescoço de Sonya e mantê-la presa assim, porém não por muito tempo. Ela era forte e se debatia violentamente e quando eu fui tentar pegar uma estaca, ela acabou se soltando e montou em cima de mim sem piedade, segurando meu pescoço com força para dar o bote na minha jugular apenas uma vez. Eu vi a morte naqueles olhos vermelhos segundos antes de ver Sonya petrificar ao sentir uma estaca em suas costas. Mikhail.

O golpe não foi fatal, mas serviu para que ele a arrancasse de cima de mim e a deitasse no chão mais adiante, fazendo com que a estaca a cravasse mais a fundo, pois ele sequer deu-se o trabalho de retirá-la. Zach apareceu do meu lado em seguida para ver se estava tudo bem assim que Sonya foi tirada de cima de mim, mas eu não consegui tirar os olhos de Mikhail, pois inicialmente eu pensei que ele havia cometido um erro de cálculo, porém ao observá-lo melhor eu entendi que fora tudo proposital. Ele apenas queria olhá-la nos olhos mais uma vez. A estaca estava tão próxima do coração, no entanto, que Sonya mal conseguia se mexer.

“Por quê?”, ela perguntou com esforço. “Por que você não me quer mais?”. Uma lágrima correu pelo rosto de Mikhail, que acariciou o cabelo de Sonya antes de responder.

“Porque você não é a Sonya por quem eu me apaixonei. Ela morreu assim que se tornou esse monstro”.

“Mikhail, sou eu, sua Sonya. Você pode me trazer de volta!”. Outra lágrima escapou dos olhos de Mikhail, assim que ele pegou mais uma estaca presa ao suporte de sua cintura.

“Eu farei algo melhor. Você queria acabar com a loucura e poder ficar em paz novamente, lembra? Eu lhe darei sua paz de volta, minha querida. Você poderá descansar agora”. E no segundo seguinte, estava tudo acabado.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 43

O tempo parece ter parado assim que Mikhail cravou a estaca no peito da Sra. Karp, porque eu não conseguia acreditar que ele realmente tinha feito aquilo. Era como se uma parte de mim esperava que ele fosse fracassar e inconscientemente até queria que ele fracassasse, para eu não me sentir a pessoa mais fraca da face da Terra por não ter conseguido matar Dimitri. Não havia dúvidas, porém, Mikhail fora muito mais determinado e bravo do que eu, apesar de isso ter acabado com ele. Ainda ajoelhado ao lado do corpo de Sonya, Mikhail parecia estar sofrendo a perda de sua amada como se fosse a primeira vez. Bem, tecnicamente não deixava de ser, pois agora era de caráter definitivo.

Tomada pela compaixão, eu imediatamente me levantei de onde estava e fui para perto dele, esperando poder fazer alguma coisa apesar de saber que não poderia fazer nada para aliviar a dor que ele estava sentindo. Ajoelhando-me ao seu lado, coloquei a mão sobre seu ombro.

“Mikhail, eu sinto muito, muito mesmo”, eu disse com a voz embargada. Ele apenas sacudiu a cabeça, como se aquilo não fosse necessário.

“Era a melhor coisa a ser feita, Rose. Se ela fosse trazida de volta ela não suportaria a idéia de ter matado tantas pessoas e feito mal a quem ela sempre quis bem. Tanto eu quanto ela sofreríamos muito mais”, ele explicou enquanto enxugava suas lágrimas e respirava fundo.

De alguma forma Mikhail estava certo, apesar de eu nunca ter pensado por esse lado. Se sonya fosse trazida de volta, ela, uma Moroi que nunca havia feito mal a uma mosca, teria que lidar com o fato de que por alguns anos foi uma assassina a sangue frio. Dimitri, que já estava inserido em um contexto mais violento por ser um Dhampir e conviver freqüentemente com o perigo, ficou arrasado ao lembrar-se das vidas que tirou de pessoas inocentes. Como Sonya reagiria a lembranças tão brutais? Afinal, isso não é algo que o tempo apaga ou faz você esquecer. Você apenas aprende a suportar aquela dor que você sabe que sempre estará lá e Mikhail não queria isso para Sonya, muito menos ser o responsável por fazê-la passar por isso.

Um ato de extrema nobreza, sem sombra de dúvidas, mas ainda assim eu não conseguia deixar de pensar que talvez Sonya fosse mais forte do que Mikhail imaginava, pois ela, assim como Lissa, também era sensível, de aparência frágil e de alguma forma, pura, pois foi criada em uma cultura onde Morois são vistos como se fossem feitos de cristal. Além disso, ao pensar não ter se especializado em nenhum elemento, a situação ficou ainda mais delicada, pois considerava-se e era considerada pelos outros como alguém inferior, como se houvesse algo de errado com ela.

No entanto, conforme o tempo foi passando e descobertas foram sendo feitas, Lissa conseguiu provar que sua diferença em relação aos outros existia sim, mas não no sentido de torná-la inferior ou menos capaz que eles, muito pelo contrário. Ela ainda é e talvez sempre será uma pessoa sensível, assim como Adrian, apesar de ele jamais admitir uma coisa dessas. Mas eles são dois dos Morois mais especiais que eu conheço. Se Lissa e Adrian conseguiram superar suas dificuldades, talvez Sonya também conseguisse.

“Será?”, eu perguntei em voz alta, sem querer, o que deveria ter ficado apenas em pensamentos, arrependendo-me mortalmente de ter deixado algo tão insensível escapar num momento delicado desses, afinal ficou parecendo que eu estava questionando o grau de sofrimento dos dois! E mesmo que fosse essa a questão, Mikhail conhecia a Sra. Karp muito mais do que eu e tinha melhores condições de saber o que ela era capaz ou não de suportar. Céus eu queria morrer!

“Rose, não me leve a mal, mas…”. Os olhos dele disseram tudo.

“Ok, ok, eu já entendi”, eu meio que resmunguei, impedindo que ele continuasse. “Eu preciso parar de querer salvar todo mundo”. Mikhail se permitiu sorrir um pouco.

“Você não precisa parar de tentar salvar todo mundo, até mesmo porque seu coração é tão grande que eu não sei se você conseguiria, mas deve lembrar-se de aceitar que algumas vezes não é possível”.

“Acredite Mikhail, você não é o primeiro a me dizer isso”.

“E certamente não serei o último. Mas não se preocupe, você chegará lá”.

“Falando em chegar lá, eu preciso ir. Eu deixei Adrian na igreja pouco antes do ataque e eu quero ver se está tudo bem por lá. Você ficará bem?”, eu perguntei a Mikhail.

“Rose, o que nós acabamos de conversar?”, ele rebateu.

“Ok, ok. Apenas…”.

“Eu tomarei cuidado, não se preocupe, ok? Eu apenas preciso…”, ele fez uma breve pausa, suspirou e continuou “… de mais alguns minutos aqui”.

“Eu entendo”, eu respondi sinceramente. Então eu me virei para Zach. “Como está o seu braço?”. O garoto olhou para o membro que mantinha flexionado junto ao corpo, como se o estudasse com cuidado.

“Ainda quebrado”, ele respondeu bem-humorado após alguns instantes, o que me fez revirar os olhos e implorar por paciência. Porém ao fazer isso eu tive uma idéia.

“Venha aqui”, eu sinalizei em direção onde estavam os corpos dos Strigois que havíamos matado. “Nós vamos fazer uma tipóia para você. Com sorte, talvez estabilize o seu humor também”, eu disse com um sorriso nada simpático.

“Se funcionar providencie duas então, pois você claramente também está precisando”. Eu apenas o ignorei, sacudindo minha cabeça sem acreditar no que estava ouvindo, provavelmente dando mais razão a teoria de Zach.

Ao me aproximar dos Strigois, rasguei a camiseta de um deles, abrindo-a completamente para tirá-la do corpo do sujeito e dobrando-a em seguida para obter uma larga faixa de tecido, de forma a conseguir amarrá-la em volta do peito de Zach. Após verificar que o tamanho serviria, eu larguei a faixa no chão.

“Agora, nós tiramos isso aqui e…”

“Uou, uou, uou!”. Zach fez um escândalo quando eu coloquei minhas mãos por baixo da camiseta que ele vestia. “Eu espero que você tenha um bom motivo para estar fazendo isso”, ele disse parecendo meio encabulado, mas certamente nada comparado à reação que teve ao ver que eu só queria soltar a faixa elástica onde ele mantinha a estaca reserva dele presa. O garoto ficou um tomate, o que eu achei, preciso confessar, lisonjeador. Para não deixá-lo mais constrangido, porém, eu fingi não ter notado e continuei minha técnica improvisada de primeiros socorros.

“Agora eu vou ter que erguer sua camiseta até tirar seus braços pelas mangas, ok?”, eu avisei dessa vez para não pegá-lo desprevenido. Com os braços dele livres, eu usei a faixa elástica como tipóia, pendurando-a no pescoço de Zach e cruzando-a ao longo de seu corpo para que ele pudesse apoiar seu braço nela. Então peguei do chão aquilo que um dia foi a camiseta de um Strigoi e amarrei ao redor do peito de Zach, prendendo seu braço e parte do ombro direito junto, da forma mais firme possível e sem machucá-lo. Isso sem impedir que ele pudesse movimentar o braço esquerdo, é claro e, por fim, puxei a camiseta de volta para baixo, passando o braço esquerdo dele pela respectiva manga e deixando a outra virada para dentro, já que não estava sendo usada.

“Melhor?”, eu perguntei.

“Sem comparação”, Zach disse, parecendo aliviado.

“Então vamos, porque eu preciso chegar naquela maldita igreja, de preferência antes do amanhecer”, eu ironizei, apesar de lá no fundo temer que mais obstáculos impedissem-nos de chegar onde Adrian estava antes do fim do confronto com os Strigois. E por fim do confronto eu não me refiria apenas a chegada do sol, mas a uma das partes vencer a outra ainda sob o céu estrelado. Qual delas seria a vencedora era difícil prever, considerando que eu não tinha notícias sobre como andava o ataque nos limites da escola.

Aliás, parte de mim sentia-se culpada por eu ter abandonado meu posto para checar Adrian enquanto havia tantas pessoas dependendo da minha experiência para lutar contra os soldados da Sra. Karp. Acontece que o meu outro lado estava sendo massacrado por mais culpa, a de não ter embarcado Adrian pessoalmente naquele avião que o levaria para a corte com minha mãe e Lissa, garantindo assim sua segurança.

Por isso, dizendo a mim mesma que a visita a Adrian seria rápida e que logo eu poderia voltar a minha função de origem, eu segui meu caminho até a igreja em passos acelerados, com Zach tentando me acompanhar na medida do possível.  E, quem diria, o garoto estava certo quanto aos Strigois terem uma rota principal de ataque, pois não encontramos mais nenhum deles até nos aproximarmos de nosso destino.

Contudo, a calmaria não era a mesma do lado oposto, onde Dhampirs e Morois esforçavam-se para sobreviver e ao mesmo tempo evitar que os Strigois chegassem perto da escola. O som da batalha ficava mais forte conforme avançávamos em direção a porta dos fundos da igreja, me deixando agitada e com um nó no estômago, principalmente quando eu chamei por Adrian, para ele abri-la e não fui atendida. Preocupada, comecei a bater incessantemente.

“Adrian, abre essa porta! Sou eu!”. Nada. “Por que ele está demorando tanto?”, eu resmunguei.

“Talvez ele apenas não esteja ouvindo, Rose. Acalme-se ou daqui a pouco ele nem precisará abrir a porta, pois você terá posto ela a baixo”. Eu continuei batendo e gritando, pois não achava provável que Adrian pudesse estar tão alheio ao escândalo que eu estava começando a fazer. “Rose, acalme-se!”, Zach enfatizou, segurando meu pulso.

“Merda!”, eu gritei, irritada, ao chutar a porta com força.

“Eu não entendo”, Zach disse assim que me soltou. “É apenas uma porta. Por que você simplesmente não a arromba?”.

“Por quê?”, eu soltei uma gargalhada nervosa antes continuar. “Porque há três barras de metal atravessadas horizontalmente na extensão das duas folhas da porta impedindo-as de serem abertas. Uma em cima, uma no meio e outra embaixo. Sem falar nos cadeados”.

“Como você pode saber? Por acaso foi você que…”, Zach nem precisou terminar a pergunta, bastando olhar para minha cara para ter sua resposta. “É claro que você trancou a porta”, ele disse parecendo não acreditar.

“Cuidado com o tom de julgamento, garoto. Você faria a mesma coisa se precisasse deixar alguém importante a salvo aí dentro”. Zach não prestou atenção no que eu dizia, parecendo mais interessado em estudar a arquitetura da construção da igreja.

“Rose, você é pequena. Eu acho que você passa por aquela abertura logo acima da porta”. Eu olhei para onde Zach indicou.

“Você é cego? O vidro daquela micro-pseudo janela além de grosso, é vedado”, eu disse com a cabeça ainda erguida, estudando todos os detalhes possíveis. “E mesmo que eu passe por ali, eu não vejo como…”.

“Abaixe-se!”, Zach gritou, me interrompendo. Graças aos intensos treinamentos que recebi na minha formação, aprendi que todo comando dado por nosso parceiro em uma situação de perigo deve ser atendido imediatamente e por isso, sem pensar duas vezes, eu me abaixei. No instante seguinte uma pedra um pouco maior que um paralelepípedo voou na direção daquela vidraça, atravessando-a, para minha surpresa.

Ao olhar, incrédula, para Zach eu vi que ele estava levemente curvado para frente, com o seu braço bom sobre o que estava quebrado. A expressão dele era a de quem estava fazendo um esforço para não sentar e chorar de dor. Não era para menos, pois para o garoto arremessar aquela pedra tão no alto e com tanta força, ele provavelmente forçou o braço que já havia sido mais do que judiado, mesmo que eu tivesse feito meu melhor trabalho de imobilização nele.

“Zach, você…”

“Apenas vá”, ele disse entre os dentes.

“Você vai ficar bem?”. Zach apenas concordou com a cabeça, ainda tomado pela dor. A única razão pela qual eu não insisti em ficar com ele para achar outra forma de entrar na igreja era porque eu já havia perdido tempo demais. Além disso, Zach fez tanto esforço para atirar aquela pedra na vidraça que se eu não tentasse pelo menos seguir a idéia dele, eu estaria fazendo pouco caso da dedicação dele em me ajudar.

Ao me afastar para pegar impulso e tentar pular na altura da janela, eu percebi que havia uma árvore próxima a nós, cujos galhos ramificavam-se exatamente na direção da porta da igreja. Duvidando se ela agüentaria meu peso ou não, eu mudei de idéia e comecei a escalá-la.

Tratava-se de uma espécie de figueira, com galhos grossos e extensos, porém isso também denunciava sua idade avançada, motivo para não se confiar totalmente na aparência forte de seus galhos. Prova disso foi quando eu estava no meio do caminho e pisei em uma dessas ramificações. Ela não cedeu imediatamente, mas ou ouvir o som da madeira rachando, eu achei mais seguro recuar, aproveitando para me abaixar cuidadosamente e arrancar aquela parte danificada. Segurando-a em uma das mãos eu segui meu caminho em direção a pseudo-janela pela qual deveria passar.

Após concluir minha macaquice com sucesso e estando a aproximadamente um metro de distância da parede da igreja eu estiquei meu bastão de madeira improvisado para eliminar os cacos de vidro que ainda estavam presos à esquadria da janela, agradecendo ao clima frio que me fez vestir um agasalho, pois assim pelo menos meus braços estariam mais protegidos contra eventuais aranhões.  Feito isso, eu atirei o tal pedaço de madeira no chão e pulei, agarrando-me no parapeito da janela. Com um pouco de esforço e a ajuda dos pés, eu pude erguer meu corpo até que conseguir me apoiar com firmeza e completar, assim, a escalada. Uma vez do lado de dentro da igreja eu não me preocupei em ser cautelosa e rapidamente me soltei, pulando direto no chão.

“Consegui, estou aqui dentro!”, eu gritei para Zach sem ter certeza de que ele poderia me ouvir, porém esperando que sim, pois minha prioridade agora era outra. “Adrian, onde está você?”, eu perguntava à medida que avançava por corredores e salas localizadas nos bastidores do altar da igreja, ficando cada vez mais ansiosa toda vez que não obtinha resposta. “Qual é Adrian? Isso não é engraçado!”, eu ouvia minha voz ecoar pelos ambientes.

Céus, onde será que esse garoto se enfiou, eu pensei, lembrando que Christian e Lissa costumavam se encontrar num sótão que havia aqui. Claro, como não pensei nisso antes?! Lá de cima, Adrian poderia não me ouvir chamando por ele. Respirando melhor eu subi as escadas de acesso ao sótão já com um sorriso de alívio no rosto.

“Adrian, você quase me matou de…”. Eu parei assim que subi o último degrau da escada. “… susto”, eu meio que balbuciei, sem ter a intenção. Ninguém. Não havia nenhum sinal de vida, muito menos de que alguém tenha estado ali num passado recente. “Merda…”. Meu coração acelerou e eu desci as escadas correndo.

Depois de verificar o confessionário e a sacristia, sem sucesso, restava apenas visitar o lugar dos fiéis e eu não tinha só um péssimo pressentimento em relação ao que eu encontraria, eu já estava vendo Adrian sadicamente crucificado como Jesus Cristo, porém com uma estaca no coração e algum tipo de bilhete direcionado a mim, dizendo: “Você pode salvar todo mundo, Rose. Você apenas não consegue”.

Eu somente percebi o quanto deixei a imaginação tomar conta da minha cabeça quando eu, de fato, pisei na região do altar, olhei ao redor e vi que tudo parecia na mais absoluta ordem, exceto pela ausência de Adrian. Então uma coisa chamou minha atenção e eu fui caminhando, a passos lentos e sem conseguir respirar direito, pelo corredor principal em direção a porta de entrada da igreja, que apresentava uma leve fresta por onde o vento que entrava fazia as chamas de algumas velas, acesas nos arredores, dançarem tempestuosamente. Conforme fui chegando perto, eu ouvi um pequeno barulho metálico e segui com os olhos na direção do som. Pelo lado de dentro da fechadura, estava pendurada a chave que eu havia deixado com Adrian.

A verdade me atingiu tão duramente quanto o vento gélido daquela noite assim que eu tive coragem de puxar a porta e abri-la. Adrian realmente não estava me ouvindo, mas não porque a Igreja tivesse sido invadida por Strigois ou porque ele estava escondido em algum lugar aonde o som da minha voz não chegava. Adrian não me ouvia porque não estava lá e pelo visto ele mesmo decidiu abrir a porta para poder sair.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 44

Eu apenas saí do que parecia ser uma hipnose quando uma voz conhecida ecoou por entre as árvores.

“Você perdeu completamente a cabeça? O que você está fazendo aqui?”. Eu não tinha dúvidas. Era Christian e, pelo conteúdo da conversa, ele só poderia estar falando com uma pessoa.

“O mesmo que todos, oras, ajudando de alguma forma”, eu ouvi Adrian responder para meu alívio e, ao mesmo tempo, desespero, afinal ainda havia uma guerra acontecendo lá fora. Sem pensar duas vezes, avancei floresta adentro tentando determinar a localização exata deles através de suas vozes.

“Acredite, Adrian, você não está ajudando assim”.

“Pelo amor de Deus, lá da Igreja eu ouvi você pedindo reforço! Quem você está tentando enganar?”. Merda.

“E desde quando você é o reforço?”, Christian rebateu.

“Eu tenho uma boa pontaria graças às aulas de tiro que fui obrigado a fazer pelos meus pais. Me dê sua arma e você terá seu reforço”.

“Adrian, eu vou lhe dizer isso apenas uma vez. Volte para a igreja, ok? É o melhor que você pode fazer no momento”.

“Desculpe, meu caro, mas isso não vai acontecer”.

“Adrian, você não sabe o que está fazendo!”.

“Você pode ter certeza de que eu sei”, Adrian respondeu. Os dois pareciam duas crianças discutindo.

“Não, você não sabe. Porque há algum tempo Rose foi verificar se estava tudo bem com você, seu idiota. Você tem alguma idéia do que ela vai pensar quando chegar lá e não ver você?”. Tarde demais para essa pergunta, Christian, eu pensei, sem diminuir o passo.

“Ela, o quê?”, Adrian quase gritou.

“Você me ouviu muito bem, Adrian. Você precisa voltar”.

“Ah, agora eu entendi! Você está inventando toda essa história apenas para conseguir o que quer, não é mesmo? Espertinho, você quase me pegou nessa”. Christian não respondeu e isso sim me fez parar, pois perdi completamente o meu sentido de orientação.

“Vamos, garotos, falem!”, eu sussurrei enquanto olhava ao redor, esperando por um sinal. Demorou um pouco, mas ele veio.

“Tudo bem, Adrian, se você não quiser ir por bem, você vai por mal”. Christian finalmente resolveu se manifestar. Mas em seguida eu ouvi o barulho de uma arma sendo engatilhada.

“Ei, Christian! Ei, ei! Que diabos vocês está fazendo?”, Adrian perguntou meio preocupado. Foi nesse exato momento que eu consegui alcançar os dois e ver Christian apontando sua arma para Adrian sem piedade e realmente disposto a atirar. Adrian parece ter tido a mesma impressão, tanto que deu alguns passos para trás com as mãos erguidas em rendição na altura do peito, sem nunca tirar os olhos de Christian.

“Chega!”, eu gritei para os dois. Eu não estava muito distante de Adrian, logo eu caminhei na direção dele e o segurei pelo braço. “Christian, abaixe essa arma, agora!”.

“Desculpa Rose, mas não é bem para o Christian que eu estou apontando a arma…”. Então ele fez um sinal com a cabeça para olharmos para trás, onde não havia nada, mas em seguida eu senti o meu velho conhecido mal estar indicando a presença próxima de Strigois. Provavelmente Christian deve ter ouvido algo que eu e Adrian, no calor da discussão, não percebemos. Quem diria que, de nós três, justo o mais brincalhão estava agindo com seriedade agora? Eu ainda achei tempo para me sentir culpada. Céus, eu estava ferrando com tudo. Era meu dever protegê-los, meu dever detectar a presença de Strigois com antecedência, não de Christian.

Tentando fazer algo para compensar minha falta de pró-atividade, eu analisei a situação. Nós não tínhamos tempo para fugir, pois o nosso inimigo se aproximava com tanta velocidade que eu podia quase sentir o vento deslocado por ele bater em mim.

“Christian…”. Eu nem precisei terminar minha frase para ele saber o que eu ia pedir. Na mesma hora uma parede de fogo se ergueu ao nosso redor.

“Eu ainda posso ver vocês”, disse uma voz masculina que parecia ecoar pelo bosque, dificultando a identificação de sua origem, já que não havia ninguém no nosso campo de visão. Instintivamente eu puxei Adrian para perto de mim. Estaca em punhos.

Além de estarmos sendo ameaçados por um Strigoi, havia algo errado, pois o bosque estava muito silencioso, quando na verdade não deveria. Será porque nosso exército estava conseguindo dominar a situação, ou o contrário? Sinceramente, eu preferia o som da batalha.

Minhas preocupações precisaram ser deixadas de lado, pois de trás de uma árvore saiu um homem com características bem distintas. Cabelo avermelhado na altura do peito, combinando perfeitamente com seus olhos vermelhos. Forte como um touro. Seria demais pedir um Strigoi magricelo?!

“E agora?”, Christian perguntou.

“Aquela sua história sobre ter pedido reforço é verdade?”, eu perguntei esperançosa.

“Mais do que você imagina”, Christian disse em alto e bom tom, provavelmente querendo distrair o Strigoi. Porém, ele se aproximou de mim e sussurrou no meu ouvido. “Pra dizer a verdade, eu não pedi exatamente reforço, Rose. Eu apenas mandei um recado a Dimitri, dizendo que talvez precisasse da ajuda dele para procurar você. Tipo, eu estava começando a ficar preocupado, pois já fazia um tempo desde que você havia saído para conferir se estava tudo bem com Adrian e eu não podia simplesmente deixar todos aqui sem minha ajuda para procurá-la, então eu achei que deveria avisá-lo. Mas você sabe o isso significa”. Eu gelei porque, sim, eu sabia. Não havia dúvidas de que Dimitri viria investigar o que estava acontecendo comigo, saber do meu paradeiro. Ele não conseguiria lutar imaginando que eu estivesse em perigo, ou pior, morta. O problema é que vindo para cá ele estaria se expondo a esse Strigoi, que pode até não ser muito diferente dos quais ele estava enfrentando na primeira linha de batalha, mas estaria sujeito a cometer erros e ficar vulnerável, como sempre acontece quando alguém que realmente importa está envolvido em uma situação de perigo. Aliás, essa foi a razão de termos nos afastado nesse confronto; nós estávamos nos preocupando mais um com o outro do que com nós mesmos. Um ato desesperado, irracional, pois foram tantas as vezes que nós fomos separados contra nossa vontade que ficamos apreensivos, ansiosos e sujeitos a cometer erros, sempre que nos sentimos ameaçados a passar pela mesma situação novamente. Por isso eu sabia que Dimitri viria, pois na situação dele eu faria a exatamente o mesmo.

“Maravilha…”, eu resmunguei em voz alta ao perceber que do outro lado do círculo de fogo ao redor de Christian e Adrian, mais alguns Strigois apareceram, sendo que um deles mantinha Mikhail como refém. “Eu sabia que não deveria tê-lo deixado sozinho“, eu resmunguei enquanto acompanhava com os olhos Mikhail ser levado para perto do aparente líder daquele bando, o ruivo sardento. “Christian, eu acho melhor você dar sua arma Adrian”, eu disse sem tirar os olhos de Mikhail. Christian não perdeu tempo fazendo perguntas e acatou minha sugestão como uma ordem, até mesmo porque ele sabia que se algo acontecesse, ele ainda teria seu poder para se defender, ao contrário de Adrian.

“Eu disse que era melhor eu ficar com ela”, eu ouvi Adrian dizer a Christian, meio indignado. Porém, logo em seguida ele entendeu o que estava acontecendo. “Rose, espera aí!”, ele disse, chamando minha atenção. “Da última vez que você me deixou armado sem achar isso uma péssima idéia foi porque você…”, Eu apenas ergui as sobrancelhas. “Ah, pelo amor de Deus, Rose, você não pode estar pensando em enfrentá-los!”.

“Eu não estou pensando em enfrentá-los, Adrian. Eu já decidi que vou”.

“Uma ova que você vai! Eu atiro em você para impedir, se for necessário!”, ele retrucou.

Eu então me aproximei de Adrian e segurei seu braço com um pouco mais de força do que eu gostaria para fazê-lo olhar bem nos meus olhos.

“Você acha que pode mandar em mim só porque está armado? Pois ponha uma coisa na sua cabeça. Armas podem lhe dar certo poder, mas elas não fazem de você um herói. Então não tente agir como um. Se você quiser atirar em mim, atire, mas para matar, pois mesmo ferida eu vou sair dessa redoma de fogo e lutar. Você sabe que eu vou”. Ao invés de responder, argumentar ou até mesmo atirar em mim, Adrian permaneceu me encarando em silêncio, mostrando através de sua expressão que o que ele estava sentindo não tinha nada a ver com ódio ou revolta. Ele estava apenas com medo. Não por ele, mas por mim. Pega desprevenida, eu acabei sendo amansada por tamanho sentimento, levando minha mão até seu rosto, acariciando-o brevemente. “Não se preocupe comigo, ‘little Moroi’. Eu ficarei bem, ok?”, eu disse com uma voz suave. Adrian fechou os olhos como se minhas palavras gentis, somadas ao meu toque, o machucassem, mas mais do que isso, com tal ato ele mostrou que entendia a importância de eu agir nesse momento. Então, com um suspiro, eu me virei para Christian que, ao meu sinal, abriu uma pequena brecha para que eu pudesse passar pelo fogo sem que minhas roupas incendiassem, restaurando-a novamente assim que a atravessei. Uma vez do lado de fora, focalizei minha atenção nos dois Strigois diante de mim.

“Eu não sei se vocês sabem…”, eu me dirigi a eles, que me olhavam curiosa e cautelosamente. “… mas a líder de vocês, Sonya Karp, está morta, o que torna Mikhail uma peça sem valor agora”.

“Não se preocupe, pois nossa intenção não é mantê-lo vivo”, o tal Strigoi ruivo disse. “O que eu posso fazer é garantir uma morte tão rápida que ele nem sentirá dor. Tudo que você terá que fazer é responder uma simples pergunta”, ele ameaçou.

“Tudo bem, mas se nós vamos conversar, você poderia pelo menos me dizer seu nome?”, eu tentei parecer calma e enrolar enquanto pensava na melhor forma de atacá-los sem virar carne moída em menos de um minuto.

“Você não precisa saber meu nome para esse tipo de conversa. Eu apenas farei uma pergunta que deverá ser respondida diretamente. Nada de mentiras, enrolações ou pegadinhas, entendeu? Caso contrário, você pode considerar seu amiguinho como um dos meus”. Merda, eu não estou lidando com amadores aqui. “E se você acha que estamos blefando, recobre que, como você bem disse antes, Mikhail é uma peça sem valor para nós agora”.

“Tudo bem, o que você…”.

“Onde diabos está Dimitri Belikov?”, ele me atropelou com sua pergunta.

“Vocês entraram no perímetro da escola e não se depararam com ele?”, eu respondi. “Quer dizer, ele deveria…”

“Eu estou aqui”, Dimitri disse surgindo de uma passagem lateral próxima ao maior grupo, do lado oposto ao que eu estava. Os olhares que os Strigois lançaram para Dimitri eram de surpresa, o que era engraçado, apesar de fazer todo sentido, pois da mesma forma como eu me surpreendi em ver pessoas que eu conheci em vida serem transformadas em Strigois, eles também deveriam estar achando estranho alguém que era um Strigoi estar de volta a sua forma original. “Qual é rapazes, vocês vão ficar só olhando?”, Dimitri provocou. “Se vocês querem acabar comigo, sinto muito, mas vocês terão que me pegar”.

Ele não precisou dizer duas vezes. Imediatamente o Strigoi que segurava Mikhail o soltou, ou melhor, o jogou contra o chão sem dó nem piedade para se juntar aos demais que já estavam se posicionando ao redor de Dimitri para impedi-lo de tentar fugir.

“Onde você pensa que está indo?”, eu gritei para ele. “Você e o cabeça de fogo aqui são meus. Além do mais, nós ainda não terminamos nossa conversa”. E assim eu avancei sobre ele antes que ele pudesse fazer ou dizer qualquer coisa. Eu sabia que essa decisão acabaria com qualquer controle que pudesse ainda existir sobre a situação, mas eu não podia deixar que mais dois Strigois se juntassem aos aproximadamente cinco que estavam rodeando Dimitri. Logo, quando eu parti para o ataque, os outros não deixaram para menos e fizeram o mesmo com Dimitri.

O fato de eles serem cinco contra apenas um me preocupava, contudo eu me obriguei a lembrar que Dimitri não só era um guardião experiente, como também um dia já foi um Strigoi como seus adversários e, portanto merecia um certo crédito meu de que ele conseguiria segurar a barra até pelo menos eu conseguir ficar livre para ajudá-lo. E, acreditando fielmente nisso, me entreguei de corpo e alma à luta.

Eu estava agarrada nas costas Strigoi que soltou Mikhail, quase como um macaco, quando senti meu cabelo ser puxado com brutalidade para trás. A dor foi intensa e inesperada, mas eu não me deixei abater e, para não deixar o Strigoi em que estava montada livre, mantive minhas pernas ao redor da cintura dele e o trouxe junto comigo ao encontro do outro Strigoi, que eu mentalmente apelidei de “chucky”, em homenagem ao boneco ruivo e sardento do clássico filme de terror.

No meio da confusão eu pude ver que Dimitri estava tendo dificuldade em lidar com seus oponentes, apesar de ele já ter conseguido matar um deles, cujo corpo encontrava-se estirado no chão. Aguenta aí Dimitri…

“Rose, cuidado!”. A voz de Adrian me trouxe de volta e então eu percebi o quanto eu havia me permitido distrair com a luta do outro lado do círculo de fogo. O Strigoi ruivo preparava-se para morder meu pescoço, estando tão próximo que eu podia sentir um bafo quente contra minha pele. Para minha sorte, eu estava com as mãos entrelaçadas nos longos cabelos dele para afastar sua cabeça, embora não tivesse consciência disso até alguns segundos atrás. Então eu fiz uso talvez da primeira técnica de luta que aprendi provavelmente na primeira série do ensino fundamental, o bom e velho puxão de cabelo, já aproveitando para revidar o que eu havia recebido antes. Com uma das mãos eu dei um jeito de puxar um punhado daqueles fios próximos à nuca, por situarem-se numa região mais sensível e, assim que senti segurança em soltar a outra mão, usei outra manobra ridícula contra Strigois, mas que eu sabia que o pegaria desprevenido. Cravando minhas unhas e dedos nos olhos do infeliz, ele perdeu o foco pelo tempo necessário para eu fazer alguma coisa, o que, no fim, não foi necessário, pois Mikhail apareceu logo atrás, cravando uma estaca no coração da versão mais assustadora que eu poderia ter conhecido do brinquedo assassino.

Não houve tempo para agradecimentos nem comemoração, já que o Strigoi que eu mantinha entre minhas pernas conseguiu se soltar e parecia disposto a acabar conosco.

“Mikhail, vá ajudar Dimitri. Eu fico com esse aqui”, eu disse.

“Rose,…”, Mikhail hesitou.

“Mikhail, vá!”, eu disse enquanto corria ao encontro do tal Strigoi para que Mikhail pudesse percorrer o caminho até o outro lado em segurança. Ao mesmo tempo, ouvi Adrian gritar.

“Você está tentando se matar, por acaso?!”, ele perguntou, desesperado. “Christian, chega desse fogo todo”, Adrian voltou sua atenção para o Moroi ao seu lado. “Reduza essas chamas e me deixe fazer alguma coisa. Você não vê que ela surtou de vez?”.

“Christian, não ouse!”, foi tudo que eu tive tempo de dizer antes de ser lançada como um frisbee a uns 10 metros de distância. E de lá eu vi que restavam apenas mais dois Strigois do outro lado, sendo que cada um lutava respectivamente com Mikhail e Dimitri, que ao me ver ser arremessada daquele jeito, perdeu segundos de concentração, tempo suficiente para que ele ficasse a mercê de seu adversário.

A essa altura o Strigoi que me atirou longe estava vindo ao meu encontro, mas eu não conseguia levantar do chão. Não era nenhuma limitação física que me impedia de fazer isso e sim meu pânico ao ver o que estava acontecendo com Dimitri. Eu queria poder fazer algo, mas sabia que se eu tentasse correr não chegaria a tempo de nada e não é como se eu pudesse pedir para ser lançada naquela direção pelo Strigoi que me lançou aqui.

Com Dimitri completamente imobilizado, o agressor dele poderia escolher como matá-lo e as opções eram vastas, considerando que Mikhail, apesar de ter percebido a situação, não representava uma ameaça a ele, pois ainda estava envolvido na sua luta.

“Meu Deus, Dimitri, não…”, eu pensei desesperada. Alheia ao que acontecia ao meu redor, eu senti meu corpo ser levantado completamente do chão, mas tudo que eu conseguia fazer era pensar se esse seria o fim de nós dois.

Minha reação ao que estava sendo feito comigo somente aconteceu quando ouvi um grito de Christian e vi que Adrian simplesmente atravessou a barreira de fogo mesmo sabendo que de lá ele não sairia sem umas boas queimaduras de segundo grau. Céus, eu não conseguia crer que Adrian tinha sido estúpido o bastante para fazer aquilo! Eu disse a ele para não tentar agir como um herói!

“Adrian, não! O fogo…”, eu tentei gritar para alertá-lo, mas não consegui vocalizar mais do que um sufocado sussurro. Foi aí que percebi que um Strigoi me segurava pelo pescoço.

Eu assisti Adrian pular contra o fogo e atravessá-lo, rolando no chão para apagar algumas chamas de sua roup a e levantando-se logo depois mas, para minha surpresa ele não veio na minha direção. Ele foi na de Dimitri. E assim, minha ficha caiu.

Adrian viu o meu desespero e sabia o motivo dele. Ver Dimitri a beira da morte definitiva era demais para eu suportar, tanto que eu parecia estar me negando a defender o ataque que estava sofrendo, numa espécie de solidariedade, cumplicidade a Dimitri. Eu estava me entregando, me rendendo, mas com a atitude de Adrian um recado foi dado. Eu poderia, deveria reagir.

E foi o que eu fiz. Tirando forças não se de ontem eu consegui contornar a situação após perturbar a atenção do Strigoi que me segurava com um cuspe no rosto. Lute sujo, mas lute. Esse era o espírito.

Quando eu consegui cravar minha estaca no coração dele eu ouvi o primeiro de muitos tiros e ergui minha cabeça a tempo de ver Dimitri ser largado no chão. Mas em seguida o Strigoi em que Adrian atirava virou-se  na direção dele parecendo imensamente perturbado.

Tudo aconteceu muito rápido. Como Dimitri não estava mais tão próximo do Strigoi como antes, Christian foi capaz de lançar uma bola de fogo sobre ele, mas ainda que em chamas, o filho da mãe conseguiu reagir, surpreendendo a todos, mas principalmente a Adrian, que foi arremessado contra uma árvore, sendo atingido bem no meio das costas pelo tronco da mesma e, quando atingiu o chão, acabou chocando a cabeça contra uma rocha, permanecendo ali, aparentemente inconsciente.

Eu corri até ele, assistindo, no meio do caminho, Mikhail acabar com o seu oponente e em seguida finalizando o Strigoi em chamas. Ajoelhando-me ao lado de Adrian acho que entrei em choque ao ver o estado em que ele se encontrava, pois sentia meu corpo leve e minha mente distante. Eu não sei quanto tempo eu fiquei fora do ar, mas quando eu finalmente voltei a mim eu não estava mais no bosque e sim numa cama de enfermaria, próxima a uma janela por onde entravam os primeiros raios de sol da manhã. Graças a Deus, o pior já passou, eu pensei, sorrindo feliz e fechando os olhos para apreciar o calor solar matinal. Porém ao respirar fundo e relaxar, a lembrança do que aconteceu durante a noite veio à tona e eu me vi sendo puxada de volta para um pesadelo sem fim. O pior estava apenas começando.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 45

Quando senti um braço tocar o meu eu soube que não estava sozinha na enfermaria, mas ainda assim preferi manter meus olhos fechados.

“Rose, eu sei que você está acordada. Olhe para mim”, disse uma voz familiar, tão familiar que eu me obriguei a obedecer.

Abe gentilmente pegou minha mão perguntando se estava tudo bem, o que eu não soube responder, pois muita coisa aconteceu e eu não havia processado nem a metade. E não sei se queria.

“Abe, se eu lhe perguntar uma coisa você promete me dizer a verdade por mais que ela seja dolorosa?”.

“Você tem minha palavra. O que você quer saber?”.

“Como está Adrian?”, eu disparei sem fazer onda. Antes de responder minha pergunta, Abe voltou a sentar na poltrona ao meu lado, cruzou as pernas e respirou fundo, o que me deixou um pouco apreensiva. Será que ele realmente me dirá a verdade?

“Ele está vivo…”, Abe finalmente falou. “… embora o estado dele não seja nada bom. Dimitri e os outros disseram que o choque que ele sofreu foi violento e por conta disso ele teve uma série de fraturas, sangramentos internos e externos, sem falar nas queimaduras. O que também não está ajudando no quadro geral é a forte batida que ele deu com a cabeça em uma pedra, mas o que realmente está preocupando os médicos é o pulmão esquerdo, perfurado por um pedaço de costela quebrada”.

“Meu Deus…”, eu disse colocando a mão sobre a boca, tentando engolir o choro. “Onde ele está agora?”, eu disse fazendo menção de me levantar. Abe impediu que eu fosse adiante.

“Adrian está na unidade de tratamento intensivo, onde você não pode entrar por enquanto porque ele ainda está muito instável e precisa ser assistido constantemente pelos médicos. Sinto muito”.

“E quanto Dimitri e os outros?”, eu perguntei já com medo do que poderia ter acontecido com eles depois que eu aparentemente me desconectei da realidade.

“Estão todos bem. Dimitri está ali fora, plantado do lado da porta desde que trouxe você aqui”.

“Por que ele está do lado de fora?”.

“Porque ele estava me deixando nervoso de tanto andar de um lado para o outro aqui dentro”.

“Você o colocou para fora do quarto?”

“Do jeito que você fala até parece que eu o arrastei porta afora!”, Abe ponderou. “Eu só precisei pedir com jeitinho”.

“Você compeliu Dimitri?!”, eu quase pulei da cama, indignada. “Será possível que você não respeita os sentimentos das pessoas nem mesmo num momento difícil como esse?”.

“Você realmente vai criar caso por causa disso?”. Eu apenas mordi o lábio e assumi minha postura de filha birrenta, o que fez Abe revirar os olhos, rendendo-se por completo. “Entre, Dimitri. Ela acordou”.

Assim que Dimitri pôs os pés dentro do quarto e fechou a porta, o que aconteceu poucos segundos depois, ele direcionou seus olhos para mim. Sua respiração estava acelerada, mas seu rosto mostrava alívio.

“Bem, eu vou deixar vocês dois sozinhos”, Abe disse indo em silêncio até a porta. Porém, antes de ele sair, eu poderia jurar tê-lo ouvido resmungar algo sobre o que um pai não faz por um filho. Pobre Abe, eu sabia que tinha sido injusta ao depositar nele toda minha ansiedade, mas eu não consegui me controlar. Além disso, eu precisava ver Dimitri e falar com ele para saber o que realmente aconteceu, pois Abe não estava lá no momento do ocorrido e, por mais que fossem boas as intenções dele, é sabido que quando uma informação é passada adiante, ela sofre interferência tanto de quem a emite quanto de quem a recebe. Logo Abe me contaria uma história, enquanto Dimitri me reportaria fatos e por isso o questionei sobre tudo que eu havia perdido. Aparentemente, a batalha havia acabado. Depois que Mikhail matou os últimos Strigois ao nosso redor, os outros poucos que passaram pela entrada principal não foram muito longe, tendo sido mortos em seguida. Com a situação sob controle, Dimitri aproveitou para me levar direto à enfermaria, onde também buscou socorro para Adrian, pois como o estado dele parecia ser bastante delicado, eles ficaram com medo de acabar causando danos ainda maiores se tentassem mexer com ele. Assim, por não saberem a extensão dos ferimentos, acharam melhor contar com a ajuda de profissionais especializados.

“Há algo incomodando você nesse rolo todo, não é mesmo?”, eu perguntei o óbvio, constatando que Dimitri parecia tenso e preocupado.

“De certa forma”, Dimitri respondeu. “Quer dizer, Adrian está correndo risco de vida agora porque ele…”.

“Ele salvou sua vida”. Eu completei a frase que parecia não conseguir sair da boca de Dimitri, como se não fizesse sentido para ele. “Mas, Dimitri, foi uma escolha que ele fez. Ele teve suas razões”, eu acrescentei sem mencionar que provavelmente eu era a razão de ele ter feito aquilo, pois se eu não tivesse me abatido tanto com a surra que Dimitri estava levando, ao ponto de quase me deixar ser morta, Adrian teria permanecido em segurança ao lado de Christian dentro da redoma de fogo.

“Sim, eu sei. Eu devo uma a ele”, Dimitri disse ao se aproximar da cama e beijar o topo de minha mão, como se soubesse os motivos que levaram Adrian a assumir tantos riscos. Não confiando na minha voz para dizer o mesmo sem gaguejar e começar a chorar, eu apenas apertei a mão de Dimitri, que ainda segurava a minha.

“Como você está se sentindo?”, ele perguntou após alguns minutos. Culpada? Impotente? Como se estivesse vivendo um pesadelo?

“O melhor que eu consigo, considerando tudo que aconteceu”, foi minha resposta, no entanto. “Eu sinto como se precisasse fazer algo porque ficar aqui nessa cama não vai me ajudar em nada. Eu preciso sair daqui”.

“Vem cá, eu ajudo você”, Dimitri ofereceu-se para me tirar da cama.

“Mesmo?”, eu perguntei demorando a crer que Dimitri não estava bancando o superprotetor e seguidor de normas que costuma ser. “Eu posso mesmo sair daqui?”.

“Você deveria receber autorização médica para isso, mas como os médicos estão ocupados e provavelmente demorarão a passar por aqui, e eu sei que você não terá paciência para esperar, acho melhor que pelo menos você tenha a minha supervisão”. Ok, talvez eu tenha me precipitado em pensar que Dimitri havia evoluído nesse quesito. Apesar de que era bom ver que ele ainda era o bom e velho Dimitri, com suas neuroses e preocupações, pois pelo menos assim as coisas pareciam mais normais, como deveriam ser. Eu não sabia pra que tanto cuidado comigo sendo que eu não estava gravemente ferida, apenas apresentava alguns arranhões e hematomas, o que se poderia considerar normal para alguém que participou de uma batalha. Mas se a condição para sair da cama era aceitar ser tratada como se eu fosse quebrar com o impacto contra o chão, eu estava dentro.

Posicionando meus braços por trás de seu pescoço para que eu me segurasse nele, Dimitri envolveu seus braços ao meu redor e foi me trazendo para frente até que eu deslizasse pela beirada da cama e ficasse em pé diante dele. Somente então Dimitri me soltou e eu consegui enxergar que a roupa dele ainda era a mesma do dia anterior, coberta de sangue e rasgada em algumas partes. Céus, quando Abe disse que ele não saiu do lado da porta eu pensei que ele estivesse exagerando.

“Dimitri, todo esse sangue… Você tem que cuidar disso”, eu disse estendendo minha mão até uma grande mancha na altura de seu abdômen. Instintivamente ele segurou minha mão e desviou o corpo, como se não quisesse que eu o tocasse.

“Desculpa”, Dimitri disse erguendo a camiseta para mostrar um enorme curativo. “Ainda está um pouco sensível”. Eu respirei aliviada.

Com um tímido sorriso no rosto, Dimitri voltou a se aproximar e me abraçou com força, deixando de lado seu cuidado excessivo comigo e com seu curativo. Diante disso eu não resisti ao impulso e retribui o abraço forte, aconchegando minha cabeça em seu ombro.

“Eu pensei que ia perder você”, eu desabafei assim que me senti segura nos braços de quem um dia foi apenas meu instrutor.

“Ei, olha pra mim”, ele gentilmente ordenou ao acariciar meu rosto. “Eu estou aqui, Roza e isso…”, Dimitri me beijou carinhosamente nos lábios, “… isso é o que importa”, ele finalizou. Permitindo-me render à tentação por um breve instante antes de definitivamente encarar a realidade, eu segurei o rosto de Dimitri entre minhas mãos, fechei os olhos e deslizei lentamente meus lábios sobre os dele para depois cobri-los com um beijo. Era pra ser um beijo simples, mas assim que nossos lábios se tocaram, nós não conseguimos nos desgrudar antes de uns cinco minutos terem se passado.

“Nossa, eu não conseguiria viver sem isso”, eu disse quando interrompemos nosso beijo. Os olhos castanhos de Dimitri pareciam ter vida e concordar comigo, tamanho o brilho que refletiam. Lamentando não poder aproveitar mais tempo com ele, eu tateei seus lábios com a ponta dos meus dedos imaginando como seria tê-los deslizando pelo meu corpo. Como se a cada beijo, a cada toque, ele pudesse tirar de mim o peso que eu estava sentindo em minhas costas, a angústia, o medo. Meu corpo enviava mensagens claras de quais eram minhas intenções, e eu sei que Dimitri as sentia, bem como o que se passava pela minha cabeça, mas em nenhum momento avançou o sinal, apesar de eu saber que se eu tomasse qualquer iniciativa, ele entraria na onda rapidinho. Pra dizer a verdade eu queria ir além, mas agora não era a hora e por isso eu respirei fundo e dei um passo para trás. Ao fazer isso, Dimitri passou a mão na minha cabeça mostrando compreensão e respeito pela minha decisão.

“Onde fica a unidade de tratamento intensivo?”, eu perguntei.

“Rose, eu entendo que você queira muito ver o Adrian, mas ele não pode receber visitas por enquanto”, Dimitri repetiu o discurso de Abe com todo cuidado para não parecer rabugento.

“Eu sei, mas eu quero ser a primeira a visitá-lo quando ele estiver estável. Você me leva até lá?”. Dimitri não respondeu, apenas abriu a porta, calçando-a com o pé.

“Primeiro das damas”. Eu revirei os olhos, não muito acostumada com esse tipo de cavalheirismo vindo de Dimitri, afinal nunca pudemos demonstrar nossos sentimentos em público com medo de que qualquer atitude pudesse parecer suspeita ou ser mal interpretada.

Quem costumava fazer esse tipo de gentileza era… Adrian, eu pensei, sendo tomada por uma tristeza repentina, enquanto eu e Dimitri caminhávamos lado a lado, porém em silêncio, pelos corredores da escola.

Desde o começo Adrian tentou me conquistar com aquele jeito galante que até me deixava sem saber direito como reagir. Eu pensei que nunca cairia na lábia dele por conta disso, mas a exposição aos constantes agrados de Adrian apenas fez com que meu coração conseguisse encontrar um espacinho para ele ali dentro e logo eu já estava começando a me acostumar com tantas gentilezas. Não só a acostumar, mas a gostar também. Foi quando eu me dispus a conhecer de fato aquele Moroi de olhos verdes e aprendi que jamais seria amada por alguém como por ele.

Adrian foi quem meu deu forças e motivos para continuar seguindo adiante talvez no momento mais negro da minha vida até o dia de hoje, onde eu sentia que podia perdê-lo a qualquer minuto. Ele me amou mesmo sabendo que seria difícil eu retribuir tal sentimento; confortou-me quando as lágrimas que eu derramava eram por outro; esteve do meu lado mesmo quando eu achava que não era necessário; aceitou meus termos e condições para ser aceito como meu namorado, enfrentando até mesmo a resistência de sua família. Adrian nunca teve vergonha de andar ao meu lado ou de assumir que faria qualquer coisa por mim. Ele tinha orgulho disso.

Eu tentei lutar contra as lágrimas que vieram à tona instantaneamente, mas não foi possível detê-las. Droga, eu pensei, será possível eu estar fadada a perder todas as pessoas que um dia me amaram de verdade?

Ao perceber meu choro, Dimitri apenas segurou firme minha mão, entrelaçando nossos dedos para que continuássemos o resto do caminho de mãos dadas. Ele não disse uma palavra, mas ao mesmo tempo disse tudo. Que agora era a vez dele de ficar ao meu lado enquanto as lágrimas que eu derramava eram por causa de Adrian, dando-me forças e motivos para seguir adiante.

E daquele jeito continuamos andando em silêncio, com passos lentos e ritmados até a unidade de tratamento intensivo, que na verdade não passava de uma porta fechada com um enorme cartaz anunciando a entrada permitida apenas de pessoas autorizadas. Ao lado, uma caixinha branca indicava a existência de um intercomunicador dotado de uma câmera que era acionada sempre que alguém de dentro da unidade atendia o interfone. Mas quem estava do lado de fora não via absolutamente nada, podendo apenas ouvir o que era dito através do pequeno auto-falante do dispositivo acoplado à parede. Minha vontade era de tocar o interfone e pedir pelo amor de Deus que alguém viesse me dar alguma notícia sobre o estado de saúde de Adrian, mas eu sabia que isso somente iria atrapalhar aqueles que estavam provavelmente lutando para salvar a vida dele. Portanto eu resolvi sentar em um dos bancos nada confortáveis próximos a porta da UTI, uma espécie de sala de espera nada aconchegante para quem não podia fazer nada além de aguardar por informações, assim como eu.

A falta de conforto não era algo que incomodava, mas também não passava completamente despercebida, apesar de eu saber o motivo de não terem colocado belas poltronas estofadas e aconchegantes nesta zona da enfermaria. Pacientes que estão internados nessa unidade requerem atenção e tratamentos especiais, muitas vezes correndo risco de vida, logo proporcionar acomodações confortáveis para quem está do lado de fora é até uma forma de crueldade, pois a espera pode ser angustiante.

“Abe disse que Adrian não está estável. O que exatamente isso significa?”, eu perguntei a Dimitri, que sentava ao meu lado, percebendo a necessidade de ocupar minha mente com qualquer conversa, já que o silêncio, aqui, diferente do que em outros lugares, parecia cheirar a morte.

“Significa que a recuperação dele está acontecendo de forma mais lenta do que é necessário, dando margem para que os danos que ele sofreu se agravem”.

“Isso tem algo a ver com a tal perfuração do pulmão?”, eu continuei.

“Céus, seu pai não lhe poupou de nenhum detalhe, pelo visto”, Dimitri disse, surpreso. “Mas respondendo a sua pergunta, sim, o quadro dele não só tem relação com essa perfuração como também está agravado por causa disso”.

“Como assim? Por que, então, eles simplesmente não removem esse pedaço de osso?”.

“Rose…”.

“Eu quero saber, Dimitri, tentar entender pelo menos! Se você não me explicar eu acharei alguém que me explique. Até mesmo Abe”.

“Agora eu sei como você o obrigou a falar”, ele resmungou antes de render-se a minha chantagem. “Tudo bem, é o seguinte: nossos pulmões não foram feitos para suportar líquidos, quer dizer, eles conseguem funcionar com limitações até certo ponto, mas não é assim que deveria ser. O que está acontecendo com Adrian é que o osso que perfurou o pulmão dele gerou um orifício por onde está entrando sangue e somente após todo esse líquido ser drenado é que os médicos poderão fazer algo a respeito do osso”. Eu senti meu rosto fica pálido.

“Em outras palavras, se algo não for feito logo, ele se afogará com o próprio sangue?”, eu praticamente balbuciei.

“É uma possibilidade”. Algo na forma como Dimitri respondeu me levou a crer que várias outras coisas poderiam acontecer além da minha suposição e por alguma razão ele não as especificou. Ainda bem, porque eu não sei até onde eu conseguiria suportar.

“Espera aí!”, eu disse ao lembrar de um pequeno grande detalhe. “Lissa pode salvá-lo!”, eu exclamei com uma ponta de esperança, porém a julgar pela expressão de Dimitri isso já havia sido considerado.

“Lissa está sabendo do que aconteceu, Rose, mas não é como se ela fosse largar tudo o que está acontecendo lá na corte real e voltar para St. Vladimir”.

“Como você pode dizer uma coisa dessas? Ela jamais se negaria a ajudar alguém, principalmente Adrian! Por acaso você não sabe o tamanho do coração daquela Moroi?”.

“Eu sei, Roza”. Dimitri disse com o sotaque acentuado, o que geralmente acontece quando ele fica emotivo. “Ela arriscou a própria vida para me trazer de volta, como eu poderia não saber?! Mas desta vez a decisão não depende apenas dela, pois com o surgimento de mais um Dragomir e a denúncia das irregularidades que vinham acontecendo, Lissa e Jill, com a ajuda de sua mãe e até mesmo de Victor, conseguiram fazer com que a eleição fosse adiada por alguns dias para que as acusações feitas por eles fossem melhor investigadas e para que fosse avaliada a possibilidade de Lissa assumir seu lugar junto ao conselho”.

“Meu Deus, você está falando sério?”, eu disse notando, talvez pela primeira vez desde que eu acordei, um tom de empolgação na minha própria voz. Dimitri apenas concordou com a cabeça. “Uau, Lissa deve estar nas nuvens. É uma pena que eu não possa estar com ela, quer dizer, nós sempre imaginamos como seria se ela um dia conseguisse fazer parte do conselho e em todas as vezes eu me via junto com ela…”.

“Talvez você tenha uma chance”, Dimitri sugeriu.

“Eu não vejo como”.

“Bem, como Lissa não pode simplesmente deixar a corte, nós transportaremos Adrian até lá assim que for possível”.

“Você está louco? É arriscado demais viajar com alguém num estado tão delicado assim! Tá certo que eu gostaria muito de estar ao lado de Lissa nesse momento, mas eu jamais arriscaria a vida de Adrian por causa disso!”.

“O problema é que essa decisão não cabe a você, mas aos pais dele, Rose, e Daniela Ivashkov disse que se houver uma chance de Lissa salvar o filho dela, ela assumirá quaisquer riscos. Ela é a mãe, ela decide”.

“Você parece concordar com isso”, eu disse meio irritada, deixando de escanteio minha ponta de euforia.

“Desculpe-me pelo que eu vou lhe dizer, mas você tem que entender que os médicos não conseguiram ajudar Adrian de maneira efetiva até agora. Cada procedimento ao qual ele não responde bem é uma espécie de agressão que ele sofre, tornando-o ainda mais vulnerável. E isso não significa que os médicos são incompetentes, significa que o caso de Adrian é realmente sério. Eu sei que há riscos em transportá-lo até a corte, mas sinceramente?…”. Dimitri pausou e baixou um pouco sua bola antes de continuar, o que não foi necessário ao ver que eu havia entendido onde ele queria chegar.

Dimitri tinha razão. A quem eu estava tentando enganar? Lissa realmente é a melhor chance de Adrian. Eu engoli seco.

Se não a única.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 46

Só nos restava esperar, então eu me acomodei melhor no banco cruzando meus braços com força na altura do peito, como se aquilo me impedisse ter a sensação de estar desmoronando por dentro. Com o olhar perdido no branco da imensa parede que havia diante de nós, eu busquei por controle, pois a vontade que eu tinha era de destruir tudo ao meu redor. Mas aí estava o problema, não havia muito o que destruir.

Eu nunca tinha parado para pensar em como o ambiente hospitalar pode ser ansiogênico, afinal de contas eu sempre estive do lado de dentro das salas de atendimento, nunca do lado de fora. Lá dentro há pessoas ao seu redor e a aparelhagem é tanta que nem se percebe o tom pálido que cobre as paredes, apesar de assustarem à primeira vista, pois produzem certos apitos diferentes, mas que no fim parecem soar como uma sinfonia, driblando um silêncio quase perturbador. Não há tempo para pensar se você vai morrer ou não, pois dependendo do procedimento ao qual se será submetido, os médicos literalmente põe você para dormir, cessando qualquer ansiedade que se possa ter. E se for o caso de se permanecer acordado, sempre haverá alguém para lhe confortar e dizer que vai dar tudo certo.

Do lado de fora a história é bem diferente. Por estarmos na área de tratamento de Morois, não há janelas que façam comunicação com o exterior e com certeza as internas são em números limitados, tornando o uso de iluminação artificial obrigatória o que, por sua vez, impede que se tenha noção do tempo que está passando. Até mesmo porque parece não passar.

Não há aparelhos ocupando as paredes, nem qualquer outra coisa além de pequenas placas indicando a direção de determinados setores. Também não há pessoas para lhe dar informações e dizer que está tudo bem, o que só pode levar qualquer indivíduo a pensar que algo está errado, caso contrário tantos médicos não estariam sendo necessários.

Essa ausência de quaisquer objetos, pessoas e sons fazem os corredores parecem maiores e mais longos do que são, um ambiente quase opressor. A ansiedade cresce a cada segundo e você não pode fazer nada a não ser suportá-la. Um verdadeiro inferno pintado de branco.

Eu queria gritar até minhas cordas vocais não suportarem, mas alguém o fez antes de mim. O grito, porém, não era de desespero, mas de dor.

“O que foi isso?”, eu perguntei a Dimitri, que também parecia desconhecer a origem to tal grito. Quando o som se repetiu eu levantei com um pulo da cadeira. “Eu acho que eu conheço essa voz”. Na terceira vez, eu tive certeza. “Meu Deus, é Zach!”. Céus, pobre Zach, eu pensei. Como eu poderia ter me esquecido do garoto? Depois que ele me ajudou a entrar na igreja eu simplesmente o deixei para trás com um braço mais do que quebrado. Sabe-se lá o que mais pode ter acontecido a ele.

“Você sabe para onde o levaram?”, eu perguntei a Dimitri.

“Não exatamente”, ele respondeu. “Eu sei que todos os feridos estão sendo trazidos para cá para facilitar o trabalho dos médicos, pois como também há Morois precisando de atendimento, aqui todos podem ser atendidos sem nenhum problema. Zachary deve estar sendo atendido em alguma sala aqui perto”.

“E-Eu preciso achar ele”, eu disse sem saber para que lado ir primeiro. Dimitri levantou-se de onde estava e aproximou-se de mim com cuidado.

“Rose…”, Dimitri disse ao segurar meu rosto para que eu o encarasse. “Você precisa se acalmar!”. Tomada por uma raiva súbita, eu tirei as mãos dele de cima de mim.

“Eu estou a um passo de enlouquecer aqui, Dimitri, então não peça para eu me acalmar”. Minha voz tremulava enquanto meus olhos enchiam-se de lágrimas novamente. Sem pronunciar uma palavra ele apenas me trouxe para dentro de seus braços, envolvendo-os em mim com força.

“Eu sei, eu sei, me desculpa. É que ver você assim e não poder fazer nada… isso acaba comigo.” Lágrimas corriam pelos meus olhos ao ouvir o reflexo do meu desespero na voz Dimitri.

“Então me leve até Zach”, eu quase implorei ao enxugar as lágrimas do meu rosto. “Ele deve estar assustado e, além disso, está sozinho. E ninguém merece ficar sozinho num momento como esse. Eu tenho você aqui, mas ele não tem ninguém, Dimitri, ninguém!”.

Dimitri respirou fundo e acabou concordando comigo, dizendo que me ajudaria a achar o leito de Zach. Aquilo me acalmou um pouco, afinal pelo menos assim eu poderia fazer algo por alguém, já que ficar ao lado de Adrian estava longe do meu alcance e permanecer no corredor imaginando as coisas que poderiam estar acontecendo com ele lá dentro era penoso demais.

A gritaria que estávamos ouvindo vinha de um quarto bem no final do mesmo corredor, cuja porta estava levemente encostada, o que foi quase como um convite para que eu a abrisse. Se não quisessem ninguém lá dentro que trancassem a porta, não é mesmo?

De imediato o que vi foi uma médica debruçada sobre a cama, lutando contra um paciente inquieto.

“Moça, eu juro que se você tentar mais uma vez me dar essa dose de anestesia eu não serei gentil com você. Eu já disse que posso suportar a dor”, ele disse enfurecido, entre os dentes.

“Zach?”, eu perguntei. Imediatamente ele empurrou para longe a mulher que o impedia de ter uma boa visão da porta e, assim que me enxergou ele atirou suas costas contra uma pilha de travesseiros, parecendo aliviado.

“Graças a Deus, você está viva”, ele disse com os olhos fechados, parecendo relaxar. Eu caminhei até a cama e sentei na cadeira ao lado. Dimitri permaneceu na porta.

“Como está o seu braço?”. Quem respondeu foi a médica que, de acordo com o crachá que usava, chamava-se Lydia.

“Quebrado em quatro partes. E o corajoso aí ainda se recusa a receber anestesia para que eu possa engessá-lo como deveria”. A mulher estava indignada com a teimosia de Zach.

“E você é o que? Surda?”, eu disparei para a surpresa dos dois. “Se ele quer sentir dor, deixe que ele sinta dor, oras!”. Zach mostrou-se orgulhoso por ter achado uma aliada.

“Você ouviu a moça, doutora”, ele disse com um sorriso vitorioso no rosto. A médica não sabia mais o que fazer então acabou concordando mesmo não estando completamente feliz.

“Zach, você sabe que isso realmente vai doer, não é mesmo?”, eu perguntei ao reavaliar o quadro dele enquanto a médica pegava o material necessário para o procedimento.

“Não me importa”, ele respondeu sem hesitar. “Eu odeio a sensação de não ter controle sobre meu corpo”. O que eu posso dizer? O garoto é dos meus.

“Tudo bem, então. Posso ficar aqui com você?”, eu perguntei. Zach estava prestes a me dispensar, mas por um segundo os olhos deles desviaram na direção de Dimitri e, seja lá o que foi que aconteceu entre os dois, aquilo fez com que Zach mudasse de idéia. Eu vi na expressão dele.

“E ficar sozinho com essa médica maluca? Nem pensar!”, ele respondeu com bom humor, recebendo um olhar furioso dela. Dimitri deve ter feito algum sinal para Zach que eu não percebi, mas eu não estava preocupada com isso, pois na verdade eu precisava de Zach naquele momento e ele sentiu isso. Caso contrário dificilmente ele concordaria com Dimitri numa boa.

“E quanto a você, Belikov? Quer assistir ao show?”, Zach questionou.

“Eu ficarei bem”, eu disse a Dimitri, percebendo que ele havia hesitado em responder. Ele então veio até mim, entregando-me um daqueles celulares não rastreáveis de Abe.

“Vou aproveitar que você tem companhia e fazer alguns contatos, além de tentar buscar alguma informação sobre Adrian, ok? Você sabe meu número, então, se precisar, ligue”. Ele beijou minha testa e deixou a sala.

“Bem, eu estou pronta para começar”, a médica disse, se dirigindo a mim. “Você pode pelo menos mantê-lo quieto no lugar?”.

“Eu posso tentar”.

“Vocês não acham que estão exagerando?”, Zach disse, parecendo estar achando graça da situação. Sem ter uma boa resposta no momento eu apenas o segurei firme para que a primeira manobra para posicionar os ossos em seus devidos lugares fosse feita. Ainda sem noção do que estava por vir, Zach continuou o discurso. “Já sei, vocês vão contar até três e…”. Lydia foi rápida e sem piedade, pegando Zach completamente desprevenido. Eu tive que fazer muita força para mantê-lo no lugar, pois em reflexos involuntários, acompanhados de hurros de dor, ele tentou se esquivar do que parecia estar sendo uma tortura. Lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos de Zach, mas eu acho que ele sequer percebia que estava chorando.

Ele ficou tão tenso que Lydia se obrigou a parar pouco antes de finalizar a pior parte, caso contrário a dor seria severa demais e, por mais que Zach tenha sido um pé no saco, não era a intenção dela causar uma dor proposital. “Agüenta firme, Schoenberg, falta pouco agora”, eu disse tentando tranqüilizá-lo, sem sucesso. Nisso, Lydia me deu um pequeno cutucão e piscou para mim. Eu não precisei de mais nada para entender o recado. Ela iria jogar tentar algo. Eu fiquei a postos.

“Ok, eu cansei dessa brincadeira”, Lydia disse num tom quase ameaçador. “Você vai receber anestesia e vai ser agora!”. Eu a encarei com olhos arregalados, não crendo que ela ia desrespeitar a vontade do paciente. Será que eu entendi errado o recado?

“Não ouse!”, Zach gritou tentando erguer o torso de cima da cama, esquecendo-se completamente das dores que sentia. Quando eu o prensei contra o colchão, Lydia largou a seringa que já tinha em punhos no chão e, com mais velocidade do que eu poderia imaginar que ela fosse capaz de agir, fez o último ajuste, aproveitando-se do breve momento de distração de Zach.

“Agora se você puder ficar imóvel para eu aplicar o gesso, seria uma bênção”, Lydia completou como se nada tivesse acontecido. É, a mulher era durona mesmo!

Zach suava frio e respirava ofegante, mas bem mandado como havia sido, nem ousou se mexer. Eu, que também estava tensa de vê-lo sentir tanta dor, me permiti relaxar e sentar ao seu lado novamente sem soltar a mão que segurava.

“Pronto novato, agora chega de dor”, eu disse baixinho enquanto enxugava uma mistura de suor e lágrimas de seu rosto com um lenço de papel.

“Graças a Deus”, ele sussurrou de volta ao fechar seus olhos, ainda tentando controlar sua respiração.

Eu não saí do lado de Zach até que ele estivesse devidamente engessado, apesar do engessamento ter ocorrido na mais absoluta tranqüilidade. Após algumas recomendações finais, Lydia anunciou que estava partindo para visitar outros pacientes, mas infelizmente Adrian não estava entre eles, pelo que eu pude investigar.

“Então até daqui a algumas semanas, Zachary”, Lydia disse da porta. “E se você me permite um conselho, você não precisa demonstrar bravura nessas horas só porque está diante da sua namorada. Os corajosos também sentem dor, sabia?”, ela disse com uma piscadinha. Espera aí… Namorada?!

“Não, não, nós não somos…”, eu e Zach dissemos ao mesmo tempo, mas era tarde demais, pois Lydia já havia ido embora. Só nos restou rir da situação.

“Então, meu namorado”, eu brinquei, “agora que já consegue falar, como você está?”.

“Como eu estou?”, ele perguntou meio perplexo ao sair da cama e ficar em pé diante de mim. “Rose, como está você! Eu estou sabendo da situação de Adrian, então não finja que sou eu que preciso de alguém do lado, ok?”.

“Uau, você não precisa ser cruel”, eu soltei a mão dele e desviei o olhar, como se tivesse sido acertada por uma agulha afiada. Ele esticou o braço e segurou minha mão de volta, trazendo-a para perto dele.

“Ei, eu não quis ser malvado”, ele disse com tanta ternura que foi impossível não olhá-lo nos olhos. “Eu já disse que sou impulsivo e por isso estúpido às vezes, então me perdoe pelo que eu disse, ok? É que eu estou preocupado com você, pois tem uma série de coisas acontecendo e… Olha, Rose, aquela médica que saiu daqui pode ter um parafuso a menos mas ela está certa sobre um coisa. Às vezes não há problema em admitir que se está sentindo dor. Mesmo que ela venha daqui de dentro”, Zach disse soltando minha mão para levar a dele até o meu coração. Aquilo foi a gota d’água e eu desatei a chorar. Na mesa hora Zach me abraçou com seu único braço disponível, oferecendo literalmente seu ombro como consolo. Eu não deixei escapar apenas algumas lágrimas, mas também o medo de perder uma pessoa mais do que especial e a dor que me consumia internamente, tanto que me fazia soluçar. Eu baixei completamente as minhas defesas e as paredes que pareciam estar desmoronando antes, vieram abaixo agora com toda a força.

“Pode chorar, viu?”, Zach sussurrou, tirando meu cabelo do rosto. “Seu namorado não está aqui. Eu lhe dou cobertura”.

No fim, as palavras de Lydia até que foram úteis para alguém. Ela se equivocou ao achar que Zach estava tentando demonstrar bravura por eu estar ao lado dele, mas Zach não cometeu o mesmo engano ao perceber que eu estava tentando parecer forte diante de Dimitri, algo que nem eu havia percebido até então. A dor estava ali, um incômodo quase constante, mas eu não conseguia entrar em contato com ela. Por mais que eu estivesse abalada eu não queria ser uma preocupação a mais, um motivo para ele sentir piedade ou me achar uma pessoa vulnerável. Eu queria parecer forte, ou pelo menos achar que estava passando essa imagem para não fazê-lo sofrer também. Como sempre, eu estava tentando “salvar” todo mundo a qualquer preço. Dessa vez, porém, foi minha vez de ser resgatada. E talvez pela pessoa que eu menos esperava.

Pra dizer a verdade eu me senti tão segura os braços de Zach, ou melhor, no braço de Zach, que mesmo depois que a choradeira passou, eu continuei abraçada nele até que minha respiração parasse de ser interrompida por soluços.

“Você está melhor?”, Zach perguntou todo atencioso depois de um tempo, sem pressa de me soltar.

“Melhor, eu não sei, mas eu acho que tão cedo eu não vou conseguir chorar. Faltarão lágrimas”, eu respondi baixinho. Zach achou graça.

“Bem, pelo menos o seu humor parece ter melhorado um pouco”, ele respondeu. Sorrindo, eu apertei Zach de leve entre meus braços antes de me soltar.

“Eu acho que estou devendo uma a você depois de ensopá-lo com minhas lágrimas”, eu disse meio sem jeito.

“Ah, certamente você me deve”, ele brincou. “Mas se você me permite, eu usarei esse débito a meu favor quando for mais pertinente”.

“Sem problemas”. Nossa, minha voz estava totalmente alterada, soando meio fanha, meio rouca. Como não deveria estar minha cara!? Eu definitivamente não estava a fim de sair pelos corredores e ter que ouvir as pessoas me perguntando se eu andei chorando, principalmente se estiver mais do que óbvio que sim. Melhor perguntar. “Zach? Seja honesto, como está minha cara?”, eu questionei.

“Como a cara de quem passou um bom tempo chorando, oras. Olhos avermelhados, faces marcadas pelas lágrimas, um leve inchaço…”

“Ok, ok, eu já entendi”, eu o interrompi meio de cara, afinal ele não precisava ser tão sincero.

“Você não está tão mal assim, bobinha, mas em todo caso, eu tenho uma suíte aqui a sua disposição”, Zach gesticulou com a mão, como quem estava anunciando um espetáculo ao palco, na direção de uma porta lateral que eu não havia percebido antes.

Ao me olhar no espelho, percebi que Zach estava brincando quanto à situação da minha aparência, quer dizer, em partes. Ainda assim, não era nada que uma boa lavada no rosto e alguns minutinhos não pudessem resolver.

“Rose?”, Zach chamou lá do quarto. “Seu celular está vibrando aqui”. Eu abri a porta e segurei o pequeno objeto na mão, identificando o número como sendo o de Lissa.

“Alô?”, eu atendi sem entender como ela havia conseguido aquele número, já que não se tratava do meu antigo celular.

“E aí, sumida? Como vai minha melhor amiga?”, Lissa perguntou com uma voz suave. “Dimitri me ligou agora a pouco parecendo preocupado, dizendo que talvez você precisasse de sua velha amiga aqui. Aconteceu alguma coisa?”.

“Nada que você já não saiba. Eu estava apenas segurando muita coisa, mas eu estou melhor agora”, eu respondi sorrindo para Zach, que me retribuiu o sorriso. “Como vão as coisas por aí?”, eu perguntei realmente curiosa.

“Estamos aguardando a decisão do conselho. Eu acho que você já sabe, mas agora que eu tenho uma irmã…”, Lissa disse toda orgulhosa, o que me deixou feliz “… há uma chance de eu ser aceita como conselheira!”. Lissa parecia estar tentando não parecer muito empolgada para não criar muitas expectativas nem para soar desrespeitosa, mas eu pude notar na voz dela a exaltação que devia estar sentindo. “E agora que Sr. Lazar está afastado do cargo até segunda ordem, talvez haja tempo para convencer as pessoas a votarem contra aquela lei maluca que obriga todos os Dhampirs a lutarem.

“Lazar está afastado do cargo?”, eu exclamei tomada pela surpresa. “Essa informação é nova. Como vocês conseguiram tal façanha?”.

“Nós não conseguimos nada. O responsável por isso foi Victor Dashkov! Aliás, eu já estou ciente de que você sabia sobre o paradeiro dele há algum tempo e não me contou, né? Mas deixemos esse detalhe para resolver depois, junto com mais algumas outras… coisinhas, quando vocês chegarem aqui. Vocês ainda vão trazer o Adrian, não vão?”.

“Sim, sim”, eu respondi. “Assim que for possível”. Mas uma dúvida ficou me incomodando. Coisinhas? Do que, diabos, Lissa estava falando?

“Que bom!”, Lissa interrompeu meu pensamento, que eu acabei deixando de lado. “Eu estou me sentindo tão mal de não poder estar aí com vocês, mas depois de tudo que fizemos para conseguir chegar até aqui eu não posso largar o barco justo agora”.

“Eu também gostaria que você estivesse aqui, mas não tem como, Lissa. Eu te entendo, não se preocupe”.

“Vai dar tudo certo, ok? Nós estamos esperando por vocês! Ah, sua mãe está mandando um beijo”.

“Mande outro para ela!”, eu disse com o coração apertado. “Eu estou com saudade de vocês duas já”.

“Você não é a única. Nós também estamos com saudades!”. Ao fundo, eu ouvi os nomes de Lissa e Jill serem chamados por alguém. “Ops, nossa vez. Jill e eu estamos sendo solicitadas para depor. Tenho que ir. Beijos”. Lissa disse antes de eu ouvir o clique do telefone encerrar a chamada.

Ao me virar para Zach, com o telefone junto ao corpo como se fosse um objeto transicional, o encontrei na porta ao lado de Dimitri, ambos com uma expressão apreensiva. Mas que diabos?

“Adrian está consciente”. Dimitri disparou sem rodeios. “Os médicos dizem que é temporário, mas ele está acordado”.

“Mesmo?”, eu disse com um nó na garganta.

“E ele está pedindo para falar com você”.

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Fanfic Last Sacrifice (by Little) – Capítulo 47

Diante da porta da unidade de tratamento intensivo eu parei um instante, pois meu coração parecia que ia sair pela boca e eu não queria que Adrian me visse assim.

“Você vai entrar comigo?”, eu perguntei a Dimitri realmente querendo que ele me acompanhasse, pois eu não sei qual seria minha reação ao rever Adrian.

“Depende”, ele disse, como sempre, cauteloso. “Você quer que eu entre com você?”. Eu fiz que sim com a cabeça. “Então vamos lá”. Eu respirei fundo enquanto Dimitri abria a porta da UTI que, diferente dos corredores da enfermaria, parecia uma vitrine de pacientes. Cada quarto possuía uma janela de vidro que se comunicava com o interior da unidade para que os médicos pudessem observar os internados, mesmo que a distância, sem precisarem entrar nos leitos toda hora, pois apesar de terem sentidos aguçados, tanto Morois quanto Dhampirs ainda não são capazes de enxergar através das paredes.

Graças a essas janelas, conforme íamos avançando na direção do leito de Adrian, eu pude ver que a maioria dos outros pacientes estava recebendo visitas, tanto de parentes como de amigos que, na tentativa de oferecerem conforto a pessoa internada, traziam alguns pertences pessoais dela para decorarem o ambiente e tornar sua internação um processo menos sofrido e penoso. Bem que eu poderia ter trazido alguma coisa para Adrian, eu pensei já me sentindo mal com a falta de sensibilidade de minha parte e jurando voltar mais tarde para me redimir. Porém, se resolver isso era tão simples, porque eu ainda me sentia mal? Será por estarmos quase no final do corredor e ainda não termos chegado ao quarto de Adrian?

Será ansiedade? Nervosismo? Medo?

“Todas essas pessoas aqui são vítimas do ataque de ontem?”, eu perguntei para Dimitri na tentativa de me distrair.

“A maioria sim, apesar de alguns já estarem aqui há algum tempo”. Como Dimitri sabe de tanta coisa a respeito do que acontece dentro de St. Vladimir sempre será um mistério. Se bem que não era difícil perceber quais pessoas estavam internadas há mais tempo, já que seus leitos estavam quase transformados em uma espécie de morada permanente, com paredes decoradas com cartas desejando melhoras, camas cobertas por lençóis coloridos e travesseiros confortáveis que certamente não pertenciam à enfermaria. Alguns até trouxeram televisores e vídeo-games para passar o tempo! Era incrível ver a dedicação das pessoas para tornarem aquele ambiente um pouco mais tolerável.

Incrível, mas triste.

Por mais que tentassem disfarçá-la, a tristeza estava em todos os cantos daquele lugar. Será que eu era a única a perceber? Ou a única a sentir que, assim como as visitas, mesmo que arrasadas, sorriam na tentativa de animar quem estava doente, os doentes, para não preocuparem suas visitas com seu estado de saúde, também sorriam? Era um jogo de enganação onde provavelmente as duas partes sabiam que estavam sendo enganadas, mas mesmo assim continuavam simulando uma alegria que não estava lá.  Primeiramente eu achei isso ridículo, afinal de que adianta tapar o sol com a peneira? A dor viria para muitos deles de qualquer jeito, então pra que criar a ilusão de que tudo estava bem? Porém, depois de observar melhor a interação daquelas pessoas, eu entendi que elas também percebiam a tristeza desse lugar, apenas aprenderam que é melhor e dói menos ignorá-la, uma bela atitude em teoria, mas que na prática só funciona depois de se ficar um bom tempo num lugar como esse.

Quando chegamos ao fim do imenso corredor, Dimitri apontou para o próximo quarto diante de nós. Não foi necessário dizer mais nada, pois eu sabia que era o quarto de Adrian. A porta estava aberta, logo tudo que eu precisava fazer era entrar. Mas não fui capaz, pois me deparei com um cenário de doer o coração.

Através da janela de vidro eu vi que Adrian permanecia deitado e de olhos fechados, com apenas uma espécie de lençol cobrindo suas partes íntimas.

Eu estremeci por dentro porque eu sabia o motivo, o mesmo que me fez sair do ar por boas horas quando vi o estado em que ele estava depois de ter sido arremessado contra uma árvore por um Strigoi. O meu choque ao ver Adrian caído no chão naquela maldita noite foi por ele estar parecendo um boneco de plástico que fora exposto a temperaturas elevadas, com algumas partes do corpo deformadas e enrugadas, enquanto outras estavam em carne viva. Havia muito sangue e queimaduras por praticamente todo o corpo, com exceção do rosto, que ele protegeu ao atravessar as chamas afinal, se ele fosse atirar, precisava de sua visão intacta.

Agora que ele estava limpo, era possível analisar melhor sua situação. As queimaduras eram severas, umas mais do que as outras, pois o contato que ele teve com o fogo que Christian mantinha ao redor dos dois foi muito breve, mas o calor era intenso e  foi o suficiente para fazer um belo estrago naquela pele de porcelana de Adrian. Ele parecia tão vulnerável. Mas não havia muito que se fazer, afinal quando o assunto é queimadura não há o que discutir, a pele precisa respirar. Em outras palavras, cobri-lo estava fora de questão para não haver atrito das queimaduras com o tecido, por mais leve e delicado que fosse, evitando assim, qualquer possível desconforto. Sem falar na dor.

Com uma costela fraturada que não podia ser reparada, pois parte dela estava presa no pulmão de Adrian e causando o maior de todos os problemas, até mesmo o simples ato de respirar poderia se tornar infernal se não fosse pela ação dos analgésicos. Quer dizer, isso contando que tais medicamentos ainda tenham efeito sobre Adrian, porque foram tantos anos de álcool e outras drogas para aliviar os efeitos do uso do elemento espírito, que numa dessas ele até já desenvolveu resistência a elas.

Pobre Adrian. Como se não bastasse uma situação delicada de saúde, ele era o único paciente que estava sozinho, sem visitas nem colegas de leito e instalado em um quarto tão simples que chegava a dar pena. A impressão era de que haviam deixado ele de lado, como se não valesse a pena cuidá-lo, pois além da simplicidade, era um quarto de final de corredor, sem vida, sem luz, sem nada além de máquinas traduzindo em sons o funcionamento de seus principais órgãos vitais. Tudo bem que ele estava inconsciente até pouco tempo, mas ainda assim deve ser tão triste acordar e se ver sozinho num ambiente assim! Eu pensei que os médicos teriam a decência de manter alguém com Adrian para lhe fazer companhia, nem que fosse um enfermeiro ou um estagiário, já que ele não podia ter acompanhantes de fora, mas pelo visto não se deram o trabalho. Eles estavam pensando o quê? Adrian não merecia essas acomodações nem tamanha falta de consideração, pois pra começo de história ele era de origem real e já que a sociedade prima tanto pela distinção de classes, então que o tratassem como um rei, não como um indigente, droga! Justo ele, uma pessoa tão alegre e cheia de vida, ficar dentro de um quarto que peca exatamente pela falta dessas duas coisas! Minha vontade era de socar a cara do primeiro médico que aparecesse, o que, para o bem de todos, não aconteceu.

Deixando minha indignação de lado eu criei coragem e passei pela porta, o que foi muito engraçado, pois assim que pus o pé no leito de Adrian, ele esboçou um sorriso antes mesmo de abrir os olhos, como se soubesse que eu havia chegado.

“Você veio”, ele disse visivelmente emocionado.  Ouvir aquilo foi como uma facada no peito, pois só confirmou o quanto ele deveria estar se sentindo abandonado. Sem saber exatamente o que fazer ou dizer, eu apenas fiquei onde estava. “Obrigado, Belikov”, Adrian disse em seguida. Confusa, eu olhei para Dimitri, que apenas fez um sinal com a cabeça e retirou-se, como se tivesse cumprido sua missão. Eu fiquei assistindo Dimitri ir embora, incrédula. Traídor! Desde quando os dois viraram os melhores amigos?

“Você pode chegar mais perto?”, Adrian pediu com jeitinho, percebendo que eu estava no limite. “Eu não posso ver você direito daqui”. Não era de se duvidar, pois dada a gravidade das queimaduras e dos ferimentos internos dele, realizar alguns movimentos como o de erguer a cabeça devia ser complicado.

Atendendo ao pedido dele, eu me aproximei da lateral da cama. Adrian estudou minha expressão por alguns segundos e suspirou, o que deve ter lhe causado algum incomodo, pela expressão que ele fez. “Eu senti sua falta, little dhampir”.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto imediatamente, mas eu não me importei de enxugá-la, pois logo veio outra, outra e mais outra, como se tivessem aberto uma torneira. E eu aprendi que não importa o quanto você já chorou em um dia, sempre haverá mais lágrimas para serem derramadas. Basta você ter um motivo.

“Ei, não precisa chorar!”, ele disse com uma voz suave. “Eu estou bem, Rose, e em breve eu deixarei esse lugar, você vai ver. Por favor, não chora”.

“Por quê?”, eu dei um jeito de perguntar. “Por que você se arriscou daquele jeito, Adrian? De todas as coisas que você já fez aquela definitivamente foi a mais estúpida!”. Ele não pareceu se abalar com minhas palavras.

“Porque quando você parou de lutar, ao ver que Dimitri estava em maus lençóis, eu constatei que se ninguém fizesse nada, quem agiria de forma estúpida seria você”.

“A que preço, Adrian? A que preço todo esse sacrifício?”.

“O preço? Isso não é óbvio, sua bobinha? O preço era a sua felicidade, Rose. Porque se algo acontecesse com Dimitri, sabe o que seria de você? Nada, porque você estava se matando também”. Eu ignorei a última parte porque ele tinha uma parcela de razão.

“Eu pareço feliz agora por acaso?”, eu exclamei, indignada. “Qual é, Adrian, olha para você! Você pensou que eu não me importaria de vê-lo nesse estado? Pelo amor de Deus!”. Eu levei uma das mãos até a testa e fechei os olhos brevemente, tentando me controlar, pois eu não estava sendo nada agradável. “Você não sabe o quanto eu me importo”.

“Desculpa”. A voz embargada de Adrian chamou minha atenção. “Eu sei que não tem sido fácil, mas assim que tudo isso passar, você vai sorrir novamente, Rose, e então você vai lembrar de mim”. Adrian sorriu.

“E quando tudo isso vai passar?”, eu perguntei sem esperar por uma resposta, mas ela veio mesmo assim.

“Como eu lhe disse, em breve. Ou você acha que vai se livrar de mim tão fácil assim?”, ele debochou. Quando eu o fuzilei com o olhar por não ter gostado da brincadeira, ele continuou, voltando a falar sério. “Vai dar tudo certo, Rose. Não esquente a cabeça com isso”. Eu não consegui acreditar totalmente nas palavras de Adrian, mas de alguma forma elas me confortaram e eu relaxei um pouco.

“Por favor, apenas não faça mais nada desse tipo novamente! Você tem idéia do perigo que correu? Céus, Adrian, eu pensei que você…”. Foi difícil continuar a frase, pois colocar uma palavra como morte junto do nome de Adrian ainda parecia muito próximo da realidade.

“Sabe do que eu mais tenho medo?”, Adrian perguntou.

“Do quê?”.

“De você”.

“Droga, Adrian, isso de novo, não!”.

“Quer ouvir os motivos? Eu acho que nunca os expliquei devidamente a você“.

“Adrian, você tem que descansar”, eu tentei desconversar, mas ele não deu bola.

“Eu vejo nosso primeiro encontro como o mito da caixa de Pandora. Eu, Pandora e você a caixa, atiçando minha curiosidade acerca de tudo que lhe diz respeito. Quase como uma maldição. Você tentou acabar com o meu interesse por você dizendo que tinha um namorado, que de alguma forma seu coração já tinha dono, assim como foi alertado para que a mitológica caixa não fosse aberta. E eu, imitando os passos de Pandora, ignorei os avisos e fui movido pela curiosidade de saber o que mais havia dentro de você, minha pequena caixinha”.

“É, mas eu acho que Pandora deve ter se arrependido amargamente de ter aberto a caixa dela”.

“Provavelmente, mas nesse ponto eu acho que dei mais sorte do que Pandora”, Adrian disse com um sorriso maroto, sincero, mas que não escondia o quanto ele se desgastou devido a toda nossa conversa.

“Bobinho”, eu respondi me permitindo sorrir também, encantada com a comparação que ele havia feito. Incrível como certas pessoas não perdem o encanto mesmo em um leito de hospital, não é?

“Agora chega de falar, ok? Você precisa descansar para que possamos levar você até a corte o mais rápido possível, pois talvez você ainda não saiba, mas Lissa está lá pronta para curar você. E nem tente protestar, pois isso é apenas um comunicado”.

“Ou o quê?”.

“Ou você terá que se ver com mulheres furiosas como sua mãe, Lissa, Jill e bem… comigo também”.

“Tudo bem, entendi o que você quis dizer. Eu não posso fazer nada”.

“Na verdade, você pode. Apenas… não sei… fique bem”.

“Eu farei o possível”, ele disse com outro tímido sorriso.

“Enquanto isso eu vou tentar achar algum médico para descobrir quando poderemos tirar você daqui”. Eu já estava na porta quando uma espécie de alarme intermitente começou a soar. Ao olhar para trás, Adrian estava desacordado.

Merda.

Eu acho que nunca corri tão rápido em minha vida como corri pelo corredor da unidade de tratamento intensivo atrás de algum médico ou coisa parecida.

“Socorro!”, eu gritava conforme corria. “Tem algum médico aqui? Eu preciso de um médico!”. Ao chegar na extremidade oposta do corredor, eu ouvi uma movimentação na direção de onde eu estava vindo e me virei a tempo de enxergar um exército de médicos invadir o quarto de Adrian, trancando-se lá com ele.

“Mas que diabos?”, eu perguntei em voz alta.

“O quê?”. Dimitri perguntou atrás de mim, me dando o maior susto. “Você pensou que ele estava desassistido?”.

“Bem, eu não vi ninguém desde que botei os pés aqui. Você queria que eu pensasse o quê?”. Dimitri riu, achando graça da minha lógica.

“A equipe médica de Adrian estava numa sala ao lado, acompanhando tudo através de câmeras. Por isso você não viu ninguém. Adrian queria privacidade para falar com você”. Sem jeito, eu senti minhas bochechas corarem, mas eu estava tão preocupada com Adrian que nem me importei.

“Eu vou até lá”, eu disse. Ou pelo menos era o que ia fazer quando Dimitri me puxou pela roupa e me fez sentar em uma das cadeiras que tinha por ali.

“Nós precisamos conversar”, Dimitri disse. Eu só parei para ouvi-lo quando ele me disse que o assunto era Adrian. Então ele me soltou e sentou de frente para mim. “O coração de Adrian está fraco, Rose. Ele está assim, sem ritmo e instável, desde que foi trazido para cá. Os médicos têm conseguido estabilizá-lo, mas apenas temporariamente. O problema é que cada vez que o funcionamento cardíaco vai a um dos extremos, é um desgaste a mais que o corpo sofre e isso nunca é bom”.

“O que você está me dizendo? Eu estou cansada de ler nas entrelinhas”.

“Eu estou dizendo que talvez os médicos não consigam estabilizar Adrian para a viagem”.

“Você só pode estar brincando comigo”, eu disse rindo de tão nervosa.

“Não, infelizmente ele não está”, alguém falou. Sem que eu tivesse percebido um dos médicos deixou o quarto de Adrian e veio ao nosso encontro. “Ele está bem agora, mas nós tivemos que sedá-lo. Parece que a conversa de vocês dois deixou ele bastante agitado e isso não é bom para ele no momento. Talvez seja melhor que ele não veja você por enquanto”, o engomadinho teve a ousadia de me dizer.

“Com licença, mas quem você pensa que é para ditar o que ele deve ou não fazer?”, eu perguntei me levantando da cadeira para encará-lo de frente. De relance vi que Dimitri atirou as costas contra o encosto da cadeira que sentava, indignado com a minha falta de respeito. Ele parecia não acreditar, balançando a cabeça de um lado para o outro, tanto que nem tentou me impedir.

“Eu sou o médico responsável por manter Adrian vivo até agora, por quê?”, ele respondeu num tom ameaçador, sem intimidar-se com minha aproximação.

“Deixa eu lhe dizer uma coisa. Não fale comigo como se você estivesse me fazendo um favor, seu doutorzinho de meia tigela. Porque mantê-lo vivo não é mais do que sua obrigação”, eu respondi com agressividade. “Além disso, há uma diferença entre manter alguém vivo e salvar a vida dessa alguém, então não banque o herói, doutor, porque você ainda não é”. Eu vi no rosto do jovem médico o impacto das minhas palavras. Ele certamente estava fazendo o possível e impossível para manter Adrian estável, mas não ser capaz de tirá-lo dessa situação de risco estava sendo uma barra para ele também. Pelo visto eu atingi um ponto delicado. Ele ficou em silêncio alguns segundos após baixar sua cabeça, respirou fundo e voltou a me encarar, parecendo pronto para mais um round.

“Vamos recomeçar isso, ta bom?”, ele disse ao oferecer sua mão para ser cumprimentada. “Olá, eu sou o Dr. Emir Olendsky, chefe do setor de cardiologia do instituto médico real e também médico da família Ivashkov há alguns anos e você?”. Filho da mãe!

“Você é um Olendski?”.

“De tudo que eu disse, foi apenas isso que chamou sua atenção?”, ele perguntou parecendo frustrado. Eu o ignorei.

“A médica aqui da enfermaria tem o mesmo sobrenome que o seu. Por acaso ela é…”.

“Sim, sim, ela é minha irmã”. Algo na expressão dele me fez pensar que assim como eu não gostava de ser conhecida por ser a filha de Janine Hathaway, ele não curtia muito ser conhecido como o irmão da renomada Dra. Olendski. A vida às vezes é um saco, não?

“Bem, você tem um sobrenome de respeito, eu tenho que admitir”. Ao dizer isso eu finalmente o cumprimentei, usando todos os meus “títulos” de poder. “Eu sou a guardiã Rosemarie Hathaway, filha de Janine Hathaway e Ibrahim Mazur, melhor amiga de Vasilisa Dragomir e ex-namorada de Adrian Ivashkov, a seu inteiro dispor”. O homem soltou minha mão e ficou pálido feito um papel.

“Você não deveria estar, não sei, talvez morta?”. Pelas barbas de são Nicolau, eu esqueci que somente o pessoal da escola sabia do meu pequeno grande segredo e pelo visto esse médico não havia chegado aqui há muito tempo, senão eu o teria visto antes e, melhor, ele não teria tido essa reação. Que se dane, eu pensei. Essa história um dia precisaria terminar. Até porque eu não pretendo ficar escondida do mundo para sempre. Eu só espero que ele não tenha grandes sentimentos pela ex-rainha Tatiana, pois aos olhos do público eu ainda era a responsável pela morte dela, um equívoco que ainda não havia sido esclarecido para o público.

“Você disse bem, doutor. Eu deveria, mas não estou. Não é ótimo? Aleluia! Agora, chega de falar de mim e vamos voltar ao assunto principal, ok? Adrian. Seja sincero comigo, você disse que não aconselha que ele viaje até a corte, mas caso ele fique aqui, vocês poderão salvá-lo? Pense bem antes de me dar uma resposta, doutor”. Ele ficou me olhando meio confuso, mas no fim ele deixou minha história de lado, graças a Deus.

“Sua amiga não pode vir até aqui?”, ele perguntou depois de muito pensar.

“Não pelos próximos dias, motivo pelo qual queremos levar Adrian até ela”, eu respondi quase perdendo a paciência novamente, pois era óbvio que se fosse tão simples a situação já estaria resolvida.

“Dias? Eu não acho que Adrian tenha todo esse tempo…”. Pelo amor de Deus, isso é coisa que se diga? Minhas pernas chegaram a amolecer ao ouvir aquilo.

“Escuta aqui, Dr. Emir. O senhor ainda não respondeu minha pergunta. Sem a ajuda de milagres e poderes especiais, apenas com a ciência da medicina, é possível salvar Adrian?”, eu perguntei entre os dentes.

“Desculpe, eu não mentirei a você, mas eu receio que não. Ele está fraco demais para a cirurgia que precisa fazer e não está apresentando melhoras. Porém, pelo menos aqui nós poderíamos oferecer a ele medidas de conforto e…”

“E o quê? Assistir ele morrer sem tentar fazer nada? Esse é o seu plano?”, eu gritei enquanto pegava o celular de Dimitri, que ergueu os braços em rendição quando eu meti a mão no bolso dele na busca pelo aparelho, já que o meu era um provisório e estava sem nenhum telefone registrado. Ao encontrá-lo, eu fui direto na letra D, de Daniella Ivashkov e apertei para chamar. “Então por que você não pergunta para a mãe dele o que ela acha disso?”, eu disparei apontando o aparelho para o médico como se fosse uma arma, assim que Daniella atendeu do outro lado da linha.

Colocando a chamada no viva-voz, o médico repetiu para Daniella mais ou menos as mesmas palavras que me foram ditas, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque ele parecia estar falando a verdade e ruim porque essa verdade era que a situação de Adrian não era a das melhores. Daniella ficou em silêncio quase todo o tempo, ouvindo e concordando com tudo que o médico dizia. Por um momento eu achei que ela estava conformada com a situação, mas depois que o médico disse tudo que tinha pontuar, ela se pronunciou.

“Dr. Emir, eu lembro que uma vez eu o procurei por achar que tinha um problema de coração e o senhor me pediu que eu diminuísse os exercícios até que os resultados dos exames saíssem. Eu imagino que senhor lembre como foi difícil eu abrir mão de algo que eu gostava tanto, mesmo que por pouco tempo. Foi difícil, mas eu acabei aceitando. Porém agora nós estamos falando da vida do meu filho, que eu amo mais do que qualquer exercício e talvez mais do que minha própria vida, então não espere que eu tenha a mesma reação”. Então ela disse algo que me fez minha espinha gelar. “Porque se a morte for o destino inevitável do meu garoto, pelo menos que seja depois de você ter se virado do avesso tentando evitar o contrário, fui clara? Enquanto houver uma chance de Adrian sobreviver a isso, mesmo que mínima, é nela que vou me agarrar, doutor, então nem ouse tentar tirá-la de mim, porque não cabe a você decidir”.

“Eu entendo, Sra. Ivashkov, mas existem protocolos e…”.

“Com todo o respeito, Dr. Emir, foda-se você e seus protocolos”, Daniella disse para a surpresa de todos, mas principalmente do médico, que olhava para o telefone com olhos esbugalhados e face corada, não acreditando que tamanha falta de cordialidade pudesse ter vindo de uma pessoa tão elegante como Daniella Ivashkov. “Eu quero meu filho em um avião com destino à corte assim que estiver estável, mesmo que temporariamente! E, Rose?”.

“O-Oi, Sra. Ivash…, q-quer dizer, Daniella. Eu estou aqui”.

“Pelo amor de Deus, leve algum médico de sua confiança no avião, pois eu não quero alguém que tenta me doutrinar com protocolos cuidando do meu filho”.

“Hã… a senhora não vai achar estranho se eu lhe disser que essa pessoa pode ser a irmã de quem a senhora aparentemente acabou de dispensar?”.

“Ela é como ele?”, Daniella perguntou, como se certas coisas pudessem estar no sangue, como incompetência.

“Bom, digamos que ela também consegue ser um pé no saco quando quer, mas eu tenho certeza de uma coisa. Aquela mulher sabe o significado de salvar vidas”.

“Então você tem sua resposta, querida”, Daniella falou, me fazendo sorrir. “Vejo vocês em breve, ok?”. Assim que desligamos, eu não perdi tempo, afinal, tínhamos uma viagem pela frente.

Eu precisava agir rápido e de forma eficiente, por isso eu agarrei o médico pelo colarinho e o prensei contra a parede da forma menos barulhenta possível. “Eu cansei de ser boazinha com você, doutor. Você ouviu as ordens então, me diga, onde eu posso encontrar a sua irmã?”.

~~~~~~~~~~~~~~* * *~~~~~~~~~~~~~~

Pessoal, parece que estamos enfrentando um problema relacionado ao tamanho da página, portanto a partir de agora os capítulos não serão mais colados na íntegra aqui, apenas adicionados na tabela do topo da página, com links diretos para o post de cada um, ok?

Atenciosamente,
Little Crazy Dhampir

63 Comentários leave one →
  1. 10/07/2010 1:30 PM

    ahhhh!!!posta os próximos capítulos por favooooorr…sua fic tá muuuito boa..posta maaais to entrando em desespero e leno fics até last sacrifice sair em dezembro..poooosta!!!brigads

  2. juliana permalink
    10/07/2010 9:46 PM

    sua fic é realmente mutio boa…
    vc descreve a rose super bem! quase como se tivesse criado ela
    quando vai ter novos post aq?
    acho q vc acaba de ganhar mais uma leitora!
    ;*

  3. .:Little.Crazy.Dhampir:. permalink
    10/08/2010 2:03 PM

    Oi pessoal! Obrigada pelos comentários. Fico feliz que estejam gostando da fic! Podem ter certeza de que a emoção está apenas começando! Estou preparando capítulos para cardíacos aqui, podem ter certeza hahahha. Mas respondendo… eu to postando um capítulo por semana, aos domingos. A medida que eu conseguir avançar nos capítulos de repente eu aumento essa frequencia, mas por enquanto ta precisando ser assim ehehehe. É isso ae! Aguardem que domingo o circo começa a pegar fogo! hahahaa. Bjs

  4. San permalink
    10/10/2010 8:36 PM

    Ai, será que não dá para postar 02 capítulos por semana??? Please…

  5. Daniela permalink
    10/14/2010 10:26 AM

    Posta maaaaais😦

  6. San permalink
    10/17/2010 2:53 PM

    Hot, hot, hot… e o Dimitri tem que ficar sabendo desse sonho com o Adrian,
    posta o 8º capítulo na quarta-feira, please…
    Todo domindo e toda quarta.

  7. mary permalink
    10/31/2010 3:15 PM

    Meu Deus, esse capitulo 9 tá muito bom.
    To muito curiosa para saber o desfecho desse capitulo.
    Aguenta coração!

  8. Rose permalink
    11/07/2010 11:58 PM

    Amaaaaaaaaaaaando!!!

  9. 11/14/2010 8:38 PM

    Nossa, eu nunca tinha lido uma fic e estou impressionada… muito legal mesmo!
    Obrigada pro compartilhar sua versão para o último livro da série conosco!
    Beijos!

  10. .:Little.Crazy.Dhampir:. permalink
    11/14/2010 11:16 PM

    Oie Dani! É um prazer compartilhar minha versão da história com vocês! Só pra esclarecer ainda tem mais coisa por vir heim? Todo domingo tem capítulo novo e eu posso dizer que tem mta agua pra rolar! Que eu tenha tempo pra terminar isso antes de dezembro hahahaha
    bjss

  11. 11/16/2010 10:45 AM

    oiiii little, amei o seu fanfic, eu leio muuuito e cara o seu fanfic foi até agora um dos melhores se não o melhor fanfic que eu já li. Adorei tudo os detalhes, a continuação da história, tudo tudo. Só tenho uma coisa a acrescentar, se você quer terminar antes de lançar o original você vai ter que postar os capítulo mais vezes na semana senão não vai dar tempo, e antes deu ler o original eu quero muito terminar de ler o seu fanfic. Muuuito obrigada, e pensa nessa idéia de colocar mais vezes na semana🙂
    Beijoos Little

  12. 11/20/2010 7:48 AM

    Aff, que tortura…rs… só teremos mais um capítulo amanhã (domingo) mesmo?! rsrsrsr

  13. 11/20/2010 1:40 PM

    Obs.: (eu tenho sorte em livros) meu sobrenome é Hathaway mesmo pessoal.
    Bom, eu to louca para ler o proximo capitulo e dizer que tá ótimo, mas mesmo assim, eu amo amo amo muito essa fanfic, é perfeita, muito mesmo, cara Little, você escreve muito bem mesmo, amo a fanfic, e não vejo a hora de saber como a Rose acabara, o Dimitri, Lissa, e etc… eu to muito preocupada com a Rose!! Beijos. Amanhã eu to de volta aquii!!! *-*

  14. .:Little.Crazy.Dhampir:. permalink
    11/20/2010 2:58 PM

    Sim, Dani, só amanhã! hahaha
    Mas o capítulo tá programado pra sair a uma da matina, então se quiser ficar esperando.. fica a vontade! Eu acho que vale a pena.. ele tá bem emocionante! =DD

  15. 11/21/2010 6:01 AM

    Não deu para eu esperar a publicação do capítulo, mas assim que acordei vim correndo aqui! rsrs Estou viciada!
    A “sua” Rose é muito parecida com a da Richelle – parabéns!
    De fato, esse capítulo foi muito emocionante… mas eu esperava que ele fosse maior!! rs
    Um forte abraço e até o próximo domingo!

  16. 11/21/2010 8:15 AM

    Ah, enlouqueci, pessoal! eu presciso de mais, Little! Por favor!! posta mais!!! vou enlouquercer – se já não enlouqueci. ! PLEASE!!!!!!

  17. .:Little.Crazy.Dhampir:. permalink
    11/25/2010 11:05 PM

    AHH TEMOS UMA HATHAWAY ENTRE NÓS!!! =DDD
    Gente que tudo!! hahahahah Eu daria um dedinho pra ter esse sobrenome! Ninguém aqui é Belikov por natureza não? hahahaha Pois agora mais do que precisamos de um!! =D
    Clélia, fico feliz em saber que uma Hathaway aprova a história que estou escrevendo! Obrigada mesmo =)
    O próximo capítulo sairá domingo e eu juro pra vocês, pessoal, que eu só não to escrevendo mesmo quando to dormindo. Eu quero muito terminar essa fic até dia 7 de dezembro. Continuem a rezar por mim e pela minha sanidade hahahah. bjsss

  18. 11/27/2010 6:38 PM

    Ebaa! To louca para saber o resto da historia, amanhã demanhã eu já vou estar aqui para ler! Beijos – a minha unica sorte foi a do sobrenome, na minha vida toda, shauashasuhasasuhasuah
    euri. To louca para saber oque vai acontecer!
    Bjão! (Se eu não tivesse esse sobrenome eu tbm daria um dedinho.)
    euri. Beijos.

  19. Bruna Radmanky permalink
    12/01/2010 1:07 PM

    Menina, esta tua fic é simplesmente magnifica! Parabéns mesmo,comecei a ler hoje e já terminei. Estou louca para saber a decorrência da estoria.

  20. 12/04/2010 9:51 AM

    hey little, ADOREEEEEEIIII sua fic….ta mara mesmo.
    nossa….so aos domingos???? : ( é paia neh?!
    rsrsr mas tdbem
    vim te dar um apoio e gostaria de te pedir um favor
    acabei de criar um blog….http://teamsbooks.blogspot.com/
    sobre livros tbm….pode me ajudar a divulgar???/
    mto obrigada
    adoro SfV…Blood Kisses para vcs!

  21. 12/05/2010 11:11 AM

    Amei o capitulo 15!! e p christian? háháhá!! eu só quero ver oque vai acontecer!! a rose, dentro de um caixão? vivinha da silva e por cima, ainda com Christian comandando o fogo para ela não se queimar. essa eu quero ver.

  22. San permalink
    12/06/2010 8:28 PM

    Alguém já tem last sacrifice? Se tiver me manda san-peres@hotmail.com
    pelo amoe de San Vladimir…
    rsrsrs

  23. .:Little.Crazy.Dhampir:. permalink
    12/06/2010 9:01 PM

    San! vc por aqui! ao menos ta acompanhando a fic?
    pq eu lembro que vc acompanhava a de blood promise =p
    Engraçado como o público que comenta muda de uma fic para a outra.

  24. 12/08/2010 7:46 AM

    AA!! Eu quero ver como a Rose